Terça-feira, 7 de Julho de 2009

LAURO PENTEADO

Humberto Ilha

Desde que fora morar no bairro, os vizinhos comentavam sobre a vida particular dele. Rolavam umas ofensas à meia boca entre Arílio e Anselmo, solteirões e fofoqueiros.
— Esse Lauro não me engana: é um baita maricão.
— Tem o cabelo e as unhas bem cuidadas para um pintor de paredes, mas pode ser que seja apenas um corno manso.
Era impossível não notá-lo em cima daquela bicicleta ornamentada. Além disso, o homem era o mestre do pedal. Tinha destreza tanto para a velocidade, quanto para desfilar. Sabia fazer as manobras de palco de circo. Com a bicicleta parada plantava bananeira e passava por dentro do quadro. Pedalava de costas; depois era a vez de pedalar com as mãos. Andava aos pulos feito um canguru e terminava a apresentação pedalando em uma só roda como um macaco bem treinado.
Tudo ali falava em favor do capricho do proprietário, que era magrinho como o próprio veículo. Jovem puro, mas, diziam de novo, levava chifre da patroa. Pelo jeito de se enturmar ou não sabia de nada ou fingia não saber, porque levando tanto guampaço havia de ter alguma vergonha de aparecer na rua. A esposa tinha ciúme dele com aquele petrecho engalanado. Desejava — dizia — ter a metade da atenção que ele dava à condução. A penteadeira dela tinha menos adornos que a rival bicicleta. Enfeites como flâmulas de time, par de espelhos, dupla sineta, farol com dínamo, pára-lamas, olho de gato, selim estofado, guidão com barbicachos até os joelhos, deixavam todos admirando aquele homem bom que tinha um sonho: possuir uma “lombreta”.
Se ele era observado pelos vizinhos pelos motivos mais invejosos, com a mesma intensidade ele próprio admirava o estafeta da Marinha quando o via pilotando a lambreta da viúva, que era como ele chamava a pátria amada Brasil. O marinheiro era um cearense que estava prestes a ser promovido. Os vizinhos pediam-lhe para dar uma voltinha, mas ele jamais emprestaria a cinzenta. O máximo que permitia era deixar que olhassem de perto o motociclo novinho em folha.
Num final de tarde de verão o estafeta parou para assistir futebol entre os vizinhos. Como era bom goleiro, foi convidado. Não resistiu e se meteu no meio da trave para estancar a goleada. Nisso aparece Laurinho junto à lambreta que tanto amava. Maurício, o marujo, estava tão focado no jogo que não viu o namoro do pintor. Começou tirando um pozinho inexistente no espelho retrovisor. Depois tirou o veículo do descanso para poder sentir seu real peso. Empurrou para frente e depois para trás. Escutou o chacoalhar da gasolina no tanque. Sentou no banco confortável e sentiu a diferença do que é estar no comando de um veículo motorizado. Quem pudesse andar para todos os lugares sem precisar pedalar, se cansar. Então meteu o pé com vontade no pedal de arranque só para sentir o tremor do bicho nos braços. Mas o marinheiro tinha deixado a marcha engatada. Foi como mexer em gaveta de lacraia. A lambreta deu um salto para frente igual um galão de cavalo xucro, assumindo o comando da desgraceira com o pintor assombrado em seu dorso corcoveante.
— Ponto-morto... Ponto-morto — suplicava já de mãos postas o marinheiro.
Mas Lauro não escutava nada e parece ter mirado em cima de Arílio, que nada entendia do que se estava passando porque pouco enxergava sem o par de óculos. Mas com os óculos em cima do nariz sabia cobiçar a mulher do outro. Assim mesmo decidiu pegar a lambreta à unha. A colisão foi tão forte que o arremessou de encontro à patente do seu Gercino, pai do presidente do Figueirense. Depois pareceu que o veículo escolheu o Anselmo para brincar de pegar. O rapaz saiu a toda na frente da lambreta até dar-lhe um drible magnífico feito um toureador. Na manobra escorregou e caiu. Quando se pôs de pé a mula-sem-cabeça já vinha em sua direção. Nem deu tempo de comemorar o olé. O veículo juntou Anselmo pelo suspensório e jogou-o para cima com raiva, parece. Era como se fora um zebu do inferno se vingando do matador. Camoci, a cachorra companheira, cheirou Anselmo caído e atacou a lambreta. Queria morder os pneus do desenfreado veículo. A essa altura Lauro já estava com os olhos fechados como querendo se proteger de cada esbarrão. Mais parecia um anjo montado num porco. E nisso não viu que o estafeta colocou-se na frente querendo parar a moto. A trombada foi mais feia que indigestão de torresmo. Lauro por certo se perguntava por que foi dar forma ao sonho de possuir uma lambretta. Bem que poderia ter ficado alisando sua bicicleta. Assim não se envolveria numa confusão daquelas. Estava pagando o preço por ousar sonhar. Do chão ainda viu o motociclo desgovernado, agarrado à unha pelo marinheiro, indo se estatelar junto à cerca de cedrinho do seu Hélio.
Camoci abandonou a perseguição e meteu-se a ganir numa desabalada correria em direção à casa. Pareceu ter visto algo assombroso. Era o novilho Diamante do seu Mané Fenca todo alucinado. Livre da corda queria espetar as costas do pintor jogado no meio do campinho de futebol. Lauro mais parecia um ferro retorcido. Sabia que um touro de cola para cima era sinal de perigo. Que um bicho daqueles, com a cabeça baixa e armado com aquelas guampas, era para ser respeitado pelo estrago que sabia fazer. Ele na frente e o novilho insano atrás decretou que gritasse desesperado:
— Tira este bicho daqui.
De repente Diamante parou o intento raivento. A mulher de Lauro apareceu agarrada ao rabo do novilho. Deu um jeito e enrolou o braço na cauda do bicho. O animal queria se soltar das mãos dela. Curvava-se todo para guampear quem lhe segurava a cola. Mas ela, hábil e firme, mantinha-se atrás do bicho com movimentos ágeis de um toureador. Naquele momento Lauro só não tomou chifrada porque ela resistiu e não soltou o gracioso rabo, que terminava em vistoso chumaço negro enfeitando o vistoso Diamante.

Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

IRMÃO PERVERSO

Humberto Ilha

Nem bem cumpriu o compromisso e saiu procurando um amigo que o acompanhasse até lá. Como não achou ninguém, o garoto foi sozinho mesmo. A adrenalina queria sair pelo nariz, de tão contente que o menino estava. Compensou ficar durante hora e meia escutando a freira da catequese. Agora estava livre para fazer a vontade do perversinho coração juvenil. A bem julgar — pensava — não era uma perversidade. Era uma malvadez para beneficiar os usuários do transporte coletivo. “Quem mandou os ônibus entrarem em greve?” Isso era o que escutava em casa, que os ônibus entravam em greve e as pessoas pagavam o pato. “Mas hoje eles vão se ver comigo, os ônibus”, quase decretava para si mesmo.

Embrenhou-se mato adentro por um terreno baldio, agarrou umas pedras e ficou escondido na tocaia. Já o céu se desalumiava, mas dali ele avistava o povo dando vaias quando os ônibus passavam. A maioria da frota estava parada e a empresa fazia o que podia com os poucos veículos dirigidos pelos empregados da administração. A intenção era jogar um calhau no pára brisa, causar um estardalhaço e correr. Agora a encrenca era com ele e não com aqueles bundas-moles que só sabiam vaiar. Escondeu-se um pouco mais, quando enxergou o cabo subdelegado. “Não é bom que me veja; com ele a conversa começa com tabefe,” pensou. Da porta da peixaria vinham os gritos ofensivos do Fodoca, um doente mental que repetia o que alguns motoristas parados mandavam que dissesse. Coitado, repetia sorrindo sem saber por que estava sendo aplaudido. Era manso, mas quando atiçado ele se transformava numa frigideira cheia de óleo fervente. O movimento no Bar Dragão mais que dobrou. A muvuca combinava com o gole fora de hora. O dono não dava conta da freguesia. Aquele vidro de ovo cozido no vinagre, encalhado há dois dias, vendeu imediatamente. Cigarros da Souza Cruz já não havia mais para vender; só os ovais Liberty, que faziam muito estrago nos pulmões.

De repente começou uma chuva de tomates nas pessoas, nas casas, nos ônibus e nas placas de anúncio. Foi quando o garoto fez seu único arremesso. Acertou onde queria: o pára-brisa do ônibus vinte e nove. Logo esse, que inspirava tantos a ganhar no bicho. Dois mais nove? Onze; e onze é cavalo, gente. Nem o Fodoca gritava impropérios contra aquele bicho, minto, veículo simpático que servia o bairro. “É, mas hoje ele queria entrar na greve. Mas não entrou. Vim aqui para agir, e já fiz a minha parte. Não tenho culpa se esse nojento atravessou o meu caminho”. O que fez, estava feito. Foi se esgueirando no matagal para depois ir correndo para casa. Quando chegou à rua onde morava viu uma multidão que vinha. Pensou: “foi bom haver saído de lá, o pau já está comendo”. O povo gritava conhecidas palavras de ordem como as que a gente ouve nos campos de futebol. O garoto passou a acompanhar aquela gritaria. Era um bom fingimento para se desvencilhar do delito cometido. Parou para ver melhor, pois vinha alguém ferido. Procurando o mártir popular, branqueou ao ver o próprio irmão com a cabeça ensangüentada. Quis logo saber quem praticara tamanha perversidade.

— Foi um vagabundinho que apedrejou o pára-brisa do ônibus vinte e nove.

Sábado, 16 de Maio de 2009

JOVINA

Humberto Ilha

Era preferível haver-me negado conhecer aquele quadro negro de paixões andando à solta na vida daquela criatura. Mulher vigorosa, ela parecia uma terneira distribuindo guampaços para unhar a vida. Ora chifrando um, ora escornando outro, mas sabia capitular diante da bondade das pessoas.

Concedendo-me deambular no limite do que se passa na cabeça dos outros, ouso abrir a mufla da vida de pessoas como Jovina que desde novinha nunca possuiu algo. Cabocla, pouco menos que bugra, há muito trabalhava como sempre fizeram os irmãos e os pais: para os que possuíam, mas ela nem queria nada. Os que moravam bem tinham casa e família. Família, cismava, não queria mais que isso.

Vestir, dar de comer, dar banho, de comer de novo. Enquanto isso, os olhos fechados, via a família e os filhos; só dois ela via. Sem nomes ainda, mas eram os meninos dela. E novamente fechava os olhos para vê-los chamá-la de mãe.

E, no esvair do tempo, assim passavam os dias da moça; dias não, anos. Anos que escorregavam no ralo da pia da cozinha; na pia do tanque de roupa suja, nos pratos por lavar, na comida que sobrava para guardar, no tanto de crianças que não acabava nunca para Jô sonhar com as delas. Não se importava com as roupas usadas que recebia de bom grado da patroa.
— Você — diziam — é como se fosse da família.
Também não se importava de almoçar depois, de não ser levada junto nos passeios, de dormir num quartinho improvisado perto da cozinha e de nunca ter tido uma festinha de aniversário; como as pessoas normais. Só sentia doer a alma à noite, no quarto que lhe acolhia os pensamentos mais íntimos e mais absurdos. E perdida em pensamentos adormecia e sonhava em ter algo também. Ousava, em sonhos recorrentes, ter uma família para si. Não era dona de nada. Só de um sorriso lindo. Ah, o corpo rijo e bonito também era dela. Era? Era. Então resolveu que tinha direito de fazer dele o uso que achasse melhor.

Desde adolescente sabia o quanto era desejada. Sabia mais, que havia falta de carne fresca nos becos escuros. Mas, enveredar-se por esse caminho? Sim, por que não? A lógica da jovem era indecorosa, tanto que, quando censurada, retrucava sem remorso:
—A vida é assim... Ponto!
Rodar bolsa no cais do porto era-lhe fácil. Quase natural, a julgar pelo tratamento que recebia dos que dela se aproximavam. Vinha-lhe do lado escuro da alma esse projeto que foi se ampliando. Não demorou nada e apareceu-lhe vasta freguesia. Reclamando-lhe uma chance, a moça identificava Antenor, o pardavasco mais atento e sedutor dos arredores; um mestre em se travestir de posseiro do corpo das desatentas. Era o mais veemente quando reclamava o direito que julgava possuir sobre o corpinho da moça. Jô sabia que discutir com aquele homem era inútil. Uma porque ele, já morrendo de amores por ela, não escutava ninguém. Outra porque ela, também já vivendo de amores por ele, não se dava ouvidos às próprias palavras. O caso dos dois era um desses difíceis de administrar. Pudera! Um casado e uma vendida. Um clássico do folclore mundial. Quando ela reclamava presença e segurança, ele desconversava.
— Foge comigo Antenor?
Ele respondia com a cabeça que sim, mas em seguida fazia uma figa como a desfazer-se da promessa. Fugir com ela? Nem pensar! Dias depois voltava cheio de confiança no próprio taco. Também, ela jamais trepidava em aceitar os convites daquele estivador que tinha irretocável argumento para manter tudo como estava. Mas não era só isso; tinha uma pegada que as mulheres adoravam. Por certo Antenor não merecia a confiança nele depositada pela moça, que tinha clara idéia da esperteza dele. Contudo, deixava sobrevir-lhe as artimanhas dele porque ela mesma não se entendia. Ficar com um sujeito comprometido, quando tantos havia que a quisessem. Isso não lhe parecia certo, mas também não lhe parecia errado. Admitia, internamente, estar em dúvida. Sofria vendo-se estática, como uma boneca de louça, diante do céu e do inferno. Dividida, considerava corretas ambas as alternativas. Não sabia o que fazer. Perdida na mata escura, ela negava-se a caminhar naquele terreno desconhecido. Sobressaltava-lhe o temor, a covardia e a fraqueza. Na visão de todos, ali se desenhava, com firmeza, a luta entre a razão e a paixão. Por certo havia ali uma promiscuidade entre a ficção e a realidade. Mas era nessa hora que ela mais tinha noção dela mesma. Quando estava com Antenor, tudo era mais simples e ela experimentava o céu. Mas, se ele tirava o time, ela mergulhava de cabeça no caldeirão de enxofre. Ferida de morte por paixão inexprimível, há tempos Jovina escolhera estar no paraíso, desse no que desse. Queria o Noca também para si. Não podia viver sem a presença daquele homem, que lhe dava sustança à alma de mulher calejada no pior. Ao buscar o prazer próprio, Jô revelava-se uma mulher moderna, mesmo com vinte anos por fazer. Ia à luta sem remorsos. Entretanto, em matéria de moralidade ela era uma vergonha. Ela e o Antenor, que era casado e vivia bem com a patroa. Ele era outro que não entendia o que com ele se passava. Amava a esposa, mas não podia ver rabo de saia. Dava um duro fora do comum para não ficar devendo no armazém. E só. Ao resto, tudo se lhe permitia: jogo pesado, farra, bebida e mulheres... Aos dois, de nada adiantavam as advertências que lhes davam os amigos. Eram refratários, parece, ao aprendizado pelo viés dos bons conselhos. Que passasse o tempo, e um dia ambos seriam redimidos pelas dores que, por certo, as conseqüências lhes trariam. Vale dizer, seriam resgatados pela aflição, pregados na cruz. Aliás, por menos não é que a alegoria cristã seja tão eloqüente.

Depois de dormir duas semanas entre as pilhas de madeiras no trapiche, Jovina foi morar no porão da casa de dona Nina, uma gorducha mulher que não admitia aquela vida para a moça. A nova amiga era também uma pessoa daquelas que tinham coisas. Casada com um marinheiro, vivia meses a fio só com os três filhos. Ia fazer de Jovina uma companhia. Nas primeiras semanas, deu-lhe cama e comida. Depois a jovem começou a se virar. Com o dinheirinho que arrumava adquiria coisas também. Ou melhor, coisinhas. Uma cama patente, um armário, um rádio, um fogareiro a querosene, louças, talheres e até um espelho decorado. Nina nunca perguntou o que a outra fazia para cavar a sua vidinha. Até o dia em que, à noite, Jovina começou a chorar desconsoladamente. Soubera que estava grávida. Agora tudo se esclarecia, mas a amiga lhe deu amparo e compreensão mais do que nunca. A mãe de Nina, parteira açoriana que achava solução para tudo, sugeriu que a jovem haveria de ter um homem para ganhar amparo definitivo. Para ela e para a criança que iria nascer.

Quando o navio Pernambuco voltou, Jovina ficou novamente com um velho freguês, o Demerval. Explicou que estava grávida dele. O velho, como ela o chamava carinhosamente, era um senhor grisalho, calmo, charmoso, mansinho, pele clara, olhos azuis, casado e do Rio de Janeiro. Não era lá um galo de raça, mas servia. O homem não se esquivou da paternidade. Pelas contas que fez, bem podia ser o pai. Mais velho que ela quarenta e dois anos, ficou louco de feliz. Já um sexagenário, comemorava, ainda dava no couro. Jô deu à luz uma graça de menino. Demerval solicitou que ela parasse de se virar no cais. Em compensação, todo mês mandaria dinheiro para ela se manter e à criança. Pediu mais, que não saísse do porão arrumadinho da casa da amiga. Que lá ficasse até que a proprietária não mais o permitisse. O velhinho aparecia ali uma vez por ano. Mas quando vinha ficava um mês inteiro. Passeavam, iam ao cinema, ao centro da cidade, à feira, ao armazém. Ela fazia dele um rei, a notar pelo sorriso residente no rosto daquele marujo castigado pelo sol em mar aberto. Não devia ser feliz com a primeira-dama, a julgar pela mágoa transparecida nas entrelinhas de sua conversa. Amava aquela menina, de verdade. E Jovina tinha o sonho realizado, uma cria de si.

Embora curtisse muito a presença do velho e não mais precisasse se virar para se manter, seu corpo voraz de desejo esganiçava ardente naquele porão solitário. Demerval se revelara sossegado demais para o incêndio que era ela. Tinha sonhos recorrentes com Antenor. Via-se nos braços do mulato até quando ia lavar as fraldas do bebê. Sua indigência amorosa punha-lhe um braseiro no peito. Parece que o sacana do Noca tinha-lhe colocado mandinga. Tanto era o tormento, que Jovina deixou de sorrir. E logo o sorriso, seu mais forte atributo físico. Viu-se ante a necessidade de ceder. Só foi encher-se de luz novamente quando não mais suportou a pressão e deixou que se lhe alcançasse a tentação insana. Caiu novamente nos braços de Antenor. De lembrar que quando leopardos acasalam, a intensidade ecoa na floresta. Contente, advinha-lhe a certeza de merecer a felicidade com aquele homem proibido, mas nem tanto. Não era isso o que pensava a esposa traída, picada pela muriçoca do ciúme. Sabia de tudo e rogava praga nas costas da rival. O marido lhe era infiel porque “a vagabunda não respeitava a família de ninguém”. E logo Jovina, que tanto almejava uma.
— Se essa piranha fosse decente, esbravejava a atraiçoada, meu lar teria uma chance. Homens traem porque algumas rameiras facilitam o achegamento.

