<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111</id><updated>2012-01-28T11:03:55.905-08:00</updated><category term='Ponte Hercílio Luz'/><category term='laser'/><category term='Leonor de Barros'/><category term='ônibus'/><category term='humildade'/><category term='cavalaria'/><category term='regulamento'/><category term='leitura'/><category term='tatu'/><category term='índio'/><category term='moda'/><category term='roubo'/><category term='luzes'/><category term='mar'/><category term='Coruja'/><category term='Parque'/><category term='conto'/><category term='preconceito'/><category term='Marinha do Brasil'/><category term='natal'/><category term='II Guerra Mundial'/><category term='foto'/><category term='militar'/><category term='crime'/><category term='olimpíadas 2008'/><category term='bruno fontes'/><category term='mãe'/><category term='briga'/><category term='guarda-bandeira'/><category term='amizade'/><category term='coragem'/><category term='gardenal'/><category term='medalhas'/><category term='bondade'/><category term='medicina'/><category term='II GG'/><category term='vasco da gama'/><category term='engano'/><category term='cadeia'/><category term='U-513'/><category term='filhos'/><category term='Gruggenberger'/><category term='beira-mar'/><category term='escola'/><category term='florianópolis'/><category term='realidade'/><category term='cavalo'/><category term='respeito'/><category term='Lindolf Bell'/><category term='ladrão'/><category term='viagem'/><category term='meio ambiente'/><category term='soneto'/><category term='rural'/><category term='médicos'/><category term='amor'/><category term='Hoepcke'/><category term='casamento'/><category term='Manuel Bandeira'/><category term='palhaço'/><category term='Mário Quintana'/><category term='submarino'/><category term='delegado'/><category term='embriaguês'/><category term='policial'/><category term='marinha'/><category term='Antonieta de Barros'/><category term='bodas de ouro'/><category term='raiva'/><category term='releitura'/><category term='medo'/><category term='regata'/><category term='veleiro'/><category term='caçada'/><category term='xokleng'/><category term='banco de sangue'/><category term='luto'/><category term='assassino'/><category term='Dennis Radünz'/><category term='morte'/><category term='exército'/><category term='caridade'/><category term='paz'/><title type='text'>BLOG DO HUMBERTO ILHA</title><subtitle type='html'>"Machado de Assis é um velho sacana". (Regina Carvalho - escritora catarinense) Bem-vindos os que gostam de ler e escrever.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>75</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4919892160426861703</id><published>2011-11-14T18:04:00.000-08:00</published><updated>2011-11-24T03:28:40.550-08:00</updated><title type='text'>VIDA E MORTE NA RUA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#663366;"&gt;Quem há de se compor num quadro de indigência? Os da rua não compreendem o que lhes está posto. Na democracia um mendigo não trabalha e no capitalismo, só atrapalha. Ao próprio corpo, o indigente desobriga zelo. É um frágil. Sentado na melhor esquina da cidade, vindica a caridade. O “Tenho Fome” estampado na caixa ao chão molhado, recebe o que julga seu tributo: a esmola. Sobre feixe de escoras podres, segura com as duas mãos o guarda-chuva do lixo que estampa o brilho do restaurante “Doce Vida”. Ali, símil àquele patrimônio de varões quebrados, torna-se um escasso que a ventania se esforça em derrubar. Pelo jeito comprou o tempo, para ter tempo de ali estar governando o nada. O estômago contrai, quando os desbotados olhos rapinam despojos no saco de lixo eviscerado. A boca, num cacoete de secreções inevitáveis, é quase uma felicidade. Esta vem mais tarde, quando metade do saco revela-se digerível. No meio da chuva, ninguém lhe passa perto. E se lhe ocorre a cena, fica transparente de não se ver.&lt;br /&gt;Mas a dor também explode no poste em frente. Um corpo de mulher lhe veio aos pés já sem cor de vida e voltou a respirar profundo depois que ele pulou no inferno e lhe deu o ar de vida com seu ar de pinga. Fora de risco, foi levada pela ambulância faiscante. À tarde, ela parou na esquina para confessar-lhe carinho. Não teve coragem. Nauseada, deixou por isso mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4919892160426861703?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4919892160426861703/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4919892160426861703' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4919892160426861703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4919892160426861703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2011/11/pais-rico-e-pais-sem-miseria.html' title='VIDA E MORTE NA RUA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-8692152300079690091</id><published>2010-05-26T08:10:00.000-07:00</published><updated>2011-10-13T06:35:12.082-07:00</updated><title type='text'>Tá no sangue</title><content type='html'>Preso em flagrante, o abatido homem diz ao delegado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ainda criança eu fazia o reconhecimento no quintal dos vizinhos. Era um bisbilhoteiro que se encantava com os pertences dos outros. Um dia, brincando nos fundos de uma oficina mecânica, encontrei um par de óculos de sol. Fui correndo entregar a minha mãe, que logo quis saber onde eu havia encontrado o objeto. “Ali, no matinho da mamona”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No momento em que confessa, lágrimas molham-lhe as faces. E continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Percebi que mamãe quis ir à oficina entregar o objeto, mas achou melhor entregá-lo ao meu pai para, ele sim que era homem, devolver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O preso dizia que, para ele, aquilo era uma preciosidade, mesmo tratando-se de um óculos para adultos. Novinho em folha, armação dourada, o modelo era usado pelos pilotos da Força Aérea americana. As lentes verdes tinham a qualidade de refletir com exatidão o encanto que era o esboço das nuvens, do mar e das aves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Meu pai escutou com interesse o relato de minha mãe. Depois olhou os óculos de todos os ângulos. No final, colocou-o sobre o nariz. Todos rirmos satisfeitos. Inclusive ele, que não tinha a noção moral do “achado tem que devolver ao dono”.&lt;br /&gt;Disse-lhe o policial:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Seu pai devia ter ido procurar o dono da oficina e devolver o que você achara dentro do quintal alheio. Ele acomodou a cobiça para o mal. E o maior estrago foi feito em você, que estava em formação. Dizer que uma criança de quatro anos não observa essas coisas é ingenuidade; pois ela já o percebe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem continuou a depor, mas a escrivã parou de registrar o depoimento tão comovida ficou. Traçava um paralelo entre aquele homem e os próprios filhos pequenos. E o preso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Anos depois, furtei dinheiro de uma senhora que visitava nossa casa. Sabia a dimensão do delito, mas já estava insensível ao drama alheio. Quando a mulher sentiu a falta, foi direto numa velhinha que adivinhava as coisas: Dona Jozima. “Foi um menino de uns dez anos, loirinho, crespo e filho de uma que está presente na sala”. Todos olharam para a minha mãe. “Mandem buscar o menino, que ainda não gastou o dinheiro”, dizia a mãe de santo. “Não quero saber de nada, — dizia eu, já detido — achei o dinheiro enterrado no lixo da oficina”. A mesma oficina mecânica onde achara os óculos de luxo. Todos riam do meu ridículo álibi, menos eu, convincente. Tomei uma surra de vara. Era muita vergonha para a minha mãe. Era como se ela estivesse sendo acusada daquela fraude. Mas o certo é que ela era quem deveria ser punida por me haver iniciado naquele primeiro delito infantil dos óculos. Eu não tinha noção do erro, mas ela e o meu pai sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem disse confessar porque precisa ser humilde e ir até a beira do abismo para mais da vida aprender. E concluiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Depois de velho, furtei esta moto que bem podia comprar. Mas parece que estou condenado a aprender somente quando visito o medo e o estresse do desmoronamento interior. Quanto sofrimento poderia ser evitado se mais honra e compaixão houvesse na minha infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então a escrivã chorou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-8692152300079690091?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/8692152300079690091/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=8692152300079690091' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8692152300079690091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8692152300079690091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2010/05/bomba-de-retardo.html' title='Tá no sangue'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1505999308002162006</id><published>2010-04-30T14:15:00.000-07:00</published><updated>2010-04-30T14:20:19.017-07:00</updated><title type='text'>Luva de Prata</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;color:#333333;"&gt;Nunca entrei naquele açougue, minha mãe proibiu. Mas escutei meu vizinho relatando a história daquele abatedouro encantado. A mãe dele mandava-o para acompanhar o pai. Era mentira do Felipe? Não era, não podia ser. Um adolescente já percebe esse tipo de falcatrua. Ele via a verdade estampada nas caras dos homens, que dali saiam abraçados aos pacotes a lhes mancharem as camisas.&lt;br /&gt;Estava estampado acima da porta o nome do estabelecimento, "Açougue e Matadouro Rei Artur", nome que a esposa do proprietário detestava. Não pelo "matadouro", que lhe trazia antigas e estimulantes lembranças, mas "Rei Artur, tenha a santa paciência”! O homem explicava que era o nome do avô, Artur, um cara namorador, rei da noite.&lt;br /&gt;Cedo ele abria as portas mágicas do estabelecimento, mas ela só aparecia depois, toda maquiada e dentro de um macacão branco colado à pele. Branco, por exigência da Vigilância Sanitária. Colado ao corpo, pela ditadura do apelo sensual.&lt;br /&gt;Havia certa semelhança com a preparação de uma peça de teatro. Os funcionários de palco, o bilheteiro, o porteiro, o diretor, a orquestra, todos chegam mais cedo, mas a atriz principal chega por último com o prestígio do talento.&lt;br /&gt;Os fregueses adoravam o cenário montado pelas peças de carnes penduradas nos ganchos de aço. Dispostos cuidadosamente sobre a mesa, as facas de carnear e desossar. A serra pendurada na parede perdia a gravidade da função porque todos sabiam que somente seria tocada por ela, a artista cobiçada.&lt;br /&gt;Na hora certa ela chegava e quase ignorava o marido, mesmo quando recebia dele um cumprimento afetuoso. Voluptuosa, calçava a mão direita com uma luva de aço. Era hora de entrar em cena e faturar. Nela, a luva ficava como se fosse de prata, tal o jeito que tinha de calçá-la, tal o movimento das pequenas mãos. A platéia já se espremendo para ser atendida. Eu dizia para a minha mãe que eles queriam era ver o desempenho dela. “Vagabunda”, respondia ela.&lt;br /&gt;O proprietário bem sabia por que seus fregueses eram homens. E todos gentis, pois cediam sempre a vez uns aos outros. Sabia que os açougues eram estabelecimentos em extinção, a não ser que agregassem serviço. Mas nada de jogo do bicho ou televisão. Tinha a visão para algo mais terminante, nevrálgico, infalível. Por isso ele a colocou a trabalhar ali. Mulher dentro de açougue era coisa que não se via. Depois, a vocação dela não poderia se perder sem render algum. Ainda mais que renegava a casa; principalmente o fogão. Não se reconhecia nessa situação. Dizia que não se tratava de uma qualquer.&lt;br /&gt;— Por que continua fazendo isso comigo, querida? Ensinei tudo a você...&lt;br /&gt;— Já lhe respondi: homem nenhum me abafa e me basta.&lt;br /&gt;— Mas precisa três, além de mim?&lt;br /&gt;— Você eu nem conto. Um dia eu lhe disse que só tinha compromisso com a minha vontade. Sou autêntica, você me quis assim quando me tirou do Vip Drink.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1505999308002162006?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1505999308002162006/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1505999308002162006' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1505999308002162006'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1505999308002162006'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2010/04/luva-de-prata.html' title='Luva de Prata'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-226547096995127107</id><published>2010-03-24T05:56:00.000-07:00</published><updated>2010-03-24T06:08:49.853-07:00</updated><title type='text'>Um amor complicado</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;color:#000000;"&gt;Por certo a decisão que tomara fora amadurecida pelo tempo. Provável que pesasse as conseqüências: exonerar-se da vida e arder no inferno, porque salvar-se não ia não. Mas um suicida de verdade surpreende a todos. Nunca ameaça; vai lá e se mata. Simples assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o marido soube, a primeira coisa que cismou foi na coragem dela ao jogar-se da ponte com um frio daqueles no meio da noite escura. Ele julgava saber a extensão do desgosto que dava a ela. Mas jogar-se da ponte com aquele frio? E se pegasse uma gripe? Jamais Eduardo soube a essência do que residia no coração dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maternidade alterou-lhe os fios do coração; amadureceu-lhe o espírito de jeito terminante. Ao deixar-se ficar mãe, aquela mulher foi de carona com o vento para o fundo do abismo. E gostava de ficar lá. Ele, parece, ficava na beirada querendo entender o quadro. Para se indultar, dizia que ela adorava voar e que gostava de emoções fortes. Que nada! Se ela bobeasse ele a empurrava de um rochedo sem remorso. Quem gosta de emoções desse tipo é ele. Quem gosta de veneno na veia é ele. Quem alberga o apetite voraz pela desgraceira é somente ele. Deveria ir lá também para ver onde mora o peso nas costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca se viu um marido se jogar com a esposa no vazio do céu, onde está a consumição das noites mal dormidas, o tremor da febre, o sonho falido, o silêncio diante da sombra. Muito menos o Edu faria isso. Ela não enxergava recurso para aquele tormento. Parecia um cachorro ao lado daquele homem. Eduardo dizia que ela o obedecia porque ele era o deus dela. Dela e de mais umas três. Ao ver o que via, minha ternura por ela aumentava. Era uma mulher de alma guerreira com as cicatrizes das batalhas, que eram mais luminosas que suas tatuagens de sensualidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante uma hora, pedi que não se atirasse. Mas não teve jeito, lançou-se no vazio quando descuidei um pouco. Então me joguei atrás. Senti que o mar ia ser de concreto duro e que tudo ia se acabar num já. Mas durante o vôo, desejei que a água bem pudesse abrir-se em boca para acolher o desatino. A água cada vez mais perto, até sentir as costas como que se partindo em dois pedaços. Ela afundou e voltou à superfície com o vestido comprido cheio de ar em balonê. Encontrei-a flutuando, mas sabia que era por pouco tempo. Segurei-a por trás e nadei uns trinta metros até a praia. Eu bufava de cansaço e pedia para ela ajudar com as pernas, num quase grito dentro do ouvido. Tal foi o desespero na minha voz, que ela começou a bater os pés com vigor. Puxei-a para o raso com o resto das minhas forças. Deitamos em nossa praia, em nossa areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Era a madrinha, mãe — noticiei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, somente as duas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Caí da ponte, comadre.&lt;br /&gt;— O Toninho viu tudo, a comadre se jogou.&lt;br /&gt;— Ainda bem que o Toninho me salvou. Como foi aparecer naquela hora?&lt;br /&gt;— A comadre sabe muito bem como ele apareceu ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por muito pouco, meus filhos não perderam a mãe. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-226547096995127107?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/226547096995127107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=226547096995127107' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/226547096995127107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/226547096995127107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2010/03/um-amor-complicado.html' title='Um amor complicado'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-2279748898593006913</id><published>2010-02-25T18:21:00.000-08:00</published><updated>2010-02-25T18:25:42.279-08:00</updated><title type='text'>Fé na hora de voar</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;font-size:130%;"&gt;Anos atrás todos sofreram com um drama mostrado na televisão. Depois de se amarrar bem amarrado num amontoado de balões de aniversário e começar a ganhar o endereço do céu, o padre Adelir de Carli largou a mão dos cordames e começou a fazer o sinal da cruz no ar, retribuindo os votos de “vai com Deus” da multidão, que dele foi se despedir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Ele está no meio de nós... Ele está no meio de nós... — respondia às jaculatórias que o povo lhe endereçava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aventura mal planejada colocou em sério risco a vida do religioso. Tentou fazer um curso de balonismo que não concluíra. Teimoso, queria voar. No dia marcado estava lá todo empinado, igual cavalo de circo. Alguém lembrou de lhe colocar num bolso um telefone celular global, desses via satélite que também acabam a bateria. Mas levou um GPS que não sabia usar. Confiou na providência celestial e não se preparou para voar por aqui. Encheu-se o coração de Deus para fazer uma diabrura desautorizada: voar como o padre Bartolomeu de Gusmão. Só que aquele era um bom piloto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adelir desejava ir para o Mato Grosso e foi parar no Rio de Janeiro. Lá chegou sem préstimo algum para esta vida. Deu um exemplo de como não se deve brincar de desafiar os dois maiores abismos deste mundo: o céu e o mar. Tenho receio quando vejo festivais religiosos e romarias. Parece que acabam sempre em tragédias. Ao acomodar-se no meio daquelas bolas o padre alojou-se no meio de uma fé insolente para hoje não mais existir entre nós. Acabou recebendo o prêmio Darwin pela maneira estúpida como acabou com a própria vida. Deveria merecer comenda mais séria pela luta em favor dos desassistidos das ruas de Paranaguá que morrem nas unhas de grupos de extermínio e dos traficantes de drogas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos antes, numa Palhoça inundada, também se viu exemplo de fé absurda num fiel evangélico. Quase se matou e à própria família quando também decidiu voar “em o nome do Senhor Jesus”. Vinha ele dirigindo seu carro pela alagada Capitão Augusto Vidal quando, na altura da ponte de pedra levada pela enxurrada, a esposa mandou que parasse porque não havia mais ponte. Num ato de fé petulante respondeu que ia fazer a travessia porque confiava na providência divina. Estatelou-se lá embaixo. Jurou abandonar a igreja ali mesmo dentro da vala. Sua Brasília foi arrastada um bom pedaço e ele quase complica a vida da esposa e dos filhos. O rapaz também misturava muito as coisas do céu com as coisas da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caramba, parece que voar é a pulsão mais escolhida quando se põe a fé para trabalhar. Por certo é o poder mais bacana que existe. Eu mesmo já voei diversas vezes, mas sempre com a ajuda do cartão de crédito.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-2279748898593006913?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/2279748898593006913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=2279748898593006913' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2279748898593006913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2279748898593006913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2010/02/fe-na-hora-de-voar.html' title='Fé na hora de voar'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-8050346277357698232</id><published>2010-01-13T05:30:00.000-08:00</published><updated>2010-01-27T05:45:34.938-08:00</updated><title type='text'>O sequestro do ônibus 1274</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;Os que levam a vida resistindo às tentações do trabalho desonesto, nunca esperam se envolver em cenas criminosas. Pois dois trabalhadores, Roberto Carlos Ouriques e Marci Alberes Córdova de Jesus, motorista e cobrador de ônibus, são desses que zelam pela dignidade de suas funções e foram vítimas de um seqüestro.&lt;br /&gt;Trabalharam na tarde do último domingo e foram até quase meia-noite fazendo o que muitos de nós se nega: trabalhar, ao invés de descansar. Na última viagem apareceu um passageiro empoleirado na convicção da impunidade e seqüestrou, sob ameaça, um utilitário da comunidade: o ônibus 1274. Menos mal se levasse tão somente o ônibus. Levou sob ameaça dois que ralavam no domingo enquanto ele, Valmir Florentino da Costa vagabundeava sem receio da segunda-feira, que é dia de trabalho para a maioria de nós.&lt;br /&gt;Sabia impostar a voz criminosa e fria para dizer ao motorista: "Se tu parar, tu morre". Ninguém deveria fazer uma ameaça dessas sem arcar com as conseqüências daí advindas. Seqüestro é tipificado como crime, pela nossa legislação. E crime que o legislador entendeu merecer maior reprovação por parte do Estado. É crime de gravidade acentuada, pelo potencial ofensivo.&lt;br /&gt;Para controlar somente um, o sequestrador dispensou o cobrador, que comunicou o fato à polícia civil de Palhoça. Foi sorte, mas o motorista ainda era refém do mal. A polícia civil e militar desencadeou um plano para neutralizar a ameaça com preservação de vidas (inteligente, isso). Armaram uma barreira na entrada da ponte Pedro Ivo, em Florianópolis. O aparato policial assustou os dois ocupantes do ônibus 1274.&lt;br /&gt;Ambos acharam que iam morrer ali. As miras das armas já estavam ajustadas. O sequestrador percebeu a gravidade da situação e exigiu se entregar à maior autoridade policial militar do Estado. Exigiu ainda um colete à prova de balas. Deu os passos que os criminosos sabem dar. O motorista só se lembrou da família e agarrou-se com Deus, mas ainda não se recuperou do trauma. O criminoso preferiu o abraço do coronel Eliésio Rodrigues, que negociou a rendição. Fez mais: ajudou o delinquente a se acomodar algemado no camburão. Devolveu-lhe uma carteira de couro marrom, mas o prendeu em flagrante por roubo. Nem teve tempo para o pobre do motorista. Meu receio é que algum pavão faça a defesa desse comportamento criminoso com a tese do conhecido “distúrbio mental”. Nada disso. Não há que diminuir o feito grave para defender o indefensável. Somente cabe a defesa contra os excessos da justiça, se houver. Defesa não é abrandamento, quando justa a sentença.  Trata-se aqui de criminalidade intencional, portanto consciente. “A associação entre doença mental e violência, ao menos na intensidade em que tem sido noticiada, não tem base real”, afirma o especialista Wagner F. Gattaz, professor titular e chefe do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Justiça, senhores, por favor. O caso é grave. Mas que tem gente que vai jogar no pavão, isso tem...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-8050346277357698232?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/8050346277357698232/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=8050346277357698232' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8050346277357698232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8050346277357698232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2010/01/o-sequestro-do-onibus-1274.html' title='O sequestro do ônibus 1274'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7660571648889189963</id><published>2009-12-05T17:51:00.000-08:00</published><updated>2009-12-05T17:58:31.869-08:00</updated><title type='text'>Um urubu de Palhoça</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;color:#333333;"&gt;O que era certo é que a ave passava pelo meu quintal uma vez por mês deixando no céu um sentimento de mau agouro. Penso que era por causa do seu estranho paladar: comia o lixo do mundo. Quando chegava, fazia pouso em cima de um poste. Então eu concebia que me cumprimentava de longe. Dali, voava na direção do INPS do Estreito para receber a aposentadoria a que todos têm direito depois da Constituição de 1988. Não chegava a falar, é claro, mas grasnava e dava para entender que de lá ia passar no Ribeirão da Ilha, pois que tinha uma namorada da mesma idade; quase cem anos. Antes de sair de casa já tomava um comprimido azul para não ser surpreendido pelo fantasma da inoperância. Ficava todo agitado, cuspia na esposa e ia para o abraço pensando: “o que vier eu encaixo”. Nem usava proteção porque urubu não é hospedeiro do malvado HIV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia ele caiu do poste e foi parar no meu gramado se batendo. Fui acudir e vi que respirava com dificuldade. Havia também um pequeno sangramento embaixo da asa. Pensei em levar o bicho para o veterinário, mas me dei conta do absurdo preconceito. O que as pessoas não iriam falar de mim, vendo-me entrando porta a dentro aflito com um urubu nos braços? Fazer respiração boca a boca estava descartado. Não suporto bafo azedo. Fiquei penalizado com a situação da ave e tentei com ela falar. Olhei diretamente em seus olhos, como Deus costuma fazer conosco, e perguntei como poderia ajudá-la. Quando digo isso ninguém crê, mas o urubu pediu para deixá-lo descansar um pouco, pois havia acabado de doar sangue no laboratório do Ministério da Agricultura. Deixei-o numa sombra e fui ao Banco, na certeza de que partiria em seguida. Ao voltar, vi que ele estava lá de olhos arregalados esperando por mim. Deu-me a impressão de que falou que não podia voar; que estava traumatizado com a queda e que perdera a coragem. Peguei-o entre minhas mãos, e falei bem perto dele: “Você pode voar; você vai voar; você precisa voar”. Coloquei-o no chão e bati palmas gritando: “Vai; vai”. O bicho olhou para mim, virou o bico para saber a direção do vento e levantou o desarrumado vôo de volta para casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7660571648889189963?