Jô deitou e rolou com Noca até faltar-lhe o incômodo mensal. Analfabeta, pediu que Nina escrevesse uma carta para o velho. Estava grávida dele novamente. A amiga do peito relutou em fazê-lo, pois não gostava de trapaça.
— A mentira, dizia, é cria do rabudo.
Ainda assim, a carta foi e, de volta, chegou um telegrama informando que seguiria mais dinheiro para os gastos que ela haveria de fazer com o enxovalzinho, o berço e a farmácia.
As doloridas contrações do parto vieram numa noite chuvosa. Já mulher feita, tinha uma rusticidade tal que ela mesma fora buscar a parteira. Anna, tinha acabado de chegar de um morro próximo, aonde tinha encaminhado outra parturiente para o procedimento na manhã seguinte. Pediu um tempinho para engolir alguma coisa e matar a fome. Em seguida voltou a pegar a bolsa com os instrumentos de parto e seguiu para o porão de Jovina. Nina esperava com grande aflição as duas mulheres que enfrentavam perigo no meio da noite. Já havia preparado duas bacias com água quente e separado os cueiros de flanela para enrolar o bebê ou o que viesse daquela barriga clandestina. Não esperava sair dali boa coisa. Em seguida, a parteira fez um exame interno para medir a dilatação do colo uterino e decretou que o nascimento era para acontecer naquele momento. Anna estranhou não ouvir Jovina gemer em momento algum. Nem durante o trajeto e nem após a chegada em casa. Então, perguntou-lhe se estava sentindo dor. Jô respondeu que sim. Olhando mais atentamente, Anna percebeu que os lábios da mulher sangravam. Tamanha a dor que Jovina devia estar sentindo. Deu-lhe, a parteira, um valor extra, pois poucas de tanta fibra haviam passado por suas mãos. A experiente mulher tratou logo de encaminhar os trabalhos, não sem antes pedir proteção celestial:
— Nossa Senhora da Guia, orou de olhos fechados, ide a Deus e trazei socorro a essa mulher. E depois guiai minhas mãos para serem instrumentos do vosso zeloso querer. Amém.
Fez um gesto com as mãos calçadas em luvas, como a expô-las à vista da santa. Jovina acompanhou a prece, mas desejou que a Cabocla Jurema ali também se fizesse presente, pois outra era a fé que professava. Em vinte minutos nasceu mais um menino, perfeitinho, como no sonho. A parteira ficou espantada diante daquele mulatinho chorão. Não podia ser filho do Demerval. Jô percebeu que algo havia saído errado, pediu para ver a criança e também ficou passada. Olhou fixamente nos olhos da parteira e balbuciou algo como “Putz”.
Quando Jovina se recompôs a resposta foi automática:
- É do Noca, dona Anna.
- Juízo, rapariga. É do Demerval e não se fala mais nisso, decretou a mulher.
Em seguida ao nascimento, a velha senhora isolou e cortou o cordão umbilical a uns três centímetros do ventre do bebê, para depois colocá-lo no seio da mãe. Por último, realizou as manobras de expulsão da placenta, das membranas fetais e procedeu a revisão do trajeto do parto. Tudo estava bem.
— Nina, disse à filha, faça uma canja de galinha para ela e cuida-lhe o resguardo. Virei todos os dias até cair o umbiguinho.

E agora? O que dizer ao velho? Anna disse a ela que a lambança já estava feita e que o jeito era deixar o tempo passar. Tinha sido infiel e disso jamais se livraria. O que havia feito ficaria para sempre guardado na escuridão e esperando por ela, Jovina.

Demerval nunca mais apareceu ali. Uns diziam que tinha se aposentado. Outros que havia falecido. Pode ser, mas é quase certo que ele havia feito uma conta e não conseguia fechá-la. Nem ele e nem Antenor que, volátil, também sumiu. O que restou de Jovina desceu ladeira a baixo e sem freios.

Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

PARA SER ALGO QUE PRESTE

Humberto Ilha
Antônio ficava surpreso quando percebia o entusiasmo na voz do senhor Arno ao se referir à própria esposa. Olhava-o com respeito e, mesmo sem conhecê-la, era capaz de jurar que a alma da senhora Hertha alimentava-se de algo invisível, mas intuído como sublime e superior. Quase adivinhava as atitudes nobres que lhe norteavam a convivência com as pessoas. O marido afirmava ser ela uma pessoa metódica, de tocar violino diariamente. Entretanto, há um bom tempo vinha sentindo que o instrumento estava diferente. Tratava-se de um Guarnieri del Gesù que lho doara o pai há mais de oitenta e dois anos.
— Senhor Antônio, minha esposa achou por bem trocar as cordas deste violino porque estão produzindo leve desafinação. Pede ainda que as troque por cordas de titânio, que são mais próprias.

O luthier examinou o instrumento e percebeu que as cordas estavam em bom estado, pedindo que o homem viesse buscá-lo depois de amanhã. Deduziu que a senhora estava ficando sem força nos dedos já cansados para pressionar as cordas. Ao invés de trocá-las apenas desbastou um pouco a base do ponticello, onde a cordoalha se apoiava. Fez uma marca secreta para identificação futura, experimentou e colocou-o de volta na caixa; som perfeito.

No depois de amanhã marcado o homem foi buscar o violino. Conversando, o artesão ficou sabendo que o freguês lutara na Divisão Blindada de Rommel e que disso se orgulhava. Antônio mencionou um cliente que também lutara na mesma unidade: um tal Zé Kist; Zehb Kist, corrigiu o ancião. “Mora aqui, mas faz anos que não o vejo”. Como era perto do meio dia pediu licença para ir embora.
— Quanto lhe devo pelo serviço, senhor Antônio?
— Não vou fazer preço, pois nem troquei as cordas. Somente abaixei um pouquinho o cavalete para que sua esposa toque com menos esforço.
Então o homem gratificou-o com uma nota de cinqüenta.
— Muito obrigado, Senhor Antônio; o senhor é um homem honesto.
— Honestidade é obrigação, seu Krueger.

Passado um tempo, o alemão voltou com outro incomum Guarnieri para dar jeito na afinação.
— Senhor Antônio, minha esposa desconfia que este também tenha o mesmo problema daquele outro. O senhor pode verificar isso?

Pedindo-lhe que voltasse depois de amanhã, o artesão procedeu da mesma forma e nada quis cobrar, quando solicitado a fazer preço no trabalho realizado. O que recebera da primeira vez estava bem pago. Mas o homem gratificou-o com outra nota de cinqüenta.

Depois de quase um ano o alemão voltou com um dos violinos da esposa. Toninho percebeu ser o da marca feita no cavalete. Mas com um travo de desconfiança notou o homem esmaecido, triste, barbado, magro e com o colarinho puído e sujo por dentro.
— Bom dia seu Krueger, o que houve com o senhor? Nunca mais apareceu...
— Senhor Antônio, minha amada esposa faleceu.
— Oh, meu amigo... Que coisa triste...
— Ela fez a viagem e me deixou — disse com um fio de voz —. Este era o violino dela, que também pertenceu ao pai e ao avô. É um instrumento especial, pois somente uma vez no mês ela o usava para executar uma peça em louvor a Deus Todo Poderoso. É um costume ancestral que me fez prometer continuar. Contudo, não conheço quem mereça possuí-lo. Como o senhor conhece muitos violinistas e demonstrou ser um homem honesto, venho lhe pedir o favor de doá-lo a alguém que assuma o compromisso de minha amada esposa.
— Ora senhor Krueger, como farei para ajudá-lo? Não tenho idéia de quem possa ser digno de possuir um instrumento tão raro e valioso como este e ainda cumprir a tradição de sua família — disse, querendo se livrar do encargo.
— Vou deixá-lo com o senhor, pois tenho pouco tempo de vida.
— Por que diz isso? Está doente?
— Com noventa e dois anos tenho alguma saúde, mas estou deprimido e não quero mais viver sem minha amada companheira. Estou deixando de me alimentar e somente tomando água. Dessa forma aos poucos irei morrendo.

O artesão pensou ligeiro e telefonou para alguém que certamente iria encaminhar o instrumento para boas mãos: o amigo Zehb Kist, que não poderia ir naquele momento porque estava sem alguém para levá-lo. Antônio insistiu, explicando a gravidade da situação do outro. Isso fez que viesse imediatamente num táxi. Quando o outro alemão entrou viu o desanimado viúvo sentado numa cadeira de vime com a cabeça enterrada nos ombros. Antes de se falarem ambos assumiram algo parecido como uma posição militar. O que chegara saudou primeiro.
— Heil! Zehb Kist, Divisão Panzer, Tobruk.
— Heil! Arno Krueger, Divisão Panzer, Argel.
Como se houvessem combinado, Zehb Kist começou a declamar:
— Einigkeit und Recht und Freiheit Für das deutsche Vaterland!
[1]
Sorrindo, o desamparado responde:
— Danach lasst uns alle streben. Brüderlich mit Herz und Hand!
[2]
Zehb Kist insiste declamando:
— Einigkeit und Recht und Freiheit / Sind des Glückes Unterpfand.
[3]
E finalizando, os dois:
—Blüh’im Glanze dieses Glückes, Blühe, deutsches Vaterland / Blüh'im Glanze dieses Glückes, Blühe, deutsches Vaterland.
[4]

Ambos se abraçaram emocionados e iniciaram longo diálogo em alemão. O viúvo foi se acalmando e ganhando brilho na alma. Zeb comprometeu-se a encaminhar o violino para uma pessoa conhecida que daria conta da promessa. Depois chamou um táxi para o irmão de armas.

Antônio quis então saber a respeito do outro; como ficaria, já que decidira não mais viver.
— Fique descansado, homem. Ele garantiu não mais seguir em seu intento. Prometi visitá-lo toda semana.
— Fico feliz com isso, mas o que vocês conversaram logo depois que se apresentaram?
— Na guerra era costume um elevar o moral do outro recitando mutuamente os versos do hino nacional. Com isso ficávamos cheios de esperança e vida para prosseguir na luta. Assim é também na vida, somente seremos algo que preste se vivermos como irmãos.

[1] Unidade e justiça e liberdade para a pátria alemã!
[2] Por tudo isso lutemos irmanados de corações e mãos!
[3] Unidade e justiça e liberdade são a garantia de felicidade.
[4] Floresça esta bênção de felicidade, floresça, ó pátria alemã. / Floresça esta bênção de felicidade, floresça, ó pátria alemã.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

EMBAÇOU

Humberto Ilha

Houve um tempo em que, mesmo já entrado na idade da razão, Adalberto Carijó não escutava tanta sacanagem como escuta hoje em dia. Era um tempo em que as falcatruas existiam, mas parece que não eram tão divulgadas. Será que existiam mesmo? Roubo, boicote, trapaça, mentira, infidelidade, tudo isso existia, mas parece que sempre tinha um por quê. Havia um mínimo de coerência.

Hoje em dia as coisas ruins acontecem sem motivo para tanto. As pessoas que transgridem não pesam mais as conseqüências dos atos que praticam. Ganhar dinheiro é o que determina as ações das pessoas. Mas ganhar somente não basta, tem que ganhar enganando; na esperteza.

Outro dia vi uma entrevista do Maradona dizendo da paixão que o povo argentino tem pelo futebol. “El fútbol es algo que está en la sangre de los argentinos”, gabava-se ele como se fossem os inventores do esporte. “El mejor del fútbol es la trampa, el logro”, quer dizer: a tramóia. É de aceitar o drible refinado durante o jogo, o gol sem querer, o gol contra, mas a tramóia como aquele gol de mão na Copa de 1986 contra a Inglaterra, isso não e não. Fosse decente o atleta, ele próprio, invalidaria o gol marcado ilicitamente. Depois veio dizer que não foi a mão dele e sim a de Deus. E ainda se gaba da imundice que produziu. Ficou muito longe do zagueiro maranhense João Evangelista Belfort Duarte, que num jogo colocou a mão na bola dentro da área e o juiz não vira. Ele próprio se acusou e chamou a atenção do juiz para o pênalti que cometera. Com esse nem precisava de árbitro. Deve estar batendo bola no céu. Para Maradona o melhor juiz é o rabudo. Vai te catar, nojento.

Pois Carijó comprou quatro barrinhas de cereal para ir comendo aos poucos durante a semana. Na terceira ele notou algo se mexendo dentro do papel e viu uma larva. Quase deu um ataque de nervos. Já havia notado algo estranho na anterior. Quando em casa abriu a quarta larva, digo quarta barra, o que encontrou? Ela, a larva. Mexendo-se toda alegre, como a rir dele. Verificou o prazo de validade e: peguei você, desgraçado — disse com o dedo no nariz do fabricante — comi três bichos desses, mas isso vai me render boa indenização por danos morais. Aqui está minha aposentadoria. De inocente consumidor passou a juiz perverso. Ficou maldoso como petiço de guri. Já procurou o telefone do órgão de defesa do consumidor.
— Não precisa haver dolo, seu Carijó. Cabe a indenização, sim. Venha à repartição que encaminharemos o processo.
Um ano de aporrinhação nas audiências de conciliação. Adalberto não queria saber de acordo e ainda ameaçava divulgar a notícia na TV. Quando o fabricante pedia de mãos postas para ele não fazer isso, aí mesmo é que Carijó se abagualava e redobrava a ameaça em voz alta. Achava-se o todo-poderoso diante do gigante domesticado. Ia faturar alto em cima do dragão fumegante. O fabricante fingiu-se abaladiço até que achou um erro formal no processo. Para não mais discutir causa ganha propôs uma indecência ao reclamante. Uma barrinha grátis de cereal por dia durante um ano. Aquela indenizaçãozinha mais pareceu um guascaço no lombo do homem que sonhava ganhar algum sem muito esforço. Se quisesse mais que fosse reclamar com o papa. Carijó acabou fazendo acordo, mas depois de um mês não podia mais ver aquelas barrinhas, quanto mais comê-las. O fabricante melhorou o processo de fabricação e Carijó, desconfio, aprendeu que não precisava exagerar na dose quando alguém ficasse de joelhos pedindo clemência.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

AULA DE CATEQUESE

Humberto Ilha


— Quem responde?
Todos levantaram o dedinho, pois era pergunta fácil. O Bispo de Roma tinha acabado de assumir. A primeira tendência de cada criança era de levantar o dedo para responder. Ainda mais depois de lerem no semblante do sacerdote a resposta, eis que não desgrudava os olhos de uma branquíssima fotografia papal. O menino de bonezinho assustou-se como se levasse uma chicotada.
— Você, que está com esse boné ridículo dentro da igreja.
O garoto examinou bem a foto, decifrou dois sopros baixos e:
— Bento Dezesseis, padre Osvaldo.
— Bento Dezesseis...

O velho padre sentiu ruminar por dentro um alvoroço raivento, porque a resposta estava correta. Queria abalroar os petulantes, isto é, aqueles que ousavam ensaiar uma resposta correta. Não havia chance das crianças sobreviverem, pois o religioso era do tempo de Pio Doze.
— E antes do Santo Padre Bento Dezesseis, quem era o Papa?

Agora poucos dedinhos no ar. O encolerizado ministro mirou na menina que às vezes falava um pouco alto.
— Você, menininha assanhada que matraqueia o tempo todo.
A garota sabia responder, mas não tirava o olho dele em busca de uma dica que lhe reforçasse a convicção. Olhou em redor e somente vislumbrou a imagem do Senhor, que muito bem sabia não ter sido um papa e sim o Deus-Todo-Poderoso quando andou entre nós. Terminadas as observações, virou-se para o sacerdote e disse com segurança de gente grande:
—João Paulo Segundo.

“Calma Osvaldo, esses fedelhos não vão agüentar por muito tempo. Credo-em-cruz, mais parece a voz do pé-cascudo no meu ouvido. Vá com calma, Osvaldão. Calma? Se pudessem eles me papavam. Vivem contando piadinhas de padres por trás de mim. Agora é a minha vez; se fosse de minha escolha eu não dava a primeira eucaristia para nenhum desses capetinhas que agora posam de anjinhos”.
— E antes dele? Quem foi o Papa antes de João Paulo Segundo?

Nesse momento o homem deixou escapar um sorriso perigoso somente notado pela catequista que o acompanhava há anos. “Este homem tem um espírito voraz que vive a se propor enigmas e sobre eles acampa para folhear-lhes a natureza mais escondida”. A mulher temeu pela próxima criança a ser alvejada pelo rancor do religioso e escreveu algo num pedaço de papel e entregou para a menina que estava ao lado. Imediatamente o papelzinho circulou entre as mãozinhas ansiosas. O padre demorou demais e apontou para uma aluna que já havia lido o recado:
— João Paulo Primeiro.

“Já vai acabar o oxigênio. Degusta a falsa vitória deles, vai”.
— E antes dele? Quem foi o Papa antes de João Paulo Primeiro?
Sua voz troou mais lentamente que das vezes anteriores. Antegozando o triunfo, o pároco começou a rir da carinha das crianças. É que parecia ter visto subir enorme sinal de interrogação no meio da igreja. Mas o papelzinho já circulava veloz entre a garotada, saído que fora das mãos da dissidente professora. E com o dedo gordinho de unhas bem cuidadas a revolutear no ar:

— Você... Você não... Deixa ver se adivinho quem sabe.
Ele queria era adivinhar quem não sabia, porque a descompostura já estava preparada. Somente um levantou o dedinho, o irmão do coroinha:
— Padre Osvaldo...
— Errou. Eu nunca fui Papa na minha vida.
— Desculpe, mas eu quero ir ao banheiro.
O padre mediu o garoto do pé-a-ponta e condicionou:
— Só se acertar a resposta.
— Paulo Sexto; fui — respondeu o arrojado pirralho já na porta.

“Vai fundo agora, Osvaldão. Deus que me perdoe, mas agora me deu até vontade de fazer xixi”. Era a excitação, o jorro de adrenalina diante do abalroamento final. Depois da resposta do pirralho um grande alívio descansou o espírito da catequista, que tudo fazia para não ver estilhaçados os sonhos de primeira comunhão daquelas crianças. Mas o homem queria mais encrenca com os pequenos.
— E o arcebispo de Florianópolis, quem é?

O papelzinho já circulava antes mesmo de haver largado a pergunta. Um estranhamento atingiu a espinha de cada criança. A professora agarrou-se na cruz de Nosso Senhor e esperou os cravos.
— Ivinho, responda.
— Padre Osvaldo, o papelzinho aqui está errado, porque o nome do arcebispo é Dom Murilo.

Domingo, 8 de Março de 2009

O FOSSO

Humberto Ilha

Não gosto, mas sou obrigado a abrir o miolo para ver o que tem lá dentro desse pesadelo desde a infância. Estou dentro da cabeça do aldeão na paisagem gelada do norte. No sonho vejo tudo pelos olhos do espadilha de adultos, crianças, doentes e idosos em lugar ainda guardado de roubo, abuso e miséria. Ali o cansaço e o sono desdormido que há para dormir. Nele, no maldito sonho, a ausência de somente um dia de paz no lugar do remorso que grita no oco da cabeça. Nele o medo da surpresa da barbárie que sempre espreita os mansos. Mas um dia, ó morte que te fiz? Muito, por certo. Chega o dia do despojo de vida e fim. A rinha desconforme pela vida! O ajuste pelas gentes concorde o costume. De um lado a arena que sangra de outro a rendição para o resguardo da aldeia. Lutar e perder trará a sobrevivência escrava. Render fará a aldeia aliada do algoz. Se assim, não sobrevivo ao acordo.