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7660571648889189963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7660571648889189963' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7660571648889189963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7660571648889189963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/12/um-urubu-de-palhoca.html' title='Um urubu de Palhoça'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-8274779715394683739</id><published>2009-11-04T05:45:00.000-08:00</published><updated>2009-12-05T17:59:37.792-08:00</updated><title type='text'>QUEM ATIROU EM PITUCA?</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333333;"&gt;&lt;strong&gt;A veterana cadela Pituca obedeceu ao comando recebido de ir para o meio da rua. “Passa, vá mais prá lá!” Era ordem vinda de gente conhecida; dois agentes da Penitenciária de São Pedro de Alcântara. Portanto, não havia porque não obedecer. Mas a coitada nem chegou a se distanciar cinco metros. Recebeu vários balaços nas costas e ficou agonizando a noite toda. Decerto ficou surpresa diante da agressão à falsa fé. Com certeza olhou para os bandidos, sim, porque isso é coisa de bandidos, e num fiapo de voz perguntou igual Michael Jackson ao repórter inquisidor que o massacrava com perguntas íntimas: “Por que você está fazendo isso comigo?” Ou talvez dissesse aos dois anjos negros: “Se isso vos dá intenso gozo, tirai-me a vida, muito embora não ma destes. Nem vos compreendeis ainda. Haveis de, nalgum dia, padecerdes no meu lugar. Não para aplacar-me a vingança, pois que dela não me valho. Mas para que aprendais o valor das coisas no universo. Para que conheçais a essência da piedade e a grandeza do espírito. Para que aprendais, sozinhos e na dor, a tirardes vossas almas das trevas. Para que vos seja tudo mostrado, o grande e o pequeno, o primeiro e o último, e tudo aquilo que se encontra no meio. Para conhecerdes, ainda neste mundo, o infinito da matéria, a imensidão da natureza, os céus, as terras, os mares e suas ondas. Para aprenderdes a ser úteis e felizes. Senão, morrereis com muita carne e pouco espírito”. Isso parece discurso de tribuno ou poeta, mas bem poderia ser o discurso interno de todos nós para a defesa das pessoas e dos tutelados animais. Isso que eles cometeram é crime tipificado na Lei Federal de Proteção aos Animais vigente há mais de setenta e cinco anos.&lt;br /&gt;Uma coisa dessas só pode vir da arrogância milenar e até bíblica de achar que o homem é superior aos animais e deles pode se servir como bem quiser. Diminuir a população de cães nunca deu certo pelo viés do sacrifício, que é sempre agonizante. Em médio prazo o melhor é controlar a população canina pela via da esterilização, dizem os técnicos em zoonose.&lt;br /&gt;Encontrada no dia seguinte agonizando, Pituca agora vive graças à compaixão de um médico veterinário (Marcelo Fricki, de São José) que lutou em favor do bicho durante quatro horas de cirurgia. As balas entraram pelas costas, atravessaram o corpo frágil e saíram pelo ventre do bichinho. Isso está dificultando a investigação da Secretaria de Justiça e Cidadania. Nem precisa, pois todos na comovida comunidade carcerária já conhecem a autoria. Uns crápulas desses e suas proezas abomináveis deixam rastros de horror até nos corredores do inferno.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-8274779715394683739?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/8274779715394683739/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=8274779715394683739' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8274779715394683739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8274779715394683739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/11/quem-atirou-em-pituca.html' title='QUEM ATIROU EM PITUCA?'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-111979387121696831</id><published>2009-10-08T10:26:00.000-07:00</published><updated>2009-10-08T21:04:29.322-07:00</updated><title type='text'>FIDELIDADE CONJUGAL</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Zé Negueta costumava chegar em casa embriagado toda santa noite. Não era de dar trabalho à esposa. Mas lá um dia estalava na cabeça que devia se negar a tomar banho, trocar de roupa, jantar e escovar os dentes. Queria somente se jogar na cama e dormir. Quando muito a mulher conseguia trocar-lhe a roupa, mas também nem xixi fazia. “Diacho, eu toda perfumada e ele fedendo dessa maneira”. Às vezes rolava um bate-boca e ela dizia estar no limite. A única coisa que mantinha o casamento era a fidelidade dele. Sim, porque não havia a mínima suspeita de infidelidade. Ah, isso Negueta jurava de mãos postas que nunca acontecera; a traição. Mais a mais, essa havia sido a única exigência que ela lhe fizera: quando fora de casa só podia abrir a bragueta para o xixi nosso de cada dia. Coisa difícil de cumprir, mas não para ele. Também nunca levantou a mão para agredir a companheira. Podia estar torrado, mas não se via nele a fraca intenção de ferir os ditames da lei Maria da Penha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tanto beber, o médico dizia que o cérebro dele estava diminuindo tirando-lhe a capacidade de raciocinar com clareza. Daí que alguns mais engraçados diziam que permanecia no casamento porque ele não pensava mais direito. Mas Negueta dizia que amava a esposa de verdade. Dúvidas quanto a esse amor bandido revoluteavam na cabeça dela. Pelo sim e pelo não, ia agüentando a união. “Quando está são ele é um homem bom”. Mas também não se lembrava direito a última vez que o vira lúcido. Se quisesse ela saía do casamento ou dava-lhe uma camaçada de pau, porque grande e mais forte que ele ela era. Os filhos viviam monitorando o pai para não verem o casamento dos dois ruir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite Negueta voltou do futebol totalmente gambá e, como sempre fazia, ela cuidou dele pondo-o na cama. Mas naquela noite não conseguiu sequer lavar-lhe os pés e trocar-lhe a roupa por um pijama. Negueta ficou contrariado como gato no cabresto e resmungou muito. Ela então o deixou dormindo sozinho todo enrolado nas cobertas como um pacote de despacho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte saiu cedo para trabalhar, não sem antes deixar-lhe um bilhete romântico: que o amava, que ele era definitivamente o homem da vida dela. Zé Negueta quis saber dos filhos o porquê daquilo. Soube que a mulher estava trocando-lhe a roupa quando ele começou a falar com voz contrariada:&lt;br /&gt;— Não faça isso moça, eu sou casado e amo minha esposa. Não vou deixar que tire minha roupa; nunca fiz isso e não vou fazer agora. Não vou trair minha esposa. Sai fora, por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Negueta ficou bonito na foto e salvou o casamento.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-111979387121696831?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/111979387121696831/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=111979387121696831' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/111979387121696831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/111979387121696831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/10/fidelidade-conjugal.html' title='FIDELIDADE CONJUGAL'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7667390629817223380</id><published>2009-09-09T11:28:00.000-07:00</published><updated>2009-11-10T13:19:39.066-08:00</updated><title type='text'>MAL AGRADECIDO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333333;"&gt;Rochinha era dono da farmácia ao lado do Teatro. Um dia apareceu lá um fiscal do Estado que não queria comprar nada. Queria multar o estabelecimento porque havia indícios de irregularidade na escrita fiscal. O funcionário havia dedicado boa parte do mês para proceder e finalizar os passos protocolares para a conclusão da autuação fiscal. O salário até hoje ainda é na base das multas emitidas. Significa dizer: sem multar o servidor não recebe a remuneração mensal. O auditor explicou a metodologia do ato fiscal, na esperança que Valdemar Rocha assinasse a notificação porque já era o último dia do mês. Mais de dois terços do salário do fiscal estavam nas multas daquela farmácia. Tudo o que ele mais queria era o ciente do comerciante para sentir-se um pouco menos angustiado. Foi aí que o empresário engrossou o mingau.&lt;br /&gt;— Você me explicou tudo direitinho, mas não vou assinar esse documento.&lt;br /&gt;— Tem dó, Rocha? Você é um homem esclarecido. Sua esposa é professora universitária. Não complica mais as coisas. Assina isso antes que a gente se aborreça.&lt;br /&gt;— Está me ameaçando? Só assino depois que meu Contador ler a notificação.&lt;br /&gt;— Rocha, só quero o ciente no documento. Você não precisa concordar. Se quiser pode recorrer ao Conselho Estadual de Contribuintes. Tem trinta dias de prazo para tanto.&lt;br /&gt;— Não vou assinar, desculpe.&lt;br /&gt;— Você é um mal agradecido que está de má fé, bem podia ter trazido o contador.&lt;br /&gt;O fiscal estava sentindo que o salário daquele mês ia ser baixo pela primeira vez em sua vida. De nada valiam os argumentos para o outro que maliciosamente queria ganhar tempo e judiar do fiscal. Então concordaram em ir ao escritório do contador, que era no centro da cidade. O empresário entrou e deixou o servidor público tomando um chá de cadeira de quase duas horas entremeados de cafezinhos e recadinhos de que o doutor Fulano não demoraria em atendê-lo. Esse doutor era amigo, vizinho do fiscal na praia e irmão de loja maçônica. O jeito era fazer-se humilde, desde que arrancasse naquele dia o ciente do proprietário e ainda cadastrasse a notificação no Centro de Informática do Estado. Caso contrário não ganharia o que estava acostumado para fazer frente às despesas mensais, que não eram poucas. Finalmente foi mandado entrar no gabinete luxuoso do Contador. Não viu a amizade costumeira de outros dias, não. Só a dureza da face grave como se estivesse diante de um acordo nuclear. O comerciante começou a crescer para cima do fiscal.&lt;br /&gt;— O Estado só quer tributar, ajudar que é bom? De jeito nenhum.&lt;br /&gt;— Rocha, não sou eu quem cria a Lei. Também sou mandado, amigo. Se você analisar vai perceber que fui leve.&lt;br /&gt;— Você está levando o automóvel que acabei de comprar para o meu filho.&lt;br /&gt;Então deu no fiscal a vontade de dizer que ia refazer o ato com piores conseqüências para o comerciante. Mas isso era o mesmo que admitir haver trabalhado errado. Num derradeiro fiapo de recurso dirigiu-se ao microempresário quase em súplica:&lt;br /&gt;— Rochinha, assina isso de uma vez. Vai ser bom para você...&lt;br /&gt;O homem parece que vislumbrou algo estranho contido naquelas palavras. Sabia que estava colocando o dedo na tomada, mas assinou direitinho. (Vai ser bom prá você...).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7667390629817223380?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7667390629817223380/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7667390629817223380' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7667390629817223380'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7667390629817223380'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/09/mal-agradecido.html' title='MAL AGRADECIDO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-2378865532513826957</id><published>2009-08-11T21:26:00.000-07:00</published><updated>2009-11-10T13:23:21.265-08:00</updated><title type='text'>OS NEGROS E AS QUOTAS MALDITAS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#000000;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Humberto Ilha (2003)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#000000;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#000000;"&gt;Levei uma vida inteira, aqui no sul do Brasil, trabalhando, vendo, lendo e escutando uma bagaceira de conceitos sobre o negro brasileiro. Agora vem o governador do Estado do Rio de Janeiro, Antony Garotinho, através de um Decreto garantir 40% das vagas aos negros nas duas Universidades daquele Estado. Está feita a encrenca. Isso ainda vai acabar prejudicando os negros. Sabe aquele amigo que olha prá você de cima em baixo e diz: vou orar por você? Pois é. Tem gente que com isso arruma muita complicação no céu. Quem é esse tal que se julga com poder para rezar por alguém? Ele que vá orar por ele, bolas. Estou dizendo: os negros ainda vão se complicar.&lt;br /&gt;Intelectuais de lambança estão polemizando a medida. Invocam a força da Carta Magna. Invocam a aplicação da justiça meritória, como sempre se fez nas universidades públicas brasileiras. Invocam a necessidade de uma completa reformulação no ensino brasileiro. Ora, não falemos aqui de justiça senão temos que deixar de dormir o resto de nossas vidas até que haja o resgate social das pessoas seqüestradas de suas aldeias e enfiadas mato adentro por esse Brasil a trabalhar de sol a sol sem direito sequer à vida, quanto mais à dignidade. Se é para falar em justiça, então vamos invocar o discurso do Padre Antônio Vieira: “A justiça nem ao diabo se há de negar”. Não falemos na utopia da reforma do ensino porque vai levar cem anos para ser concluída. O caso aqui é de pronto-socorro mesmo. O doente vai morrer se não receber atendimento de emergência. Falar em discriminação racial agora é cretinice.&lt;br /&gt;Sabemos que a inclusão social é uma necessidade em âmbito nacional. Quem não sabe disso? E por que não se a faz de uma vez? Porque não interessa à minoria dominante. Os negros na América só levaram ferro a vida inteira. Hoje o que vemos na maior democracia do mundo é um movimento racista com sinal trocado. Aqui no Brasil já está acontecendo isso também. Outro dia fui defender essa bandeira e uma amiga negra, professora universitária, respondeu: “Não precisamos mais da sua boa vontade, pois vocês agora vão ter que dar na marra”.&lt;br /&gt;Contemplar o afro-descendente com o melhor do melhor é digno e necessário. Dizer que uma atitude dessas é exercício de mero paternalismo ou maniqueísmo superficial é uma vergonha nacional. Quem não vê o que aí está? O discurso de longo prazo, estratégico, é sempre aceitável. Mas onde estão as ações concretas? O negro está há séculos esperando a compaixão do senhor. E ela não vem nunca. Quem não tem cão caça com gato, diz a trova de latrina. Enquanto os iluminados não põem a andar os seus projetos socialmente corretos, convém que incluamos o excluído da maneira como podemos e sabemos.&lt;br /&gt;Darcy, o Educador, dizia preferir não estar no lugar daqueles que o venceram quando tentava implantar um sistema educacional decente para todos. O negro está freqüentando as escolas superiores à troca de dinheiro pesado. Os poupadores estão dentro das Universidades públicas mantidas por toda sociedade.&lt;br /&gt;Durante todo o meu tempo vivido no Brasil nunca soube o que é respeito, democracia, liberdade, segurança. Ai de mim se não me defender dos Irmãos Metralha por conta própria. O sistema nunca garantiu nada ao povão. Até fico em desconforto quando reflito sobre isso. Nunca esperei respeito de ninguém. Aprendi, com a vida, a me impor para ser preservado minimamente. Antony Garotinho deflagrou algo que há muito já deveria estar acontecendo em nosso país (não gosto da expressão neste país tão ao gosto da esquerda mordente). Por tradição, na maioria das nações, a justiça não socorre aos que dela mais precisam. Digo isso, mas tenho que dizê-lo à boca pequena. Porque sempre vai haver alguém de plantão para me puxar a orelha e ensinar que o poder judiciário não é pirulito para andar rolando na boca de desocupado. É essa ou não é essa a dura realidade? Justiça meritória é mera retórica. Lembram quando a justiça era a sentença do monarca absolutista? Pois então, aquilo era também justiça. Rui ensinava: “quem está com o direito não teme a justiça”. Bonita adaga de duplo corte, pois há direitos inegociáveis no transcurso da vida de todos nós, pretos, brancos, doentes, fetos, velhos, amarelos, homossexuais, mulheres, transplantados e empregados. Estou falando de igualdade, dignidade, educação, vida, terra, moradia, trabalho, comida, privacidade, respeito, saúde, religiosidade e liberdade. Um maluco tinha que o fazer, e o fez para ficar na história. Ademais, o que fez foi com base no já vitorioso sistema de avaliação do ENEN, que é da autoria de toda a sociedade.&lt;br /&gt;Aqueles que desaprovam a medida do governador fluminense puxam a brasa para a sua sardinha, dizendo ser um decreto injusto porque desrespeita o mérito intelectual. Há que se concordar com isso, mas não se pode esquecer o mérito braçal desses irmãos e seus ancestrais que foram jogados na vala da estrada vivendo sabe-se lá como. Eram crianças e idosos no meio da boiada fedorenta e indesejável. Ora que absurdo, esse de levarmos para o esquecimento o que passaram essas pessoas. As cicatrizes do chicote, das algemas, do ferro em brasa e do tronco eles ainda as ostentam com paciência, mansidão e piedade religiosa. Mas quanto disso já está gravado nas espirais de aminoácidos dos atuais negros da nossa geração? Não pretendo aqui incensar o negro e tampouco fazer apologia do &lt;em&gt;mea culpa&lt;/em&gt;. Como também não desejo abordar a situação de outras minorias. Não sejamos hipócritas. As outras minorias não viveram o horror da escravidão. Onde andam os negros do Brasil? No oficialato das forças armadas? Não. No clero? Não. Ensinando nas Universidades? Não. Comandando corporações produtivas? Não. No comando de aeronaves charmosas? Não. Essas são carreiras da elite &lt;em&gt;bmv&lt;/em&gt; (branco, macho e vip). Se nem nossas mulheres brancas estão lá, imaginem as negras? O negro ou ainda está nos campos escravizado sutilmente ou está nas cidades cheirando, fumando, bebendo e fazendo o que sobrou prá ele fazer. Atualmente o branco não fuma, não bebe, não cheira, não come gordura e faz plástica estética. No meio desse luxo todo, claro, vai faltar a grana mínima para alguém. Mudemos nossa postura sim, dividamos o saber com eles sim, devolvamos a eles o mínimo de dignidade sim. Eles somos nós e nós somos eles. Ou não? Claro que somos. De branca e ibérica descendência sou também um moreno, no dizer de FHC. Se não na pele, mas certamente na alma.&lt;br /&gt;Fui criado no meio de negros e disso me orgulho, pois, como nós brancos, aquele era o meu povo. Melhor ainda, quando me dei conta me vi ilhado no meio dos brancos. Negro não é macaco. Negro não é bicho. Nunca consegui entender o racismo por inteiro. A não ser como um absurdo. O negro não é algo que signifique algo. Não é um símbolo. O negro é e pronto. O racismo é que é um símbolo que significa ódio e medo. E o ódio e o medo emprestam seus nomes a muitos fracassos do espírito. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-2378865532513826957?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/2378865532513826957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=2378865532513826957' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2378865532513826957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2378865532513826957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/08/os-negros-e-as-quotas-malditas.html' title='OS NEGROS E AS QUOTAS MALDITAS'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-9086353829518390732</id><published>2009-07-07T12:51:00.000-07:00</published><updated>2009-07-21T13:50:40.738-07:00</updated><title type='text'>LAURO PENTEADO</title><content type='html'>&lt;span style="color:#000000;"&gt;&lt;strong&gt;Humberto Ilha&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#000000;"&gt;Desde que fora morar no bairro, os vizinhos comentavam sobre a vida particular dele. Rolavam umas ofensas à meia boca entre Arílio e Anselmo, solteirões e fofoqueiros.&lt;br /&gt;— Esse Lauro não me engana: é um baita maricão.&lt;br /&gt;— Tem o cabelo e as unhas bem cuidadas para um pintor de paredes, mas pode ser que seja apenas um corno manso.&lt;br /&gt;Era impossível não notá-lo em cima daquela bicicleta ornamentada. Além disso, o homem era o mestre do pedal. Tinha destreza tanto para a velocidade, quanto para desfilar. Sabia fazer as manobras de palco de circo. Com a bicicleta parada plantava bananeira e passava por dentro do quadro. Pedalava de costas; depois era a vez de pedalar com as mãos. Andava aos pulos feito um canguru e terminava a apresentação pedalando em uma só roda como um macaco bem treinado.&lt;br /&gt;Tudo ali falava em favor do capricho do proprietário, que era magrinho como o próprio veículo. Jovem puro, mas, diziam de novo, levava chifre da patroa. Pelo jeito de se enturmar ou não sabia de nada ou fingia não saber, porque levando tanto guampaço havia de ter alguma vergonha de aparecer na rua. A esposa tinha ciúme dele com aquele petrecho engalanado. Desejava — dizia — ter a metade da atenção que ele dava à condução. A penteadeira dela tinha menos adornos que a rival bicicleta. Enfeites como flâmulas de time, par de espelhos, dupla sineta, farol com dínamo, pára-lamas, olho de gato, selim estofado, guidão com barbicachos até os joelhos, deixavam todos admirando aquele homem bom que tinha um sonho: possuir uma “lombreta”.&lt;br /&gt;Se ele era observado pelos vizinhos pelos motivos mais invejosos, com a mesma intensidade ele próprio admirava o estafeta da Marinha quando o via pilotando a lambreta da viúva, que era como ele chamava a pátria amada Brasil. O marinheiro era um cearense que estava prestes a ser promovido. Os vizinhos pediam-lhe para dar uma voltinha, mas ele jamais emprestaria a cinzenta. O máximo que permitia era deixar que olhassem de perto o motociclo novinho em folha.&lt;br /&gt;Num final de tarde de verão o estafeta parou para assistir futebol entre os vizinhos. Como era bom goleiro, foi convidado. Não resistiu e se meteu no meio da trave para estancar a goleada. Nisso aparece Laurinho junto à lambreta que tanto amava. Maurício, o marujo, estava tão focado no jogo que não viu o namoro do pintor. Começou tirando um pozinho inexistente no espelho retrovisor. Depois tirou o veículo do descanso para poder sentir seu real peso. Empurrou para frente e depois para trás. Escutou o chacoalhar da gasolina no tanque. Sentou no banco confortável e sentiu a diferença do que é estar no comando de um veículo motorizado. Quem pudesse andar para todos os lugares sem precisar pedalar, se cansar. Então meteu o pé com vontade no pedal de arranque só para sentir o tremor do bicho nos braços. Mas o marinheiro tinha deixado a marcha engatada. Foi como mexer em gaveta de lacraia. A lambreta deu um salto para frente igual um galão de cavalo xucro, assumindo o comando da desgraceira com o pintor assombrado em seu dorso corcoveante.&lt;br /&gt;— Ponto-morto... Ponto-morto — suplicava já de mãos postas o marinheiro.&lt;br /&gt;Mas Lauro não escutava nada e parece ter mirado em cima de Arílio, que nada entendia do que se estava passando porque pouco enxergava sem o par de óculos. Mas com os óculos em cima do nariz sabia cobiçar a mulher do outro. Assim mesmo decidiu pegar a lambreta à unha. A colisão foi tão forte que o arremessou de encontro à patente do seu Gercino, pai do presidente do Figueirense. Depois pareceu que o veículo escolheu o Anselmo para brincar de pegar. O rapaz saiu a toda na frente da lambreta até dar-lhe um drible magnífico feito um toureador. Na manobra escorregou e caiu. Quando se pôs de pé a mula-sem-cabeça já vinha em sua direção. Nem deu tempo de comemorar o olé. O veículo juntou Anselmo pelo suspensório e jogou-o para cima com raiva, parece. Era como se fora um zebu do inferno se vingando do matador. Camoci, a cachorra companheira, cheirou Anselmo caído e atacou a lambreta. Queria morder os pneus do desenfreado veículo. A essa altura Lauro já estava com os olhos fechados como querendo se proteger de cada esbarrão. Mais parecia um anjo montado num porco. E nisso não viu que o estafeta colocou-se na frente querendo parar a moto. A trombada foi mais feia que indigestão de torresmo. Lauro por certo se perguntava por que foi dar forma ao sonho de possuir uma lambretta. Bem que poderia ter ficado alisando sua bicicleta. Assim não se envolveria numa confusão daquelas. Estava pagando o preço por ousar sonhar. Do chão ainda viu o motociclo desgovernado, agarrado à unha pelo marinheiro, indo se estatelar junto à cerca de cedrinho do seu Hélio.&lt;br /&gt;Camoci abandonou a perseguição e meteu-se a ganir numa desabalada correria em direção à casa. Pareceu ter visto algo assombroso. Era o novilho Diamante do seu Mané Fenca todo alucinado. Livre da corda queria espetar as costas do pintor jogado no meio do campinho de futebol. Lauro mais parecia um ferro retorcido. Sabia que um touro de cola para cima era sinal de perigo. Que um bicho daqueles, com a cabeça baixa e armado com aquelas guampas, era para ser respeitado pelo estrago que sabia fazer. Ele na frente e o novilho insano atrás decretou que gritasse desesperado:&lt;br /&gt;— Tira este bicho daqui.&lt;br /&gt;De repente Diamante parou o intento raivento. A mulher de Lauro apareceu agarrada ao rabo do novilho. Deu um jeito e enrolou o braço na cauda do bicho. O animal queria se soltar das mãos dela. Curvava-se todo para guampear quem lhe segurava a cola. Mas ela, hábil e firme, mantinha-se atrás do bicho com movimentos ágeis de um toureador. Naquele momento Lauro só não tomou chifrada porque ela resistiu e não soltou o gracioso rabo, que terminava em chumaço negro enfeitando o vistoso Diamante.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-9086353829518390732?