No sonho a beira do fosso de seis metros de fundo com doze cães treinados para lacerar. Doze delitos cometidos pelo espadilha contra o seu próprio povo: traição, roubo, mentira, preguiça, covardia, vício, inveja, orgulho, ódio, ciúme, homicídio e vingança.

Um sabre curto e morrer como valente, mesmo sem merecer. Os meus não choram, porque os escravizei. O inimigo não sorri, quer a justiça para a aldeia. Diante do fim estou entrando em choque. O remorso chega tarde, e à má hora, pedindo a clemência covarde. Agora é pular no fosso e morrer. Encaro o medo com um grito de pavor. Alguém me sacuda. Porque se alguém me acordar, juro, vou trilhar o caminho estreito da compaixão. Vou viver meus valores de berço.

Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

O REGENTE

(Texto ficcional inspirado no conto “O Artista do Trapézio”, de Franz Kafka)
Humberto Ilha
Um capricho nem sempre é encarado de boa vontade pelas pessoas. Contudo, quando advindo de um artista, parece que todos se empenham em compreender. Daí que, o mestre de quem falo, ordenara sua vida de tal maneira a permanecer dia e noite no coro da igreja enquanto durasse o tempo para o qual fora contratado para reger o coral. Assim fazia por dois principais motivos: um mandamento profissional de perfeição e um capricho que se tornava cruel. Não arredava pé dali de jeito nenhum. Todas as suas necessidades eram voluntariamente satisfeitas por intermédio da coordenação do presidente e da diretoria do coral. Os cantores se revezavam para que nada faltasse ao regente.

Esse modo de viver não criava dificuldades especiais entre ele e as pessoas. Mas o regente era caprichoso e cobrava-se muito quanto ao próprio desempenho. Sem embargo, não deixava por menos o desempenho dos voluntários sob seu comando despótico. Era um tirano, e ninguém lhe contava isso, pois, se numa hora era cruel e duro, em outras era amável e doce. Alguns lhe lembravam a semelhança de personalidade que tinha com Mozart. E, quando isso chegava aos ouvidos dele, arrancava-se-lhe um sorriso bonito de explícita vaidade.

Ele era assim, mas os padres e os diretores do coral o perdoavam, porque se tratava de um artista extraordinário. Além disso, era sabido que vivia assim para estar sempre em forma artística. Ele também gostava de estar sempre lá em cima do coro. Até o banho ele tomava numa banheira trazida para cima. A água servida era carregada para baixo em baldes pelos cantores numa hora de nenhuma atividade na igreja. Contudo, suas relações humanas estavam muito limitadas. Alguma vez ele se permitia conversar com alguém que não fosse do coral; que subisse um colega regente para conversarem longamente. Às vezes, papeava com algum operário que consertava o teto do templo, trocando com ele algumas palavras. Ou com a zeladora da igreja, que fazia a limpeza diariamente. Com os conhecidos conversava de longe lhes dirigindo algumas palavras gritadas, mas respeitosas, se bem que pouco compreensíveis. A não ser por essas ocasiões, estava sempre solitário.

Muitas vezes algum fiel elevava o olhar procurando ver quem tão maravilhosamente executava peças sacras. Mas nada encontrava a não ser o som do órgão, que enchia toda a igreja. Tampouco o regente sabia que estava sendo observado por alguém que lhe admirava a arte. Nos ensaios, dava verdadeiro show de impaciência com os cantores menos dotados de alguma virtude vocal. Chamava qualquer um à atenção, homem ou mulher, jovem ou idoso. Se o infeliz resmungasse alguma coisa, ele então migrava para a humilhação. A cólera sobressaía-lhe do peito para esquecer que era um cristão praticante. Usava termos, como voz-de-galinha, miado-de-gato, gata-no-cio, voz-de-caipira ou voz-de-machorra, para caprichar na degradação. Vangloriava-se de ter um ouvido superior ao de todos ali. Melhor, que era dotado de ouvido absoluto. Não restava nenhuma virtude para ninguém. As que o coral possuía estavam com ele, regente. Quando o coral se reunia sem a presença dele, seus membros consideravam-se um bando de quadrúpedes.

Com tanto ódio pelos erros dos cantores, ele foi fazendo, sem o perceber, que o coral minguasse. Quase ninguém se submetia a cantar com ele. A não ser alguns que o toleravam porque era um ser humano. Alguns lhe davam conselhos amigáveis para melhorar o tratamento com as pessoas. Contudo, ele não aceitava isso de quem quer que fosse. Proclamava que preferia ficar com poucos e bons a muitos e ruins. Os coralistas queriam tirá-lo da regência, pois não agüentavam mais tanto rebaixamento moral. Mas, como dito, os padres gostavam muito dele. As missas eram belíssimas com ele na direção musical. Tinha ele grande prestígio junto aos dirigentes da igreja, pois conhecia como ninguém o rito de todas as cerimônias.

Tanto fez o regente que, um dia, após determinar não admitir a ausência de quem quer que fosse a uma missa, os cantores — todos — se combinaram e deixaram-no sozinho na hora do santo ofício. Viu-se sozinho no coro. Não se deu por vencido. Tocou todas as peças sacras com raro brilho. Naquele dia não houve cantores. Somente o órgão e a voz do povo. Ficou bonito e diferente. Mas o regente não aturou aquela desfeita. Chamou o pároco e contou-lhe o sucedido. O padre quis relativizar a atitude dos coralistas, eis que tinha inúmeras queixas contra o regente. Mas o maestro não aceitou. Disse que a partir daquele dia queria receber honorários dobrados. O padre ponderou não ser possível, que a Igreja vivia da entrega voluntária de cada fiel. Mas o dirigente argumentou que os coralistas deviam fazer um mutirão para arrumar o dinheiro que estava pedindo. Então o padre pediu para ele se lembrar de que estava dentro de uma igreja. Foi aí que o regente se deu conta do embaraço em que os coralistas o deixaram. Estava realmente sozinho. Acabava de levar uma admoestação do próprio padre, seu admirador. Então caiu num choro convulsivo de quase meia hora. O bondoso padre também reconheceu que havia exagerado na dose e lhe pediu desculpas. O regente o desculpou, mas não parava de chorar. Estava inconsolável. Foram chamados mais dois padres que não deram jeito na situação. Então o pároco chamou a mãe do regente. Quando ela chegou, ele se atirou em seus braços. Ela o abraçou carinhosamente e sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Estreitou seu rosto infantil molhado entre suas ternas mãos, fechou os olhos como num sofrimento sincero e balbuciou: “Meu filho, vamos embora. Quando você fizer doze anos, prometo trazê-lo de volta”.

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

OMBRO, ARMAS!

Humberto Ilha

Quando cheguei à Praça XV o militar já estava lá, vendo tudo de cima. Com certeza madrugara para conseguir o melhor lugar. No carnaval também estivera naquele local bizarro. Sabe-se lá como se pusera tão no alto. Desconfio que deva ter sido com a ajuda do colega ao lado. Sozinho é que não deve ter sido. De se imaginar como desceria dali. Talvez fizesse isso numa hora sem alguém por perto. Quadro insólito deveria ser ele descendo daquela peanha de pedra. Por mais que se colocasse elegante deixaria transparecer estampa imprópria na hora de colocar um pé aqui e uma mão ali para se manter longe de desabar. O temor de perder a compostura com certeza trai-lo-ia diante das réstias iluminantes do sol da manhã. O gosto de estar no alto, no andar de cima, parece próprio dos que nada tem a esconder. Dos que nunca fracassaram no desempenho da capacidade geral para a cooperação social.

Quanto a mim, olhar o desfile do alto era um desejo recorrente. Muitos subiam em árvores, se apinhavam nas sacadas, se acomodavam em cima de muros e edifícios. O Dia da Independência era o verdadeiro teatro da cidade. A cada ano se extraía nova linguagem social. Uma poesia ainda não falada. Uma compreensão ainda não assimilada, não aprendida, não expressada em anos anteriores. A cidade se abraçava para o rito do Sete de Setembro que só sabe ser majestoso quando acontece nas ruas.
Cedo, muitas vezes eu chegava para o desfile conseguindo bons lugares. Ficava ali, na corda, aguardando durante horas, olhando as pessoas chegando, conversando, se acomodando. Contudo, à medida que o momento se aproximava, era tragado pela multidão e acabava vendo pouco. A me contentar, apenas o som intenso do evento. De se ver, somente as pernas dos que passavam. Conhecia prazer olhar o trabalho dos narradores, repórteres e auxiliares das emissoras de rádio. Ocupados em transmitir e preparar equipamentos, davam ares de que não tinham brecha na agenda para perceberem a muvuca no entorno. Iam e vinham, como bichinhos, não enxergando ninguém. Ainda que numa estudada aparência, era a elite: Antunes Severo, Acir Cabral, Souza Miranda, Eugênio Luiz e José Valério. Um time e tanto, mesmo com a ausência do Roberto Alves, que ainda era pintinho na Rádio Anita. Naquele dia não estavam todos ali. Mas reconheci o João Ari, único trajando vistosa calça faroeste com a bainha dobrada para fora, auxiliado nos cabos de transmissão por ninguém menos que Cici, que muitos chamavam de Gambá e até de Oraci. Há esse tempo, eu havia concebido um poleiro para ser encaixado no alto de um poste e de lá tudo ver melhor. Um trambolho que nunca ousei construir. Mais-a-mais, temia que a polícia me arrancasse de lá a tapas. Era uma época em que o toque dos adultos ainda me era dolorido; tanto dentro quanto fora de casa.

Conferindo o retelho das nuvens, vi o oficial no melhor ponto. Num estranhamento o flagrei com a atenção voltada para o mar da baía sul, lado oposto ao da alameda por onde haveriam de passar as tropas. Homem grande, mais que o habitual, trajava gala, o que lhe dava um ar de distinção. Dos que eu já conhecera era o mais nobre, mas também o mais acobreado e o mais sofrido dos oficiais de toda a brigada. Pontes de Miranda decerto com ele aprendera que “sofrer não significava desviver, mas conhecer e sentir a vida.” Devia tê-la conhecido profundamente; a vida.

Revestido de luvas, dragonas, espada e quepe, trazia à mão vistosa luneta, que bem merecia ser insígnia de comando. Provável que para melhor fazer o reconhecimento do terreno, coisa bem a gosto de comandantes. Quase certo que divagava em recordações de campanha enquanto aguardava o passo grave dos irmãos de armas. Olhar no longe, parecia sobrepor ao mar seu vulto de fantasia para encaixar no ouvido, que é por onde quase tudo começa, o vento-sul com notícias de algum lugar conhecido. Dava mostras de que procurava localizar a ilha dos Ratos, a julgar pela posição do rosto virado para aquele rumo; mal sabia que agora já designada "do Carvão". Pareceu-me querendo entender o ambiente estranho daquela praça se sobrepondo ao miramar e ao mercado público com as pessoas, os escravos e as cozinheiras atrás de carne, farinha e pescado. Pensativo, nem se mexeu quando me agarrei à bainha de sua espada para erguer-me um pouco acima das pessoas. Fiz como já houvera feito antes, agarrando-me à generosidade dos bons para subir os lanços que precisava subir para aprender, ser útil e ver melhor. Fiquei bem colocado. Não tanto quanto o militar que, repito, supunha importante a julgar pela farda e o porte. No rebrilho do sol da manhã, parecia ter o austero rosto ornado por um bronzeado meio sorriso. Pudera, com a visão que descortinava não era de admirar. Fiquei encarapitado naquele granito que, de tão polido, parecia ter sido esculpido para ele. Bem me lembro que fiquei sem me mexer, sequer aplaudir, para não chamar-lhe a atenção. A despeito de muito me impressionarem as manobras das tropas terrestres, da ordem unida, dos veículos, das encilhas dos animais, das bandeiras históricas, dos galhardetes das pequenas frações e das ordens bem troadas dos comandantes, dele nada escutei que lhe traísse emoção. Nem mesmo quando o locutor oficial nomeava os heróis do passado e suas batalhas: Luis Alves de Lima, Antônio Sampaio, Fernando Machado, Felisberto Caldeira de Andrada, Farroupilha, Curuzu, Passo da Pátria, Tuiuti, Potreiro Pires, Linha Sauce, Curupaiti e Humaitá.

No chão, o som de fundo dos coturnos marcava os compassos dos dobrados que a banda executava. Tudo isso me deixava encrespado, do pé à ponta. Era aflição e alegria, tudo misturado. Meu coração parecia haver recebido, lá no oco, uma pastilha que permanecia fervilhando concedendo-me grande prazer. Ali, naquela atmosfera de patriotismo íntimo eu me consagrei a viver meu quinhão social em favor do Brasil pelo viés do Exército. E então fiz a escolha primordial da minha vida. Fiquei alucinado, palavra de honra.

Ocorreu-me perguntar ao respeitável oficial sobre as evoluções militares que iam acontecendo. Ele dava-me respostas convincentes. Num português impecável, lembro, disse que o mais importante trabalho daqueles homens ficava invisível no coração deles. Não havia dúvida de que estava diante de um patriota, longe de um daqueles cujo poder somente serve para mandar soltar e prender. Vi tratar-se de um cavalheiro, a julgar pela paciência no responder. Arrisquei saber de onde viera.
— De Nossa Senhora do Desterro, mas ainda jovem me apartei dos encantos da capital para cursar a Escola Militar da Corte. Trabalhei duro, guardei a fé no Brasil, lutei batalhas impossíveis no sul até a derradeira de sessenta e oito, que me levou o corpo que ora longe inverna.

Tudo falava sem que me olhasse. Não experimentei estranhamento, pois que tudo perguntava sem nele também colocar meus olhos. Com atributos tão singulares, seria alguém conhecido? Ainda uma vez gentil, saciou minha angústia interrogativa:
— Sou o sargento Kawahala, fotógrafo. O da estátua é o coronel Fernando Machado de Souza, herói morto na Batalha do Itororó contra Solano.

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

LITERATURA (Deu no DC)

Duas feras das letras na Barca dos Livros
A Barca dos Livros de hoje recebe dois grandes nomes das letras catarinense. Sérgio da Costa Ramos e Flávio José Cardozo, autores de centenas de livros, vão falar sobre a crônica, o estilo de texto escrito de forma livre e pessoal, que aborda assuntos da atualidade nos mais variados temas como política, artes, esportes, cotidiano, entre outros. A edição A Arte de Escrever Crônicas tem entrada franca e começa às 20h, na Rua Senador Ivo D’Aquino, 103 (em frente aos trapiches), na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.Os dois escritores lançaram juntos recentemente a obra Duas Violas Arteiras. Ambos dividiram páginas espelhadas por cerca de um ano no Diário Catarinense, jornal no qual Sérgio possui uma coluna diária. Eles aproveitaram a “vizinhança” para trocar alguns provocações amigáveis, crônicas travessas e molecagens que agora estão reunidas neste livro. Esse duelo literário poderá ser conferido também neste bate-papo gostoso de dois escritores que transformam um dia simples numa bela, engraçada, inteligente e interessante crônica. É a maneira que eles encontraram de ver a vida com outros olhos.Informações pelo fone (48) 3879-3208.
Fonte: Diário Catarinense edição de 23 de janeiro de 2009.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

MAU PRESSÁGIO

Humberto Ilha
Era urgente ter uma conversa séria com a mãe. Arãozinho não pretendia estudar para ser padre. E também não queria mais ser coroinha da Igreja. Era-lhe insuportável ver tantos coleguinhas debocharem e cuspirem na sua cruz. Um dia enfrentou a velha de homem para homem: ia acabar com o calvário da sua amargurada vida. Nem bem havia começado a argumentar quando ela o interrompeu para repetir a ladainha de sempre: que o rapaz fora consagrado à vida sacerdotal desde quando resgatado do mar após dia inteiro de busca e suplício da família.
— Eu nem me lembro disso.
— Não blasfema, insolente.
— Quem mandou a senhora fazer uma promessa ridícula dessas.
Foi pior ter aberto o diálogo com a professora. Dela escutou que era possuidor de méritos proféticos; e de fato era mesmo. O menino nem sabia como essas coisas aconteciam. O entendimento daquilo, nem o mais letrado desenredava. Era complicado explicar como o garoto adivinhava o futuro e encontrava coisas escondidas. Eram fenômenos que aconteciam quando menos esperava. Vinham do nada e a qualquer momento. De repente sentia mudança no ambiente ou um desconforto passageiro. Podia contar, algo iria acontecer. A mãe, que não perdia um lance da vida do rapaz, tinha lá suas razões para alicerçar a fé inabalável na carreira religiosa do filho.
— Se é para viver com esses dons — dizia —, então que seja com as vestes de um sacerdote.

A maior preocupação de Arãozinho, naqueles dias, eram os colegas. Muito difícil ficar escutando um xingatório do tipo: "carola". Ainda que revidasse baixinho: “excomungado”, escutava em seguida: "papa hóstia". Então replicava com maior ofensa: “tua mãe não é séria”. Era terrível escutar: "sacristão", para arrematar com ódio: "teu pai é um corno". Só podia responder às provocações da matilha de forma muito tímida.

Um dia, Corpus Christi, estando perfilado para acompanhar a procissão carregando um incensório improvisado, notou a presença da cachorrada antegozando a teatral passagem pela frente deles. "Isso não vai prestar" — cismou pessimista; — "ninguém merece tanto enxofre". Olhou para o sacerdote que estava pálido. Era inverno, mas o homem suava no rosto. "Que lhe teria acontecido?" Pensou em pedir-lhe ajuda, mas parecia que o padre tinha visto fantasma. Ocorreu-lhe que o religioso devia ter muita fé para estar ali tão doente assim. Diante de tamanha pressão, decidiu abandonar o cortejo mentindo.
— Padre, tenho de ir à patente agora.
— Nada de banheiro. Se fosse um desmaio eu aceitaria, mas titica de jeito nenhum.
E o bondoso homem rompeu a marcha sem dar chance de reação ao menino. Problema maior era o dele, padre. De manhãzinha constatara que haviam roubado diversos utensílios sacros da igreja. Nem havia dado tempo de registrar queixa na delegacia de polícia. Isso ficaria para depois. Agora, o importante e mais urgente era dar conta da cerimônia.

Foi só Arãozinho passar pelos meninos e começou a escutar os elogios. E o pior, a corja vinha acompanhando a cerimônia pertinho dele, todos no gargarejo da primeira fila. Cabeça baixa, trazia o ar compungido de quem estava diante do próprio Deus. Tinha que dar essa impressão para a mãe que a tudo acompanhava. Quem primeiro pisava no tapete de flores era o inefável Corpo de Deus através dos pés do sacerdote, que ali era simples assistente ritualístico — conforme pregava. Esse ambiente de encantamento fascinava o garoto. Contudo seus coleguinhas estavam longe de entenderem tal situação no mesmo grau. Achava que as pessoas não se permitiam ofuscar pela presença de Deus. Por isso os coleguinhas não respeitavam o papel que ele estava exercendo naquele momento. Diante disso não se achava com suficiente vocação para a vida religiosa, pois tinha vontade de esganar um por um.

Quando o acompanhamento chegou defronte ao armazém Casemiro Rosa parou para uma estação ritualística. O incenso fumegava além do combinado. O sacerdote fazia sinais desesperados para o pequeno ajudante abaixar o volume do fumo. O garoto não sabia manusear aquele turíbulo todo amassado e velho. Quanto menos fumaça o padre pedia, mais o braseiro consumia o pó do incenso. Arãozinho resolveu abafar o turíbulo fumegante com a própria batina na ânsia de atender a ordem do apavorado religioso. Foi pior, não suportando o calor da brasa entre as mãos juvenis, acabou por liberar o medonho fumacê. O padre quase chorava de raiva. O menino tentou balançar com velocidade a peça repositória das essências aromáticas. Até resolvia um pouco, mas quando parava o movimento, por cansaço, o fumo era ainda maior. Ocorreu-lhe uma idéia que, no improviso, poderia funcionar. Começou a fazer círculos com o incensório como os de uma roda gigante. Fez um ar de riso, porque funcionou bem. Era-lhe menos cansativo, eficiente e divertido. Mas o revés da sorte mandou-lhe recado: a peça ritual, que em muito se parecia com uma chaleira de chimarrão, desprendeu-se da correntinha e foi cair com grande estrondo em cima do armazém. Dois quilos de puro ferro fumegante. Havia fiéis que, do final do cortejo, juravam ter tido uma visão de arrebatamento espiritual, tamanha a esteira de fumaça, ruído e brilho que produziu o lançamento daquele meteoro esotérico. Sem ação diante daquela visão quase profética, alguns se ajoelharam contritos e esperaram pelo pior. Era coisa de Deus ou do diabo? Isso todos iriam ver em seguida.

O impacto fez um rombo no telhado e um vulcão ficou ativo dentro do sótão do velho prédio. O buraco fumegava semelhante chaminé e dele saiu um homem fumarento com um saco cheio de coisas às costas tilintando desordenadamente. Correria na procissão; "desçam o homem do telhado". Quem era, quem não era? E o turíbulo, como fica? Logo depois, e graças à polícia, o equipamento litúrgico já estava incorporado ao cortejo, mais amarrotado e com o pito já apagado.

Arãozinho, contudo, não estava mais ali. O sermão ia ser grande. Então começou a arrumar as roupas na mochila para ir para a casa da avó na Terra Fraca. Não deu tempo. Porta adentro entrou a mãe, que foi perguntando:
— Arão, como fizeste aquilo?
— Aquilo o quê?
— Incrível, hás de ser mesmo um padre. Quem, senão um iluminado, iria adivinhar que o ladrão da igreja estava escondido no sótão do armazém?
— Oh não! Por que me persegues, encosto?

Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

SAI DESSA!

Humberto Ilha
Não posso deixar de falar nas coisas que ouço. Algumas, de tão cabeludas, me deixam confuso e sem ação para rebater as declarações de descrença que sou obrigado a ouvir. O que vou relatar aconteceu na subida da Serra. Zé Amaro adoecia grave e não batia a caçoleta. Naquele vai-não-vai há um mês, a teimosia em permanecer vivo era desaprovação geral. Há tempo andava com aquele ar de quem morre em breve, mas morrer mesmo que é bom ele não morria. Orgulhoso empedernido que a todos contrariava e aborrecia, fincava pé nas convicções inarredáveis e dali não se movia. Além disso, era metido a valentão; mas isso era só de boca. Coitado, talvez quisesse viver mais um pouco além do pouco. Porque a vida, mesmo longa, é muito curta. Homem de muitos pecados e pouca água benta, maltratava dona Alfreda e ainda vivia de caçoada com as outras. Além de avô amargo era um atleta dos abismos da vida. Assim fazia para lá ficar enquanto concebia planos inconfessáveis. Havia descoberto que devia praticar mais a beira do abismo. Ousar mais, ir lá onde o medo tritura a coragem. Sem freqüentar o limite, sem esgarçar a dor, não conheceria a substância de uma vida insolente diante do medo. Para, quando aquela hora chegar, caminhar de olhos fechados até o precipício que o tragará. Porque a morte é a morte e a quem a terra entulhar, nunca mais o largará.
Com os anos a patroa havia acumulado muitas contrariedades advindas dele. Agora, diante da morte do marido, lembrava da brigalhada que ele aprontara por conta de um zelo em vida. Ela havia comprado dois terrenos no cemitério. Um para ele e outro para ela. O agora moribundo não concordara ser enterrado num só lote, se um dia — claro — largasse a casca. Os que ficassem haveriam de sepultá-lo sozinho e no meio das duas vagas que ela comprara. Tinha mal-morrer e mal-dormir. Quantas noites ele se atravessara na cama deixando-a de fora? Nos finais de semana era certo acontecer. Mamava misturado de conhaque, vinho e funcho para depois ficar entregue aos urubus. Ela que não deixava, embora dele colhesse estranha gratidão: "Vá dormir no quartinho, nega". Para não levar adiante o rolo, ia concordando. Fosse ela encarregada de enterrá-lo o serviço seria feito como planejado, um no ladinho do outro. Se contrário, que ele fizesse como quisesse, pois já estava morta mesmo. Não queria se ocupar do furdunço antes da hora. Prática, Alfreda alinhava os ouvidos no vento e nada mais entrava ali que não quisesse. Antevendo o velho esticar o pernil já dava mostras de sentir os percalços da viuvez. Quanto desejou isso a ele, o luto. Quanto desejou morrer antes do companheiro; pelo menos ia descansar. Mas parece que a vez era do teimoso. Ele é que ia para a sombra.
Diante da prolonga, a torcida pressionava e bradava dolorosas nênias em silêncio: "esse velho que não morre; basta desgraçado; vai em paz, estrume". Em verdade, desde que adoecera e ficara grave, não mais se ouvia em casa os rugidos de luta que sabia produzir. Não se escutava mais os gritos ferozes de ameaças e nem seus queixumes tristes. Muito menos mais se ouvia o estalar do ameaçador relho de couro cru no cano da bota preta. Até um fantasma vestido de mortalha roxa deixou de aparecer na sala. Daí que seu Régis, um barbeiro-farmacêutico, sugeriu se lhe desse boa colher de graspa. "Mas isso só com a ordem de dona Alfreda" — que estava ocupada na cozinha. Chamada, fez o que tinha de fazer: trancou o nariz do marido e forçou o líquido descer goela abaixo. A dose fora excessiva, disseram depois. O homem branqueou, fixou os olhos na esposa, careteou um pouco e defuntou. Era o que faltava para o desafogo do entorno doméstico, que bem não era uma família e sim um ajuntamento, tamanho o desprezo pelo extinto, agora sem mais proveito. Quanto alívio lhes trouxera aquela unção tão incomum. Cochichavam que o derradeiro trago dera-lhe o descanso da sua amotinada alma.
Haviam de tomar conta do morto. Ninguém melhor que o compadre. "Chama o cabo Dourado" — um corneteiro do quartel e cúmplice das boas farras do finado. Quase um profissional do luto, aos que partiam se oferecia a dar banho, vestir o terno, amarrar o queixo bem amarrado, tamponar tudo, deitar na essa, juntar as mãos, atar os pés, acender as duas tochas, encomendar o corpo, ler trecho próprio da bíblia, providenciar a certidão, combinar o enterro e executar Silêncio junto à cova. Sensível, não conseguia tocar a música sem que lhe escorresse sentidas lágrimas pelo rosto. Era raro fazer, mas, considerando o renome do falecido, finalizava o concerto com o terceiro movimento da Marcha Fúnebre de Chopin. Ali ele se perdia nos caminhos da arte incompreendida. Alguns achavam aquilo luminoso, mas a maioria não gostava e ia dando o fora diante do agouro saído daquela trombeta do anjo vingador. Tudo isso o velho cabo fazia como se procurador do além. "No meu fraco pensar" — dizia — "um sepultamento é um ato comunitário para recomendar a alma a receber a graça divina. Para harmonizar — pela mediação da cabocla Jurema — o ambiente de dor que o finado deixa. Para consolar a família a receber os desejos de leve luto. Um velório seguido de sepultamento" — ensinava — "é desafio que dura o dia inteiro". Concluía: "enterrar com dignidade um e consolar os parentes que um dia também irão, pois disso ninguém escapa". Havia um cunhado metido ali que resmungava muito; fazia tempo que não aparecia. Naquele dia apareceu com um crucifixo acorrentado no pescoço, o agourento, para recomendar que do morto nada mais se falasse. "O que ele fez, está feito; a conferência dele agora é com Aquele-lá-de-cima; e tem que enterrar logo o corpo antes que comece a feder".
A vizinhança começou a chegar e dona Alfreda botou de lado o desânimo para providenciar assistência aos amigos e parentes que vinham de lugares distantes para prestar tributos ao finado. Café preto, rosca de polvilho, pão de casa, geléia e licor de butiá. Tão rápido preparou a mesa que se desconfiava que havia preparado tudo antes do marido morrer. Vez em quando algum parente vinha beijar a testa do branco defunto. A reza do terço não parou até a meia-noite, quando a maioria foi dormir.
Dia amanheceu, galaria cantando há muito, e a tampa do caixão já ameaçadora encostada na parede da sala. Chegaram mais pessoas e mais tumulto. Mas o corneteiro botava ordem em tudo. Conhecia o ritual mais que ninguém. Marcado para as onze horas, resolveu que o sepultamento havia de ser antecipado, pois o ribombo de trovoada vindo dos lados do Morro Grande deixava todos assustados. Trovão vindo daquelas bandas era certeza de muita água. Com sorte daria tempo para o procedimento. "Enterro debaixo de chuva era uma coisa desventurada" — dizia.
O cortejo seguia apressado com o caixão carregado por seis homens. Dois mais traziam os cavaletes de descanso. Mas havia uma ponte no meio do caminho. No meio do caminho havia uma ponte que dava susto nas pessoas. A bem dizer não era sequer um pontilhão e sim uma pinguela improvisada, uma estiva. Quando chegaram ali já chovia um bocado. Tudo liso, o chão, as alças da urna, a ponte, os sapatos. A segurar a caixa mortuária, somente dois homens iam transpor a carga: um na cabeça e outro nos pés. Um peso enorme daqueles tinha que ser para dois dos bons; acostumados a fazer força.
E dê-lhe chuva e mais chuva. O riacho enchia rápido. Um dos que seguravam a urna — Mané Caetano, que também atendia por Graxaim — usava sandálias de dedos e se equilibrava andando de costas em cima da pinguela. Ninguém vai de retro calçando sandálias sem que arrume confusão. É no que dá: perdeu o calçado, parou para enfiar o pé e não mais se reachou. O da outra ponta — um tal de Quiça — queria andar e empurrar. Daí que o de costas corrupiou no tronco liso e levou todos para dentro do bueiro. A caixa escura bateu forte no passadiço e caiu na enxurrada. O defunto foi de borco para o lado oposto. Efeito dominó, um foi se agarrando no outro e todos para dentro do rio. Não foram poucos os esbarrões, cabeçadas, gritos e encontrões. Eunice, moça com nome a zelar, caiu focinhada na lama aparecendo-lhe a calcinha de saca branca que a mãe lhe fizera. Recompôs-se rápido, mas deu para ver a logomarca: Farinha de Trigo Aymoré, Marca Registrada. Isso e mais a estampa de um indomável silvícola com uma pena atravessada no nariz. Posteriormente, quando ela aparecia nas domingueiras, como zombaria, os rapazes passavam o dedo indicador entre o nariz e o bigode lembrando o adorno indígena. Não suportou; de tão humilhada foi morar na capital. Isso ela não merecia, pois que era mulher de valor, com grande capacidade de suportar situações-limite, com paixão de viver. Provou-o ao longo de toda sua honrada vida. Era dessas pintadas com tintas fortes.
Salva esse, puxa aquele, empurra pra cima o outro, retira o defunto. "Onde está o morto?" A torrente levou. Os homens no rio de transbordo a mergulhar, a procurar o corpo. Duvidoso de crer, mas o falecido conseguiu ficar engalhado por um braço na margem. Fosse pelos acompanhantes, Zé Amaro se perderia naquela inundação. Parece que seu instinto de preservação ainda estava bem vivo. E com isso acabou salvando a cerimônia. Aparece novamente o cabo Dourado, deita o homem no ataúde e prega a tampa com uns pregos enormes ruminando: "Fica-te aí, encrenqueiro". Virando-se para o coveiro: "toca a sepultar de uma vez, porque este negado não está cooperando".
Anos depois a esposa é que se foi. Então começaram a preparar outra cova ao lado da sepultura do marido. Dourado era homem acostumado com os assombros daqui e do além, mas naquele dia por pouco ele também não foi dançar nas nuvens. Com os olhos fixos dentro do buraco, mastigando incerteza, viu que a carcaça de Zé Amaro estava atravessada no terreno ocupando duas vagas, bem do jeito como queria. Ruminou com meio sorriso: "Velho teimoso!"

Sábado, 3 de Janeiro de 2009

SANTA ANA

Humberto Ilha
Viera do sul e lá deixara a família, até que arranjasse local de morar. Longe da patroa, começou a procurar sarna. Não devia; esposas que amam e se mantêm decentes deviam merecer blindagem contra traição; e ainda por cima, dois filhos de encanto. Tinha tudo o que um homem queria para ser feliz. Mas parece que isso não lhe bastava, o faminto. Queria, sabe-se lá por que, dar a mão ao capeta e caminhar de olhos fechados até a beira do buraco que, impiedoso, tragá-lo-ia. Sabia disso, mas ia chafurdar na lama assim mesmo, o excomungado.

Na hora de sair ficava arrebitando o bigode já grisalho diante do espelho. Touceira tão vasta que passara da corpulência permitida pelo regulamento militar, em formato e dimensão. Tanto zelo vinha-lhe da convicção de um finado reúno que não dispensara tratamento menor ao conjunto barba e bigode, até ganhar fama de sedutor nos salões nobres da nova República que acabara de proclamar. No cofiar de ornamento tão perfumado vinha-lhe ainda a certeza de que amealhara mais alegria que dor de cabeça.

Há dias elegera um destino certo de sedução: o cinema. Minto: a moça do cinema. Depois de muito subir, descer, espreitar, rondar e pesar cravou a mira no único cinema da cidade. Fizera toda essa aproximação como um franco atirador em missão. Nisso era competente: mandar bala nos outros. Tanto que ensinava os companheiros recrutas. Mas nunca dizia que era para atirar nas pessoas; não, era para atirar no alvo. Decerto era para se embromar, pois jamais estivera numa situação real de confronto armado. Isso lhe passava pela cabeça, mas muito de longe. Enquanto o inimigo não aparecia, ele queria rosetar. E ninguém melhor que a moça das balas, que era quem queria abater. Mas ela já estava de sobreaviso, porque apesar de mulher nova não precisava que lhe ensinassem uma coisa dessas. Nem adiantava ele vir com aquela tapeação sobre seus filmes preferidos que ela já lhe percebera as dissimuladas intenções. "Então não me respeita, diacho? Não se enxerga?"

O marido, dono dela e do cinema, também sacara tudo. A tentativa de encanto para cima da moça era encorajada por algo nebuloso na cabeça de Santa Ana. Será que era porque o marido tinha um bigode como o dele? "Se ele usa é porque ela gosta", cogitava. Talvez fosse apenas a atração crescente que tinha por ela, que encurralada, quase não podia negar-lhe o assédio. Talvez fosse pela delicadeza do marido que, dono de um estabelecimento público, quase tinha obrigação de tratá-lo amistosamente. Era certo que Santa Ana percebera algo no ar que o encorajava a prosseguir com a sedução. E para ganhar a esposa, conjuminou, tinha que partir para cima do marido, um senhor de idade em vista dela, tão moça ainda. Tinha de conquistar primeiro o velho. Deu então jeito de encontrá-lo no mercado, na feira, no banco e no bar; ganhou um amigo.

Numa noite de pouca gente nas ruas Santa Ana estava mais adulterino do que o rabudo. Quando a sessão começou, ele levantou-se e foi comprar chicletes. Planejou pagar com dinheiro grande e provocar enguiço no troco. Ela devolveu e disse para ele pagar outra hora. E no pegar de volta, segurou e beijou-lhe carinhosamente a mão. O roçar do bigode na mão da mulher foi fatal. Olhou fundo nos olhos de Santa Ana para dizer: "Adoro homens de bigode, sabia?" Com um sorriso de quem acabara de inventar o amor, Santa Ana disse que ia acabar de ver o filme; ia executar a segunda parte do plano.

Final da sessão, pessoal saindo, Santa Ana ficou por último. Veio o proprietário:
— Vamos embora?

Ajudou a ferrolhar a porta e passar trancas nas janelas, num agrado de má intenção. Deu certo, o homem começou puxar conversa e falar do frio. Ela cochichou algo e o outro convidou Santa Ana para tomar algo quente em casa; uma sopa, um aperitivo.

O apartamento bem organizado, mas ela pediu que não reparasse na bagunça. Ficaram os dois na sala enquanto ela sumia lá para dentro. Já estavam no segundo amarulla quando ela passou de roupão branco sorrindo. O homem convidou para assistir um pouco de televisão. Quando ele entrou ficou encantado com tanto conforto que havia no dormitório do casal; até perfumado o quarto era. Ela deitada em baixo das cobertas de olho nas Olimpíadas. Foi um rebuliço na cabeça de Santa Ana.

— Senta aí — mandando-o sentar na cama ao lado da esposa.
O velho acomodou-se ali fingindo atenção na TV; ela no meio. Antes, ele tirou os sapatos e enfiou-se nos cobertores. Santa Ana olhou para ela, que não tirava os olhos da transmissão. Olhou para o outro, que o mandou se cobrir porque o frio era de amargar. Então Santa Ana deslocou-se direto para o céu.

A moça não tirava os olhos das Olimpíadas. Roupão jogado, cabelo revolto, pegada firme, regata suada e ela torcendo na final dos cem metros nado livre. O velho de olho grudado na prova, mas nada via do que se passava na televisão; história dele! Desconfiança e medo, pistola na mão por baixo do travesseiro e ela finalmente solta o fôlego trancado para medalhar o recordista.