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/9086353829518390732/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=9086353829518390732' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/9086353829518390732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/9086353829518390732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/07/lauro-penteado.html' title='LAURO PENTEADO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4327440944736460556</id><published>2009-06-04T06:08:00.000-07:00</published><updated>2009-06-04T06:15:28.904-07:00</updated><title type='text'>IRMÃO PERVERSO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#000000;"&gt;Nem bem cumpriu o compromisso e saiu procurando um amigo que o acompanhasse até lá. Como não achou ninguém, o garoto foi sozinho mesmo. A adrenalina queria sair pelo nariz, de tão contente que o menino estava. Compensou ficar durante hora e meia escutando a freira da catequese. Agora estava livre para fazer a vontade do perversinho coração juvenil. A bem julgar — pensava — não era uma perversidade. Era uma malvadez para beneficiar os usuários do transporte coletivo. “Quem mandou os ônibus entrarem em greve?” Isso era o que escutava em casa, que os ônibus entravam em greve e as pessoas pagavam o pato. “Mas hoje eles vão se ver comigo, os ônibus”, quase decretava para si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embrenhou-se mato adentro por um terreno baldio, agarrou umas pedras e ficou escondido na tocaia. Já o céu se desalumiava, mas dali ele avistava o povo dando vaias quando os ônibus passavam. A maioria da frota estava parada e a empresa fazia o que podia com os poucos veículos dirigidos pelos empregados da administração. A intenção era jogar um calhau no pára brisa, causar um estardalhaço e correr. Agora a encrenca era com ele e não com aqueles bundas-moles que só sabiam vaiar. Escondeu-se um pouco mais, quando enxergou o cabo subdelegado. “Não é bom que me veja; com ele a conversa começa com tabefe,” pensou. Da porta da peixaria vinham os gritos ofensivos do Fodoca, um doente mental que repetia o que alguns motoristas parados mandavam que dissesse. Coitado, repetia sorrindo sem saber por que estava sendo aplaudido. Era manso, mas quando atiçado ele se transformava numa frigideira cheia de óleo fervente. O movimento no Bar Dragão mais que dobrou. A muvuca combinava com o gole fora de hora. O dono não dava conta da freguesia. Aquele vidro de ovo cozido no vinagre, encalhado há dois dias, vendeu imediatamente. Cigarros da Souza Cruz já não havia mais para vender; só os ovais Liberty, que faziam muito estrago nos pulmões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente começou uma chuva de tomates nas pessoas, nas casas, nos ônibus e nas placas de anúncio. Foi quando o garoto fez seu único arremesso. Acertou onde queria: o pára-brisa do ônibus vinte e nove. Logo esse, que inspirava tantos a ganhar no bicho. Dois mais nove? Onze; e onze é cavalo, gente. Nem o Fodoca gritava impropérios contra aquele bicho, minto, veículo simpático que servia o bairro. “É, mas hoje ele queria entrar na greve. Mas não entrou. Vim aqui para agir, e já fiz a minha parte. Não tenho culpa se esse nojento atravessou o meu caminho”. O que fez, estava feito. Foi se esgueirando no matagal para depois ir correndo para casa. Quando chegou à rua onde morava viu uma multidão que vinha. Pensou: “foi bom haver saído de lá, o pau já está comendo”. O povo gritava conhecidas palavras de ordem como as que a gente ouve nos campos de futebol.  O garoto passou a acompanhar aquela gritaria. Era um bom fingimento para se desvencilhar do delito cometido. Parou para ver melhor, pois vinha alguém ferido. Procurando o mártir popular, branqueou ao ver o próprio irmão com a cabeça ensangüentada. Quis logo saber quem praticara tamanha perversidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Foi um vagabundinho que apedrejou o pára-brisa do ônibus vinte e nove.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4327440944736460556?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4327440944736460556/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4327440944736460556' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4327440944736460556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4327440944736460556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/06/irmao-perverso.html' title='IRMÃO PERVERSO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5382563115062166037</id><published>2009-05-16T19:28:00.000-07:00</published><updated>2009-05-16T19:31:39.367-07:00</updated><title type='text'>JOVINA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era preferível haver-me negado conhecer aquele quadro negro de paixões andando à solta na vida daquela criatura. Mulher vigorosa, ela parecia uma terneira distribuindo guampaços para unhar a vida. Ora chifrando um, ora escornando outro, mas sabia capitular diante da bondade das pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concedendo-me deambular no limite do que se passa na cabeça dos outros, ouso abrir a mufla da vida de pessoas como Jovina que desde novinha nunca possuiu algo. Cabocla, pouco menos que bugra, há muito trabalhava como sempre fizeram os irmãos e os pais: para os que possuíam, mas ela nem queria nada. Os que moravam bem tinham casa e família. Família, cismava, não queria mais que isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vestir, dar de comer, dar banho, de comer de novo. Enquanto isso, os olhos fechados, via a família e os filhos; só dois ela via. Sem nomes ainda, mas eram os meninos dela. E novamente fechava os olhos para vê-los chamá-la de mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no esvair do tempo, assim passavam os dias da moça; dias não, anos. Anos que escorregavam no ralo da pia da cozinha; na pia do tanque de roupa suja, nos pratos por lavar, na comida que sobrava para guardar, no tanto de crianças que não acabava nunca para Jô sonhar com as delas. Não se importava com as roupas usadas que recebia de bom grado da patroa.&lt;br /&gt;— Você — diziam — é como se fosse da família.&lt;br /&gt;Também não se importava de almoçar depois, de não ser levada junto nos passeios, de dormir num quartinho improvisado perto da cozinha e de nunca ter tido uma festinha de aniversário; como as pessoas normais. Só sentia doer a alma à noite, no quarto que lhe acolhia os pensamentos mais íntimos e mais absurdos. E perdida em pensamentos adormecia e sonhava em ter algo também. Ousava, em sonhos recorrentes, ter uma família para si. Não era dona de nada. Só de um sorriso lindo. Ah, o corpo rijo e bonito também era dela. Era? Era. Então resolveu que tinha direito de fazer dele o uso que achasse melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde adolescente sabia o quanto era desejada. Sabia mais, que havia falta de carne fresca nos becos escuros. Mas, enveredar-se por esse caminho? Sim, por que não? A lógica da jovem era indecorosa, tanto que, quando censurada, retrucava sem remorso:&lt;br /&gt;—A vida é assim... Ponto!&lt;br /&gt;Rodar bolsa no cais do porto era-lhe fácil. Quase natural, a julgar pelo tratamento que recebia dos que dela se aproximavam. Vinha-lhe do lado escuro da alma esse projeto que foi se ampliando. Não demorou nada e apareceu-lhe vasta freguesia. Reclamando-lhe uma chance, a moça identificava Antenor, o pardavasco mais atento e sedutor dos arredores; um mestre em se travestir de posseiro do corpo das desatentas. Era o mais veemente quando reclamava o direito que julgava possuir sobre o corpinho da moça. Jô sabia que discutir com aquele homem era inútil. Uma porque ele, já morrendo de amores por ela, não escutava ninguém. Outra porque ela, também já vivendo de amores por ele, não se dava ouvidos às próprias palavras. O caso dos dois era um desses difíceis de administrar. Pudera! Um casado e uma vendida. Um clássico do folclore mundial. Quando ela reclamava presença e segurança, ele desconversava.&lt;br /&gt;— Foge comigo Antenor?&lt;br /&gt;Ele respondia com a cabeça que sim, mas em seguida fazia uma figa como a desfazer-se da promessa. Fugir com ela? Nem pensar! Dias depois voltava cheio de confiança no próprio taco. Também, ela jamais trepidava em aceitar os convites daquele estivador que tinha irretocável argumento para manter tudo como estava. Mas não era só isso; tinha uma pegada que as mulheres adoravam. Por certo Antenor não merecia a confiança nele depositada pela moça, que tinha clara idéia da esperteza dele. Contudo, deixava sobrevir-lhe as artimanhas dele porque ela mesma não se entendia. Ficar com um sujeito comprometido, quando tantos havia que a quisessem. Isso não lhe parecia certo, mas também não lhe parecia errado. Admitia, internamente, estar em dúvida. Sofria vendo-se estática, como uma boneca de louça, diante do céu e do inferno. Dividida, considerava corretas ambas as alternativas. Não sabia o que fazer. Perdida na mata escura, ela negava-se a caminhar naquele terreno desconhecido. Sobressaltava-lhe o temor, a covardia e a fraqueza. Na visão de todos, ali se desenhava, com firmeza, a luta entre a razão e a paixão. Por certo havia ali uma promiscuidade entre a ficção e a realidade. Mas era nessa hora que ela mais tinha noção dela mesma. Quando estava com Antenor, tudo era mais simples e ela experimentava o céu. Mas, se ele tirava o time, ela mergulhava de cabeça no caldeirão de enxofre. Ferida de morte por paixão inexprimível, há tempos Jovina escolhera estar no paraíso, desse no que desse. Queria o Noca também para si. Não podia viver sem a presença daquele homem, que lhe dava sustança à alma de mulher calejada no pior. Ao buscar o prazer próprio, Jô revelava-se uma mulher moderna, mesmo com vinte anos por fazer. Ia à luta sem remorsos. Entretanto, em matéria de moralidade ela era uma vergonha. Ela e o Antenor, que era casado e vivia bem com a patroa. Ele era outro que não entendia o que com ele se passava. Amava a esposa, mas não podia ver rabo de saia. Dava um duro fora do comum para não ficar devendo no armazém. E só. Ao resto, tudo se lhe permitia: jogo pesado, farra, bebida e mulheres... Aos dois, de nada adiantavam as advertências que lhes davam os amigos. Eram refratários, parece, ao aprendizado pelo viés dos bons conselhos. Que passasse o tempo, e um dia ambos seriam redimidos pelas dores que, por certo, as conseqüências lhes trariam. Vale dizer, seriam resgatados pela aflição, pregados na cruz. Aliás, por menos não é que a alegoria cristã seja tão eloqüente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de dormir duas semanas entre as pilhas de madeiras no trapiche, Jovina foi morar no porão da casa de dona Nina, uma gorducha mulher que não admitia aquela vida para a moça. A nova amiga era também uma pessoa daquelas que tinham coisas. Casada com um marinheiro, vivia meses a fio só com os três filhos. Ia fazer de Jovina uma companhia. Nas primeiras semanas, deu-lhe cama e comida. Depois a jovem começou a se virar. Com o dinheirinho que arrumava adquiria coisas também. Ou melhor, coisinhas. Uma cama patente, um armário, um rádio, um fogareiro a querosene, louças, talheres e até um espelho decorado. Nina nunca perguntou o que a outra fazia para cavar a sua vidinha. Até o dia em que, à noite, Jovina começou a chorar desconsoladamente. Soubera que estava grávida. Agora tudo se esclarecia, mas a amiga lhe deu amparo e compreensão mais do que nunca. A mãe de Nina, parteira açoriana que achava solução para tudo, sugeriu que a jovem haveria de ter um homem para ganhar amparo definitivo. Para ela e para a criança que iria nascer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o navio Pernambuco voltou, Jovina ficou novamente com um velho freguês, o Demerval. Explicou que estava grávida dele. O velho, como ela o chamava carinhosamente, era um senhor grisalho, calmo, charmoso, mansinho, pele clara, olhos azuis, casado e do Rio de Janeiro. Não era lá um galo de raça, mas servia. O homem não se esquivou da paternidade. Pelas contas que fez, bem podia ser o pai. Mais velho que ela quarenta e dois anos, ficou louco de feliz. Já um sexagenário, comemorava, ainda dava no couro. Jô deu à luz uma graça de menino. Demerval solicitou que ela parasse de se virar no cais. Em compensação, todo mês mandaria dinheiro para ela se manter e à criança. Pediu mais, que não saísse do porão arrumadinho da casa da amiga. Que lá ficasse até que a proprietária não mais o permitisse. O velhinho aparecia ali uma vez por ano. Mas quando vinha ficava um mês inteiro. Passeavam, iam ao cinema, ao centro da cidade, à feira, ao armazém. Ela fazia dele um rei, a notar pelo sorriso residente no rosto daquele marujo castigado pelo sol em mar aberto. Não devia ser feliz com a primeira-dama, a julgar pela mágoa transparecida nas entrelinhas de sua conversa. Amava aquela menina, de verdade. E Jovina tinha o sonho realizado, uma cria de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora curtisse muito a presença do velho e não mais precisasse se virar para se manter, seu corpo voraz de desejo esganiçava ardente naquele porão solitário. Demerval se revelara sossegado demais para o incêndio que era ela. Tinha sonhos recorrentes com Antenor. Via-se nos braços do mulato até quando ia lavar as fraldas do bebê. Sua indigência amorosa punha-lhe um braseiro no peito. Parece que o sacana do Noca tinha-lhe colocado mandinga. Tanto era o tormento, que Jovina deixou de sorrir. E logo o sorriso, seu mais forte atributo físico. Viu-se ante a necessidade de ceder. Só foi encher-se de luz novamente quando não mais suportou a pressão e deixou que se lhe alcançasse a tentação insana. Caiu novamente nos braços de Antenor. De lembrar que quando leopardos acasalam, a intensidade ecoa na floresta. Contente, advinha-lhe a certeza de merecer a felicidade com aquele homem proibido, mas nem tanto. Não era isso o que pensava a esposa traída, picada pela muriçoca do ciúme. Sabia de tudo e rogava praga nas costas da rival. O marido lhe era infiel porque “a vagabunda não respeitava a família de ninguém”. E logo Jovina, que tanto almejava uma.&lt;br /&gt;— Se essa piranha fosse decente, esbravejava a atraiçoada, meu lar teria uma chance. Homens traem porque algumas rameiras facilitam o achegamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jô deitou e rolou com Noca até faltar-lhe o incômodo mensal. Analfabeta, pediu que Nina escrevesse uma carta para o velho. Estava grávida dele novamente. A amiga do peito relutou em fazê-lo, pois não gostava de trapaça.&lt;br /&gt;— A mentira, dizia, é cria do rabudo.&lt;br /&gt;  Ainda assim, a carta foi e, de volta, chegou um telegrama informando que seguiria mais dinheiro para os gastos que ela haveria de fazer com o enxovalzinho, o berço e a farmácia.&lt;br /&gt;As doloridas contrações do parto vieram numa noite chuvosa. Já mulher feita, tinha uma rusticidade tal que ela mesma fora buscar a parteira. Anna, tinha acabado de chegar de um morro próximo, aonde tinha encaminhado outra parturiente para o procedimento na manhã seguinte. Pediu um tempinho para engolir alguma coisa e matar a fome. Em seguida voltou a pegar a bolsa com os instrumentos de parto e seguiu para o porão de Jovina. Nina esperava com grande aflição as duas mulheres que enfrentavam perigo no meio da noite. Já havia preparado duas bacias com água quente e separado os cueiros de flanela para enrolar o bebê ou o que viesse daquela barriga clandestina. Não esperava sair dali boa coisa. Em seguida, a parteira fez um exame interno para medir a dilatação do colo uterino e decretou que o nascimento era para acontecer naquele momento. Anna estranhou não ouvir Jovina gemer em momento algum. Nem durante o trajeto e nem após a chegada em casa. Então, perguntou-lhe se estava sentindo dor. Jô respondeu que sim. Olhando mais atentamente, Anna percebeu que os lábios da mulher sangravam. Tamanha a dor que Jovina devia estar sentindo. Deu-lhe, a parteira, um valor extra, pois poucas de tanta fibra haviam passado por suas mãos. A experiente mulher tratou logo de encaminhar os trabalhos, não sem antes pedir proteção celestial:&lt;br /&gt;— Nossa Senhora da Guia, orou de olhos fechados, ide a Deus e trazei socorro a essa mulher. E depois guiai minhas mãos para serem instrumentos do vosso zeloso querer. Amém.&lt;br /&gt;Fez um gesto com as mãos calçadas em luvas, como a expô-las à vista da santa. Jovina acompanhou a prece, mas desejou que a Cabocla Jurema ali também se fizesse presente, pois outra era a fé que professava. Em vinte minutos nasceu mais um menino, perfeitinho, como no sonho. A parteira ficou espantada diante daquele mulatinho chorão. Não podia ser filho do Demerval. Jô percebeu que algo havia saído errado, pediu para ver a criança e também ficou passada. Olhou fixamente nos olhos da parteira e balbuciou algo como “Putz”.&lt;br /&gt;Quando Jovina se recompôs a resposta foi automática:&lt;br /&gt;- É do Noca, dona Anna.&lt;br /&gt;- Juízo, rapariga. É do Demerval e não se fala mais nisso, decretou a mulher.&lt;br /&gt;Em seguida ao nascimento, a velha senhora isolou e cortou o cordão umbilical a uns três centímetros do ventre do bebê, para depois colocá-lo no seio da mãe. Por último, realizou as manobras de expulsão da placenta, das membranas fetais e procedeu a revisão do trajeto do parto. Tudo estava bem.&lt;br /&gt;— Nina, disse à filha, faça uma canja de galinha para ela e cuida-lhe o resguardo. Virei todos os dias até cair o umbiguinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora? O que dizer ao velho? Anna disse a ela que a lambança já estava feita e que o jeito era deixar o tempo passar. Tinha sido infiel e disso jamais se livraria. O que havia feito ficaria para sempre guardado na escuridão e esperando por ela, Jovina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demerval nunca mais apareceu ali. Uns diziam que tinha se aposentado. Outros que havia falecido. Pode ser, mas é quase certo que ele havia feito uma conta e não conseguia fechá-la. Nem ele e nem Antenor que, volátil, também sumiu. O que restou de Jovina desceu ladeira a baixo e sem freios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5382563115062166037?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/5382563115062166037/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=5382563115062166037' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5382563115062166037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5382563115062166037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/05/jovina.html' title='JOVINA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4354907144811450522</id><published>2009-05-01T06:46:00.000-07:00</published><updated>2009-05-01T06:51:21.949-07:00</updated><title type='text'>PARA SER ALGO QUE PRESTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333399;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;Antônio ficava surpreso quando percebia o entusiasmo na voz do senhor Arno ao se referir à própria esposa. Olhava-o com respeito e, mesmo sem conhecê-la, era capaz de jurar que a alma da senhora Hertha alimentava-se de algo invisível, mas intuído como sublime e superior. Quase adivinhava as atitudes nobres que lhe norteavam a convivência com as pessoas. O marido afirmava ser ela uma pessoa metódica, de tocar violino diariamente. Entretanto, há um bom tempo vinha sentindo que o instrumento estava diferente. Tratava-se de um Guarnieri del Gesù que lho doara o pai há mais de oitenta e dois anos.&lt;br /&gt;— Senhor Antônio, minha esposa achou por bem trocar as cordas deste violino porque estão produzindo leve desafinação. Pede ainda que as troque por cordas de titânio, que são mais próprias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O luthier examinou o instrumento e percebeu que as cordas estavam em bom estado, pedindo que o homem viesse buscá-lo depois de amanhã. Deduziu que a senhora estava ficando sem força nos dedos já cansados para pressionar as cordas. Ao invés de trocá-las apenas desbastou um pouco a base do ponticello, onde a cordoalha se apoiava. Fez uma marca secreta para identificação futura, experimentou e colocou-o de volta na caixa; som perfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No depois de amanhã marcado o homem foi buscar o violino. Conversando, o artesão ficou sabendo que o freguês lutara na Divisão Blindada de Rommel e que disso se orgulhava. Antônio mencionou um cliente que também lutara na mesma unidade: um tal Zé Kist; Zehb Kist, corrigiu o ancião. “Mora aqui, mas faz anos que não o vejo”. Como era perto do meio dia pediu licença para ir embora.&lt;br /&gt;— Quanto lhe devo pelo serviço, senhor Antônio?&lt;br /&gt;— Não vou fazer preço, pois nem troquei as cordas. Somente abaixei um pouquinho o cavalete para que sua esposa toque com menos esforço.&lt;br /&gt;Então o homem gratificou-o com uma nota de cinqüenta.&lt;br /&gt;— Muito obrigado, Senhor Antônio; o senhor é um homem honesto.&lt;br /&gt;— Honestidade é obrigação, seu Krueger.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passado um tempo, o alemão voltou com outro incomum Guarnieri para dar jeito na afinação.&lt;br /&gt;— Senhor Antônio, minha esposa desconfia que este também tenha o mesmo problema daquele outro. O senhor pode verificar isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedindo-lhe que voltasse depois de amanhã, o artesão procedeu da mesma forma e nada quis cobrar, quando solicitado a fazer preço no trabalho realizado. O que recebera da primeira vez estava bem pago. Mas o homem gratificou-o com outra nota de cinqüenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de quase um ano o alemão voltou com um dos violinos da esposa. Toninho percebeu ser o da marca feita no cavalete. Mas com um travo de desconfiança notou o homem esmaecido, triste, barbado, magro e com o colarinho puído e sujo por dentro.&lt;br /&gt;— Bom dia seu Krueger, o que houve com o senhor? Nunca mais apareceu...&lt;br /&gt;— Senhor Antônio, minha amada esposa faleceu.&lt;br /&gt;— Oh, meu amigo... Que coisa triste...&lt;br /&gt;— Ela fez a viagem e me deixou — disse com um fio de voz —. Este era o violino dela, que também pertenceu ao pai e ao avô. É um instrumento especial, pois somente uma vez no mês ela o usava para executar uma peça em louvor a Deus Todo Poderoso. É um costume ancestral que me fez prometer continuar. Contudo, não conheço quem mereça possuí-lo. Como o senhor conhece muitos violinistas e demonstrou ser um homem honesto, venho lhe pedir o favor de doá-lo a alguém que assuma o compromisso de minha amada esposa.&lt;br /&gt;— Ora senhor Krueger, como farei para ajudá-lo? Não tenho idéia de quem possa ser digno de possuir um instrumento tão raro e valioso como este e ainda cumprir a tradição de sua família — disse, querendo se livrar do encargo.&lt;br /&gt;— Vou deixá-lo com o senhor, pois tenho pouco tempo de vida.&lt;br /&gt;— Por que diz isso? Está doente?&lt;br /&gt;— Com noventa e dois anos tenho alguma saúde, mas estou deprimido e não quero mais viver sem minha amada companheira. Estou deixando de me alimentar e somente tomando água. Dessa forma aos poucos irei morrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O artesão pensou ligeiro e telefonou para alguém que certamente iria encaminhar o instrumento para boas mãos: o amigo Zehb Kist, que não poderia ir naquele momento porque estava sem alguém para levá-lo. Antônio insistiu, explicando a gravidade da situação do outro. Isso fez que viesse imediatamente num táxi. Quando o outro alemão entrou viu o desanimado viúvo sentado numa cadeira de vime com a cabeça enterrada nos ombros. Antes de se falarem ambos assumiram algo parecido como uma posição militar. O que chegara saudou primeiro.&lt;br /&gt;— Heil! Zehb Kist, Divisão Panzer, Tobruk.&lt;br /&gt;— Heil! Arno Krueger, Divisão Panzer, Argel.&lt;br /&gt;Como se houvessem combinado, Zehb Kist começou a declamar:&lt;br /&gt;— Einigkeit und Recht und Freiheit Für das deutsche Vaterland! &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;Sorrindo, o desamparado responde:&lt;br /&gt;— Danach lasst uns alle streben. Brüderlich mit Herz und Hand! &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;Zehb Kist insiste declamando:&lt;br /&gt;— Einigkeit und Recht und Freiheit / Sind des Glückes Unterpfand. &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;E finalizando, os dois:&lt;br /&gt;—Blüh’im Glanze dieses Glückes, Blühe, deutsches Vaterland / Blüh'im Glanze dieses Glückes, Blühe, deutsches Vaterland. &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;&lt;br /&gt;Ambos se abraçaram emocionados e iniciaram longo diálogo em alemão. O viúvo foi se acalmando e ganhando brilho na alma. Zeb comprometeu-se a encaminhar o violino para uma pessoa conhecida que daria conta da promessa. Depois chamou um táxi para o irmão de armas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio quis então saber a respeito do outro; como ficaria, já que decidira não mais viver.&lt;br /&gt;— Fique descansado, homem. Ele garantiu não mais seguir em seu intento. Prometi visitá-lo toda semana.&lt;br /&gt;— Fico feliz com isso, mas o que vocês conversaram logo depois que se apresentaram?&lt;br /&gt;— Na guerra era costume um elevar o moral do outro recitando mutuamente os versos do hino nacional. Com isso ficávamos cheios de esperança e vida para prosseguir na luta. Assim é também na vida, somente seremos algo que preste se vivermos como irmãos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt; Unidade e justiça e liberdade para a pátria alemã!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt; Por tudo isso lutemos irmanados de corações e mãos!&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt; Unidade e justiça e liberdade são a garantia de felicidade.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333399;"&gt; Floresça esta bênção de felicidade, floresça, ó pátria alemã. / Floresça esta bênção de felicidade, floresça, ó pátria alemã.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4354907144811450522?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4354907144811450522/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4354907144811450522' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4354907144811450522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4354907144811450522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/05/para-ser-algo-que-preste.html' title='PARA SER ALGO QUE PRESTE'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-8661256569035144092</id><published>2009-04-22T18:26:00.000-07:00</published><updated>2009-04-26T21:02:01.194-07:00</updated><title type='text'>EMBAÇOU</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#6633ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um tempo em que, mesmo já entrado na idade da razão, Adalberto Carijó não escutava tanta sacanagem como escuta hoje em dia. Era um tempo em que as falcatruas existiam, mas parece que não eram tão divulgadas. Será que existiam mesmo? Roubo, boicote, trapaça, mentira, infidelidade, tudo isso existia, mas parece que sempre tinha um por quê. Havia um mínimo de coerência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje em dia as coisas ruins acontecem sem motivo para tanto. As pessoas que transgridem não pesam mais as conseqüências dos atos que praticam. Ganhar dinheiro é o que determina as ações das pessoas. Mas ganhar somente não basta, tem que ganhar enganando; na esperteza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia vi uma entrevista do Maradona dizendo da paixão que o povo argentino tem pelo futebol. “El fútbol es algo que está en la sangre de los argentinos”, gabava-se ele como se fossem os inventores do esporte. “El mejor del fútbol es la trampa, el logro”, quer dizer: a tramóia. É de aceitar o drible refinado durante o jogo, o gol sem querer, o gol contra, mas a tramóia como aquele gol de mão na Copa de 1986 contra a Inglaterra, isso não e não. Fosse decente o atleta, ele próprio, invalidaria o gol marcado ilicitamente. Depois veio dizer que não foi a mão dele e sim a de Deus. E ainda se gaba da imundice que produziu. Ficou muito longe do zagueiro maranhense João Evangelista Belfort Duarte, que num jogo colocou a mão na bola dentro da área e o juiz não vira. Ele próprio se acusou e chamou a atenção do juiz para o pênalti que cometera. Com esse nem precisava de árbitro. Deve estar batendo bola no céu. Para Maradona o melhor juiz é o rabudo. Vai te catar, nojento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois Carijó comprou quatro barrinhas de cereal para ir comendo aos poucos durante a semana. Na terceira ele notou algo se mexendo dentro do papel e viu uma larva. Quase deu um ataque de nervos. Já havia notado algo estranho na anterior. Quando em casa abriu a quarta larva, digo quarta barra, o que encontrou? Ela, a larva. Mexendo-se toda alegre, como a rir dele. Verificou o prazo de validade e: peguei você, desgraçado — disse com o dedo no nariz do fabricante — comi três bichos desses, mas isso vai me render boa indenização por danos morais. Aqui está minha aposentadoria. De inocente consumidor passou a juiz perverso. Ficou maldoso como petiço de guri. Já procurou o telefone do órgão de defesa do consumidor.&lt;br /&gt;— Não precisa haver dolo, seu Carijó. Cabe a indenização, sim. Venha à repartição que encaminharemos o processo.&lt;br /&gt;Um ano de aporrinhação nas audiências de conciliação. Adalberto não queria saber de acordo e ainda ameaçava divulgar a notícia na TV. Quando o fabricante pedia de mãos postas para ele não fazer isso, aí mesmo é que Carijó se abagualava e redobrava a ameaça em voz alta. Achava-se o todo-poderoso diante do gigante domesticado. Ia faturar alto em cima do dragão fumegante. O fabricante fingiu-se abaladiço até que achou um erro formal no processo. Para não mais discutir causa ganha propôs uma indecência ao reclamante. Uma barrinha grátis de cereal por dia durante um ano. Aquela indenizaçãozinha mais pareceu um guascaço no lombo do homem que sonhava ganhar algum sem muito esforço. Se quisesse mais que fosse reclamar com o papa. Carijó acabou fazendo acordo, mas depois de um mês não podia mais ver aquelas barrinhas, quanto mais comê-las. O fabricante melhorou o processo de fabricação e Carijó, desconfio, aprendeu que não precisava exagerar na dose quando alguém ficasse de joelhos pedindo clemência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-8661256569035144092?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/8661256569035144092/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=8661256569035144092' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8661256569035144092'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8661256569035144092'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/04/embacou.html' title='EMBAÇOU'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1555833126026509973</id><published>2009-03-24T18:00:00.000-07:00</published><updated>2009-03-24T18:19:26.680-07:00</updated><title type='text'>AULA DE CATEQUESE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Humberto Ilha&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#333333;"&gt;— Quem responde?&lt;br /&gt;Todos levantaram o dedinho, pois era pergunta fácil. O Bispo de Roma tinha acabado de assumir. A primeira tendência de cada criança era de levantar o dedo para responder. Ainda mais depois de lerem no semblante do sacerdote a resposta, eis que não desgrudava os olhos de uma branquíssima fotografia papal. O menino de bonezinho assustou-se como se levasse uma chicotada.&lt;br /&gt;— Você, que está com esse boné ridículo dentro da igreja.&lt;br /&gt;O garoto examinou bem a foto, decifrou dois sopros baixos e:&lt;br /&gt;— Bento Dezesseis, padre Osvaldo.&lt;br /&gt;— Bento Dezesseis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho padre sentiu ruminar por dentro um alvoroço raivento, porque a resposta estava correta. Queria abalroar os petulantes, isto é, aqueles que ousavam ensaiar uma resposta correta. Não havia chance das crianças sobreviverem, pois o religioso era do tempo de Pio Doze.&lt;br /&gt;— E antes do Santo Padre Bento Dezesseis, quem era o Papa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora poucos dedinhos no ar. O encolerizado ministro mirou na menina que às vezes falava um pouco alto.&lt;br /&gt;— Você, menininha assanhada que matraqueia o tempo todo.&lt;br /&gt;A garota sabia responder, mas não tirava o olho dele em busca de uma dica que lhe reforçasse a convicção. Olhou em redor e somente vislumbrou a imagem do Senhor, que muito bem sabia não ter sido um papa e sim o Deus-Todo-Poderoso quando andou entre nós. Terminadas as observações, virou-se para o sacerdote e disse com segurança de gente grande:&lt;br /&gt;—João Paulo Segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Calma Osvaldo, esses fedelhos não vão agüentar por muito tempo. Credo-em-cruz, mais parece a voz do pé-cascudo no meu ouvido. Vá com calma, Osvaldão. Calma? Se pudessem eles me papavam. Vivem contando piadinhas de padres por trás de mim. Agora é a minha vez; se fosse de minha escolha eu não dava a primeira eucaristia para nenhum desses capetinhas que agora posam de anjinhos”.&lt;br /&gt;— E antes dele? Quem foi o Papa antes de João Paulo Segundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento o homem deixou escapar um sorriso perigoso somente notado pela catequista que o acompanhava há anos. “Este homem tem um espírito voraz que vive a se propor enigmas e sobre eles acampa para folhear-lhes a natureza mais escondida”. A mulher temeu pela próxima criança a ser alvejada pelo rancor do religioso e escreveu algo num pedaço de papel e entregou para a menina que estava ao lado. Imediatamente o papelzinho circulou entre as mãozinhas ansiosas. O padre demorou demais e apontou para uma aluna que já havia lido o recado:&lt;br /&gt;— João Paulo Primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já vai acabar o oxigênio. Degusta a falsa vitória deles, vai”.&lt;br /&gt;— E antes dele? Quem foi o Papa antes de João Paulo Primeiro?&lt;br /&gt;Sua voz troou mais lentamente que das vezes anteriores. Antegozando o triunfo, o pároco começou a rir da carinha das crianças. É que parecia ter visto subir enorme sinal de interrogação no meio da igreja. Mas o papelzinho já circulava veloz entre a garotada, saído que fora das mãos da dissidente professora. E com o dedo gordinho de unhas bem cuidadas a revolutear no ar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Você... Você não... Deixa ver se adivinho quem sabe.&lt;br /&gt;Ele queria era adivinhar quem não sabia, porque a descompostura já estava preparada. Somente um levantou o dedinho, o irmão do coroinha:&lt;br /&gt;— Padre Osvaldo...&lt;br /&gt;— Errou. Eu nunca fui Papa na minha vida.&lt;br /&gt;— Desculpe, mas eu quero ir ao banheiro.&lt;br /&gt;O padre mediu o garoto do pé-a-ponta e condicionou:&lt;br /&gt;— Só se acertar a resposta.&lt;br /&gt;— Paulo Sexto; fui — respondeu o arrojado pirralho já na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai fundo agora, Osvaldão. Deus que me perdoe, mas agora me deu até vontade de fazer xixi”. Era a excitação, o jorro de adrenalina diante do abalroamento final. Depois da resposta do pirralho um grande alívio descansou o espírito da catequista, que tudo fazia para não ver estilhaçados os sonhos de primeira comunhão daquelas crianças. Mas o homem queria mais encrenca com os pequenos.&lt;br /&gt;— E o arcebispo de Florianópolis, quem é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O papelzinho já circulava antes mesmo de haver largado a pergunta. Um estranhamento atingiu a espinha de cada criança. A professora agarrou-se na cruz de Nosso Senhor e esperou os cravos.&lt;br /&gt;— Ivinho, responda.&lt;br /&gt;— Padre Osvaldo, o papelzinho aqui está errado, porque o nome do arcebispo é Dom Murilo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1555833126026509973?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1555833126026509973/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1555833126026509973' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1555833126026509973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1555833126026509973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/03/aula-de-catequese.html' title='AULA DE CATEQUESE'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6698505716223599832</id><published>2009-03-08T18:33:00.000-07:00</published><updated>2009-03-16T21:21:56.281-07:00</updated><title type='text'>O FOSSO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Não gosto, mas sou obrigado a abrir o miolo para ver o que tem lá dentro desse pesadelo desde a infância. Estou dentro da cabeça do aldeão na paisagem gelada do norte. No sonho vejo tudo pelos olhos do espadilha de adultos, crianças, doentes e idosos em lugar ainda guardado de roubo, abuso e miséria. Ali o cansaço e o sono desdormido que há para dormir. Nele, no maldito sonho, a ausência de somente um dia de paz no lugar do remorso que grita no oco da cabeça. Nele o medo da surpresa da barbárie que sempre espreita os mansos. Mas um dia, ó morte que te fiz? Muito, por certo. Chega o dia do despojo de vida e fim. A rinha desconforme pela vida! O ajuste pelas gentes concorde o costume. De um lado a arena que sangra de outro a rendição para o resguardo da aldeia. Lutar e perder trará a sobrevivência escrava. Render fará a aldeia aliada do algoz. Se assim, não sobrevivo ao acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No sonho a beira do fosso de seis metros de fundo com doze cães treinados para lacerar. Doze delitos cometidos pelo espadilha contra o seu próprio povo: traição, roubo, mentira, preguiça, covardia, vício, inveja, orgulho, ódio, ciúme, homicídio e vingança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um sabre curto e morrer como valente, mesmo sem merecer. Os meus não choram, porque os escravizei. O inimigo não sorri, quer a justiça para a aldeia. Diante do fim estou entrando em choque. O remorso chega tarde, e à má hora, pedindo a clemência covarde. Agora é pular no fosso e morrer. Encaro o medo com um grito de pavor. Alguém me sacuda. Porque se alguém me acordar, juro, vou trilhar o caminho estreito da compaixão. Vou viver meus valores de berço.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6698505716223599832?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6698505716223599832/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6698505716223599832' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6698505716223599832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6698505716223599832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/03/o-fosso.html' title='O FOSSO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-3087497002449933028</id><published>2009-02-08T06:17:00.000-08:00</published><updated>2009-02-10T01:07:17.589-08:00</updated><title type='text'>O REGENTE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff6600;"&gt;(Texto ficcional inspirado no conto “O Artista do Trapézio”, de Franz Kafka)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff6600;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;&lt;br /&gt;Um capricho nem sempre é encarado de boa vontade pelas pessoas. Contudo, quando advindo de um artista, parece que todos se empenham em compreender. Daí que, o mestre de quem falo, ordenara sua vida de tal maneira a permanecer dia e noite no coro da igreja enquanto durasse o tempo para o qual fora contratado para reger o coral. Assim fazia por dois principais motivos: um mandamento profissional de perfeição e um capricho que se tornava cruel. Não arredava pé dali de jeito nenhum. Todas as suas necessidades eram voluntariamente satisfeitas por intermédio da coordenação do presidente e da diretoria do coral. Os cantores se revezavam para que nada faltasse ao regente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse modo de viver não criava dificuldades especiais entre ele e as pessoas. Mas o regente era caprichoso e cobrava-se muito quanto ao próprio desempenho. Sem embargo, não deixava por menos o desempenho dos voluntários sob seu comando despótico. Era um tirano, e ninguém lhe contava isso, pois, se numa hora era cruel e duro, em outras era amável e doce. Alguns lhe lembravam a semelhança de personalidade que tinha com Mozart. E, quando isso chegava aos ouvidos dele, arrancava-se-lhe um sorriso bonito de explícita vaidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era assim, mas os padres e os diretores do coral o perdoavam, porque se tratava de um artista extraordinário. Além disso, era sabido que vivia assim para estar sempre em forma artística. Ele também gostava de estar sempre lá em cima do coro. Até o banho ele tomava numa banheira trazida para cima. A água servida era carregada para baixo em baldes pelos cantores numa hora de nenhuma atividade na igreja. Contudo, suas relações humanas estavam muito limitadas. Alguma vez ele se permitia conversar com alguém que não fosse do coral; que subisse um colega regente para conversarem longamente. Às vezes, papeava com algum operário que consertava o teto do templo, trocando com ele algumas palavras. Ou com a zeladora da igreja, que fazia a limpeza diariamente. Com os conhecidos conversava de longe lhes dirigindo algumas palavras gritadas, mas respeitosas, se bem que pouco compreensíveis. A não ser por essas ocasiões, estava sempre solitário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes algum fiel elevava o olhar procurando ver quem tão maravilhosamente executava peças sacras. Mas nada encontrava a não ser o som do órgão, que enchia toda a igreja. Tampouco o regente sabia que estava sendo observado por alguém que lhe admirava a arte. Nos ensaios, dava verdadeiro show de impaciência com os cantores menos dotados de alguma virtude vocal. Chamava qualquer um à atenção, homem ou mulher, jovem ou idoso. Se o infeliz resmungasse alguma coisa, ele então migrava para a humilhação. A cólera sobressaía-lhe do peito para esquecer que era um cristão praticante. Usava termos, como voz-de-galinha, miado-de-gato, gata-no-cio, voz-de-caipira ou voz-de-machorra, para caprichar na degradação. Vangloriava-se de ter um ouvido superior ao de todos ali. Melhor, que era dotado de ouvido absoluto. Não restava nenhuma virtude para ninguém. As que o coral possuía estavam com ele, regente. Quando o coral se reunia sem a presença dele, seus membros consideravam-se um bando de quadrúpedes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com tanto ódio pelos erros dos cantores, ele foi fazendo, sem o perceber, que o coral minguasse. Quase ninguém se submetia a cantar com ele. A não ser alguns que o toleravam porque era um ser humano. Alguns lhe davam conselhos amigáveis para melhorar o tratamento com as pessoas. Contudo, ele não aceitava isso de quem quer que fosse. Proclamava que preferia ficar com poucos e bons a muitos e ruins. Os coralistas queriam tirá-lo da regência, pois não agüentavam mais tanto rebaixamento moral. Mas, como dito, os padres gostavam muito dele. As missas eram belíssimas com ele na direção musical. Tinha ele grande prestígio junto aos dirigentes da igreja, pois conhecia como ninguém o rito de todas as cerimônias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto fez o regente que, um dia, após determinar não admitir a ausência de quem quer que fosse a uma missa, os cantores — todos — se combinaram e deixaram-no sozinho na hora do santo ofício. Viu-se sozinho no coro. Não se deu por vencido. Tocou todas as peças sacras com raro brilho. Naquele dia não houve cantores. Somente o órgão e a voz do povo. Ficou bonito e diferente. Mas o regente não aturou aquela desfeita. Chamou o pároco e contou-lhe o sucedido. O padre quis relativizar a atitude dos coralistas, eis que tinha inúmeras queixas contra o regente. Mas o maestro não aceitou. Disse que a partir daquele dia queria receber honorários dobrados. O padre ponderou não ser possível, que a Igreja vivia da entrega voluntária de cada fiel. Mas o dirigente argumentou que os coralistas deviam fazer um mutirão para arrumar o dinheiro que estava pedindo. Então o padre pediu para ele se lembrar de que estava dentro de uma igreja. Foi aí que o regente se deu conta do embaraço em que os coralistas o deixaram. Estava realmente sozinho. Acabava de levar uma admoestação do próprio padre, seu admirador. Então caiu num choro convulsivo de quase meia hora. O bondoso padre também reconheceu que havia exagerado na dose e lhe pediu desculpas. O regente o desculpou, mas não parava de chorar. Estava inconsolável. Foram chamados mais dois padres que não deram jeito na situação. Então o pároco chamou a mãe do regente. Quando ela chegou, ele se atirou em seus braços. Ela o abraçou carinhosamente e sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Estreitou seu rosto infantil molhado entre suas ternas mãos, fechou os olhos como num sofrimento sincero e balbuciou: “Meu filho, vamos embora. Quando você fizer doze anos, prometo trazê-lo de volta”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-3087497002449933028?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/3087497002449933028/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=3087497002449933028' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/3087497002449933028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/3087497002449933028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/02/o-regente.html' title='O REGENTE'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4369669937639370747</id><published>2009-02-05T16:34:00.000-08:00</published><updated>2009-02-05T16:50:31.968-08:00</updated><title type='text'>OMBRO, ARMAS!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;color:#006600;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;Quando cheguei à Praça XV o militar já estava lá, vendo tudo de cima. Com certeza madrugara para conseguir o melhor lugar. No carnaval também estivera naquele local bizarro. Sabe-se lá como se pusera tão no alto. Desconfio que deva ter sido com a ajuda do colega ao lado. Sozinho é que não deve ter sido. De se imaginar como desceria dali. Talvez fizesse isso numa hora sem alguém por perto. Quadro insólito deveria ser ele descendo daquela peanha de pedra. Por mais que se colocasse elegante deixaria transparecer estampa imprópria na hora de colocar um pé aqui e uma mão ali para se manter longe de desabar. O temor de perder a compostura com certeza trai-lo-ia diante das réstias iluminantes do sol da manhã. O gosto de estar no alto, no andar de cima, parece próprio dos que nada tem a esconder. Dos que nunca fracassaram no desempenho da capacidade geral para a cooperação social.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quanto a mim, olhar o desfile do alto era um desejo recorrente. Muitos subiam em árvores, se apinhavam nas sacadas, se acomodavam em cima de muros e edifícios. O Dia da Independência era o verdadeiro teatro da cidade. A cada ano se extraía nova linguagem social. Uma poesia ainda não falada. Uma compreensão ainda não assimilada, não aprendida, não expressada em anos anteriores. A cidade se abraçava para o rito do Sete de Setembro que só sabe ser majestoso quando acontece nas ruas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Cedo, muitas vezes eu chegava para o desfile conseguindo bons lugares. Ficava ali, na corda, aguardando durante horas, olhando as pessoas chegando, conversando, se acomodando. Contudo, à medida que o momento se aproximava, era tragado pela multidão e acabava vendo pouco. A me contentar, apenas o som intenso do evento. De se ver, somente as pernas dos que passavam. Conhecia prazer olhar o trabalho dos narradores, repórteres e auxiliares das emissoras de rádio. Ocupados em transmitir e preparar equipamentos, davam ares de que não tinham brecha na agenda para perceberem a muvuca no entorno. Iam e vinham, como bichinhos, não enxergando ninguém. Ainda que numa estudada aparência, era a elite: Antunes Severo, Acir Cabral, Souza Miranda, Eugênio Luiz e José Valério. Um time e tanto, mesmo com a ausência do Roberto Alves, que ainda era pintinho na Rádio Anita. Naquele dia não estavam todos ali. Mas reconheci o João Ari, único trajando vistosa calça faroeste com a bainha dobrada para fora, auxiliado nos cabos de transmissão por ninguém menos que Cici, que muitos chamavam de Gambá e até de Oraci. Há esse tempo, eu havia concebido um poleiro para ser encaixado no alto de um poste e de lá tudo ver melhor. Um trambolho que nunca ousei construir. Mais-a-mais, temia que a polícia me arrancasse de lá a tapas. Era uma época em que o toque dos adultos ainda me era dolorido; tanto dentro quanto fora de casa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;Conferindo o retelho das nuvens, vi o oficial no melhor ponto. Num estranhamento o flagrei com a atenção voltada para o mar da baía sul, lado oposto ao da alameda por onde haveriam de passar as tropas. Homem grande, mais que o habitual, trajava gala, o que lhe dava um ar de distinção. Dos que eu já conhecera era o mais nobre, mas também o mais acobreado e o mais sofrido dos oficiais de toda a brigada. Pontes de Miranda decerto com ele aprendera que “sofrer não significava desviver, mas conhecer e sentir a vida.” Devia tê-la conhecido profundamente; a vida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;Revestido de luvas, dragonas, espada e quepe, trazia à mão vistosa luneta, que bem merecia ser insígnia de comando. Provável que para melhor fazer o reconhecimento do terreno, coisa bem a gosto de comandantes. Quase certo que divagava em recordações de campanha enquanto aguardava o passo grave dos irmãos de armas. Olhar no longe, parecia sobrepor ao mar seu vulto de fantasia para encaixar no ouvido, que é por onde quase tudo começa, o vento-sul com notícias de algum lugar conhecido. Dava mostras de que procurava localizar a ilha dos Ratos, a julgar pela posição do rosto virado para aquele rumo; mal sabia que agora já designada "do Carvão". Pareceu-me querendo entender o ambiente estranho daquela praça se sobrepondo ao miramar e ao mercado público com as pessoas, os escravos e as cozinheiras atrás de carne, farinha e pescado. Pensativo, nem se mexeu quando me agarrei à bainha de sua espada para erguer-me um pouco acima das pessoas. Fiz como já houvera feito antes, agarrando-me à generosidade dos bons para subir os lanços que precisava subir para aprender, ser útil e ver melhor. Fiquei bem colocado. Não tanto quanto o militar que, repito, supunha importante a julgar pela farda e o porte. No rebrilho do sol da manhã, parecia ter o austero rosto ornado por um bronzeado meio sorriso. Pudera, com a visão que descortinava não era de admirar. Fiquei encarapitado naquele granito que, de tão polido, parecia ter sido esculpido para ele. Bem me lembro que fiquei sem me mexer, sequer aplaudir, para não chamar-lhe a atenção. A despeito de muito me impressionarem as manobras das tropas terrestres, da ordem unida, dos veículos, das encilhas dos animais, das bandeiras históricas, dos galhardetes das pequenas frações e das ordens bem troadas dos comandantes, dele nada escutei que lhe traísse emoção. Nem mesmo quando o locutor oficial nomeava os heróis do passado e suas batalhas: Luis Alves de Lima, Antônio Sampaio, Fernando Machado, Felisberto Caldeira de Andrada, Farroupilha, Curuzu, Passo da Pátria, Tuiuti, Potreiro Pires, Linha Sauce, Curupaiti e Humaitá.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;No chão, o som de fundo dos coturnos marcava os compassos dos dobrados que a banda executava. Tudo isso me deixava encrespado, do pé à ponta. Era aflição e alegria, tudo misturado. Meu coração parecia haver recebido, lá no oco, uma pastilha que permanecia fervilhando concedendo-me grande prazer. Ali, naquela atmosfera de patriotismo íntimo eu me consagrei a viver meu quinhão social em favor do Brasil pelo viés do Exército. E então fiz a escolha primordial da minha vida. Fiquei alucinado, palavra de honra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;Ocorreu-me perguntar ao respeitável oficial sobre as evoluções militares que iam acontecendo. Ele dava-me respostas convincentes. Num português impecável, lembro, disse que o mais importante trabalho daqueles homens ficava invisível no coração deles. Não havia dúvida de que estava diante de um patriota, longe de um daqueles cujo poder somente serve para mandar soltar e prender. Vi tratar-se de um cavalheiro, a julgar pela paciência no responder. Arrisquei saber de onde viera.&lt;br /&gt;— De Nossa Senhora do Desterro, mas ainda jovem me apartei dos encantos da capital para cursar a Escola Militar da Corte. Trabalhei duro, guardei a fé no Brasil, lutei batalhas impossíveis no sul até a derradeira de sessenta e oito, que me levou o corpo que ora longe inverna.