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

O BOM SAMARITANO

Humberto Ilha
Passava das nove da noite, quando Thumé Cruz saiu do escritório. Esperava o ônibus quando ouviu um gemido. Demorou a achar o homem na vala. Puxou o coitado enquanto os carros passavam, mas pessoas se ajuntavam. Constatou fratura na perna. Pensou em hemorragia e pediu chamarem o resgate enquanto fazia torniquete com o próprio cinto. Colocou a mão sobre o nó do garrote para sentir calor intenso no local. Pensou em jorro de sangue. “Faça agora o que tem de ser feito”. Ao ouvir aquela voz cadenciada sentiu um assombro, parecia ser do senhor da escuridão. Contudo, não se permitiu pavor. Naquele instante só queria a polícia e dar o fora. Mas o dono do escuro insistiu dizendo que ia desmaiar. “Meu São Francisco de Assis!”, murmurou Thumé. Foi quando a própria mão ficou azul além de quente. Começou a passá-la suavemente na perna do homem. Daí que tudo foi se recompondo estranhamente. Continuou com os movimentos na ânsia de ver no que ia dar aquela alucinação. A perna se refez curada e o homem voltou a si. “Meu São Francisco”, essa era a intimidade de Thumé Cruz. Perguntou e o estranho disse que estava bem. Sorriu levemente e desatou o nó do garrote. Dos ferimentos não ficou vestígio. O outro agradeceu e pôs-se de pé. Thumé Cruz ficou ajoelhado ainda por um tempo com o coração aos solavancos. Os lábios e o nariz anestesiados. Tudo instantâneo, mas estava chocado. Havia acabado de presenciar algo maior que ele. Só não pensava em ser coisa do capeta porque já ouvira a respeito.
Quase chorando Thumé Cruz abriu os braços respondendo que não sabia, quando o bombeiro perguntou como estava. Foi convidado a entrar na ambulância, que saiu dali com a sirene aberta para o hospital. O médico disse que ele estava só assustado e aplicou-lhe uma injeção. Nem deixou dizer que o atropelado era outra pessoa. Quando acordou pediu para ficar descansando. Sozinho e com a cabeça no acontecido, eis que entrou um casal. Thumé sentou-se e percebeu que eles se entreolharam. O homem maneou a cabeça como a indicar Thumé, que reconheceu nele o motorista da ambulância. Nunca tinha visto a mulher, mas ela lhe entregou uma pequena sacola. Thumé Cruz viu que ali estava o próprio cinto usado no socorro. Ela sorriu:
— É o cinto dos iniciados na Ordem de Samaria.
— ???
— Francisco de Assis é o Primeiro Guardião.

Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

NATAL, UM PONTO DE VISTA

Da pertença da leitura do natal,
Bem assim também da quaresmal,
Que Jesus por nós se entrega em dor.
Nasce e morre nosso Salvador.

Madeiro da cruz e cocheira, a esperança,
Quis Jesus a um só tempo então juntar
Mostrando pela fé que o dom de amar
É fortuna nos deixada como herança.

De pensar em qual dia se deu mais
Se na cruz, em suplício solitário.
Ou então, muito mais, pelo contrário,

Ao nascer, nos tornando imortais.
Teve a dor do Senhor breve passagem,
Pois nascer foi Seu ato de coragem.


(Humberto Ilha)

Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

ENCOMENDA MUITO ÍNTIMA

“Eu sou desonesto. E pode-se sempre confiar num desonesto, porque vocês sabem que ele sempre será desonesto. Honestamente, são os honestos que devem ser vigiados. Porque nunca se sabe quando eles farão algo incrivelmente estúpido!” (Cap. Jack Sparrow, Piratas do Caribe)

Humberto Ilha
Sabe a Leila Diniz? Dizia que conhecera muitos cafajestes, mas todos eram uns anjos de pessoas. Ocorre que esse tipo de gente parece ter sempre missão na aldeia dos bons. Canalhas que indultamos porque deles precisamos. Refinados, não se prestam a cuspir na calçada ou deixar a toalha molhada em cima da cama. Nada disso. Com eles o buraco é mais embaixo. Adoram dizer: sou seu dono. E isso é que é grave. A metade deles desconfia que esteja fazendo benemerência. A outra metade tem certeza. Em férias por São Paulo, presencie uma campana policial na 25 de Março para neutralizar um desses que se achava o cara. Um tal Simão Cireneu que aguardava o momento de a mulher passar por ali para dar o bote. Todos os dias ela fazia o mesmo trajeto; já era caçapa cantada há dias. Ia ser facinho; um serviço de acordo com o que ambos haviam combinado sem dizer palavra. Ambos não, os três. A mulher era de idade. O camelô era um louco, um espião da vida alheia, um pervertido. Já avistara o vadio e esfregava as mãos, ansioso pelo momento do ataque. Num quase sorriso mastigava o cigarro de tanta tensão, ao mesmo tempo em que esfregava as mãos com impaciência. Conheciam a mulher, inclusive seus mais secretos escaninhos. Ela possuía o que Simão queria, pois carregava em vida o que não queria carregar. Dizia ser fardo, os pertences: pulseiras, bolsas, anéis, cartões e dinheiro. Cismava: “Tanta gente passando necessidade e eu no luxo”. Desejar pouco para viver. Dia claro, aquela era uma rua inimputável diante das contravenções de toda hora; diante da banalização dos pequenos crimes que dali sobrevinham. Ao contrário de muitos cenários, aquele era um local para se trabalhar de dia; com o sol resplandecente. Fosse à noite não haveria gente, platéia, nada. Só o caminhão do lixo e os enfeites de natal apagados. Cireneu era um solitário no cavar a vida. Roubar ou aliviar o fardo alheio? Disso fizera uma opção de vida. Não se incomodava com os pensamentos que tinha. Era a sua lógica, o seu absurdo, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em ser roubado, mas sabia de gente que morria de vontade de sê-lo. Os que se deixavam roubar eram os doentes, os ingênuos, os medrosos, os culpados, os trouxas, os otários. Os que roubavam eram os cafajestes, os espertos, os donos das ruas. A mulher ele conhecera sentada ao lado no ônibus. Sorriram e se encontraram depois: "só pela amizade", mentia ele. Saíram diversas vezes sem nunca darem aos encontros algo diferente que o sentido da amizade. Ela sincera, ele tramando. E concluiu que era ela quem dele precisava; que lhe cabia a tarefa de mitigar os mais íntimos desejos dela; reclamos de sua indecifrável alma. Viu-se um anjo de capa preta diante da mulher.
— Você se importa — perguntava ela — de eu ser assim?
Ele fazia que não com a cabeça. O camelô impaciente vez por outra cruzava o olhar com o do bandido e mandava, por gestos, quase uma intimação. Dava ares de um juiz de futebol, só que não interferia no resultado. Não conseguia vender nada enquanto não trombasse com algo forte no começo do dia. Nervoso, não tinha sossego enquanto não lhe viesse o descarrego da alma lavada. Enquanto não sentisse o cheiro do sangue do outro; amargava enquanto não sofresse nocaute. Então ela apareceu na rua apinhada de gente. Mas tanta que dali trescalava cheiro de pele humana. O rapaz foi-lhe ao encontro e percebeu-a diferente: olhos cristalizados, narinas ofegantes e mãos trêmulas. De olhos fechados, esperou o inevitável. Foi despojada de tudo: pulseiras, relógio, brincos, carteira, telefone, cartão de crédito... O rapaz não disse palavra enquanto atendia a mulher, que gemia baixinho. Havia nela uma expressão de alívio e um meio sorriso no rosto. Entre eles havia um entendimento da transgressão, que revelava o prazer proibido albergado em cada um. Ela fez-se paciente e resignada, cônscia de estar cumprindo penitência; viajava. Temeu demais aquilo que podia acontecer. Encontrou algum consolo quando aconteceu. Antes de sair dali o safado disse-lhe dentro do ouvido:
— Sou teu anjo negro. Eu te alivio a mochila que carregas. O covarde declamou isso inspirado na própria coragem que veio do medo estampado na alma da mulher, que permanecia imóvel e esvaindo-se ali mesmo. Ao passar pelo mascate, a mulher dele recebeu uma toalhinha felpuda para ajudar na faxina e a proclama gritante:
— Vi tudo; nada perdi; foi chocante. Deu-se ele também por aliviado da pressão interna. Estava feliz como pinto no lixo. O cafajeste, já identificado, ainda estava lidando com um remorso que não conseguia sentir. Pilhado em flagrante, reinventou-se em amargurada vítima para escapar. Mentiroso, confessava arrependimento. A mulher precisava equilibrar o gosto de ser roubada, que tinha origem num passado que iria continuar supurando. Ele merecia cadeia. Policiais sequer encostavam-lhe a mão. Haveria de ser encaminhado à delegacia de menores. Aparentando agilidade e sangue frio, respondeu canalhamente ao repórter:
— Roubo? Apenas aliviei a embarcação para que não submergisse.

Sábado, 6 de Dezembro de 2008

ALQUIMIA DO BEM

Humberto Ilha

A moça padecia de um mal que ninguém conseguia sequer diagnosticar. Consta que nascera saudável e com dez meses contraíra doença neurológica que a incapacitava progressivamente. Com vinte anos, e cadeirante há dez, os pais a levaram para uma consulta com o doutor Asteróide do Espírito Santo. Após exames diversos decidiu que a moça ficaria no hospital para um tratamento que ele havia concebido. Entretanto a jovem estava há uma semana deitada numa maca da emergência sem conseguir vaga para um quarto. Quase tudo ali lhe era negado: a higiene pessoal, o repouso, a dignidade, a gentileza de um sorriso. Quando sucedia precisar de banheiro era tirada dali às pressas. Viajava pelos corredores olhando o teto e vendo os rostos distorcidos das pessoas; sentindo cada solavanco das rodinhas da maca nas curvas para chegar ao elevador e lá ficar confinada, acompanhada pelo murmúrio do engenho das correntes e dos contrapesos da caixa de aço. Depois, de volta, tudo de novo sob o comando de outro atendente, pois o que a trouxera fora lanchar ou entregara o plantão para descansar no colchão macio de casa. Sentia-se longe da própria casa diante do efeito maca-na-emergência. Uma semana ali varreria da memória de qualquer um os contornos da própria carteira de identidade; mas a moça era valente e resistia, saindo daquela impiedosa cena para se abrigar na vigorosa esperança que lhe nutria a alma.

Todos os dias o médico dizia que estava providenciando um lugar. Durante o tempo que a visitava parecia que também fazia alguns exames misteriosos. Espetava-lhe as partes dormentes das pernas, das mãos, dos braços, dos pés, das costas, do abdome e da cabeça. Muito embora ela experimentasse leve desconforto, mantinha-se resignada durante os exames. Guardava uma fé quase absurda de cura mais-dia menos-dia. Mas esperando naquele corredor ela também pressentia que não ia acontecer nada.

Daí que os pais decidiram levá-la para casa à revelia do médico. Tiveram um trabalho imenso para encaixá-la naquela cadeira da má sorte. Ajuntaram as coisas e já iam saindo quando o doutor chegou.
— Vamos levá-la para casa. Isto aqui é desumano — disse a mãe.
— Ela não pode interromper o tratamento.
— Tratamento? O senhor está de brincadeira.
— Ela tem de ficar no hospital. Esperem que irei providenciar um quarto. Além do quadro clínico tenho de resolver o enguiço administrativo. Odeio isso.
Saiu e não voltou, mas dois funcionários de roupões verdes, pantufas e toucas acomodaram-na num quarto com mais duas mulheres. Então os pais puderam dormir em casa naquela noite. Dia seguinte voltaram e não a encontraram. Havia duas camas vazias e uma doente que dormia profundo. Deram-lhe alguns safanões delicados para acordá-la, mas parece que ela queria ficar dormindo. Com os olhos fechados perguntou "o que é?"
— Onde estão as pacientes? — perguntou a mãe com angústia na voz.
— As duas foram levadas à noite, mas parece que uma não resistiu.
Disse isso e voltou a dormir no abismo. Pai e mãe entraram em aflição e desembestaram correria ao posto de enfermagem saber o certo. Escutava-se o desespero deles pelo corredor e muitas pessoas vinham ver. Nisso veio também o doutor Asteróide. Ambos voaram-lhe em cima para dele exigir explicações. Nem o deixavam falar, que, ainda assim, mantinha-se calmo.
—Vamos até o quarto — precisou decretar. O que aconteceu com ela e com mais alguns ainda não sabemos explicar. O certo é que isso está me trazendo algum desgosto e nociva fama porque está fora do padrão profissional. Só não abandono isso porque o meu sonho de ajudar os doentes é muito maior do que eu. Mas confesso que essa loucura está ganhando vida própria e ficando maior que tudo.

Encontraram a paciente que havia dado aquela notícia trágica dormindo como desfalecida. Para surpresa geral a jovem sumida saiu andando sozinha do banheiro enxugando os cabelos. Abraçou os pais e contou que estava curada. Que fora levada dali na madrugada para uma sala com pessoas que a esperavam. Que o doutor disse que iam fazer nela uma cirurgia, mas que durante o procedimento ninguém tocou nela. Que fora trazida de volta e dormira bem o resto da noite. Quando acordou quis levantar-se e tomar um banho.
— O resto vocês já sabem.

Os pais procuraram o médico que não estava mais ali. Foi encontrado combinando no telefone móvel outra cirurgia para aquela noite, pois somente a noite sabia guardar os segredos dos fenômenos de assimetria.

Sábado, 29 de Novembro de 2008

CIDADE SEM XERIFE

Humberto Ilha

O dentista Orlandino Piedade fechou o consultório na hora do almoço e foi pegar o carro defronte ao prédio onde trabalhava. Vasculhou a rua toda e não encontrou o automóvel. Então começou a xingar o governo que não oferecia segurança. Seu carro desaparecera em plena luz do dia. Tomou um taxi e foi para casa, mas não conseguiu almoçar, pois estava indignado com a perda do veículo ainda financiado. Aquilo só podia ser coisa de gente que o andava negaceando para esperar a hora certa de agir com impunidade. A própria cidade não dava chance alguma aos cidadãos. Instituíra agora uma tal de zonazul com o pretexto de redistribuir as escassas vagas no centro para que todos usufruíssem com mais justiça. Mas o povo não assimilou o argumento e apelidou a idéia técnica de “pretexto para meter a mão no bolso dos cidadãos”.

Piedade foi até a Delegacia de Furtos e lavrou um Boletim onde deixou consignado todo o seu descontentamento com o prefeito. Bradou que iria trocar de partido político, como se isso fosse impressionar os policiais de plantão. Registrou a queixa e foi-se embora para esquecer tudo em menos de duas semanas. "Quem sabe um dia meu carrinho aparece". Comprou outro e tocou a vida.

Um mês depois havia atendido um amigo que lhe pedira carona. Vieram conversando pela Tiradentes quando o outro parou e ele seguiu falando sozinho. O dentista estranhou e fez sinal para que o acompanhasse até ao estacionamento. O outro ficou olhando para um determinado veículo e perguntou:
— Mas este aqui não é o seu carro?
Orlandino olhou, examinou bem aquele veículo todo empoeirado. Conferiu as placas e viu que se tratava do carro desaparecido. Olhou para trás e deu de cara com os barbeiros olhando para ele.
— Vocês sabiam que este carro estava aqui?
— Está aí há mais de mês e daí nunca saiu. A gente estranhava ver o doutor passar por ele e deixá-lo aí, mas fazer o quê? Decerto queria caminhar. Hoje isso está na moda, caminhar.

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2008

O REBOCADOR TRIUNFO

Humberto Ilha

Manhã cedo, o pequeno navio R 22 ressoa a aguda sirene e atraca no porto da Rua Quatorze de Julho exibindo ainda as bandeiras sinalizadoras de serviço. Horatio Magalhães era o capitão de corveta mais charmoso da Armada; e o mais complicado também. Este era o seu primeiro comando. Ainda que fizesse algum esforço de parecer cortês, pela presença de civis no local, o cansaço da manobra era-lhe visível. Além disso era um militar de pouco riso. Podia-se dizer que já estava endurecido pelo sol e pela salmoura. Ainda jovem adquirira aguçado nível de lucidez. Fora preparado em casa para caminhar na dureza do convés das embarcações. O velho orgulhava-se da própria dispensabilidade para que o menino enfrentasse a vida por si. Estava sendo bem preparado. Chegou a compor a equipe brasileira de salto em altura nos Jogos Pan-americanos de Cali. Encaminhado para ser um campeão, era um daqueles que seguia vocação cultivando vaidade de família. Mas, diferente dos mortais, não tivera que fazer carreira com as mãos. Dizem que para ingressar na Escola Naval tivera dificuldades com a prova de Português. Deu branco e estava reprovado. Época de singular ordenamento nacional, ninguém ousou contestar argumentos do tipo “Todos sabemos que o garoto ficou nervoso. E também sabemos que ele sabe; ou não sabemos?”

Desde pequeno auferia proveito dos que gravitavam em torno do pai; olhava a maruja com descaso. Era exímio em bem demonstrar aquele ilusório ranço de elite, muito embora zeloso de suas obrigações. O comandante do Colégio Naval foi por ele chamado de maricão quando lhe exigiu a camaradagem da continência negada no pátio interno. O oficial envermelheceu diante de todos e entrou no gabinete para morder o ódio que nutria por ser mesmo diferente.

Horatio preferia não dar moleza aos de baixo para preservar a distância entre quem manda e quem tem juízo. Isso desde sempre; e não somente agora que estrondeara com força uma revolução, cuja gota d’água fora o desrespeito pela oficialidade do mar. Naquele cenário político, um oficial com algum cacoete nazista tinha carreira garantida nos quadros da Armada. E isso ele tinha de sobra. Talvez daí lhe viesse o apelido de Barradão, que é como os subordinados chamam aquele que lhes barra os melhores planos. Olhando-o de longe, parecia ficar melhor na pele de um fuzileiro naval de tão durão que era com os homens. Fora o primeiro de sua turma a conquistar o posto de oficial superior. Gostava de estudar e nisso ia fundo. Mas, se mandava nos homens e todos obedeciam, igualmente se via obrigado a obedecer ao mar e o que dele vinha. “Ah, o mar que a ninguém obedecia. Ai de quem viesse com a ladainha de que só a Netuno o mar respeitava; história!” O oficial era chegado em mastigar: “Netuno morreu faz tempo e o mar nada respeita”. Para rematar, se fosse provocado: “A negociação com o mar se dá antes de nele entrar. Como entrar no mar sem conhecer o retelho das nuvens e a leitura dos ventos?” Significa dizer que ele somente acreditava no planejamento, na prudência e no conhecimento do instante dramático a vivenciar no mar. “Os mortos — dizia — já esperam deitados; e deitado ninguém planeja. Ficar vivo no mar implica em ter que pedir licença para não precisar pedir socorro”.

Tudo o que Horatio Magalhães fazia, fazia bem feito. Sextante ele tinha quatro. Um deles era pequeno, para caber nas mãos do filho. Equipamento de mergulho eram dois novinhos. Um para ele e outro para a esposa, que adorava mergulhar nas ilhas da costa fluminense atrás de garoupa-chita. Lancha, era questão de honra, tinha uma com dois motores de cento e dez cavalos e toda adaptada para mergulho. A bordo do Vendaval, um veleiro de trinta e dois pés que lhe dera o pai, buscava a utopia da velejada perfeita. Poucos oficiais praticavam a navegação à vela. Mas onde mais se permitia desfrutar a própria essência era dentro da água, mergulhando em apnéia. Poucos sabiam onde estava o prazer de pertencer ao mar. Ali estava, dizia ele. “Lá dentro só escuto o pulso do meu coração. O mergulho me leva ao coração do impossível”.