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#006600;"&gt;Tudo falava sem que me olhasse. Não experimentei estranhamento, pois que tudo perguntava sem nele também colocar meus olhos. Com atributos tão singulares, seria alguém conhecido? Ainda uma vez gentil, saciou minha angústia interrogativa:&lt;br /&gt;— Sou o sargento Kawahala, fotógrafo. O da estátua é o coronel Fernando Machado de Souza, herói morto na Batalha do Itororó contra Solano.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4369669937639370747?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4369669937639370747/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4369669937639370747' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4369669937639370747'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4369669937639370747'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/02/ombro-armas.html' title='OMBRO, ARMAS!'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6072991239571188771</id><published>2009-01-23T06:47:00.000-08:00</published><updated>2009-02-03T19:01:12.503-08:00</updated><title type='text'>LITERATURA (Deu no DC)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;Duas feras das letras na Barca dos Livros&lt;br /&gt;A Barca dos Livros de hoje recebe dois grandes nomes das letras catarinense. &lt;strong&gt;Sérgio da Costa Ramos e Flávio José Cardozo&lt;/strong&gt;, autores de centenas de livros, vão falar sobre a crônica, o estilo de texto escrito de forma livre e pessoal, que aborda assuntos da atualidade nos mais variados temas como política, artes, esportes, cotidiano, entre outros. A edição &lt;em&gt;&lt;strong&gt;A Arte de Escrever Crônicas&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; tem entrada franca e começa às 20h, na Rua Senador Ivo D’Aquino, 103 (em frente aos trapiches), na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.Os dois escritores lançaram juntos recentemente a obra Duas Violas Arteiras. Ambos dividiram páginas espelhadas por cerca de um ano no Diário Catarinense, jornal no qual Sérgio possui uma coluna diária. Eles aproveitaram a “vizinhança” para trocar alguns provocações amigáveis, crônicas travessas e molecagens que agora estão reunidas neste livro. Esse duelo literário poderá ser conferido também neste bate-papo gostoso de dois escritores que transformam um dia simples numa bela, engraçada, inteligente e interessante crônica. É a maneira que eles encontraram de ver a vida com outros olhos.Informações pelo fone (48) 3879-3208.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;Fonte: Diário Catarinense edição de 23 de janeiro de 2009.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6072991239571188771?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6072991239571188771/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6072991239571188771' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6072991239571188771'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6072991239571188771'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/01/literatura.html' title='LITERATURA (Deu no DC)'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4885534039677862513</id><published>2009-01-21T12:34:00.000-08:00</published><updated>2009-03-21T21:02:27.076-07:00</updated><title type='text'>MAU PRESSÁGIO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Era urgente ter uma conversa séria com a mãe. Arãozinho não pretendia estudar para ser padre. E também não queria mais ser coroinha da Igreja. Era-lhe insuportável ver tantos coleguinhas debocharem e cuspirem na sua cruz. Um dia enfrentou a velha de homem para homem: ia acabar com o calvário da sua amargurada vida. Nem bem havia começado a argumentar quando ela o interrompeu para repetir a ladainha de sempre: que o rapaz fora consagrado à vida sacerdotal desde quando resgatado do mar após dia inteiro de busca e suplício da família.&lt;br /&gt;— Eu nem me lembro disso.&lt;br /&gt;— Não blasfema, insolente.&lt;br /&gt;— Quem mandou a senhora fazer uma promessa ridícula dessas.&lt;br /&gt;Foi pior ter aberto o diálogo com a professora. Dela escutou que era possuidor de méritos proféticos; e de fato era mesmo. O menino nem sabia como essas coisas aconteciam. O entendimento daquilo, nem o mais letrado desenredava. Era complicado explicar como o garoto adivinhava o futuro e encontrava coisas escondidas. Eram fenômenos que aconteciam quando menos esperava. Vinham do nada e a qualquer momento. De repente sentia mudança no ambiente ou um desconforto passageiro. Podia contar, algo iria acontecer. A mãe, que não perdia um lance da vida do rapaz, tinha lá suas razões para alicerçar a fé inabalável na carreira religiosa do filho.&lt;br /&gt;— Se é para viver com esses dons — dizia —, então que seja com as vestes de um sacerdote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior preocupação de Arãozinho, naqueles dias, eram os colegas. Muito difícil ficar escutando um xingatório do tipo: "carola". Ainda que revidasse baixinho: “excomungado”, escutava em seguida: "papa hóstia". Então replicava com maior ofensa: “tua mãe não é séria”. Era terrível escutar: "sacristão", para arrematar com ódio: "teu pai é um corno". Só podia responder às provocações da matilha de forma muito tímida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, Corpus Christi, estando perfilado para acompanhar a procissão carregando um incensório improvisado, notou a presença da cachorrada antegozando a teatral passagem pela frente deles. "Isso não vai prestar" — cismou pessimista; — "ninguém merece tanto enxofre". Olhou para o sacerdote que estava pálido. Era inverno, mas o homem suava no rosto. "Que lhe teria acontecido?" Pensou em pedir-lhe ajuda, mas parecia que o padre tinha visto fantasma. Ocorreu-lhe que o religioso devia ter muita fé para estar ali tão doente assim. Diante de tamanha pressão, decidiu abandonar o cortejo mentindo.&lt;br /&gt;— Padre, tenho de ir à patente agora.&lt;br /&gt;— Nada de banheiro. Se fosse um desmaio eu aceitaria, mas titica de jeito nenhum.&lt;br /&gt;E o bondoso homem rompeu a marcha sem dar chance de reação ao menino. Problema maior era o dele, padre. De manhãzinha constatara que haviam roubado diversos utensílios sacros da igreja. Nem havia dado tempo de registrar queixa na delegacia de polícia. Isso ficaria para depois. Agora, o importante e mais urgente era dar conta da cerimônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi só Arãozinho passar pelos meninos e começou a escutar os elogios. E o pior, a corja vinha acompanhando a cerimônia pertinho dele, todos no gargarejo da primeira fila. Cabeça baixa, trazia o ar compungido de quem estava diante do próprio Deus. Tinha que dar essa impressão para a mãe que a tudo acompanhava. Quem primeiro pisava no tapete de flores era o inefável Corpo de Deus através dos pés do sacerdote, que ali era simples assistente ritualístico — conforme pregava. Esse ambiente de encantamento fascinava o garoto. Contudo seus coleguinhas estavam longe de entenderem tal situação no mesmo grau. Achava que as pessoas não se permitiam ofuscar pela presença de Deus. Por isso os coleguinhas não respeitavam o papel que ele estava exercendo naquele momento. Diante disso não se achava com suficiente vocação para a vida religiosa, pois tinha vontade de esganar um por um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o acompanhamento chegou defronte ao armazém Casemiro Rosa parou para uma estação ritualística. O incenso fumegava além do combinado. O sacerdote fazia sinais desesperados para o pequeno ajudante abaixar o volume do fumo. O garoto não sabia manusear aquele turíbulo todo amassado e velho. Quanto menos fumaça o padre pedia, mais o braseiro consumia o pó do incenso. Arãozinho resolveu abafar o turíbulo fumegante com a própria batina na ânsia de atender a ordem do apavorado religioso. Foi pior, não suportando o calor da brasa entre as mãos juvenis, acabou por liberar o medonho fumacê. O padre quase chorava de raiva. O menino tentou balançar com velocidade a peça repositória das essências aromáticas. Até resolvia um pouco, mas quando parava o movimento, por cansaço, o fumo era ainda maior. Ocorreu-lhe uma idéia que, no improviso, poderia funcionar. Começou a fazer círculos com o incensório como os de uma roda gigante. Fez um ar de riso, porque funcionou bem. Era-lhe menos cansativo, eficiente e divertido. Mas o revés da sorte mandou-lhe recado: a peça ritual, que em muito se parecia com uma chaleira de chimarrão, desprendeu-se da correntinha e foi cair com grande estrondo em cima do armazém. Dois quilos de puro ferro fumegante. Havia fiéis que, do final do cortejo, juravam ter tido uma visão de arrebatamento espiritual, tamanha a esteira de fumaça, ruído e brilho que produziu o lançamento daquele meteoro esotérico. Sem ação diante daquela visão quase profética, alguns se ajoelharam contritos e esperaram pelo pior. Era coisa de Deus ou do diabo? Isso todos iriam ver em seguida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O impacto fez um rombo no telhado e um vulcão ficou ativo dentro do sótão do velho prédio. O buraco fumegava semelhante chaminé e dele saiu um homem fumarento com um saco cheio de coisas às costas tilintando desordenadamente. Correria na procissão; "desçam o homem do telhado". Quem era, quem não era? E o turíbulo, como fica? Logo depois, e graças à polícia, o equipamento litúrgico já estava incorporado ao cortejo, mais amarrotado e com o pito já apagado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arãozinho, contudo, não estava mais ali. O sermão ia ser grande. Então começou a arrumar as roupas na mochila para ir para a casa da avó na Terra Fraca. Não deu tempo. Porta adentro entrou a mãe, que foi perguntando:&lt;br /&gt;— Arão, como fizeste aquilo?&lt;br /&gt;— Aquilo o quê?&lt;br /&gt;— Incrível, hás de ser mesmo um padre. Quem, senão um iluminado, iria adivinhar que o ladrão da igreja estava escondido no sótão do armazém?&lt;br /&gt;— Oh não! Por que me persegues, encosto?&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4885534039677862513?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4885534039677862513/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4885534039677862513' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4885534039677862513'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4885534039677862513'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/01/mau-pressgio.html' title='MAU PRESSÁGIO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-95600169667980044</id><published>2009-01-14T09:25:00.000-08:00</published><updated>2009-02-03T19:05:19.944-08:00</updated><title type='text'>SAI DESSA!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Não posso deixar de falar nas coisas que ouço. Algumas, de tão cabeludas, me deixam confuso e sem ação para rebater as declarações de descrença que sou obrigado a ouvir. O que vou relatar aconteceu na subida da Serra. Zé Amaro adoecia grave e não batia a caçoleta. Naquele vai-não-vai há um mês, a teimosia em permanecer vivo era desaprovação geral. Há tempo andava com aquele ar de quem morre em breve, mas morrer mesmo que é bom ele não morria. Orgulhoso empedernido que a todos contrariava e aborrecia, fincava pé nas convicções inarredáveis e dali não se movia. Além disso, era metido a valentão; mas isso era só de boca. Coitado, talvez quisesse viver mais um pouco além do pouco. Porque a vida, mesmo longa, é muito curta. Homem de muitos pecados e pouca água benta, maltratava dona Alfreda e ainda vivia de caçoada com as outras. Além de avô amargo era um atleta dos abismos da vida. Assim fazia para lá ficar enquanto concebia planos inconfessáveis. Havia descoberto que devia praticar mais a beira do abismo. Ousar mais, ir lá onde o medo tritura a coragem. Sem freqüentar o limite, sem esgarçar a dor, não conheceria a substância de uma vida insolente diante do medo. Para, quando aquela hora chegar, caminhar de olhos fechados até o precipício que o tragará. Porque a morte é a morte e a quem a terra entulhar, nunca mais o largará.&lt;br /&gt;Com os anos a patroa havia acumulado muitas contrariedades advindas dele. Agora, diante da morte do marido, lembrava da brigalhada que ele aprontara por conta de um zelo em vida. Ela havia comprado dois terrenos no cemitério. Um para ele e outro para ela. O agora moribundo não concordara ser enterrado num só lote, se um dia — claro — largasse a casca. Os que ficassem haveriam de sepultá-lo sozinho e no meio das duas vagas que ela comprara. Tinha mal-morrer e mal-dormir. Quantas noites ele se atravessara na cama deixando-a de fora? Nos finais de semana era certo acontecer. Mamava misturado de conhaque, vinho e funcho para depois ficar entregue aos urubus. Ela que não deixava, embora dele colhesse estranha gratidão: "Vá dormir no quartinho, nega". Para não levar adiante o rolo, ia concordando. Fosse ela encarregada de enterrá-lo o serviço seria feito como planejado, um no ladinho do outro. Se contrário, que ele fizesse como quisesse, pois já estava morta mesmo. Não queria se ocupar do furdunço antes da hora. Prática, Alfreda alinhava os ouvidos no vento e nada mais entrava ali que não quisesse. Antevendo o velho esticar o pernil já dava mostras de sentir os percalços da viuvez. Quanto desejou isso a ele, o luto. Quanto desejou morrer antes do companheiro; pelo menos ia descansar. Mas parece que a vez era do teimoso. Ele é que ia para a sombra.&lt;br /&gt;Diante da prolonga, a torcida pressionava e bradava dolorosas nênias em silêncio: "esse velho que não morre; basta desgraçado; vai em paz, estrume". Em verdade, desde que adoecera e ficara grave, não mais se ouvia em casa os rugidos de luta que sabia produzir. Não se escutava mais os gritos ferozes de ameaças e nem seus queixumes tristes. Muito menos mais se ouvia o estalar do ameaçador relho de couro cru no cano da bota preta. Até um fantasma vestido de mortalha roxa deixou de aparecer na sala. Daí que seu Régis, um barbeiro-farmacêutico, sugeriu se lhe desse boa colher de graspa. "Mas isso só com a ordem de dona Alfreda" — que estava ocupada na cozinha. Chamada, fez o que tinha de fazer: trancou o nariz do marido e forçou o líquido descer goela abaixo. A dose fora excessiva, disseram depois. O homem branqueou, fixou os olhos na esposa, careteou um pouco e defuntou. Era o que faltava para o desafogo do entorno doméstico, que bem não era uma família e sim um ajuntamento, tamanho o desprezo pelo extinto, agora sem mais proveito. Quanto alívio lhes trouxera aquela unção tão incomum. Cochichavam que o derradeiro trago dera-lhe o descanso da sua amotinada alma.&lt;br /&gt;Haviam de tomar conta do morto. Ninguém melhor que o compadre. "Chama o cabo Dourado" — um corneteiro do quartel e cúmplice das boas farras do finado. Quase um profissional do luto, aos que partiam se oferecia a dar banho, vestir o terno, amarrar o queixo bem amarrado, tamponar tudo, deitar na essa, juntar as mãos, atar os pés, acender as duas tochas, encomendar o corpo, ler trecho próprio da bíblia, providenciar a certidão, combinar o enterro e executar Silêncio junto à cova. Sensível, não conseguia tocar a música sem que lhe escorresse sentidas lágrimas pelo rosto. Era raro fazer, mas, considerando o renome do falecido, finalizava o concerto com o terceiro movimento da Marcha Fúnebre de Chopin. Ali ele se perdia nos caminhos da arte incompreendida. Alguns achavam aquilo luminoso, mas a maioria não gostava e ia dando o fora diante do agouro saído daquela trombeta do anjo vingador. Tudo isso o velho cabo fazia como se procurador do além. "No meu fraco pensar" — dizia — "um sepultamento é um ato comunitário para recomendar a alma a receber a graça divina. Para harmonizar — pela mediação da cabocla Jurema — o ambiente de dor que o finado deixa. Para consolar a família a receber os desejos de leve luto. Um velório seguido de sepultamento" — ensinava — "é desafio que dura o dia inteiro". Concluía: "enterrar com dignidade um e consolar os parentes que um dia também irão, pois disso ninguém escapa". Havia um cunhado metido ali que resmungava muito; fazia tempo que não aparecia. Naquele dia apareceu com um crucifixo acorrentado no pescoço, o agourento, para recomendar que do morto nada mais se falasse. "O que ele fez, está feito; a conferência dele agora é com Aquele-lá-de-cima; e tem que enterrar logo o corpo antes que comece a feder".&lt;br /&gt;A vizinhança começou a chegar e dona Alfreda botou de lado o desânimo para providenciar assistência aos amigos e parentes que vinham de lugares distantes para prestar tributos ao finado. Café preto, rosca de polvilho, pão de casa, geléia e licor de butiá. Tão rápido preparou a mesa que se desconfiava que havia preparado tudo antes do marido morrer. Vez em quando algum parente vinha beijar a testa do branco defunto. A reza do terço não parou até a meia-noite, quando a maioria foi dormir.&lt;br /&gt;Dia amanheceu, galaria cantando há muito, e a tampa do caixão já ameaçadora encostada na parede da sala. Chegaram mais pessoas e mais tumulto. Mas o corneteiro botava ordem em tudo. Conhecia o ritual mais que ninguém. Marcado para as onze horas, resolveu que o sepultamento havia de ser antecipado, pois o ribombo de trovoada vindo dos lados do Morro Grande deixava todos assustados. Trovão vindo daquelas bandas era certeza de muita água. Com sorte daria tempo para o procedimento. "Enterro debaixo de chuva era uma coisa desventurada" — dizia.&lt;br /&gt;O cortejo seguia apressado com o caixão carregado por seis homens. Dois mais traziam os cavaletes de descanso. Mas havia uma ponte no meio do caminho. No meio do caminho havia uma ponte que dava susto nas pessoas. A bem dizer não era sequer um pontilhão e sim uma pinguela improvisada, uma estiva. Quando chegaram ali já chovia um bocado. Tudo liso, o chão, as alças da urna, a ponte, os sapatos. A segurar a caixa mortuária, somente dois homens iam transpor a carga: um na cabeça e outro nos pés. Um peso enorme daqueles tinha que ser para dois dos bons; acostumados a fazer força.&lt;br /&gt;E dê-lhe chuva e mais chuva. O riacho enchia rápido. Um dos que seguravam a urna — Mané Caetano, que também atendia por Graxaim — usava sandálias de dedos e se equilibrava andando de costas em cima da pinguela. Ninguém vai de retro calçando sandálias sem que arrume confusão. É no que dá: perdeu o calçado, parou para enfiar o pé e não mais se reachou. O da outra ponta — um tal de Quiça — queria andar e empurrar. Daí que o de costas corrupiou no tronco liso e levou todos para dentro do bueiro. A caixa escura bateu forte no passadiço e caiu na enxurrada. O defunto foi de borco para o lado oposto. Efeito dominó, um foi se agarrando no outro e todos para dentro do rio. Não foram poucos os esbarrões, cabeçadas, gritos e encontrões. Eunice, moça com nome a zelar, caiu focinhada na lama aparecendo-lhe a calcinha de saca branca que a mãe lhe fizera. Recompôs-se rápido, mas deu para ver a logomarca: Farinha de Trigo Aymoré, Marca Registrada. Isso e mais a estampa de um indomável silvícola com uma pena atravessada no nariz. Posteriormente, quando ela aparecia nas domingueiras, como zombaria, os rapazes passavam o dedo indicador entre o nariz e o bigode lembrando o adorno indígena. Não suportou; de tão humilhada foi morar na capital. Isso ela não merecia, pois que era mulher de valor, com grande capacidade de suportar situações-limite, com paixão de viver. Provou-o ao longo de toda sua honrada vida. Era dessas pintadas com tintas fortes.&lt;br /&gt;Salva esse, puxa aquele, empurra pra cima o outro, retira o defunto. "Onde está o morto?" A torrente levou. Os homens no rio de transbordo a mergulhar, a procurar o corpo. Duvidoso de crer, mas o falecido conseguiu ficar engalhado por um braço na margem. Fosse pelos acompanhantes, Zé Amaro se perderia naquela inundação. Parece que seu instinto de preservação ainda estava bem vivo. E com isso acabou salvando a cerimônia. Aparece novamente o cabo Dourado, deita o homem no ataúde e prega a tampa com uns pregos enormes ruminando: "Fica-te aí, encrenqueiro". Virando-se para o coveiro: "toca a sepultar de uma vez, porque este negado não está cooperando".&lt;br /&gt;Anos depois a esposa é que se foi. Então começaram a preparar outra cova ao lado da sepultura do marido. Dourado era homem acostumado com os assombros daqui e do além, mas naquele dia por pouco ele também não foi dançar nas nuvens. Com os olhos fixos dentro do buraco, mastigando incerteza, viu que a carcaça de Zé Amaro estava atravessada no terreno ocupando duas vagas, bem do jeito como queria. Ruminou com meio sorriso: "Velho teimoso!"&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-95600169667980044?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/95600169667980044/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=95600169667980044' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/95600169667980044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/95600169667980044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/01/sai-dessa.html' title='SAI DESSA!'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7555947267347405095</id><published>2009-01-03T11:48:00.000-08:00</published><updated>2009-02-02T08:34:53.859-08:00</updated><title type='text'>SANTA ANA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#333333;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;Viera do sul e lá deixara a família, até que arranjasse local de morar. Longe da patroa, começou a procurar sarna. Não devia; esposas que amam e se mantêm decentes deviam merecer blindagem contra traição; e ainda por cima, dois filhos de encanto. Tinha tudo o que um homem queria para ser feliz. Mas parece que isso não lhe bastava, o faminto. Queria, sabe-se lá por que, dar a mão ao capeta e caminhar de olhos fechados até a beira do buraco que, impiedoso, tragá-lo-ia. Sabia disso, mas ia chafurdar na lama assim mesmo, o excomungado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora de sair ficava arrebitando o bigode já grisalho diante do espelho. Touceira tão vasta que passara da corpulência permitida pelo regulamento militar, em formato e dimensão. Tanto zelo vinha-lhe da convicção de um finado reúno que não dispensara tratamento menor ao conjunto barba e bigode, até ganhar fama de sedutor nos salões nobres da nova República que acabara de proclamar. No cofiar de ornamento tão perfumado vinha-lhe ainda a certeza de que amealhara mais alegria que dor de cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dias elegera um destino certo de sedução: o cinema. Minto: a moça do cinema. Depois de muito subir, descer, espreitar, rondar e pesar cravou a mira no único cinema da cidade. Fizera toda essa aproximação como um franco atirador em missão. Nisso era competente: mandar bala nos outros. Tanto que ensinava os companheiros recrutas. Mas nunca dizia que era para atirar nas pessoas; não, era para atirar no alvo. Decerto era para se embromar, pois jamais estivera numa situação real de confronto armado. Isso lhe passava pela cabeça, mas muito de longe. Enquanto o inimigo não aparecia, ele queria rosetar. E ninguém melhor que a moça das balas, que era quem queria abater. Mas ela já estava de sobreaviso, porque apesar de mulher nova não precisava que lhe ensinassem uma coisa dessas. Nem adiantava ele vir com aquela tapeação sobre seus filmes preferidos que ela já lhe percebera as dissimuladas intenções. "Então não me respeita, diacho? Não se enxerga?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido, dono dela e do cinema, também sacara tudo. A tentativa de encanto para cima da moça era encorajada por algo nebuloso na cabeça de Santa Ana. Será que era porque o marido tinha um bigode como o dele? "Se ele usa é porque ela gosta", cogitava. Talvez fosse apenas a atração crescente que tinha por ela, que encurralada, quase não podia negar-lhe o assédio. Talvez fosse pela delicadeza do marido que, dono de um estabelecimento público, quase tinha obrigação de tratá-lo amistosamente. Era certo que Santa Ana percebera algo no ar que o encorajava a prosseguir com a sedução. E para ganhar a esposa, conjuminou, tinha que partir para cima do marido, um senhor de idade em vista dela, tão moça ainda. Tinha de conquistar primeiro o velho. Deu então jeito de encontrá-lo no mercado, na feira, no banco e no bar; ganhou um amigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite de pouca gente nas ruas Santa Ana estava mais adulterino do que o rabudo. Quando a sessão começou, ele levantou-se e foi comprar chicletes. Planejou pagar com dinheiro grande e provocar enguiço no troco. Ela devolveu e disse para ele pagar outra hora. E no pegar de volta, segurou e beijou-lhe carinhosamente a mão. O roçar do bigode na mão da mulher foi fatal. Olhou fundo nos olhos de Santa Ana para dizer: "Adoro homens de bigode, sabia?" Com um sorriso de quem acabara de inventar o amor, Santa Ana disse que ia acabar de ver o filme; ia executar a segunda parte do plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Final da sessão, pessoal saindo, Santa Ana ficou por último. Veio o proprietário:&lt;br /&gt;— Vamos embora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajudou a ferrolhar a porta e passar trancas nas janelas, num agrado de má intenção. Deu certo, o homem começou puxar conversa e falar do frio. Ela cochichou algo e o outro convidou Santa Ana para tomar algo quente em casa; uma sopa, um aperitivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento bem organizado, mas ela pediu que não reparasse na bagunça. Ficaram os dois na sala enquanto ela sumia lá para dentro. Já estavam no segundo amarulla quando ela passou de roupão branco sorrindo. O homem convidou para assistir um pouco de televisão. Quando ele entrou ficou encantado com tanto conforto que havia no dormitório do casal; até perfumado o quarto era. Ela deitada em baixo das cobertas de olho nas Olimpíadas. Foi um rebuliço na cabeça de Santa Ana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Senta aí — mandando-o sentar na cama ao lado da esposa.&lt;br /&gt;O velho acomodou-se ali fingindo atenção na TV; ela no meio. Antes, ele tirou os sapatos e enfiou-se nos cobertores. Santa Ana olhou para ela, que não tirava os olhos da transmissão. Olhou para o outro, que o mandou se cobrir porque o frio era de amargar. Então Santa Ana deslocou-se direto para o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça não tirava os olhos das Olimpíadas. Roupão jogado, cabelo revolto, pegada firme, regata suada e ela torcendo na final dos cem metros nado livre. O velho de olho grudado na prova, mas nada via do que se passava na televisão; história dele! Desconfiança e medo, pistola na mão por baixo do travesseiro e ela finalmente solta o fôlego trancado para medalhar o recordista.&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7555947267347405095?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7555947267347405095/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7555947267347405095' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7555947267347405095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7555947267347405095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2009/01/santa-ana.html' title='SANTA ANA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4945367892731724411</id><published>2008-12-31T09:26:00.000-08:00</published><updated>2008-12-31T09:28:39.176-08:00</updated><title type='text'>O BOM SAMARITANO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff99ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff99ff;"&gt;Passava das nove da noite, quando Thumé Cruz saiu do escritório. Esperava o ônibus quando ouviu um gemido. Demorou a achar o homem na vala. Puxou o coitado enquanto os carros passavam, mas pessoas se ajuntavam. Constatou fratura na perna. Pensou em hemorragia e pediu chamarem o resgate enquanto fazia torniquete com o próprio cinto. Colocou a mão sobre o nó do garrote para sentir calor intenso no local. Pensou em jorro de sangue. “Faça agora o que tem de ser feito”. Ao ouvir aquela voz cadenciada sentiu um assombro, parecia ser do senhor da escuridão. Contudo, não se permitiu pavor. Naquele instante só queria a polícia e dar o fora. Mas o dono do escuro insistiu dizendo que ia desmaiar. “Meu São Francisco de Assis!”, murmurou Thumé. Foi quando a própria mão ficou azul além de quente. Começou a passá-la suavemente na perna do homem. Daí que tudo foi se recompondo estranhamente. Continuou com os movimentos na ânsia de ver no que ia dar aquela alucinação. A perna se refez curada e o homem voltou a si. “Meu São Francisco”, essa era a intimidade de Thumé Cruz. Perguntou e o estranho disse que estava bem. Sorriu levemente e desatou o nó do garrote. Dos ferimentos não ficou vestígio. O outro agradeceu e pôs-se de pé. Thumé Cruz ficou ajoelhado ainda por um tempo com o coração aos solavancos. Os lábios e o nariz anestesiados. Tudo instantâneo, mas estava chocado. Havia acabado de presenciar algo maior que ele. Só não pensava em ser coisa do capeta porque já ouvira a respeito.&lt;br /&gt;Quase chorando Thumé Cruz abriu os braços respondendo que não sabia, quando o bombeiro perguntou como estava. Foi convidado a entrar na ambulância, que saiu dali com a sirene aberta para o hospital. O médico disse que ele estava só assustado e aplicou-lhe uma injeção. Nem deixou dizer que o atropelado era outra pessoa. Quando acordou pediu para ficar descansando. Sozinho e com a cabeça no acontecido, eis que entrou um casal. Thumé sentou-se e percebeu que eles se entreolharam. O homem maneou a cabeça como a indicar Thumé, que reconheceu nele o motorista da ambulância. Nunca tinha visto a mulher, mas ela lhe entregou uma pequena sacola. Thumé Cruz viu que ali estava o próprio cinto usado no socorro. Ela sorriu:&lt;br /&gt;— É o cinto dos iniciados na Ordem de Samaria.&lt;br /&gt;— ???&lt;br /&gt;— Francisco de Assis é o Primeiro Guardião.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4945367892731724411?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4945367892731724411/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4945367892731724411' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4945367892731724411'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4945367892731724411'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/12/o-bom-samaritano.html' title='O BOM SAMARITANO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1966946181935251741</id><published>2008-12-26T13:16:00.000-08:00</published><updated>2008-12-26T13:39:48.522-08:00</updated><title type='text'>NATAL, UM PONTO DE VISTA</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Da pertença da leitura do natal,&lt;br /&gt;Bem assim também da quaresmal,&lt;br /&gt;Que Jesus por nós se entrega em dor.&lt;br /&gt;Nasce e morre nosso Salvador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madeiro da cruz e cocheira, a esperança,&lt;br /&gt;Quis Jesus a um só tempo então juntar&lt;br /&gt;Mostrando pela fé que o dom de amar&lt;br /&gt;É fortuna nos deixada como herança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De pensar em qual dia se deu mais&lt;br /&gt;Se na cruz, em suplício solitário.&lt;br /&gt;Ou então, muito mais, pelo contrário,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao nascer, nos tornando imortais.&lt;br /&gt;Teve a dor do Senhor breve passagem,&lt;br /&gt;Pois nascer foi Seu ato de coragem.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff0000;"&gt;(Humberto Ilha)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1966946181935251741?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1966946181935251741/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1966946181935251741' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1966946181935251741'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1966946181935251741'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/12/natal-um-ponto-de-vista.html' title='NATAL, UM PONTO DE VISTA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-2159689770279639809</id><published>2008-12-22T14:09:00.000-08:00</published><updated>2009-02-02T08:40:14.182-08:00</updated><title type='text'>ENCOMENDA MUITO ÍNTIMA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff6600;"&gt;“Eu sou desonesto. E pode-se sempre confiar num desonesto, porque vocês sabem que ele sempre será desonesto. Honestamente, são os honestos que devem ser vigiados. Porque nunca se sabe quando eles farão algo incrivelmente estúpido!” (Cap. Jack Sparrow, Piratas do Caribe)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Sabe a Leila Diniz? Dizia que conhecera muitos cafajestes, mas todos eram uns anjos de pessoas. Ocorre que esse tipo de gente parece ter sempre missão na aldeia dos bons. Canalhas que indultamos porque deles precisamos. Refinados, não se prestam a cuspir na calçada ou deixar a toalha molhada em cima da cama. Nada disso. Com eles o buraco é mais embaixo. Adoram dizer: sou seu dono. E isso é que é grave. A metade deles desconfia que esteja fazendo benemerência. A outra metade tem certeza. Em férias por São Paulo, presencie uma campana policial na 25 de Março para neutralizar um desses que se achava o cara. Um tal Simão Cireneu que aguardava o momento de a mulher passar por ali para dar o bote. Todos os dias ela fazia o mesmo trajeto; já era caçapa cantada há dias. Ia ser facinho; um serviço de acordo com o que ambos haviam combinado sem dizer palavra. Ambos não, os três. A mulher era de idade. O camelô era um louco, um espião da vida alheia, um pervertido. Já avistara o vadio e esfregava as mãos, ansioso pelo momento do ataque. Num quase sorriso mastigava o cigarro de tanta tensão, ao mesmo tempo em que esfregava as mãos com impaciência. Conheciam a mulher, inclusive seus mais secretos escaninhos. Ela possuía o que Simão queria, pois carregava em vida o que não queria carregar. Dizia ser fardo, os pertences: pulseiras, bolsas, anéis, cartões e dinheiro. Cismava: “Tanta gente passando necessidade e eu no luxo”. Desejar pouco para viver. Dia claro, aquela era uma rua inimputável diante das contravenções de toda hora; diante da banalização dos pequenos crimes que dali sobrevinham. Ao contrário de muitos cenários, aquele era um local para se trabalhar de dia; com o sol resplandecente. Fosse à noite não haveria gente, platéia, nada. Só o caminhão do lixo e os enfeites de natal apagados. Cireneu era um solitário no cavar a vida. Roubar ou aliviar o fardo alheio? Disso fizera uma opção de vida. Não se incomodava com os pensamentos que tinha. Era a sua lógica, o seu absurdo, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em ser roubado, mas sabia de gente que morria de vontade de sê-lo. Os que se deixavam roubar eram os doentes, os ingênuos, os medrosos, os culpados, os trouxas, os otários. Os que roubavam eram os cafajestes, os espertos, os donos das ruas. A mulher ele conhecera sentada ao lado no ônibus. Sorriram e se encontraram depois: "só pela amizade", mentia ele. Saíram diversas vezes sem nunca darem aos encontros algo diferente que o sentido da amizade. Ela sincera, ele tramando. E concluiu que era ela quem dele precisava; que lhe cabia a tarefa de mitigar os mais íntimos desejos dela; reclamos de sua indecifrável alma. Viu-se um anjo de capa preta diante da mulher.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;— Você se importa — perguntava ela — de eu ser assim?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Ele fazia que não com a cabeça. O camelô impaciente vez por outra cruzava o olhar com o do bandido e mandava, por gestos, quase uma intimação. Dava ares de um juiz de futebol, só que não interferia no resultado. Não conseguia vender nada enquanto não trombasse com algo forte no começo do dia. Nervoso, não tinha sossego enquanto não lhe viesse o descarrego da alma lavada. Enquanto não sentisse o cheiro do sangue do outro; amargava enquanto não sofresse nocaute. Então ela apareceu na rua apinhada de gente. Mas tanta que dali trescalava cheiro de pele humana. O rapaz foi-lhe ao encontro e percebeu-a diferente: olhos cristalizados, narinas ofegantes e mãos trêmulas. De olhos fechados, esperou o inevitável. Foi despojada de tudo: pulseiras, relógio, brincos, carteira, telefone, cartão de crédito... O rapaz não disse palavra enquanto atendia a mulher, que gemia baixinho. Havia nela uma expressão de alívio e um meio sorriso no rosto. Entre eles havia um entendimento da transgressão, que revelava o prazer proibido albergado em cada um. Ela fez-se paciente e resignada, cônscia de estar cumprindo penitência; viajava. Temeu demais aquilo que podia acontecer. Encontrou algum consolo quando aconteceu. Antes de sair dali o safado disse-lhe dentro do ouvido:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;— Sou teu anjo negro. Eu te alivio a mochila que carregas. O covarde declamou isso inspirado na própria coragem que veio do medo estampado na alma da mulher, que permanecia imóvel e esvaindo-se ali mesmo. Ao passar pelo mascate, a mulher dele recebeu uma toalhinha felpuda para ajudar na faxina e a proclama gritante:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;— Vi tudo; nada perdi; foi chocante. Deu-se ele também por aliviado da pressão interna. Estava feliz como pinto no lixo. O cafajeste, já identificado, ainda estava lidando com um remorso que não conseguia sentir. Pilhado em flagrante, reinventou-se em amargurada vítima para escapar. Mentiroso, confessava arrependimento. A mulher precisava equilibrar o gosto de ser roubada, que tinha origem num passado que iria continuar supurando. Ele merecia cadeia. Policiais sequer encostavam-lhe a mão. Haveria de ser encaminhado à delegacia de menores. Aparentando agilidade e sangue frio, respondeu canalhamente ao repórter: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;— Roubo? Apenas aliviei a embarcação para que não submergisse.&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-2159689770279639809?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/2159689770279639809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=2159689770279639809' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2159689770279639809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2159689770279639809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/12/encomenda-muito-ntima.html' title='ENCOMENDA MUITO ÍNTIMA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4638216370154423078</id><published>2008-12-06T09:25:00.000-08:00</published><updated>2008-12-06T09:26:29.864-08:00</updated><title type='text'>ALQUIMIA DO BEM</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A moça padecia de um mal que ninguém conseguia sequer diagnosticar. Consta que nascera saudável e com dez meses contraíra doença neurológica que a incapacitava progressivamente. Com vinte anos, e cadeirante há dez, os pais a levaram para uma consulta com o doutor Asteróide do Espírito Santo. Após exames diversos decidiu que a moça ficaria no hospital para um tratamento que ele havia concebido. Entretanto a jovem estava há uma semana deitada numa maca da emergência sem conseguir vaga para um quarto. Quase tudo ali lhe era negado: a higiene pessoal, o repouso, a dignidade, a gentileza de um sorriso. Quando sucedia precisar de banheiro era tirada dali às pressas. Viajava pelos corredores olhando o teto e vendo os rostos distorcidos das pessoas; sentindo cada solavanco das rodinhas da maca nas curvas para chegar ao elevador e lá ficar confinada, acompanhada pelo murmúrio do engenho das correntes e dos contrapesos da caixa de aço. Depois, de volta, tudo de novo sob o comando de outro atendente, pois o que a trouxera fora lanchar ou entregara o plantão para descansar no colchão macio de casa. Sentia-se longe da própria casa diante do efeito maca-na-emergência. Uma semana ali varreria da memória de qualquer um os contornos da própria carteira de identidade; mas a moça era valente e resistia, saindo daquela impiedosa cena para se abrigar na vigorosa esperança que lhe nutria a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os dias o médico dizia que estava providenciando um lugar. Durante o tempo que a visitava parecia que também fazia alguns exames misteriosos. Espetava-lhe as partes dormentes das pernas, das mãos, dos braços, dos pés, das costas, do abdome e da cabeça. Muito embora ela experimentasse leve desconforto, mantinha-se resignada durante os exames. Guardava uma fé quase absurda de cura mais-dia menos-dia. Mas esperando naquele corredor ela também pressentia que não ia acontecer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí que os pais decidiram levá-la para casa à revelia do médico. Tiveram um trabalho imenso para encaixá-la naquela cadeira da má sorte. Ajuntaram as coisas e já iam saindo quando o doutor chegou.&lt;br /&gt;— Vamos levá-la para casa. Isto aqui é desumano — disse a mãe.&lt;br /&gt;— Ela não pode interromper o tratamento.&lt;br /&gt;— Tratamento? O senhor está de brincadeira.&lt;br /&gt;— Ela tem de ficar no hospital. Esperem que irei providenciar um quarto. Além do quadro clínico tenho de resolver o enguiço administrativo. Odeio isso.&lt;br /&gt;Saiu e não voltou, mas dois funcionários de roupões verdes, pantufas e toucas acomodaram-na num quarto com mais duas mulheres. Então os pais puderam dormir em casa naquela noite. Dia seguinte voltaram e não a encontraram. Havia duas camas vazias e uma doente que dormia profundo. Deram-lhe alguns safanões delicados para acordá-la, mas parece que ela queria ficar dormindo. Com os olhos fechados perguntou "o que é?"&lt;br /&gt;— Onde estão as pacientes? — perguntou a mãe com angústia na voz.&lt;br /&gt;— As duas foram levadas à noite, mas parece que uma não resistiu.&lt;br /&gt;Disse isso e voltou a dormir no abismo. Pai e mãe entraram em aflição e desembestaram correria ao posto de enfermagem saber o certo. Escutava-se o desespero deles pelo corredor e muitas pessoas vinham ver. Nisso veio também o doutor Asteróide. Ambos voaram-lhe em cima para dele exigir explicações. Nem o deixavam falar, que, ainda assim, mantinha-se calmo.&lt;br /&gt;—Vamos até o quarto — precisou decretar. O que aconteceu com ela e com mais alguns ainda não sabemos explicar. O certo é que isso está me trazendo algum desgosto e nociva fama porque está fora do padrão profissional. Só não abandono isso porque o meu sonho de ajudar os doentes é muito maior do que eu. Mas confesso que essa loucura está ganhando vida própria e ficando maior que tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontraram a paciente que havia dado aquela notícia trágica dormindo como desfalecida. Para surpresa geral a jovem sumida saiu andando sozinha do banheiro enxugando os cabelos. Abraçou os pais e contou que estava curada. Que fora levada dali na madrugada para uma sala com pessoas que a esperavam. Que o doutor disse que iam fazer nela uma cirurgia, mas que durante o procedimento ninguém tocou nela. Que fora trazida de volta e dormira bem o resto da noite. Quando acordou quis levantar-se e tomar um banho.&lt;br /&gt;— O resto vocês já sabem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os pais procuraram o médico que não estava mais ali. Foi encontrado combinando no telefone móvel outra cirurgia para aquela noite, pois somente a noite sabia guardar os segredos dos fenômenos de assimetria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4638216370154423078?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4638216370154423078/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4638216370154423078' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4638216370154423078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4638216370154423078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/12/alquimia-do-bem.html' title='ALQUIMIA DO BEM'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4030546303157801602</id><published>2008-11-29T08:12:00.000-08:00</published><updated>2009-02-05T16:41:42.579-08:00</updated><title type='text'>CIDADE SEM XERIFE</title><content type='html'>&lt;span style="color:#9999ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#9999ff;"&gt;O dentista Orlandino Piedade fechou o consultório na hora do almoço e foi pegar o carro defronte ao prédio onde trabalhava. Vasculhou a rua toda e não encontrou o automóvel. Então começou a xingar o governo que não oferecia segurança. Seu carro desaparecera em plena luz do dia. Tomou um taxi e foi para casa, mas não conseguiu almoçar, pois estava indignado com a perda do veículo ainda financiado. Aquilo só podia ser coisa de gente que o andava negaceando para esperar a hora certa de agir com impunidade. A própria cidade não dava chance alguma aos cidadãos. Instituíra agora uma tal de zonazul com o pretexto de redistribuir as escassas vagas no centro para que todos usufruíssem com mais justiça. Mas o povo não assimilou o argumento e apelidou a idéia técnica de “pretexto para meter a mão no bolso dos cidadãos”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Piedade foi até a Delegacia de Furtos e lavrou um Boletim onde deixou consignado todo o seu descontentamento com o prefeito. Bradou que iria trocar de partido político, como se isso fosse impressionar os policiais de plantão. Registrou a queixa e foi-se embora para esquecer tudo em menos de duas semanas. "Quem sabe um dia meu carrinho aparece". Comprou outro e tocou a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mês depois havia atendido um amigo que lhe pedira carona. Vieram conversando pela Tiradentes quando o outro parou e ele seguiu falando sozinho. O dentista estranhou e fez sinal para que o acompanhasse até ao estacionamento. O outro ficou olhando para um determinado veículo e perguntou:&lt;br /&gt;— Mas este aqui não é o seu carro?&lt;br /&gt;Orlandino olhou, examinou bem aquele veículo todo empoeirado. Conferiu as placas e viu que se tratava do carro desaparecido. Olhou para trás e deu de cara com os barbeiros olhando para ele.&lt;br /&gt;— Vocês sabiam que este carro estava aqui?&lt;br /&gt;— Está aí há mais de mês e daí nunca saiu. A gente estranhava ver o doutor passar por ele e deixá-lo aí, mas fazer o quê? Decerto queria caminhar. Hoje isso está na moda, caminhar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4030546303157801602?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4030546303157801602/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4030546303157801602' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4030546303157801602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4030546303157801602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/11/cidade-sem-xerife.html' title='CIDADE SEM XERIFE'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6106569603861879837</id><published>2008-11-17T11:03:00.000-08:00</published><updated>2009-02-03T19:03:03.538-08:00</updated><title type='text'>O REBOCADOR TRIUNFO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#009900;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Manhã cedo, o pequeno navio R 22 ressoa a aguda sirene e atraca no porto da Rua Quatorze de Julho exibindo ainda as bandeiras sinalizadoras de serviço. Horatio Magalhães era o capitão de corveta mais charmoso da Armada; e o mais complicado também. Este era o seu primeiro comando. Ainda que fizesse algum esforço de parecer cortês, pela presença de civis no local, o cansaço da manobra era-lhe visível. Além disso era um militar de pouco riso. Podia-se dizer que já estava endurecido pelo sol e pela salmoura. Ainda jovem adquirira aguçado nível de lucidez. Fora preparado em casa para caminhar na dureza do convés das embarcações. O velho orgulhava-se da própria dispensabilidade para que o menino enfrentasse a vida por si. Estava sendo bem preparado. Chegou a compor a equipe brasileira de salto em altura nos Jogos Pan-americanos de Cali. Encaminhado para ser um campeão, era um daqueles que seguia vocação cultivando vaidade de família. Mas, diferente dos mortais, não tivera que fazer carreira com as mãos. Dizem que para ingressar na Escola Naval tivera dificuldades com a prova de Português. Deu branco e estava reprovado. Época de singular ordenamento nacional, ninguém ousou contestar argumentos do tipo “Todos sabemos que o garoto ficou nervoso. E também sabemos que ele sabe; ou não sabemos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde pequeno auferia proveito dos que gravitavam em torno do pai; olhava a maruja com descaso. Era exímio em bem demonstrar aquele ilusório ranço de elite, muito embora zeloso de suas obrigações. O comandante do Colégio Naval foi por ele chamado de maricão quando lhe exigiu a camaradagem da continência negada no pátio interno. O oficial envermelheceu diante de todos e entrou no gabinete para morder o ódio que nutria por ser mesmo diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horatio preferia não dar moleza aos de baixo para preservar a distância entre quem manda e quem tem juízo. Isso desde sempre; e não somente agora que estrondeara com força uma revolução, cuja gota d’água fora o desrespeito pela oficialidade do mar. Naquele cenário político, um oficial com algum cacoete nazista tinha carreira garantida nos quadros da Armada. E isso ele tinha de sobra. Talvez daí lhe viesse o apelido de Barradão, que é como os subordinados chamam aquele que lhes barra os melhores planos. Olhando-o de longe, parecia ficar melhor na pele de um fuzileiro naval de tão durão que era com os homens. Fora o primeiro de sua turma a conquistar o posto de oficial superior. Gostava de estudar e nisso ia fundo. Mas, se mandava nos homens e todos obedeciam, igualmente se via obrigado a obedecer ao mar e o que dele vinha. “Ah, o mar que a ninguém obedecia. Ai de quem viesse com a ladainha de que só a Netuno o mar respeitava; história!” O oficial era chegado em mastigar: “Netuno morreu faz tempo e o mar nada respeita”. Para rematar, se fosse provocado: “A negociação com o mar se dá antes de nele entrar. Como entrar no mar sem conhecer o retelho das nuvens e a leitura dos ventos?” Significa dizer que ele somente acreditava no planejamento, na prudência e no conhecimento do instante dramático a vivenciar no mar. “Os mortos — dizia — já esperam deitados; e deitado ninguém planeja. Ficar vivo no mar implica em ter que pedir licença para não precisar pedir socorro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que Horatio Magalhães fazia, fazia bem feito. Sextante ele tinha quatro. Um deles era pequeno, para caber nas mãos do filho. Equipamento de mergulho eram dois novinhos. Um para ele e outro para a esposa, que adorava mergulhar nas ilhas da costa fluminense atrás de garoupa-chita. Lancha, era questão de honra, tinha uma com dois motores de cento e dez cavalos e toda adaptada para mergulho. A bordo do Vendaval, um veleiro de trinta e dois pés que lhe dera o pai, buscava a utopia da velejada perfeita. Poucos oficiais praticavam a navegação à vela. Mas onde mais se permitia desfrutar a própria essência era dentro da água, mergulhando em apnéia. Poucos sabiam onde estava o prazer de pertencer ao mar. Ali estava, dizia ele. “Lá dentro só escuto o pulso do meu coração. O mergulho me leva ao coração do impossível”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Remanescente da Marinha americana, Triunfo era um rebocador empregado em missões de resgate. Tarefa pacífica que dava algum charme àquela embarcação tão antiquada quanto robusta. Um só mastro e um só castelo, o de proa. O resto da estrutura era destinado ao suporte das missões de força. Difícil achar quem não goste de um socorrista. Triunfo parecia um bicho vivo querendo se comunicar com o entorno. A comunicação pelo Código Internacional de Sinais através das quatro bandeiras já era mensagem de amizade e paz. Aquele rebocador, onde quer que aparecesse, invocava um sentimento bom nas pessoas porque não manifestava sinal de hostilidade advindo da exposição de armamentos próprios das embarcações de guerra. Ao invés de canhões, bombas e metralhas, viam-se no convés de popa rasa dele apenas grossas correntes, cordas, cabos de aço, roldanas enormes, sarilhos engenhosos, polias reforçadas e robusto pau de carga para agüentar o tranco nas operações de força em socorro de algum navio agonizante em ameaçador costão ou praia deserta. Ou ainda de algum outro refém da deriva tenebrosa no meio de alguma tormenta assassina a reclamar o sossego que as embarcações não lhe costumam dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da atracação o cozinheiro supervisionava um embarque de carne. Três grumetes faziam a estiva da viatura para o frigorífico da embarcação. De repente um balaio cheio foi parar no mar. O grumete, negro musculoso de uns vinte e quatro anos, tropeçou nos trilhos do trapiche e não conseguiu evitar o acidente. Nesse momento o comandante estava chegando, viu tudo e já foi dando a ordem:&lt;br /&gt;— Mergulha grumete; vá buscar a carne.