Remanescente da Marinha americana, Triunfo era um rebocador empregado em missões de resgate. Tarefa pacífica que dava algum charme àquela embarcação tão antiquada quanto robusta. Um só mastro e um só castelo, o de proa. O resto da estrutura era destinado ao suporte das missões de força. Difícil achar quem não goste de um socorrista. Triunfo parecia um bicho vivo querendo se comunicar com o entorno. A comunicação pelo Código Internacional de Sinais através das quatro bandeiras já era mensagem de amizade e paz. Aquele rebocador, onde quer que aparecesse, invocava um sentimento bom nas pessoas porque não manifestava sinal de hostilidade advindo da exposição de armamentos próprios das embarcações de guerra. Ao invés de canhões, bombas e metralhas, viam-se no convés de popa rasa dele apenas grossas correntes, cordas, cabos de aço, roldanas enormes, sarilhos engenhosos, polias reforçadas e robusto pau de carga para agüentar o tranco nas operações de força em socorro de algum navio agonizante em ameaçador costão ou praia deserta. Ou ainda de algum outro refém da deriva tenebrosa no meio de alguma tormenta assassina a reclamar o sossego que as embarcações não lhe costumam dar.

Depois da atracação o cozinheiro supervisionava um embarque de carne. Três grumetes faziam a estiva da viatura para o frigorífico da embarcação. De repente um balaio cheio foi parar no mar. O grumete, negro musculoso de uns vinte e quatro anos, tropeçou nos trilhos do trapiche e não conseguiu evitar o acidente. Nesse momento o comandante estava chegando, viu tudo e já foi dando a ordem:
— Mergulha grumete; vá buscar a carne.
O rapaz ficou de calção e se atirou na água. Ali já estavam quase todos para verem no que ia dar a situação. Outros colegas queriam ajudar, mas aí o capitão deixou à mostra o tanto de peçonha que ainda habitava em seu caráter.
— Ninguém mais na água. A responsabilidade é dele.
A cada vez que voltava do fundo com um pedaço de carne o jovem tinha maior dificuldade. Numa das vezes voltou sem nada nas mãos e sangrando pelos ouvidos. O médico pediu para parar com aquilo, mas Horatio não concordou e mandou que mergulhasse mais. O sangue não parava, então o cozinheiro se meteu e disse ao grumete para não mergulhar mais. O comandante virou-se para o cabo:
— Como ousa?
— O senhor está errado e meu irmão não mergulha mais hoje.

O médico sentiu que era hora de intervir e mandou que o grumete fosse levado para a enfermaria. Sofrera um derrame cerebral que iria apagar o seu futuro e a carreira festiva de Horatio Magalhães, que recolheu a vergonha diante da gravidade do episódio e foi trancar-se na cabine. Inimigo de si mesmo, lembrou-se que um dia fora insolente com um comandante que também não conseguia domesticar a matraca.

Sexta-feira, 14 de Novembro de 2008

FAZ PARTE!

Humberto Ilha

O casal passava quando viu uma idosa tentando atravessar a avenida da vila militar. Era um lugar difícil até para os mais jovens. Reparando a dificuldade da mulher resolveram dar meia volta no carro e encolher a distância entre eles e aquela que nem conheciam. Ao retornarem ela ainda estava longe de atravessar a arriscada via. Apoiava-se numa bengala e carregava uma sacola com roupas. O homem se ofereceu para atravessá-la tomando-lhe a sacola no que ela enfiou o braço no dele. Quando sentiram que estava favorável começaram a cruzar. Ele fazia sinais ostensivos para os motoristas abaixarem a velocidade. Parou o trânsito na hora. Caminhando na velocidade que ela conseguia, chegaram ao outro lado. Então ele perguntou para onde ela estava indo. À missa na Igreja São Francisco; frei Balbílio é o celebrante. Ela se referia a um homem grande, vermelhão, inquieto, de alguma idade e saúde de ferro. Diziam que se curava com ervas que lhe vinham da Alemanha. Falava português com sotaque carregado e alegre. Trajava sempre aquela batina marrom e sandálias. Como ele se virava no inverno ninguém sabia, porque também nunca foi visto com outro abrigo além daquele traje capuchinho. No verão, a mesma coisa: um calorão medonho e ele dentro daquela roupa escura gerando mais calor. Ali, parece, dava demonstração do obstinado ofício como servo do Senhor. O povo dispensava-lhe estima; era confessor de gente graúda.

— Vou levar umas roupinhas de bebê que fiz. Faço parte de um grupo que se reúne todo mês; ele é o nosso orientador espiritual. Conhece cada um de nós pelo nome e sobrenome; um santo em vida.
— Posso deixá-la na igreja, se quiser.
— Ora, se não quero.

Colocada no banco da frente, a mulher nem sabia afivelar o cinto de segurança. Na tentativa ela arrumou uma confusão de braço por dentro e braço por fora até ficar com o pescoço imóvel pelo cinto. O casal achou graça da dificuldade. O homem lembrou-se da própria mãe, que também fazia aquela confusão. Ajeitou-lhe o cinto e foram para a igreja deixando-a na porta. A mulher agradeceu e foi entrando com aquela bengala de madeira envernizada que lhe dava dignidade. O casal voltou para o carro e retomou a viagem, que era na seqüência daquele trajeto: o cinema do shopping assistir Julio Verne na versão reciclada em terceira dimensão da sempiterna Viagem ao Centro da Terra, agora com Brendam Fazer. Jurou à esposa que os truques da produção não iriam surpreendê-lo. Era melhor ter fechado a matraca, porque no primeiro minuto de filme quis tirar com a mão um beija-flor que lhe veio pinicar o nariz. Depois de muitas risadas ele entregou-se ao filme e às atrações que oferecia: cavernas profundas, peixes voadores, dinossauros zangados, cipós que sufocavam o herói, rochas que desafiavam a gravidade. Como o livro, na Islândia também estava a porta de entrada para aquela aventura. Só que o guia no filme era uma linda mulher, coisa impensada pelo autor no machista século dezenove. Estava envolto naquela nostalgia quando algo lhe trovejou num efeito dolby surround: Fiquei com a sacola da velha dentro do carro. Quis explicar a confusão para a esposa. Ela mandou que abaixasse a voz porque o filme era dublado. O homem disse que ia sair e voltaria dentro de meia horinha: pode marcar no relógio.
—Hãm... Hãm... — de olho lá dentro do telão.

Saiu ansiado da sala como surdo em bingo. Uma pobre lixeira voou fazendo estardalhaço numa canelada que deu quando saiu da sala sem enxergar nada. Já no estacionamento olhou a sacola da senhorinha no banco de trás e tocou para a igreja. Quando chegou já havia terminado a missa, mas notou a presença de algumas pessoas por ali. Foi entrando porta adentro encontrando frei Balbílio que saía às pressas e olhando para trás. Dentro da igreja somente umas pessoas em oração aqui e ali. Perdi a velha. Olhando na sacristia viu um bolo de gente. Ela estava vomitando numa pia; as amigas em volta dela. Coitada, por que o padre não ficou aqui para atendê-la já que a conhecia pelo nome e sobrenome? Por que, já que era o orientador espiritual do grupo? Lembrou que ainda o vira se afastando, decerto para não ficar refém da responsabilidade. Levou a senhorinha à emergência do Hospital Senhor dos Passos. Depois de encaminhada colocou junto à cama a sacolinha e voltou para o cinema buscar a esposa. Precisavam voltar ao hospital e depois levar a mulher em casa: era no Buraco da Onça.

Já contou algumas vezes esta história com a gravidade que merece, mas não quer mais porque o pessoal começa a rir e dizer-lhe bem-feito, metido.

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

O DOM DE NÃO ENTENDER

Um sossego de varanda e então dormi,
‘inda vi casal tentando vôo sem graça
abatido no gramado sucumbir.

Grave ela ferida na agonia
ele aflito se havendo em covardia
por desgosto de com ela então morrer.
Mas ficar ali por perto era preciso;
de verdade bem saber ele sabia.

Esperar por mais seis luas e voltar
para o sol, após velar o que amou.
A esse tempo a pobre ave quis saber:
Por quê?

Por seus olhos quis fazê-lo então saber
que esta vida é fugidia, mas convém
ser levado igual criança no viés
do mistério que o juízo indulgencia.

Longe de entender, por mais que tente,
uma ave não me sabe compreender.
Como igual não entendo o próprio Deus,
que descendo vem olhar no meu olhar
e dizer-me o que não posso decifrar.

(Humberto Ilha)


Sábado, 8 de Novembro de 2008

SONO E SOMBRA


Na sombra, às vezes me deixo
Dormir igual a um vadio
Um sono de longo trecho,
Mas torto e fugaz... Vazio.

Nem sempre consigo um sonho
Daqueles bons de sonhar
Às vezes de tão medonho
Dou-me graças de acordar.

E quando eu sonho calado
Nada de mal me acontece.
Mas se é sonho agoniado
Meu coração desfalece.

Mil vezes viro menino
No’embrulho dessa magia
Sonhando um sonho divino
De alegrar a alegria.

Nesse dia tudo cabe.
Bom e ruim tomam vida.
Quem nunca sonhou não sabe
E dos que sabem duvida.

Acordar nem sempre é bom,
Quando o sonho é de primeira.
Há que se ter algum dom
P’rá parar com a brincadeira.

Sonhar tem que ser assim:
O mal e o bem juvenis.
Se um sonho me deixa ruim,
Outro me deixa feliz.
(Humberto Ilha)

Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

CLIENTE LEVA BRONZE

Humberto Ilha

Toda semana ele enfrentava aquela aporrinhação dos caixas eletrônicos. A tecnologia da informação viera para atrapalhar os que foram pegos de surpresa; como os da terceira idade. Claudionor era dos que não se davam com a parafernália de cartões magnéticos, senhas alfanuméricas, portas giratórias de segurança, casamatas blindadas, guardas armados, câmaras de vídeo, alarmes. Recente no bloco dos idosos, desejava usufruir regalia dos de sua categoria: usar um caixa preferencial. Não estava disposto a abrir mão desse direito há pouco reconhecido. Queria ser atendido com requinte nem que fosse uma só vez. Foi ao banco e não gostou do que viu lá dentro. Imaginava receber um pouco mais de consideração. Aquele aviso indicando o caixa destinado a atender idosos era perverso. Primeira vez que se permitira a ele recorrer achava aquilo uma carta de exclusão. Mesma coisa que tocar uma sirene obsequiosa para todo mundo ficar sabendo que ali estava um velho. Remascava que o atendimento merecia mais recato. Diabos, se um idoso, uma gestante ou um deficiente físico precisasse de atenção especial era só pedir que o banco saberia atender. Reinava em todo lugar, de uma hora para outra, uma mesura nervosa em favor do senil, mas parece que não sabiam atendê-lo. Havia supermercado que oferecia café da manhã. Prefeituras que garantiam gratuidade no transporte. Até as primas faziam promoção no cachê para os mais travessos. Outro dia a televisão mostrou uma dona Rosinha de setenta e três anos fazendo ponto numa esquina de São Paulo dando atendimento preferencial de geriatria.

Aproximando-se do caixa a ele destinado, Claudionor ia esboçar um sorriso de boa-tarde quando uma jovem senhora lhe tomou a frente. Ignorando-o, ela furou-lhe a vez toda sorridente e com a bolsa aberta cheia de maços de dinheiro para depositar. Era tanto dinheiro que fora levado para a máquina eletrônica de contar. Flip-flip-flip; nunca tinha visto tanta grana junta, nem mulher tão linda. Ele era um bugre criado mato-a-dentro lá pelas barrancas do Uruguai. Um xokleng simbólico: baixo, moreno, quase um bronze, sem um fio de grisalho na cabeça; braços e pernas fortes. Havia de relatar em casa o que estava presenciando. Mesmo sentindo-se transparente tragava prazer enorme e não perdia um movimento da gorducha mulher. Que visão do céu. Por ele não saía mais dali; e não saiu mesmo. Disse para si que ninguém o tiraria dali por nada. Se necessário esperaria o resto do dia. A senhora passava maços e maços de dinheiro ao caixa. A sacola parecia não ter fundo, de tanto dinheiro que havia ali dentro. Entretanto, dava a impressão de querer desvencilhar-se logo da grana como que a transferir de uma vez ao banco a responsabilidade pela guarda daquele pequeno tesouro. Queria logo o recibo, a prova do depósito. E Claudionor: "Ao invés de abraçar e beijar aquele dinheiro todo, ela quer se ver livre dele". Ali, de pé atrás da mulher, podia sentir o perfume cítrico que ela usava. "Uma delícia! Devia custar mais que o rancho mensal". Ainda ali, de pé atrás da mulher, se encantou com o longo sobretudo vermelho que lhe cobria o corpo. O aroma vinha daquele casaco que se mexeu com a mulher dentro para chamar o marido.
— Nego, chega aqui.
Claudionor pode então ver como era linda. Era muita merenda para o recreio do Nego, que era um dragão de feio. Depois de cochichar algo no ouvido dele, o homem encostou-se nela colocando-lhe as mãos na cintura. Isso fez de modo acintoso e olhando nos olhos de Claudionor, dando-lhe ainda vigorosa cotovelada nas costelas. O índio achou haver sido sem querer. Então, o amargoso se mexeu novamente e deu-lhe outro cotovelão para o coitado resmungar algo como “putz”. Agora estava passando da conta. O prosa virou-se para trás e perguntou se o outro não estava desconfiando de nada.
— ???
— Afaste-se de minha esposa. Você está invadindo a privacidade dela. Seu lugar é para além da faixa amarela; e não colado na patroa.
Claudionor percebeu o vacilo; tinha razão, o infame. Desacostumado com a novidade nos bancos, nem percebera que estava invadindo o ninho daquela cobra. Mesmo assim deixou claro ao homem que não gostara do tom da voz dele, para em seguida ouvir:
— Será que eu vou ter que me incomodar com você?
Claudionor já estava tomando o caminho do seu modesto lugar, atrás daquela faixa amarela colada no piso da sala. Faixa Amarela... Algo ameaçador estrondeou dentro da cabeça dele. Lembrou que era ele um faixa-preta. Fora admoestado pelo salgado diante de pessoas e não gostara. O comportamento impróprio do homem deixou-o furioso, mas conseguiu abafar-se. Entretanto, dissera ao outro para se cuidar porque na próxima ele o faria engolir os insultos. Claudionor bem sabia que acabara de proferir uma ofensa maior do que a que havia escutado. O trouxa mordeu a isca e falou esbravejando desgovernadamente:
— Vai querer me encarar?
O bugre conteve-se mais um pouco. Era necessário provocar mais raiva no outro até sobrevir o ponto ideal de enfrentá-lo. Até que ficasse totalmente sem controle emocional. Antegozando um ódio desmedido e represado retrucou na debocheira:
— Posso encarar você, mas não vale me chifrar.

Xingar alguém de corno era uma de suas melhores provocações. De sua boca não saiam palavras afetuosas quando o sangue lhe subia. O valentão arremeteu com tudo para cima de Claudionor, mas girou como só um bailarino gira, terminando aterrissado junto ao bebedouro. Que lambança; a bombona explodiu no chão como um torpedo, encharcando tudo. O segurança tentou imobilizá-lo, mas o bugre fê-lo soltar um grito horrível. De não acreditar, mas Claudionor neutralizou-o fazendo forte pressão num dos dedos dobrados da mão do guarda. Como fazia muita choradeira, o bugre desvencilhou-se dele com grande estrondo; também ele beijou a lona. E no chão dormiu de ladinho perto de uma dentadura quebrada que não se sabe de onde veio. Agora ia juntar o confiado para completar o trabalho. Mas a cúmplice mulher subitamente avançou contra ele, como se tivesse sido atingida por uma espetada no popô. Nem deu tempo para desconsiderar a ameaça. A água espalhada fez que patinasse como se patina pela primeira vez: numa coreografia desengonçada com os braços abertos e os olhos arregalados de pânico. Todo o corpo atraente dela deslizou até amontoar-se sobre um vaso ornamental. Funcionários juntaram-na e ao marido e levaram os dois lá para dentro. Claudionor estava branco e alerta. Eram mesmo de bronze seus braços e pernas de tanto estrago que faziam. Sabia que o pior estava a caminho. Como a se defender, falou aos que viram o bafafá que fora um erro o homem tê-lo desafiado daquele jeito. “Meter-se comigo é caixão. Afinal, eu pratico artes marciais”, falou bancando o campeão de si mesmo. E era verdade, mas seu maior talento era a rapidez de raciocínio aliada à grande mobilidade diante de situações desse tipo. Sobrevinha-lhe ainda saber combinar rapidez com potência de golpes certeiros. Era um ninja, desses que a gente vê na televisão. Durante todo o entrevero não emitia palavra, mas nada lhe escapava à atenção. Nem o guardinha dormindo no chão, nem as câmaras de vídeo que tudo registravam.

Como parte da rotina de segurança os funcionários chamaram a polícia, que cercou a agência com grande aparato de resposta tática, preparada que veio para enfrentar assaltantes, seqüestradores, terroristas ou sabe-se lá o que mais. O oficial que tudo aquilo comandava não imaginara que fora acionado para acabar com um bate-boca. Sirenas, faróis acesos, pisca-pisca, bombeiros, coletes de segurança, escudos blindados, armamento pesado e muita tropa entrincheirada por detrás dos carros tipo caveirões. Aquele monumento de bronze feito homem olhou para fora e balanceou a situação: “tô ferrado”. Fitou as pessoas no interior do banco, quase que a pedir ajuda. Mas ninguém parecia lhe dispensar benevolência. Sequer chegavam perto dele. Decidiu então encarar sozinho o caso, como sempre fizera na vida.
Um megafone saiu por trás de uma viatura camuflada, e dele vinha a ordem para que todos se atirassem ao chão. Foi pra já! Todos se deitaram, inclusive Claudionor, que se deitou ao lado do segurança que dormia de ladinho. Os policiais entraram e não encontraram a oposição que esperavam. Sequer sabiam a quem prender. Mas um comandante de polícia tem lá suas manhas. Com pausada voz de comando determinou que somente os funcionários do banco se levantassem. Ainda assim, verificou que havia muita gente pelo chão. A seguir autorizou que o segurança também se erguesse. No chão, só os clientes. E entre eles, por certo, os autores de toda aquela encrenca. Separando o joio do trigo ficaria mais fácil prender os bandidos.

Mas, e Claudionor? Fez-se oculto ali mesmo. A polícia não sabia onde ele estava, muito embora parecesse que havia sido indultado pelos que tinham visto o seu desempenho em defesa da honra ultrajada; atuação que todos viram mas não entenderam, tamanha a rapidez e precisão de movimentos daquele herói solitário. Nosso Senhor depois de ressuscitar no terceiro dia foi mais demorado para se esconder nas nuvens, de acordo com o que nos contaram na catequese. Com tudo que O qualificava demorou muito mais tempo que o bugre para fazer-se oculto. E agora nem bem deitou ao lado do guardinha esse velhaco desaparece diante dos olhos de todo mundo para ressurgir fardado ninguém sabe como. Sobrou à polícia apenas prender o casal de lambanceiros. Queria o depoimento deles para o competente inquérito. Por muito pouco não levou uma vaia.
Enquanto tudo isso se passava, o segurança falava ao rádio em voz alta com alguém a respeito da briga que havia presenciado no interior da agência bancária. Ao tempo em que parecia relatar tudo com detalhes ganhava a rua movimentada. E assim caminhou até o ponto de ônibus para sumir da vista da polícia. Entrando em casa, de uniforme, a mulher estranhou e perguntou se ele havia arranjado emprego de guarda. Fez que não com a cabeça.

Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

O INEVITÁVEL DANIEL BARBADA

Humberto Ilha

— Pode haver coisa mais absurda? Estudante civilizado não há de trapacear nas provas. Só se for por cima do meu cadáver.
Era um vexame. Um rapaz tão galante levar tão grave sermão de mulher tão cheia de letras quanto bonita. Mas também era quase uma imprudência falar de maneira tão áspera a alguém tão engenhoso, porque ele era bem capaz de passar por cima dela para colar só por deboche.
Ninguém pode afirmar que "desta água não beberei". Sempre existe o imponderável argumento da outra parte. Seja em palavras, gestos ou intenções. O rapaz demonstrava saber dar a volta por cima das situações já perdidas. Sabia curvar a espinha diante de ventos fortes, mas não deixava de aplicar um pouco de fortidão na pegada com as mulheres. Era disso que elas gostavam nele; aquela irresistível pegada.

Nesses tempos em que se convive com escolas invadidas por vândalos, professores agredidos por delinqüentes armados, tiroteios, tráfico de drogas no portão dos colégios e gravidez precoce tolerada nos pátios, colar devia parecer um delito menor. Mas não, agredir, tirotear, fumar e cafungar são crimes que não mais surpreendem a polícia. Quando nem a escola, que é o recurso de edificação da sociedade, é digna de respeito, o alarme dispara causando susto em todos. Delito não menos pior, copiar clandestinamente num exame escrito é algo que ensangüenta a honra, liquida a carreira do estudante e deixa o professor vacilante. Felipe Gonzáles garantia que o estudante que manchasse o currículo com um episódio de cola jamais seria político na Espanha. Um delito tão pequeno, praticado por pequenos, mas que vira um dragão para o resto da vida. A cola é irreparável e não merece perdão pelo intrínseco da sua gravidade. Conheci alguns dos bons nessa arte. A eles jamais me entreguei para deles extrair sequer notícias de futebol. Quando passam parece que ainda ostentam a tatuagem da vergonha na testa. Não foram e não serão confiáveis porque a prática da cola é sorrateira, planejada e mentirosa. Tanto que sobressalta os educadores e os que zelam pela formação ética da juventude. Muito pior se o delinqüente for universitário. A aflição do professor que pilha alguém com a boca na botija semelha-se ao luto pelo próprio filho. Ficará ruminando muitos dias: “Onde foi que eu errei? Veja o suíno que irá me substituir” Se o transgressor for mulher, dessas que escondem a tramóia nas coxas, pode contar: é daquelas tendentes às negociações suspeitas. Emparelhar com elas num casamento é chifre certo.

Barbada, o que estava levando aquele sermão escandaloso, era desses com as pernas demasiado cabeludas para enternecer alguém. Portanto, tinha que arrumar um jeito de esconder o cambalacho noutro lugar. Fotógrafo competente, Daniel passava boa parte do escasso tempo livre a reproduzir e reduzir textos escolares. Transformava tudo em instantâneos de trapaça para se dar bem nas provas. Na hora oportuna fazia sumir todo o petrecho nas furnas da própria roupa. Era comum vê-lo com maços de cigarros, cada um encobrindo um estelionato. Mesmo em dias de calor trajava famigerado fardão de lã cheio de bolsos. Aparecia no abafo todo encilhado de malfeitor. Bruxo requintado, jamais fora pego em flagrante. Professores faziam de tudo para ele não colar; pois colava. Uns diziam que eles sabiam e condenavam-no a morder o próprio rabo como no mito da serpente cósmica. Deixavam-no proscrito na circularidade da própria falência. Outros não compreendiam como o rapaz se valia desse meio suspeitoso se possuía brilhante inteligência. Outros ainda lembravam o lendário gol de mão de Diego Maradona: "indigno, mas fantástico". Aliás, é de se perguntar se os que baixam o pau no argentino teriam a grandeza de, no lugar dele, pedirem ao árbitro que invalidasse o gol em nome do fair play, mesmo que disso resultasse a derrota da própria equipe. Duvi-de-ó-dó.

A seu favor Daniel confessava-se inseguro para fazer provas escolares. Contudo, em seu benefício havia o carisma de ser um profissional requisitado pelas principais agências publicitárias do país. Conhecia o mundo, tornando-se um humanitário diante do que captou e transformou em instantâneos. Suas fotos eram veementes nas exposições e publicações que organizava. Suas lentes focavam as pessoas na guerra, no trabalho, na alegria, no esporte, na escravidão, na orfandade, na dor, na morte, na ternura, no abuso, na solidariedade, na prepotência, no desamparo, no amor. Sua câmara foi intensa e denunciadora de barbáries contra as gentes do Timor Leste. No Zaire dos diamantes foi levado pelas mãos de crianças aos locais de ternura embrulhados pela dor de uma guerra até hoje não prescrita. Trabalhando tão apaixonadamente, aprendia que a Geografia era o espaço onde as pessoas viviam. E esse era o motivo pelo qual estava ali. Queria ser um fotógrafo-geógrafo; pois que o deixassem sê-lo, por certo para o bem. Contudo, em dias de exames virava uma pilha de nervos e tudo ficava embaralhado em sua cabeça. Pressionado errava até tabuada de seis. Para os que duvidavam mostrava a caixa de calmantes que tomava à noite. Conseguir notas boas era uma barbada quando o professor era descuidado, gabava-se. Para a maioria das pessoas ele era um safado. Rodava pelos corredores que um professor chegou a pegá-lo com o caderno aberto no chão e o baita só se dando ao trabalho de copiar, virando as páginas com a absurda destreza dos dedos dos pés. Diziam que o professor, diante de tamanha cara-de-pau, não tivera coragem de dar-lhe zero. Pelo jeito Daniel Barbada também conhecia o íntimo das pessoas ao apostar na falta de ação do mestre, porquanto um delito desses, praticado com o sol a pino, era coisa de merecer redondo zero. Mas, dizem, o catedrático tremelicou de tanta vergonha que sentiu pelo velhaco. A partir desse episódio a fama do fraudador e sua inditosa arte só fez crescer. Quando o Diretor tomou conhecimento do fato, chamou a professora que havia jurado barrar-lhe a farsa. Aquela braba do esculacho e do corpo torneado descrita no início. Barbada estava no meio de um rolo enorme, contudo alegava jamais haver usado os petrechos malditos para fazer as provas. Admitia preparar, mas não chegava a usá-los. Dócil, chamava “aquela fratura exposta” de lembrete ou material de apoio. Ninguém lhe negava a fama construída na falcatrua, mas também o reconheciam como um sedutor convincente.

A última prova do curso seria realizada sob a supervisão daquela fera tão amarga quanto linda. Se Barbada lograsse êxito sem colar na prova, sua mala cheia de culpa ficaria esquecida para sempre. Tinha que aceitar o desafio, mas estava acovardado: “Sou bruxo, mas nem tanto. Esse sargentão fareja tudo e vai me espicaçar”. Pensou em fazer um acordo com o Diretor, mas não lhe ocorria nada lícito que viesse em seu amparo. Sem saída, concordou com os termos da proposta. Faria a prova final sozinho e sob a supervisão da tal que lhe jurara nocaute. Havia feito duas provas com notas baixíssimas, precisava sair-se bem na última. Foi no banheiro e voltou trajado como um feiticeiro para o desonroso truque de tirar água de pedra. No entanto, ao botar os olhos na professora ficou paralisado. Como era linda aquela mulher. Agora é que se dava conta vendo-a num minivestido de seda preta que lhe desvelava as formas perfeitas. Como um radar, Daniel percebeu a existência de uma tatuagem indefinida no tornozelo da moça. Isso dava a ela um ar de independência e charme. O desenho, quase impreciso sem seus óculos de grau, parecia querer proclamar a própria presença naquela parte quase oculta do corpo da deusa. Lembrava algo já visto, contudo não conseguia decifrar aquela figura. Foi aí que sentiu estrondear-se por inteiro experimentando o angustiante ímpeto de gritar que havia achado a mulher da sua vida. Mas Daniel Barbada sufocou o sentimento para não piorar ainda mais a situação em que estava metido. Recompôs-se nos alicerces, mas parece que ela percebeu-lhe os estragos.

Mandado começar a prova, tudo tentou que sabia na arte da diabrura da cola. Inventou mil truques e nada dava certo. Estava cada vez mais tenso. Meia hora de prova e não respondera nada. Então começou a rezar e imaginar o conteúdo das perguntas. Oxossi, o que mandava na mata, haveria de lembrar-se dele mais uma vez. Entregou a alma e matutou: "O que o destino me mandar, eu encaixo". De repente pareceu que lera em algum lugar a resposta de uma das questões, escrita com inconfundível caligrafia feminina. Esboçou ar de riso e cravou a alternativa correta. Voltou o pensamento para o santinho caçador de dragões. Assumiu o trejeito de quem estava raciocinando e veio-lhe a segunda resposta. Antes de responder olhou a professora, que demonstrava estar virando uma tocha ardente diante dele. As respostas vinham em borbotões, como uma torneira que não consegue estancar a água. Barbada respondia as perguntas com rapidez uma atrás da outra. Quando respondeu a derradeira, a mulher parecia estar cheia de luz. Instalou-se dentro dela um desabalar nevoento de fantasias. Havia passado por um jovializante processo e agora estava arpoada. Estava deixando o mesmo que uma porta aberta para o ladrão. Daniel combinou consigo mesmo: "Ela voltou dos infernos". Olhou aquele fermento indomável com um travo de paixão. Quis entregar a prova e sair dali, mas, como que por magia, ficou preso à presença dela. Estava também arpoado. O coração queria saltar-lhe pelo umbigo de tanto querer, mas seus olhos não se despregavam da cola caprichosamente escrita naquele tornozelo de fada.

Terça-feira, 28 de Outubro de 2008

LADEIRA ABAIXO

Humberto Ilha

A semana no pé daquela serra majestosa iniciava com rebuliço; pelo menos no povoado. Nada assombroso se o começo da lida não fosse às quatro da manhã. Em meia hora o ônibus sairá para engatar com o horário do trem das seis para Tubarão. "Levanta o patrão porque hoje o motorista não veio". Quando isso acontecia sobrava sururu para todo mundo. O próprio dono ia fazer a linha dirigindo o veículo; a mulher já na cozinha para o café; o filho fazendo o embarque. Sempre rigorosamente calmo, justo e honesto nos negócios, manso e cordial, Riccoldo Mansi planejara não precisar mais trabalhar duro após os quarenta. Era bom no que fuçar a vida, mas era péssimo no como fazê-lo. Para tanto botava os filhos e empregados. Jamais negou uma vaguinha para um parente, mas costumava pagar quase nada de salário. Econômico, não abria a mão nem para espantar moscas. Adorava comer ensopado de pato, mas quando havia carne de gado gostava de patinho para comer assado com recheio de toicinho e pimentão. Sedutor no silêncio, bonitão, olhos azuis expressivos, não sabia dizer não às mulheres que nele se encostavam como abelhas no mel. Vinha daí a infelicidade da esposa que o amava e unida cavucava com ele no esfocinhar a vida.

Quando o empresário chegou à garagem, o cobrador já havia aprontado o veículo para a viagem. Sentou-se ao volante, conferiu tudo e partiram devagar. A vizinhança já acordada com a maldição diária do barulho de esquentar o motor. Quem tinha juízo não chiava; o homem era também dono do armazém, da sapataria e da mina; um patrão meio blindado aos desaforos de empregados e parentes.

Na última poltrona, todo escanchado, viajava um compadre que era mais chato que chinelo de gordo. O velho, miudinho, não economizava deboche quando Mansi era o motorista; proclamava que o amigo guiava mal. "Hoje ninguém chega lá; cuidado aí, chofer". Fazia mais escândalo do que relincho de burro garanhão. O gringo era homem de pouco riso, mas também sabia encaixar com humor os gracejos do outro. Então o veículo começou a fazer uma descida grave. O cobrador começou subir a escada externa para cobrar os passageiros que se amontoavam na capota. Quando sentiu a velocidade aumentando além do costume, achou melhor se atracar com a escada; pressentiu que aquela descida ia ser diferente. Rabeou os olhos para os passageiros lá de cima e riu para dentro, porque eles já estavam apavorados com as mãos garreadas nas grades. Acostumado a passar por ali todos os dias, o menino percebeu que o empresário perdera o controle do veículo. Com algum esforço o veículo conseguiu fazer a primeira curva, mas daí deparou-se com uma tora de bracatinga atravessada. Não havia o que mais fazer: o homem firmou-se no volante, calçou os pés, virou o rosto contraído e encarou o tronco. O choque foi medonho; mais feio que indigestão de torresmo. Os cinco que estavam na capota voaram para se estatelar no chão, mas um foi parar na frente daquele dragão desgovernado. Ficou no chão quieto, parecia desacordado. Nesse meio tempo o veículo subiu um pequeno barranco parecendo querer parar. Mas não, voltou para o meio da estrada reiniciando o ziguezaguear do inferno na direção daquele que estava estirado. Mas também, foi só dar uns buzinaços que ele rolou para a beira da estrada, feito James Bond diante da morte. Safou-se, mas ficou com o cotovelo virado de ré para o resto da vida. Mas aquela era um época em que pouco se via alguém cavando falta para levar vantagem. De modos que nunca vindicou uma merecida indenização.
Com a parada repentina o zombeteiro que viajava na cozinha veio escorregando pelo corredor encharcado de óleo empacando esbeiçado em cima do painel de instrumentos. Não perdeu a pose: "Compadre Riccoldo Mansi, você tem aí uma carta de motorista ou um Almanaque da Lua"?
Depois desse episódio os fregueses fizeram um abaixo-assinado para impedir o proprietário de dirigir o próprio ônibus, mas ele ignorou o petitório. Então formalizaram queixa na delegacia de polícia. Com isso começaram a aparecer outras reclamações. Um queixou-se que ele havia atropelado por querer quatro galinhas. Outro dava conta que em dias de chuva ele fazia questão de passar por dentro das poças encharcando todo mundo. Outro reclamava da falta de horários. Outros ainda acusavam atrasos quando o motorista era o dono. E teve até passageiro reclamando que ele deixava embarcar animais como cabritos, bezerros e marrecos infernizando a vida de todos dentro do ônibus. Diziam que uma novilha enjoou e deixou uma fedentina insuportável. Daí não teve jeito, o delegado pediu que o homem não dirigisse mais o veículo. Mas ele se dizia injustiçado por se considerar um bom motorista; mas não era não.

Sábado, 25 de Outubro de 2008

UM CANDIDATO DE RESPEITO

Humberto Ilha

Aquele idoso havia sido o melhor prefeito da cidade. Como fizeram em eleições passadas, os notáveis da cidade se reuniram e decidiram apoiar-lhe a candidatura. Mas ele não queria ser reeleito.

O desejo de ser prefeito nascera-lhe de uma indignação, quando ainda jovem. Consta que tomou conhecimento do que vinha sendo feito com o dinheiro público. “É uma ladroeira que ninguém dá jeito”, dizia corajoso. Tanto que seu discurso base era não roubar para poder administrar. Agora velho, mas ainda topetudo, vivia dizendo que se merecesse a aprovação popular iria pavimentar cinco quilômetros de atoleiro, que alguns chamavam de estrada, somente com o dinheiro economizado do roubo. A estrada era um anseio comunitário prometido e nunca cumprido. Era uma obra necessária para escoar oitenta por cento da produção de cebola do município. Ninguém o levava a sério, mas ele insistia no plano.

De tanto perseverar acabou sendo procurado pelo grupo de pessoas nascidas ali, mas que morava em outras cidades. Era esse o tal grupo de notáveis que, diziam, decidia o rumo das eleições. Nos quadros figuravam médicos, magistrados, um ex-governador, professores universitários, um líder comunitário de avançada idade, dois generais da reserva e uma senadora da república. Eram pessoas de bem e por isso mereciam credibilidade da cidade. Em anos anteriores o grupo havia escolhido um critério de preferência: a capacidade intelectual. Pessoas estudadas eram mais aderentes a um plano de ética pública. Mas não adiantava; parece que, quanto mais inteligente, mais o ladrão sabia roubar.

Chamaram o velho para uma reunião e deram-lhe a chance de expor o plano que propalava nas ruas. Não era ele um homem que reunisse as melhores qualidades que o grupo buscava. Com palavras simples e às vezes mal pronunciadas, ele falou somente do plano geral que tinha em mente.
— Eu só prometo não deixar o dinheiro sumir. Com a economia vou levar a rodovia até as tifas das lavouras de cebola. Um dia depois de assumir o engenheiro começa a trabalhar na obra.
O grupo pediu que ele mencionasse a origem dos recursos; se pensava em aumentar os impostos. Mais uma vez ele foi claro.
— Vou acabar com o esquema de propina. Trabalhando com honestidade nas concorrências públicas vou baixar os custos dos bens e serviços que a prefeitura contrata. Não vou aceitar e não deixarei que peguem propinas durante a minha gestão. O controle do dinheiro passará por mim pessoalmente. Vou ficar com a chave do cofre em respeito ao povo.
O grupo suspendeu a reunião por meia hora e voltou com a decisão.
— Vamos dar ao senhor a oportunidade que tanto pede e vamos elege-lo — disse-lhe a senadora falando em nome do grupo.

A partir daquele dia o homem começou a se trajar totalmente de branco. E vestiu-se desse jeito até o dia da posse. Não gastou sequer um centavo com a própria campanha. O trabalho do grupo foi eficiente porque se multiplicou pelos seguidores e parentes, mas a mensagem de que o candidato estava de mãos limpas para servir foi definitiva para o resultado estrondoso das urnas. Fora uma mensagem como nunca ninguém viu. Só se falava no homem de branco.

No dia seguinte à posse, sua neta foi vista demarcando a área para a construção da rodovia prometida. Fixou o prazo de cem semanas para entregar a obra. Na inauguração, nada de foguetório. Entregou a estrada sem alardear e continuou trabalhando serenamente até a hora que o mesmo grupo veio pedir para reelegê-lo. Não quis mais o cargo; já havia feito o que lhe competia. Aconselhou que escolhessem outra pessoa que aceitasse trajar roupas brancas durante o mandato. Então o grupo solicitou que ele indicasse alguém. Relutou por causa do nepotismo, mas no fim foi convencido e indicou uma pessoa jovem e com pouca visibilidade na cidade: a engenheira da rodovia, sua neta.