&lt;br /&gt;O rapaz ficou de calção e se atirou na água. Ali já estavam quase todos para verem no que ia dar a situação. Outros colegas queriam ajudar, mas aí o capitão deixou à mostra o tanto de peçonha que ainda habitava em seu caráter.&lt;br /&gt;— Ninguém mais na água. A responsabilidade é dele.&lt;br /&gt;A cada vez que voltava do fundo com um pedaço de carne o jovem tinha maior dificuldade. Numa das vezes voltou sem nada nas mãos e sangrando pelos ouvidos. O médico pediu para parar com aquilo, mas Horatio não concordou e mandou que mergulhasse mais. O sangue não parava, então o cozinheiro se meteu e disse ao grumete para não mergulhar mais. O comandante virou-se para o cabo:&lt;br /&gt;— Como ousa?&lt;br /&gt;— O senhor está errado e meu irmão não mergulha mais hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico sentiu que era hora de intervir e mandou que o grumete fosse levado para a enfermaria. Sofrera um derrame cerebral que iria apagar o seu futuro e a carreira festiva de Horatio Magalhães, que recolheu a vergonha diante da gravidade do episódio e foi trancar-se na cabine. Inimigo de si mesmo, lembrou-se que um dia fora insolente com um comandante que também não conseguia domesticar a matraca.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6106569603861879837?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6106569603861879837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6106569603861879837' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6106569603861879837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6106569603861879837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/11/o-rebocador-triunfo.html' title='O REBOCADOR TRIUNFO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6880996903268609171</id><published>2008-11-14T02:13:00.000-08:00</published><updated>2008-11-21T13:48:23.913-08:00</updated><title type='text'>FAZ PARTE!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#9999ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#9999ff;"&gt;O casal passava quando viu uma idosa tentando atravessar a avenida da vila militar. Era um lugar difícil até para os mais jovens. Reparando a dificuldade da mulher resolveram dar meia volta no carro e encolher a distância entre eles e aquela que nem conheciam. Ao retornarem ela ainda estava longe de atravessar a arriscada via. Apoiava-se numa bengala e carregava uma sacola com roupas. O homem se ofereceu para atravessá-la tomando-lhe a sacola no que ela enfiou o braço no dele. Quando sentiram que estava favorável começaram a cruzar. Ele fazia sinais ostensivos para os motoristas abaixarem a velocidade. Parou o trânsito na hora. Caminhando na velocidade que ela conseguia, chegaram ao outro lado. Então ele perguntou para onde ela estava indo. À missa na Igreja São Francisco; frei Balbílio é o celebrante. Ela se referia a um homem grande, vermelhão, inquieto, de alguma idade e saúde de ferro. Diziam que se curava com ervas que lhe vinham da Alemanha. Falava português com sotaque carregado e alegre. Trajava sempre aquela batina marrom e sandálias. Como ele se virava no inverno ninguém sabia, porque também nunca foi visto com outro abrigo além daquele traje capuchinho. No verão, a mesma coisa: um calorão medonho e ele dentro daquela roupa escura gerando mais calor. Ali, parece, dava demonstração do obstinado ofício como servo do Senhor. O povo dispensava-lhe estima; era confessor de gente graúda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Vou levar umas roupinhas de bebê que fiz. Faço parte de um grupo que se reúne todo mês; ele é o nosso orientador espiritual. Conhece cada um de nós pelo nome e sobrenome; um santo em vida.&lt;br /&gt;— Posso deixá-la na igreja, se quiser.&lt;br /&gt;— Ora, se não quero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colocada no banco da frente, a mulher nem sabia afivelar o cinto de segurança. Na tentativa ela arrumou uma confusão de braço por dentro e braço por fora até ficar com o pescoço imóvel pelo cinto. O casal achou graça da dificuldade. O homem lembrou-se da própria mãe, que também fazia aquela confusão. Ajeitou-lhe o cinto e foram para a igreja deixando-a na porta. A mulher agradeceu e foi entrando com aquela bengala de madeira envernizada que lhe dava dignidade. O casal voltou para o carro e retomou a viagem, que era na seqüência daquele trajeto: o cinema do shopping assistir Julio Verne na versão reciclada em terceira dimensão da sempiterna Viagem ao Centro da Terra, agora com Brendam Fazer. Jurou à esposa que os truques da produção não iriam surpreendê-lo. Era melhor ter fechado a matraca, porque no primeiro minuto de filme quis tirar com a mão um beija-flor que lhe veio pinicar o nariz. Depois de muitas risadas ele entregou-se ao filme e às atrações que oferecia: cavernas profundas, peixes voadores, dinossauros zangados, cipós que sufocavam o herói, rochas que desafiavam a gravidade. Como o livro, na Islândia também estava a porta de entrada para aquela aventura. Só que o guia no filme era uma linda mulher, coisa impensada pelo autor no machista século dezenove. Estava envolto naquela nostalgia quando algo lhe trovejou num efeito dolby surround: Fiquei com a sacola da velha dentro do carro. Quis explicar a confusão para a esposa. Ela mandou que abaixasse a voz porque o filme era dublado. O homem disse que ia sair e voltaria dentro de meia horinha: pode marcar no relógio.&lt;br /&gt;—Hãm... Hãm... — de olho lá dentro do telão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu ansiado da sala como surdo em bingo. Uma pobre lixeira voou fazendo estardalhaço numa canelada que deu quando saiu da sala sem enxergar nada. Já no estacionamento olhou a sacola da senhorinha no banco de trás e tocou para a igreja. Quando chegou já havia terminado a missa, mas notou a presença de algumas pessoas por ali. Foi entrando porta adentro encontrando frei Balbílio que saía às pressas e olhando para trás. Dentro da igreja somente umas pessoas em oração aqui e ali. Perdi a velha. Olhando na sacristia viu um bolo de gente. Ela estava vomitando numa pia; as amigas em volta dela. Coitada, por que o padre não ficou aqui para atendê-la já que a conhecia pelo nome e sobrenome? Por que, já que era o orientador espiritual do grupo? Lembrou que ainda o vira se afastando, decerto para não ficar refém da responsabilidade. Levou a senhorinha à emergência do Hospital Senhor dos Passos. Depois de encaminhada colocou junto à cama a sacolinha e voltou para o cinema buscar a esposa. Precisavam voltar ao hospital e depois levar a mulher em casa: era no Buraco da Onça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já contou algumas vezes esta história com a gravidade que merece, mas não quer mais porque o pessoal começa a rir e dizer-lhe bem-feito, metido.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6880996903268609171?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6880996903268609171/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6880996903268609171' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6880996903268609171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6880996903268609171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/11/faz-parte.html' title='FAZ PARTE!'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6936602068678407995</id><published>2008-11-13T05:47:00.000-08:00</published><updated>2008-11-13T05:58:01.376-08:00</updated><title type='text'>O DOM DE NÃO ENTENDER</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Um sossego de varanda e então dormi,&lt;br /&gt;‘inda vi casal tentando vôo sem graça&lt;br /&gt;abatido no gramado sucumbir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grave ela ferida na agonia&lt;br /&gt;ele aflito se havendo em covardia&lt;br /&gt;por desgosto de com ela então morrer.&lt;br /&gt;Mas ficar ali por perto era preciso;&lt;br /&gt;de verdade bem saber ele sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperar por mais seis luas e voltar&lt;br /&gt;para o sol, após velar o que amou.&lt;br /&gt;A esse tempo a pobre ave quis saber:&lt;br /&gt;Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por seus olhos quis fazê-lo então saber&lt;br /&gt;que esta vida é fugidia, mas convém&lt;br /&gt;ser levado igual criança no viés&lt;br /&gt;do mistério que o juízo indulgencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longe de entender, por mais que tente,&lt;br /&gt;uma ave não me sabe compreender.&lt;br /&gt;Como igual não entendo o próprio Deus,&lt;br /&gt;que descendo vem olhar no meu olhar&lt;br /&gt;e dizer-me o que não posso decifrar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;(Humberto Ilha)&lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6936602068678407995?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6936602068678407995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6936602068678407995' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6936602068678407995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6936602068678407995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/11/o-dom-de-no-entender.html' title='O DOM DE NÃO ENTENDER'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-8159152351441917897</id><published>2008-11-08T11:23:00.000-08:00</published><updated>2008-11-13T05:57:30.658-08:00</updated><title type='text'>SONO E SOMBRA</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Na sombra, às vezes me deixo&lt;br /&gt;Dormir igual a um vadio&lt;br /&gt;Um sono de longo trecho,&lt;br /&gt;Mas torto e fugaz... Vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre consigo um sonho&lt;br /&gt;Daqueles bons de sonhar&lt;br /&gt;Às vezes de tão medonho&lt;br /&gt;Dou-me graças de acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando eu sonho calado&lt;br /&gt;Nada de mal me acontece.&lt;br /&gt;Mas se é sonho agoniado&lt;br /&gt;Meu coração desfalece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil vezes viro menino&lt;br /&gt;No’embrulho dessa magia&lt;br /&gt;Sonhando um sonho divino&lt;br /&gt;De alegrar a alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia tudo cabe.&lt;br /&gt;Bom e ruim tomam vida.&lt;br /&gt;Quem nunca sonhou não sabe&lt;br /&gt;E dos que sabem duvida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordar nem sempre é bom,&lt;br /&gt;Quando o sonho é de primeira.&lt;br /&gt;Há que se ter algum dom&lt;br /&gt;P’rá parar com a brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhar tem que ser assim:&lt;br /&gt;O mal e o bem juvenis.&lt;br /&gt;Se um sonho me deixa ruim,&lt;br /&gt;Outro me deixa feliz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;(Humberto Ilha)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-8159152351441917897?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/8159152351441917897/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=8159152351441917897' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8159152351441917897'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8159152351441917897'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/11/sono-e-sombra.html' title='SONO E SOMBRA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5063589627870170708</id><published>2008-11-06T10:07:00.000-08:00</published><updated>2008-11-06T10:09:41.997-08:00</updated><title type='text'>CLIENTE LEVA BRONZE</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Toda semana ele enfrentava aquela aporrinhação dos caixas eletrônicos. A tecnologia da informação viera para atrapalhar os que foram pegos de surpresa; como os da terceira idade. Claudionor era dos que não se davam com a parafernália de cartões magnéticos, senhas alfanuméricas, portas giratórias de segurança, casamatas blindadas, guardas armados, câmaras de vídeo, alarmes. Recente no bloco dos idosos, desejava usufruir regalia dos de sua categoria: usar um caixa preferencial. Não estava disposto a abrir mão desse direito há pouco reconhecido. Queria ser atendido com requinte nem que fosse uma só vez. Foi ao banco e não gostou do que viu lá dentro. Imaginava receber um pouco mais de consideração. Aquele aviso indicando o caixa destinado a atender idosos era perverso. Primeira vez que se permitira a ele recorrer achava aquilo uma carta de exclusão. Mesma coisa que tocar uma sirene obsequiosa para todo mundo ficar sabendo que ali estava um velho. Remascava que o atendimento merecia mais recato. Diabos, se um idoso, uma gestante ou um deficiente físico precisasse de atenção especial era só pedir que o banco saberia atender. Reinava em todo lugar, de uma hora para outra, uma mesura nervosa em favor do senil, mas parece que não sabiam atendê-lo. Havia supermercado que oferecia café da manhã. Prefeituras que garantiam gratuidade no transporte. Até as primas faziam promoção no cachê para os mais travessos. Outro dia a televisão mostrou uma dona Rosinha de setenta e três anos fazendo ponto numa esquina de São Paulo dando atendimento preferencial de geriatria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Aproximando-se do caixa a ele destinado, Claudionor ia esboçar um sorriso de boa-tarde quando uma jovem senhora lhe tomou a frente. Ignorando-o, ela furou-lhe a vez toda sorridente e com a bolsa aberta cheia de maços de dinheiro para depositar. Era tanto dinheiro que fora levado para a máquina eletrônica de contar. Flip-flip-flip; nunca tinha visto tanta grana junta, nem mulher tão linda. Ele era um bugre criado mato-a-dentro lá pelas barrancas do Uruguai. Um xokleng simbólico: baixo, moreno, quase um bronze, sem um fio de grisalho na cabeça; braços e pernas fortes. Havia de relatar em casa o que estava presenciando. Mesmo sentindo-se transparente tragava prazer enorme e não perdia um movimento da gorducha mulher. Que visão do céu. Por ele não saía mais dali; e não saiu mesmo. Disse para si que ninguém o tiraria dali por nada. Se necessário esperaria o resto do dia. A senhora passava maços e maços de dinheiro ao caixa. A sacola parecia não ter fundo, de tanto dinheiro que havia ali dentro. Entretanto, dava a impressão de querer desvencilhar-se logo da grana como que a transferir de uma vez ao banco a responsabilidade pela guarda daquele pequeno tesouro. Queria logo o recibo, a prova do depósito.  E Claudionor: "Ao invés de abraçar e beijar aquele dinheiro todo, ela quer se ver livre dele". Ali, de pé atrás da mulher, podia sentir o perfume cítrico que ela usava. "Uma delícia! Devia custar mais que o rancho mensal". Ainda ali, de pé atrás da mulher, se encantou com o longo sobretudo vermelho que lhe cobria o corpo. O aroma vinha daquele casaco que se mexeu com a mulher dentro para chamar o marido.&lt;br /&gt;— Nego, chega aqui.&lt;br /&gt;Claudionor pode então ver como era linda. Era muita merenda para o recreio do Nego, que era um dragão de feio. Depois de cochichar algo no ouvido dele, o homem encostou-se nela colocando-lhe as mãos na cintura. Isso fez de modo acintoso e olhando nos olhos de Claudionor, dando-lhe ainda vigorosa cotovelada nas costelas. O índio achou haver sido sem querer. Então, o amargoso se mexeu novamente e deu-lhe outro cotovelão para o coitado resmungar algo como “putz”. Agora estava passando da conta. O prosa virou-se para trás e perguntou se o outro não estava desconfiando de nada.&lt;br /&gt;— ???&lt;br /&gt;— Afaste-se de minha esposa. Você está invadindo a privacidade dela. Seu lugar é para além da faixa amarela; e não colado na patroa.&lt;br /&gt;Claudionor percebeu o vacilo; tinha razão, o infame. Desacostumado com a novidade nos bancos, nem percebera que estava invadindo o ninho daquela cobra. Mesmo assim deixou claro ao homem que não gostara do tom da voz dele, para em seguida ouvir:&lt;br /&gt;— Será que eu vou ter que me incomodar com você?&lt;br /&gt;Claudionor já estava tomando o caminho do seu modesto lugar, atrás daquela faixa amarela colada no piso da sala. Faixa Amarela... Algo ameaçador estrondeou dentro da cabeça dele. Lembrou que era ele um faixa-preta. Fora admoestado pelo salgado diante de pessoas e não gostara. O comportamento impróprio do homem deixou-o furioso, mas conseguiu abafar-se. Entretanto, dissera ao outro para se cuidar porque na próxima ele o faria engolir os insultos. Claudionor bem sabia que acabara de proferir uma ofensa maior do que a que havia escutado. O trouxa mordeu a isca e falou esbravejando desgovernadamente:&lt;br /&gt;— Vai querer me encarar?&lt;br /&gt;O bugre conteve-se mais um pouco. Era necessário provocar mais raiva no outro até sobrevir o ponto ideal de enfrentá-lo. Até que ficasse totalmente sem controle emocional. Antegozando um ódio desmedido e represado retrucou na debocheira:&lt;br /&gt;— Posso encarar você, mas não vale me chifrar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Xingar alguém de corno era uma de suas melhores provocações. De sua boca não saiam palavras afetuosas quando o sangue lhe subia. O valentão arremeteu com tudo para cima de Claudionor, mas girou como só um bailarino gira, terminando aterrissado junto ao bebedouro. Que lambança; a bombona explodiu no chão como um torpedo, encharcando tudo. O segurança tentou imobilizá-lo, mas o bugre fê-lo soltar um grito horrível. De não acreditar, mas Claudionor neutralizou-o fazendo forte pressão num dos dedos dobrados da mão do guarda. Como fazia muita choradeira, o bugre desvencilhou-se dele com grande estrondo; também ele beijou a lona. E no chão dormiu de ladinho perto de uma dentadura quebrada que não se sabe de onde veio. Agora ia juntar o confiado para completar o trabalho. Mas a cúmplice mulher subitamente avançou contra ele, como se tivesse sido atingida por uma espetada no popô. Nem deu tempo para desconsiderar a ameaça. A água espalhada fez que patinasse como se patina pela primeira vez: numa coreografia desengonçada com os braços abertos e os olhos arregalados de pânico. Todo o corpo atraente dela deslizou até amontoar-se sobre um vaso ornamental. Funcionários juntaram-na e ao marido e levaram os dois lá para dentro. Claudionor estava branco e alerta. Eram mesmo de bronze seus braços e pernas de tanto estrago que faziam. Sabia que o pior estava a caminho. Como a se defender, falou aos que viram o bafafá que fora um erro o homem tê-lo desafiado daquele jeito. “Meter-se comigo é caixão. Afinal, eu pratico artes marciais”, falou bancando o campeão de si mesmo. E era verdade, mas seu maior talento era a rapidez de raciocínio aliada à grande mobilidade diante de situações desse tipo. Sobrevinha-lhe ainda saber combinar rapidez com potência de golpes certeiros. Era um ninja, desses que a gente vê na televisão. Durante todo o entrevero não emitia palavra, mas nada lhe escapava à atenção. Nem o guardinha dormindo no chão, nem as câmaras de vídeo que tudo registravam.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Como parte da rotina de segurança os funcionários chamaram a polícia, que cercou a agência com grande aparato de resposta tática, preparada que veio para enfrentar assaltantes, seqüestradores, terroristas ou sabe-se lá o que mais. O oficial que tudo aquilo comandava não imaginara que fora acionado para acabar com um bate-boca. Sirenas, faróis acesos, pisca-pisca, bombeiros, coletes de segurança, escudos blindados, armamento pesado e muita tropa entrincheirada por detrás dos carros tipo caveirões. Aquele monumento de bronze feito homem olhou para fora e balanceou a situação: “tô ferrado”. Fitou as pessoas no interior do banco, quase que a pedir ajuda. Mas ninguém parecia lhe dispensar benevolência. Sequer chegavam perto dele. Decidiu então encarar sozinho o caso, como sempre fizera na vida.&lt;br /&gt;Um megafone saiu por trás de uma viatura camuflada, e dele vinha a ordem para que todos se atirassem ao chão. Foi pra já! Todos se deitaram, inclusive Claudionor, que se deitou ao lado do segurança que dormia de ladinho. Os policiais entraram e não encontraram a oposição que esperavam. Sequer sabiam a quem prender. Mas um comandante de polícia tem lá suas manhas. Com pausada voz de comando determinou que somente os funcionários do banco se levantassem. Ainda assim, verificou que havia muita gente pelo chão. A seguir autorizou que o segurança também se erguesse. No chão, só os clientes. E entre eles, por certo, os autores de toda aquela encrenca. Separando o joio do trigo ficaria mais fácil prender os bandidos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Mas, e Claudionor? Fez-se oculto ali mesmo. A polícia não sabia onde ele estava, muito embora parecesse que havia sido indultado pelos que tinham visto o seu desempenho em defesa da honra ultrajada; atuação que todos viram mas não entenderam, tamanha a rapidez e precisão de movimentos daquele herói solitário. Nosso Senhor depois de ressuscitar no terceiro dia foi mais demorado para se esconder nas nuvens, de acordo com o que nos contaram na catequese. Com tudo que O qualificava demorou muito mais tempo que o bugre para fazer-se oculto. E agora nem bem deitou ao lado do guardinha esse velhaco desaparece diante dos olhos de todo mundo para ressurgir fardado ninguém sabe como. Sobrou à polícia apenas prender o casal de lambanceiros. Queria o depoimento deles para o competente inquérito. Por muito pouco não levou uma vaia.&lt;br /&gt;Enquanto tudo isso se passava, o segurança falava ao rádio em voz alta com alguém a respeito da briga que havia presenciado no interior da agência bancária. Ao tempo em que parecia relatar tudo com detalhes ganhava a rua movimentada. E assim caminhou até o ponto de ônibus para sumir da vista da polícia. Entrando em casa, de uniforme, a mulher estranhou e perguntou se ele havia arranjado emprego de guarda. Fez que não com a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5063589627870170708?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/5063589627870170708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=5063589627870170708' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5063589627870170708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5063589627870170708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/11/cliente-leva-bronze.html' title='CLIENTE LEVA BRONZE'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1803532823779797677</id><published>2008-10-31T11:45:00.000-07:00</published><updated>2008-10-31T11:51:49.592-07:00</updated><title type='text'>O INEVITÁVEL DANIEL BARBADA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;— Pode haver coisa mais absurda? Estudante civilizado não há de trapacear nas provas. Só se for por cima do meu cadáver.&lt;br /&gt;Era um vexame. Um rapaz tão galante levar tão grave sermão de mulher tão cheia de letras quanto bonita. Mas também era quase uma imprudência falar de maneira tão áspera a alguém tão engenhoso, porque ele era bem capaz de passar por cima dela para colar só por deboche.&lt;br /&gt;Ninguém pode afirmar que "desta água não beberei". Sempre existe o imponderável argumento da outra parte. Seja em palavras, gestos ou intenções. O rapaz demonstrava saber dar a volta por cima das situações já perdidas. Sabia curvar a espinha diante de ventos fortes, mas não deixava de aplicar um pouco de fortidão na pegada com as mulheres. Era disso que elas gostavam nele; aquela irresistível pegada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Nesses tempos em que se convive com escolas invadidas por vândalos, professores agredidos por delinqüentes armados, tiroteios, tráfico de drogas no portão dos colégios e gravidez precoce tolerada nos pátios, colar devia parecer um delito menor. Mas não, agredir, tirotear, fumar e cafungar são crimes que não mais surpreendem a polícia. Quando nem a escola, que é o recurso de edificação da sociedade, é digna de respeito, o alarme dispara causando susto em todos. Delito não menos pior, copiar clandestinamente num exame escrito é algo que ensangüenta a honra, liquida a carreira do estudante e deixa o professor vacilante. Felipe Gonzáles garantia que o estudante que manchasse o currículo com um episódio de cola jamais seria político na Espanha. Um delito tão pequeno, praticado por pequenos, mas que vira um dragão para o resto da vida. A cola é irreparável e não merece perdão pelo intrínseco da sua gravidade. Conheci alguns dos bons nessa arte. A eles jamais me entreguei para deles extrair sequer notícias de futebol. Quando passam parece que ainda ostentam a tatuagem da vergonha na testa. Não foram e não serão confiáveis porque a prática da cola é sorrateira, planejada e mentirosa. Tanto que sobressalta os educadores e os que zelam pela formação ética da juventude. Muito pior se o delinqüente for universitário. A aflição do professor que pilha alguém com a boca na botija semelha-se ao luto pelo próprio filho. Ficará ruminando muitos dias: “Onde foi que eu errei? Veja o suíno que irá me substituir” Se o transgressor for mulher, dessas que escondem a tramóia nas coxas, pode contar: é daquelas tendentes às negociações suspeitas. Emparelhar com elas num casamento é chifre certo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Barbada, o que estava levando aquele sermão escandaloso, era desses com as pernas demasiado cabeludas para enternecer alguém. Portanto, tinha que arrumar um jeito de esconder o cambalacho noutro lugar. Fotógrafo competente, Daniel passava boa parte do escasso tempo livre a reproduzir e reduzir textos escolares. Transformava tudo em instantâneos de trapaça para se dar bem nas provas. Na hora oportuna fazia sumir todo o petrecho nas furnas da própria roupa. Era comum vê-lo com maços de cigarros, cada um encobrindo um estelionato. Mesmo em dias de calor trajava famigerado fardão de lã cheio de bolsos. Aparecia no abafo todo encilhado de malfeitor. Bruxo requintado, jamais fora pego em flagrante. Professores faziam de tudo para ele não colar; pois colava. Uns diziam que eles sabiam e condenavam-no a morder o próprio rabo como no mito da serpente cósmica. Deixavam-no proscrito na circularidade da própria falência. Outros não compreendiam como o rapaz se valia desse meio suspeitoso se possuía brilhante inteligência. Outros ainda lembravam o lendário gol de mão de Diego Maradona: "indigno, mas fantástico". Aliás, é de se perguntar se os que baixam o pau no argentino teriam a grandeza de, no lugar dele, pedirem ao árbitro que invalidasse o gol em nome do fair play, mesmo que disso resultasse a derrota da própria equipe. Duvi-de-ó-dó.