No dia da posse da moça, ambos trajavam roupas brancas. Como se fosse um branco pontifício, comprometido com a honra e a ética que o cargo exigia.

DEU A CAÇAPA CANTADA NA BARRA

Humberto Ilha

Naquela noite houvera um bafafá medonho com um paulista, só porque usava vistoso chapéu branco de rodeio com as abas enroladas feito Rocky Lane. Rapazes da barra costumam provocar forasteiros atraídos pela beleza e paz da cidade. É nada disso, a violência campeia impune nas ruas. Nem se sabe mais se é caso de punição, pois o que se está reconhecendo é que os índices de criminalidade aumentam com a ampliação da injustiça social. O direito de ir-e-vir das pessoas estava sendo ignorado pelos moços da barra. É inegável a implicância de algumas pessoas com relação aos visitantes. A barra é comunidade fechada que se nega a entregar a virgindade por razões que nem sempre se entende. Abrir-se para o novo pode provocar insegurança e medo. E o medo faz coisas. Se não fosse a lojista reacionária, o turista seria muito machucado. A mulher, uma gaúcha, meteu-se no meio da briga e prometeu chamar a polícia a bem de pararem com aquela agressão. Mas o automóvel importado dele ficou bastante danificado de tanto coco que recebeu. Era apenas um psiquiatra que estava em férias contra um grupo local que passava dos limites. Melhor, era um bando de hienas sorridentes com as presas afiadas querendo guardar a praia e o verão que julgavam ser deles.

Os rapazes ainda estavam saboreando a vitória covarde, quando a atenção das pessoas ficou voltada para nova demonstração de intolerância. Dois gaúchos trajando bombachas e alpargatas mal iniciaram a matear fora da camionete estacionada de frente para a maresia, quando começaram a ser insultados. Os dois não deram importância para as chacotas até que escutaram o bufo do habitual coco se esborrachando na porta do carro. Foram conferir o estrago e pediram para que parassem. Um dos gaúchos, um cinqüentão chamado Gotardo, que se soube também tocava acordeona, quis falar mais alguma coisa, mas foi atingido por uma latinha cheia de cerveja que lhe abriu uma fossa enorme na cabeça. Em seguida, foi jogado no chão e agredido a pontapés até ficar em coma. O outro, um homem de Sarandi, conseguiu afastar os agressores e colocar meio jogado o amigo na caçamba da perua. Tinha pressa de seguir para a emergência do Hospital Universitário. Nem esboçou reação de bate-boca, pois só queria socorrer o ferido que sangrava muito. Furtivamente encarou cada um dos oito covardes. Sem movimentos bruscos embarcou no veículo avaliando o quanto aqueles rapazes eram malvados. Foram mais pontapés, palavrões e cocos, armas eficientes saídas da secura do verão. O forasteiro foi embora enquanto o bando proclamava vitória. Mas era só o começo do rebuliço, pois quase imediatamente ele voltou. Deixara o companheiro encaminhado para um cirurgião remover-lhe um coágulo no cérebro. Só que agora trouxe um reforço também bombachudo, o dono do carro e irmão da vítima. Os malfeitores de finais de semana passaram a hostilizá-los com mais veemência. Não o fariam se suspeitassem que o homem era um delegado de polícia acostumado a lidar com salteadores e assassinos. Os dois turistas desceram do carro amassado e o proprietário perguntou quem se responsabilizaria pelo estrago. Um dos valentes respondeu que não tinham visto nada e recomendou que eles fossem embora dali. Mas os dois vieram com um plano e imobilizaram o valentão que falara. Como num passe de mágica o delegado armou-se de uma pistola e colocou-a entre as pernas do rapaz. À vista daquela arma ameaçadora os demais fugiram como fogem os covardes. Então o policial disse que eles estavam se metendo com quem não conheciam. Que um gaúcho não admitia insultos; e que ele não gostava de cocos — matava a sede com chimarrão amargoso na losna — e que o chiru refém ia saber o que era ser perverso. Disse mais: que era obrigado a ensiná-lo da pior maneira, pois a lei da rua o obrigava assim proceder quando não sentisse necessidade de tirar a vida de um bicho sem mais préstimo. Dizia isso aos demais com a arma sempre encostada no corpudo, que chorava arrependimento inútil.

De repente um estampido forte, uma cápsula zunindo e o rapaz se contorcendo em desespero no chão; o tiro mutilou o futuro do que ainda era casto no moço topetudo da barra.

Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

UM ADEUS ENROSCADO

Humberto Ilha

Enquanto rezava junto ao corpo do amigo, Antônio Valadão acreditava que somente a prece dele tinha o poder de salvar aquela alma. Não poderia ter faltado ao velório para pedir em favor daquela alma tão cansada da luta que teve em vida. Sem a encomendação especial que sabia fazer, aquele homem não conseguiria bom descanso eterno. Sem o passaporte que sabia providenciar era provável que o morto fosse morar no rebordo do purgatório por bom tempo. Em vida tinha sido bom homem, obtendo créditos celestiais pelas virtudes que sempre cultivara. Mas esse prestígio de nada serviria se ele em pessoa não recomendasse aquela alma.

Olhou para os lados e deparou-se com o padre Aristeu rezando junto ao defunto. Por brevíssimo momento supôs que a prece do ministro fosse mais forte que a dele. E devia ser mesmo, pois trouxera os utensílios litúrgicos para a cerimônia: o aspersório, a estola roxa e a bíblia cheia de macetes, marcadores coloridos e até fecho ecler, parecendo o estojo de um violino raro. Mas depois, lembrando ter visto a atuação do padre na parada da diversidade, convenceu-se que seria ele, Valadão, a garantir ao finado as bem-aventuranças necessárias para triunfalmente entrar no paraíso. Afastou-se um pouco, fez-se triste junto aos familiares e, após longo recolhimento e conferência com o além, foi cumprimentar alguns conhecidos que não via há muito. “Há quanto tempo, fulano. É verdade, sicrano”. No momento em que se percebe como o tempo castigou o outro com rugas, manchas na pele e cabelos brancos, é que se vê como a gente também envelheceu. “Fazer o que? Antes velho do que vestir a mortalha”. Cumprimentando alguns deu de cara com um que havia sido seu subordinado numa empresa de ônibus. Estendeu-lhe a mão de maneira amistosa, mas o outro refugou. Havia uma rusga antiga que estava esquecida para Tonhão, mas não para o outro, que fora pego em flagrante roubando o dinheiro dos passes que vendia no guichê. O gatuno era ainda um jovem descabeçado, mas fora demitido com desonra. Fora exemplo aos demais para mostrar que o crime não compensava. Mas isso fora há trinta anos. Deveria tudo já estar esquecido, mas não estava.
— Como estás?
O outro olhou para a namorada e falou:
— É ruim, hein? Eu te conheço?
— Sou o Antônio, fui teu gerente na empresa de ônibus.
— Conheci lá um desgraçado que me botou no olho da rua. Eras tu?
— Que exagero, meu. Desgraçado, não.
— Deus é justo, cara. Hoje é o Nascimento, mas quem deveria estar esticado ali eras tu.
— Se Deus fosse justo tu é quem deverias estar ali. Só não estás ali deitado porque Deus é bom, ladrão de uma figa.
O outro levantou da cadeira sem cor no rosto: branco como vela de igreja, armou todo o corpo para o ataque. Antônio manteve-se calmo e arriscou:
— Que que é, vais me encarar?

O outro voou-lhe em cima e ambos foram cair sobre um biombo de pano preto junto ao caixão. Aquele anteparo móvel servia para isolar a câmara mortuária dos demais espaços profanos do ginásio, da lanchonete e dos banheiros. Sem nenhum respeito ao defunto os dois queriam brigar. Um deles parecia ter razão, o outro só queria esconder a vergonha que diante de todos. Engalfinhados, foram ao chão com os petrechos do velório: um par de velas acesas, um negro livro de condolências e uma coroa de flores do campo no cabide envernizado. O susto foi geral diante do estrondo. Ninguém acreditava no que estava se passando ali. Uma peleia num ambiente tão impróprio. Mas a cena mortuária se impôs, porque era preciso fazer força para deixar de ouvir o timbre da voz daquela câmara fatal. Uma voz que parecia a própria do falecido: “cambada de cachorros, vamos parar com essa encrenca no velório; vamos ter mais respeito e menos barulho”. Não havia como negar pelo menos isso ao dono daquela reunião lutuosa. Então os dois homens resolveram dar marcha à ré no instinto, pois que ali era local inadequado para uma vergonheira daquelas, e interromperam o pugilato. Nenhum dos dois saiu mais daquele ginásio coberto até que saísse a procissão com o finado na comissão de frente levado pelas mãos de seis nas alças prateadas. Os dois odientos pareciam duas crianças de fraldas estrumosas. Haviam levado, parecia, um pito do presunto que ainda sabia se impor diante de situações graves como aquela. Cada um no seu canto, com a turma do deixa disso na pacificação, ambos pareciam arrependidos, mas nem se olhavam fingindo que rezavam entristecidos. Mas as cabeças concebendo planos para um lugar chamado depois. Até o sepultamento um iria ficar com a orelha inchada e mascada pela dentada do outro; e o outro de olho inchado e vermelho pelo sopapo do um.

Imediatamente após o coveiro lacrar a carneira do finado, os dois retomaram o bate-boca com troca de insultos. Ainda concentrada na cerimônia a viúva dirigiu-se ao operário em tom gemente:
— Acabou?
— Acabou senhora, só falta agora calafetar as fuças desses dois aí — e despejou nos briguentos a colher de pedreiro cheia de massa.

Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

VIVI PACHECO, O SEDUTOR

Humberto Ilha

Quando questionado pelos colegas qual tipo de trabalho fazia na repartição, o bacharel Vivi Pacheco dizia que era um político e não estava obrigado a cumprir expediente. Que jogava no meio-de-campo, que era um articulador, um estrategista de estado e que não tinha satisfação para dar a ninguém. Mas era apenas um descansado que o amigo colunista chamava de boa praça e detetive da cidade. Posto ali em gratidão ao pai, que fora atleta, o homem só tinha cabeça para as mulheres. Sempre vestindo roupas diferenciadas e das melhores lojas, vivia mais empinado do que cavalo de circo, forcejando no contrapasso da cara muito mal-parecida. Contudo, não tinha culpa disso; coitado, era feio como um talho na bunda. Feio e vazio; mais que pastel de boteco. Só que era charmoso, bom e não conhecia a timidez. Se tivesse que falar com o governador mesmo sem agendar, ele dava um jeito e aparecia na frente do homem como quem sai do nada. Quantas vezes abriu as portas do palácio para aqueles que lhe tiravam sarro? Não sabia guardar rancor, dizia que era burrice. Para abordar uma garota na rua, caprichava no olhar dentro dos olhos dela e já mostrava logo o seu interesse. Quando ela se dava conta estava sorrindo para ele e falando em coisas tão diferentes de sedução que não percebia que aquela era a maneira dele seduzir. Primeiro ele cevava, cevava para depois fluir naturalmente para os lençóis de uma suíte de motel. Era-lhe proeminente um nariz que não sabia conviver com os óculos que possuía; por mais que tentasse, não havia Ray Ban que lhe caísse bem. Baixote e magrinho, o homem lembrava um beija-flor-da-mata: ave pequenina e de frágil aspecto que de repente aparece esvoaçante, melhorando o dia das pessoas. Quem observasse essa criaturinha, por certo conceberia o encanto residente em Vivi Pacheco, que também vivia de bater as invisíveis asinhas no ar para das pessoas extrair o doce. Ninguém se iluda ao buscar-lhe a perfeição que jamais possuiu. Como nas vezes em que, para impressionar, dava-se uma entonação arrogante na voz, como se fora carioca. Aí ficava horrível tê-lo por perto, porque fanhoso e falso como uísque paraguaio. Era um ilhéu da Crispim Mira e não conseguia representar nada melhor que isso. Educado e gentil, conhecia a dimensão do estrago que fazia nelas quando dizia sua melhor frase: “quero fazer você feliz”.

Escutar a respeito de suas conquistas era divertido porque também não escondia quando dava com os burros n'água. Como na vez em que abordou no corredor do Conselho Estadual uma deusa de enormes atributos.

— Procura alguém?
— O Andrade, meu ex-marido.
— Ainda não chegou... Aceita um cafezinho?
— Sim, obrigado.
No ir e vir com os dois copinhos de plástico queimando-lhe os dedos, um manual de artimanhas passava-lhe pela cabeça: "ex-esposa é legal; deve estar carente, a gostosa; que sorte a minha; easy, easy...”.
— Seu rosto não me é estranho, sabia?
— Mesmo? Olha só...
— Por acaso você é advogada?
— Sim.
"Você é um iluminado, cara" — quase falou alto.
— Será que conheço você da Ordem...?
— Quase nunca vou lá.
— Já sei, então conheço você do fórum — arriscou na certeza; qual o advogado vai negar nunca ter ido lá?
— Pode ser.
"Você é o cara" — exibiu-se para si mesmo.
— Em qual vara você atua?
— Fazenda Pública.
— Logo vi, sou Procurador da Fazenda.
— Trabalho lá e nunca vi o senhor.
"Senhor já é deboche", — pensou perdendo a potência, mas ainda vivo no jogo.
— Qual o seu cargo lá?
— Juíza de Direito.
— Humilhou... Quer dizer... Vou chamar o Andrade... Passar bem...

Sabia rir de si mesmo e isso já era virtude que se acha em poucos. Confessava não saber resistir aos encantos de mulher sensual; dessas que jogam charme, mas negam. Como a Glória da Assembléia, que era uma cobiça vinda das profundas do inferno. Era uma garota cara, mais que argentina nova na zona. Diferente das outras, não demorava mais que cinco segundos para se deter num homem e dele extrair os detalhes como altura, cor dos olhos, dentes, cabelos, roupas, sapatos, aliança no dedo, relógio barato, braços, peitoral, carteira, tatuagem e cor das meias; cinco segundos que as outras demoravam vinte. Um homem para assimilar isso tudo, levava quase dois minutos. Mas aí já era tarde, porque ela já largara na frente e não deixava o infeliz respirar direito.

Naquela tarde já havia notado que Vivi Pacheco a observava do outro lado da rua. Então ela se demorou observando com interesse vistosa blusa que estava em destaque na vitrine de luxo. Entrou e pediu para ver até deixar que o procurador percebesse-lhe o interesse na suéter encantada. Experimentou, serviu e mandou que o vendedor guardasse depois que ele disse o preço. Em seguida saiu e foi para dar conta do expediente fantasma. Vivi abordou o vendedor e perguntou o preço da blusa. A pancada foi tal que chegou a fechar os olhos.

— Tudo bem... Pode fazer em doze vezes no cartão? Se pode enleia para presente e manda agora na Assembléia com a mensagem que vou escrever.

Glória sorriu quando abriu a caixa e leu o que estava escrito.

— Que meigo, o cuitelinho.

O romance durou três meses e quase desmancha o casamento com a Zefa, que era como ele se referia à esposa que o amava.

Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

BONDADE AQUI? NÃO VAI CABER

Humberto Ilha

Nem sempre se ganha, mas às vezes é melhor perder que empatar. Adão Xadeco, motorista de coletivo, desfrutava o primeiro dia de férias. Não conseguia ficar em casa; parecia ter de sobra era vocação para a rua. Não dava à Conilda a mínima chance de ser o que queria ser: esposa. Era uma empregada que ele usava para todo ano tirar umas crias. Onze filhos encordoados, "todos perfeitinhos, graças a deus; mas dão muito trabalho à mãe". Além disso, ele tinha amante também no plural, mas isso quem dizia era ela com a voz dolorosa. Tirada do jugo do pai aos dezesseis, com trinta e seis Conilda estava sob o jugo do mandão. Ele até dente de ouro tinha, ela, coitada, perdera todos em favor da ninhada. Os dois filhos mais velhos já trabalhavam fora. A mocinha era faxineira do hospital, o rapaz vivia de engraxar sapatos, mas achava que vender esteiras de palha dava mais. Outros dois meninos anotavam jogo do bicho. O de doze vendia banana recheada, mas era roubado e apanhava freqüentemente dos marmanjos. Assim mesmo, todo o dinheirinho na mão da mãe, que lavava roupa para oito famílias. Só não passava porque Adão caprichosamente não deixava.

Viajando de passageiro queria estar perto do colega para ir conversando. Fácil de fazer amizade, vivia impecável e perfumado, como filho de barbeiro (velha alegoria que ele detestava). Tinha fama de conquistador fatal. De repente viu que uma mulher sentara-se ao seu lado e se encostara um pouco nas pernas dele. Bonita, deixava aparecer um pouco de si pela fenda da saia. Estudou-a de cima a baixo e olhou para o motorista que lhe deu uma piscadela pelo espelho. Queria saber onde a moça ia desembarcar; pois desceu defronte ao portão principal do cemitério municipal. Não parou, sequer hesitou; foi entrando e andando pelo meio dos jazigos. Adão ia desembarcar, mas o colega fez-lhe sinal para que não. Disse-lhe conhecer a moça e que era costume dela visitar aquele cemitério toda quarta feira às nove da noite; vinha rezar. Xadeco consultou o relógio e percebeu que era hoje.
— Será que vem?
— Com certeza.
— E como faço para ganhá-la?
Então o outro ensinou como fazer para o garanhão se dar bem.

Pelas nove horas estava lá esperando para ver se ela aparecia mesmo. Duvidou, mas ela veio. Desceu do ônibus e foi se esgueirando pelo meio das sepulturas com desembaraço. Xadeco deixou ela se acomodar e aproximou-se para encontrá-la ajoelhada diante de um túmulo na parte mais escura do cemitério. A misteriosa dama trajava longa capa negra com um capuz sobre a cabeça. Lembrando os conselhos do colega, o motorista se aproximou por trás e disse-lhe ser um peregrino que andava no mundo procurando o genuíno amor. A moça assentiu com a cabeça, pôs-se de pé e abriu a capa. Xadeco estremeceu, mas em seguida experimentou uma sensação de paz que o comoveu. Então, num travão de arrependimento, falou que não era um peregrino; que havia ficado louco por ela quando a conheceu no ônibus. A moça escutou-o atentamente e falou que também gostara muito dele, um homem alinhado e sedutor. Mas que ela não era aquela de quem ele falava. O motorista quis adivinhar quem ela era, mas não teve tempo. Sacando uma pistola a mulher obrigou-o a deitar-se no chão com as mãos para trás. Apareceu o colega do ônibus que lhe amarrou os pulsos com uma língua-de-sogra. "Um seqüestro" — pensou, e dormiu nas profundas do abismo para acordar sem os rins.

A esposa soube dos detalhes pela exposição da crônica policial e largou tudo para cuidar das sessões de hemodiálise do infiel. Adão Xadeco aguardava sem esperança um doador compatível quando os médicos descobriram nela a salvação dele. Conilda deixou que brotasse a rosa na vala podre. Deu-lhe um rim, negou-lhe o perdão suplicado e mandou-se.