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;A seu favor Daniel confessava-se inseguro para fazer provas escolares. Contudo, em seu benefício havia o carisma de ser um profissional requisitado pelas principais agências publicitárias do país. Conhecia o mundo, tornando-se um humanitário diante do que captou e transformou em instantâneos. Suas fotos eram veementes nas exposições e publicações que organizava. Suas lentes focavam as pessoas na guerra, no trabalho, na alegria, no esporte, na escravidão, na orfandade, na dor, na morte, na ternura, no abuso, na solidariedade, na prepotência, no desamparo, no amor. Sua câmara foi intensa e denunciadora de barbáries contra as gentes do Timor Leste. No Zaire dos diamantes foi levado pelas mãos de crianças aos locais de ternura embrulhados pela dor de uma guerra até hoje não prescrita. Trabalhando tão apaixonadamente, aprendia que a Geografia era o espaço onde as pessoas viviam. E esse era o motivo pelo qual estava ali. Queria ser um fotógrafo-geógrafo; pois que o deixassem sê-lo, por certo para o bem. Contudo, em dias de exames virava uma pilha de nervos e tudo ficava embaralhado em sua cabeça. Pressionado errava até tabuada de seis. Para os que duvidavam mostrava a caixa de calmantes que tomava à noite. Conseguir notas boas era uma barbada quando o professor era descuidado, gabava-se. Para a maioria das pessoas ele era um safado. Rodava pelos corredores que um professor chegou a pegá-lo com o caderno aberto no chão e o baita só se dando ao trabalho de copiar, virando as páginas com a absurda destreza dos dedos dos pés. Diziam que o professor, diante de tamanha cara-de-pau, não tivera coragem de dar-lhe zero. Pelo jeito Daniel Barbada também conhecia o íntimo das pessoas ao apostar na falta de ação do mestre, porquanto um delito desses, praticado com o sol a pino, era coisa de merecer redondo zero. Mas, dizem, o catedrático tremelicou de tanta vergonha que sentiu pelo velhaco. A partir desse episódio a fama do fraudador e sua inditosa arte só fez crescer. Quando o Diretor tomou conhecimento do fato, chamou a professora que havia jurado barrar-lhe a farsa. Aquela braba do esculacho e do corpo torneado descrita no início. Barbada estava no meio de um rolo enorme, contudo alegava jamais haver usado os petrechos malditos para fazer as provas. Admitia preparar, mas não chegava a usá-los. Dócil, chamava “aquela fratura exposta” de lembrete ou material de apoio. Ninguém lhe negava a fama construída na falcatrua, mas também o reconheciam como um sedutor convincente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;A última prova do curso seria realizada sob a supervisão daquela fera tão amarga quanto linda. Se Barbada lograsse êxito sem colar na prova, sua mala cheia de culpa ficaria esquecida para sempre. Tinha que aceitar o desafio, mas estava acovardado: “Sou bruxo, mas nem tanto. Esse sargentão fareja tudo e vai me espicaçar”. Pensou em fazer um acordo com o Diretor, mas não lhe ocorria nada lícito que viesse em seu amparo. Sem saída, concordou com os termos da proposta. Faria a prova final sozinho e sob a supervisão da tal que lhe jurara nocaute. Havia feito duas provas com notas baixíssimas, precisava sair-se bem na última. Foi no banheiro e voltou trajado como um feiticeiro para o desonroso truque de tirar água de pedra. No entanto, ao botar os olhos na professora ficou paralisado. Como era linda aquela mulher. Agora é que se dava conta vendo-a num minivestido de seda preta que lhe desvelava as formas perfeitas. Como um radar, Daniel percebeu a existência de uma tatuagem indefinida no tornozelo da moça. Isso dava a ela um ar de independência e charme. O desenho, quase impreciso sem seus óculos de grau, parecia querer proclamar a própria presença naquela parte quase oculta do corpo da deusa. Lembrava algo já visto, contudo não conseguia decifrar aquela figura. Foi aí que sentiu estrondear-se por inteiro experimentando o angustiante ímpeto de gritar que havia achado a mulher da sua vida. Mas Daniel Barbada sufocou o sentimento para não piorar ainda mais a situação em que estava metido. Recompôs-se nos alicerces, mas parece que ela percebeu-lhe os estragos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Mandado começar a prova, tudo tentou que sabia na arte da diabrura da cola. Inventou mil truques e nada dava certo. Estava cada vez mais tenso. Meia hora de prova e não respondera nada. Então começou a rezar e imaginar o conteúdo das perguntas. Oxossi, o que mandava na mata, haveria de lembrar-se dele mais uma vez. Entregou a alma e matutou: "O que o destino me mandar, eu encaixo". De repente pareceu que lera em algum lugar a resposta de uma das questões, escrita com inconfundível caligrafia feminina. Esboçou ar de riso e cravou a alternativa correta. Voltou o pensamento para o santinho caçador de dragões. Assumiu o trejeito de quem estava raciocinando e veio-lhe a segunda resposta. Antes de responder olhou a professora, que demonstrava estar virando uma tocha ardente diante dele. As respostas vinham em borbotões, como uma torneira que não consegue estancar a água. Barbada respondia as perguntas com rapidez uma atrás da outra. Quando respondeu a derradeira, a mulher parecia estar cheia de luz. Instalou-se dentro dela um desabalar nevoento de fantasias. Havia passado por um jovializante processo e agora estava arpoada. Estava deixando o mesmo que uma porta aberta para o ladrão. Daniel combinou consigo mesmo: "Ela voltou dos infernos". Olhou aquele fermento indomável com um travo de paixão. Quis entregar a prova e sair dali, mas, como que por magia, ficou preso à presença dela. Estava também arpoado. O coração queria saltar-lhe pelo umbigo de tanto querer, mas seus olhos não se despregavam da cola caprichosamente escrita naquele tornozelo de fada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1803532823779797677?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1803532823779797677/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1803532823779797677' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1803532823779797677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1803532823779797677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/o-inevitvel-daniel-barbada.html' title='O INEVITÁVEL DANIEL BARBADA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-2874823358128657507</id><published>2008-10-28T17:32:00.000-07:00</published><updated>2008-10-28T17:34:21.087-07:00</updated><title type='text'>LADEIRA ABAIXO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana no pé daquela serra majestosa iniciava com rebuliço; pelo menos no povoado. Nada assombroso se o começo da lida não fosse às quatro da manhã. Em meia hora o ônibus sairá para engatar com o horário do trem das seis para Tubarão. "Levanta o patrão porque hoje o motorista não veio". Quando isso acontecia sobrava sururu para todo mundo. O próprio dono ia fazer a linha dirigindo o veículo; a mulher já na cozinha para o café; o filho fazendo o embarque. Sempre rigorosamente calmo, justo e honesto nos negócios, manso e cordial, Riccoldo Mansi planejara não precisar mais trabalhar duro após os quarenta. Era bom no que fuçar a vida, mas era péssimo no como fazê-lo. Para tanto botava os filhos e empregados. Jamais negou uma vaguinha para um parente, mas costumava pagar quase nada de salário. Econômico, não abria a mão nem para espantar moscas. Adorava comer ensopado de pato, mas quando havia carne de gado gostava de patinho para comer assado com recheio de toicinho e pimentão. Sedutor no silêncio, bonitão, olhos azuis expressivos, não sabia dizer não às mulheres que nele se encostavam como abelhas no mel. Vinha daí a infelicidade da esposa que o amava e unida cavucava com ele no esfocinhar a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o empresário chegou à garagem, o cobrador já havia aprontado o veículo para a viagem. Sentou-se ao volante, conferiu tudo e partiram devagar. A vizinhança já acordada com a maldição diária do barulho de esquentar o motor. Quem tinha juízo não chiava; o homem era também dono do armazém, da sapataria e da mina; um patrão meio blindado aos desaforos de empregados e parentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última poltrona, todo escanchado, viajava um compadre que era mais chato que chinelo de gordo. O velho, miudinho, não economizava deboche quando Mansi era o motorista; proclamava que o amigo guiava mal. "Hoje ninguém chega lá; cuidado aí, chofer". Fazia mais escândalo do que relincho de burro garanhão. O gringo era homem de pouco riso, mas também sabia encaixar com humor os gracejos do outro. Então o veículo começou a fazer uma descida grave. O cobrador começou subir a escada externa para cobrar os passageiros que se amontoavam na capota. Quando sentiu a velocidade aumentando além do costume, achou melhor se atracar com a escada; pressentiu que aquela descida ia ser diferente. Rabeou os olhos para os passageiros lá de cima e riu para dentro, porque eles já estavam apavorados com as mãos garreadas nas grades. Acostumado a passar por ali todos os dias, o menino percebeu que o empresário perdera o controle do veículo. Com algum esforço o veículo conseguiu fazer a primeira curva, mas daí deparou-se com uma tora de bracatinga atravessada. Não havia o que mais fazer: o homem firmou-se no volante, calçou os pés, virou o rosto contraído e encarou o tronco. O choque foi medonho; mais feio que indigestão de torresmo. Os cinco que estavam na capota voaram para se estatelar no chão, mas um foi parar na frente daquele dragão desgovernado. Ficou no chão quieto, parecia desacordado. Nesse meio tempo o veículo subiu um pequeno barranco parecendo querer parar. Mas não, voltou para o meio da estrada reiniciando o ziguezaguear do inferno na direção daquele que estava estirado. Mas também, foi só dar uns buzinaços que ele rolou para a beira da estrada, feito James Bond diante da morte. Safou-se, mas ficou com o cotovelo virado de ré para o resto da vida. Mas aquela era um época em que pouco se via alguém cavando falta para levar vantagem. De modos que nunca vindicou uma merecida indenização.&lt;br /&gt;Com a parada repentina o zombeteiro que viajava na cozinha veio escorregando pelo corredor encharcado de óleo empacando esbeiçado em cima do painel de instrumentos. Não perdeu a pose: "Compadre Riccoldo Mansi, você tem aí uma carta de motorista ou um Almanaque da Lua"?&lt;br /&gt;Depois desse episódio os fregueses fizeram um abaixo-assinado para impedir o proprietário de dirigir o próprio ônibus, mas ele ignorou o petitório. Então formalizaram queixa na delegacia de polícia. Com isso começaram a aparecer outras reclamações. Um queixou-se que ele havia atropelado por querer quatro galinhas. Outro dava conta que em dias de chuva ele fazia questão de passar por dentro das poças encharcando todo mundo. Outro reclamava da falta de horários. Outros ainda acusavam atrasos quando o motorista era o dono. E teve até passageiro reclamando que ele deixava embarcar animais como cabritos, bezerros e marrecos infernizando a vida de todos dentro do ônibus. Diziam que uma novilha enjoou e deixou uma fedentina insuportável. Daí não teve jeito, o delegado pediu que o homem não dirigisse mais o veículo. Mas ele se dizia injustiçado por se considerar um bom motorista; mas não era não.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-2874823358128657507?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/2874823358128657507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=2874823358128657507' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2874823358128657507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2874823358128657507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/ladeira-abaixo.html' title='LADEIRA ABAIXO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-2148818584027533093</id><published>2008-10-25T11:45:00.000-07:00</published><updated>2009-04-06T18:08:47.949-07:00</updated><title type='text'>UM CANDIDATO DE RESPEITO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3366ff;"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele idoso havia sido o melhor prefeito da cidade. Como fizeram em eleições passadas, os notáveis da cidade se reuniram e decidiram apoiar-lhe a candidatura. Mas ele não queria ser reeleito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desejo de ser prefeito nascera-lhe de uma indignação, quando ainda jovem. Consta que tomou conhecimento do que vinha sendo feito com o dinheiro público. “É uma ladroeira que ninguém dá jeito”, dizia corajoso. Tanto que seu discurso base era não roubar para poder administrar. Agora velho, mas ainda topetudo, vivia dizendo que se merecesse a aprovação popular iria pavimentar cinco quilômetros de atoleiro, que alguns chamavam de estrada, somente com o dinheiro economizado do roubo. A estrada era um anseio comunitário prometido e nunca cumprido. Era uma obra necessária para escoar oitenta por cento da produção de cebola do município. Ninguém o levava a sério, mas ele insistia no plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De tanto perseverar acabou sendo procurado pelo grupo de pessoas nascidas ali, mas que morava em outras cidades. Era esse o tal grupo de notáveis que, diziam, decidia o rumo das eleições. Nos quadros figuravam médicos, magistrados, um ex-governador, professores universitários, um líder comunitário de avançada idade, dois generais da reserva e uma senadora da república. Eram pessoas de bem e por isso mereciam credibilidade da cidade. Em anos anteriores o grupo havia escolhido um critério de preferência: a capacidade intelectual. Pessoas estudadas eram mais aderentes a um plano de ética pública. Mas não adiantava; parece que, quanto mais inteligente, mais o ladrão sabia roubar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamaram o velho para uma reunião e deram-lhe a chance de expor o plano que propalava nas ruas. Não era ele um homem que reunisse as melhores qualidades que o grupo buscava. Com palavras simples e às vezes mal pronunciadas, ele falou somente do plano geral que tinha em mente.&lt;br /&gt;— Eu só prometo não deixar o dinheiro sumir. Com a economia vou levar a rodovia até as tifas das lavouras de cebola. Um dia depois de assumir o engenheiro começa a trabalhar na obra.&lt;br /&gt;O grupo pediu que ele mencionasse a origem dos recursos; se pensava em aumentar os impostos. Mais uma vez ele foi claro.&lt;br /&gt;— Vou acabar com o esquema de propina. Trabalhando com honestidade nas concorrências públicas vou baixar os custos dos bens e serviços que a prefeitura contrata. Não vou aceitar e não deixarei que peguem propinas durante a minha gestão. O controle do dinheiro passará por mim pessoalmente. Vou ficar com a chave do cofre em respeito ao povo.&lt;br /&gt;O grupo suspendeu a reunião por meia hora e voltou com a decisão.&lt;br /&gt;— Vamos dar ao senhor a oportunidade que tanto pede e vamos elege-lo — disse-lhe a senadora falando em nome do grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daquele dia o homem começou a se trajar totalmente de branco. E vestiu-se desse jeito até o dia da posse. Não gastou sequer um centavo com a própria campanha. O trabalho do grupo foi eficiente porque se multiplicou pelos seguidores e parentes, mas a mensagem de que o candidato estava de mãos limpas para servir foi definitiva para o resultado estrondoso das urnas. Fora uma mensagem como nunca ninguém viu. Só se falava no homem de branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte à posse, sua neta foi vista demarcando a área para a construção da rodovia prometida. Fixou o prazo de cem semanas para entregar a obra. Na inauguração, nada de foguetório. Entregou a estrada sem alardear e continuou trabalhando serenamente até a hora que o mesmo grupo veio pedir para reelegê-lo. Não quis mais o cargo; já havia feito o que lhe competia. Aconselhou que escolhessem outra pessoa que aceitasse trajar roupas brancas durante o mandato. Então o grupo solicitou que ele indicasse alguém. Relutou por causa do nepotismo, mas no fim foi convencido e indicou uma pessoa jovem e com pouca visibilidade na cidade: a engenheira da rodovia, sua neta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia da posse da moça, ambos trajavam roupas brancas. Como se fosse um branco pontifício, comprometido com a honra e a ética que o cargo exigia.&lt;br /&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-2148818584027533093?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/2148818584027533093/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=2148818584027533093' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2148818584027533093'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2148818584027533093'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/um-candidato-de-respeito.html' title='UM CANDIDATO DE RESPEITO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4497746536255625541</id><published>2008-10-25T10:50:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:37:27.748-07:00</updated><title type='text'>DEU A CAÇAPA CANTADA NA BARRA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#009900;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite houvera um bafafá medonho com um paulista, só porque usava vistoso chapéu branco de rodeio com as abas enroladas feito Rocky Lane. Rapazes da barra costumam provocar forasteiros atraídos pela beleza e paz da cidade. É nada disso, a violência campeia impune nas ruas. Nem se sabe mais se é caso de punição, pois o que se está reconhecendo é que os índices de criminalidade aumentam com a ampliação da injustiça social. O direito de ir-e-vir das pessoas estava sendo ignorado pelos moços da barra. É inegável a implicância de algumas pessoas com relação aos visitantes. A barra é comunidade fechada que se nega a entregar a virgindade por razões que nem sempre se entende. Abrir-se para o novo pode provocar insegurança e medo. E o medo faz coisas. Se não fosse a lojista reacionária, o turista seria muito machucado. A mulher, uma gaúcha, meteu-se no meio da briga e prometeu chamar a polícia a bem de pararem com aquela agressão. Mas o automóvel importado dele ficou bastante danificado de tanto coco que recebeu. Era apenas um psiquiatra que estava em férias contra um grupo local que passava dos limites. Melhor, era um bando de hienas sorridentes com as presas afiadas querendo guardar a praia e o verão que julgavam ser deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os rapazes ainda estavam saboreando a vitória covarde, quando a atenção das pessoas ficou voltada para nova demonstração de intolerância. Dois gaúchos trajando bombachas e alpargatas mal iniciaram a matear fora da camionete estacionada de frente para a maresia, quando começaram a ser insultados. Os dois não deram importância para as chacotas até que escutaram o bufo do habitual coco se esborrachando na porta do carro. Foram conferir o estrago e pediram para que parassem. Um dos gaúchos, um cinqüentão chamado Gotardo, que se soube também tocava acordeona, quis falar mais alguma coisa, mas foi atingido por uma latinha cheia de cerveja que lhe abriu uma fossa enorme na cabeça. Em seguida, foi jogado no chão e agredido a pontapés até ficar em coma. O outro, um homem de Sarandi, conseguiu afastar os agressores e colocar meio jogado o amigo na caçamba da perua. Tinha pressa de seguir para a emergência do Hospital Universitário. Nem esboçou reação de bate-boca, pois só queria socorrer o ferido que sangrava muito. Furtivamente encarou cada um dos oito covardes. Sem movimentos bruscos embarcou no veículo avaliando o quanto aqueles rapazes eram malvados. Foram mais pontapés, palavrões e cocos, armas eficientes saídas da secura do verão. O forasteiro foi embora enquanto o bando proclamava vitória. Mas era só o começo do rebuliço, pois quase imediatamente ele voltou. Deixara o companheiro encaminhado para um cirurgião remover-lhe um coágulo no cérebro. Só que agora trouxe um reforço também bombachudo, o dono do carro e irmão da vítima. Os malfeitores de finais de semana passaram a hostilizá-los com mais veemência. Não o fariam se suspeitassem que o homem era um delegado de polícia acostumado a lidar com salteadores e assassinos. Os dois turistas desceram do carro amassado e o proprietário perguntou quem se responsabilizaria pelo estrago. Um dos valentes respondeu que não tinham visto nada e recomendou que eles fossem embora dali. Mas os dois vieram com um plano e imobilizaram o valentão que falara. Como num passe de mágica o delegado armou-se de uma pistola e colocou-a entre as pernas do rapaz. À vista daquela arma ameaçadora os demais fugiram como fogem os covardes. Então o policial disse que eles estavam se metendo com quem não conheciam. Que um gaúcho não admitia insultos; e que ele não gostava de cocos — matava a sede com chimarrão amargoso na losna — e que o chiru refém ia saber o que era ser perverso. Disse mais: que era obrigado a ensiná-lo da pior maneira, pois a lei da rua o obrigava assim proceder quando não sentisse necessidade de tirar a vida de um bicho sem mais préstimo. Dizia isso aos demais com a arma sempre encostada no corpudo, que chorava arrependimento inútil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente um estampido forte, uma cápsula zunindo e o rapaz se contorcendo em desespero no chão; o tiro mutilou o futuro do que ainda era casto no moço topetudo da barra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4497746536255625541?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4497746536255625541/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4497746536255625541' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4497746536255625541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4497746536255625541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/caapa-cantada-na-barra.html' title='DEU A CAÇAPA CANTADA NA BARRA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6325181509819050156</id><published>2008-10-24T11:22:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T08:57:14.578-07:00</updated><title type='text'>UM ADEUS ENROSCADO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#666666;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto rezava junto ao corpo do amigo, Antônio Valadão acreditava que somente a prece dele tinha o poder de salvar aquela alma. Não poderia ter faltado ao velório para pedir em favor daquela alma tão cansada da luta que teve em vida. Sem a encomendação especial que sabia fazer, aquele homem não conseguiria bom descanso eterno. Sem o passaporte que sabia providenciar era provável que o morto fosse morar no rebordo do purgatório por bom tempo. Em vida tinha sido bom homem, obtendo créditos celestiais pelas virtudes que sempre cultivara. Mas esse prestígio de nada serviria se ele em pessoa não recomendasse aquela alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhou para os lados e deparou-se com o padre Aristeu rezando junto ao defunto. Por brevíssimo momento supôs que a prece do ministro fosse mais forte que a dele. E devia ser mesmo, pois trouxera os utensílios litúrgicos para a cerimônia: o aspersório, a estola roxa e a bíblia cheia de macetes, marcadores coloridos e até fecho ecler, parecendo o estojo de um violino raro. Mas depois, lembrando ter visto a atuação do padre na parada da diversidade, convenceu-se que seria ele, Valadão, a garantir ao finado as bem-aventuranças necessárias para triunfalmente entrar no paraíso. Afastou-se um pouco, fez-se triste junto aos familiares e, após longo recolhimento e conferência com o além, foi cumprimentar alguns conhecidos que não via há muito. “Há quanto tempo, fulano. É verdade, sicrano”. No momento em que se percebe como o tempo castigou o outro com rugas, manchas na pele e cabelos brancos, é que se vê como a gente também envelheceu. “Fazer o que? Antes velho do que vestir a mortalha”. Cumprimentando alguns deu de cara com um que havia sido seu subordinado numa empresa de ônibus. Estendeu-lhe a mão de maneira amistosa, mas o outro refugou. Havia uma rusga antiga que estava esquecida para Tonhão, mas não para o outro, que fora pego em flagrante roubando o dinheiro dos passes que vendia no guichê. O gatuno era ainda um jovem descabeçado, mas fora demitido com desonra. Fora exemplo aos demais para mostrar que o crime não compensava. Mas isso fora há trinta anos. Deveria tudo já estar esquecido, mas não estava.&lt;br /&gt;— Como estás?&lt;br /&gt;O outro olhou para a namorada e falou:&lt;br /&gt;— É ruim, hein? Eu te conheço?&lt;br /&gt;— Sou o Antônio, fui teu gerente na empresa de ônibus.&lt;br /&gt;— Conheci lá um desgraçado que me botou no olho da rua. Eras tu?&lt;br /&gt;— Que exagero, meu. Desgraçado, não.&lt;br /&gt;— Deus é justo, cara. Hoje é o Nascimento, mas quem deveria estar esticado ali eras tu.&lt;br /&gt;— Se Deus fosse justo tu é quem deverias estar ali. Só não estás ali deitado porque Deus é bom, ladrão de uma figa.&lt;br /&gt;O outro levantou da cadeira sem cor no rosto: branco como vela de igreja, armou todo o corpo para o ataque. Antônio manteve-se calmo e arriscou:&lt;br /&gt;— Que que é, vais me encarar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro voou-lhe em cima e ambos foram cair sobre um biombo de pano preto junto ao caixão. Aquele anteparo móvel servia para isolar a câmara mortuária dos demais espaços profanos do ginásio, da lanchonete e dos banheiros. Sem nenhum respeito ao defunto os dois queriam brigar. Um deles parecia ter razão, o outro só queria esconder a vergonha que diante de todos. Engalfinhados, foram ao chão com os petrechos do velório: um par de velas acesas, um negro livro de condolências e uma coroa de flores do campo no cabide envernizado. O susto foi geral diante do estrondo. Ninguém acreditava no que estava se passando ali. Uma peleia num ambiente tão impróprio. Mas a cena mortuária se impôs, porque era preciso fazer força para deixar de ouvir o timbre da voz daquela câmara fatal. Uma voz que parecia a própria do falecido: “cambada de cachorros, vamos parar com essa encrenca no velório; vamos ter mais respeito e menos barulho”. Não havia como negar pelo menos isso ao dono daquela reunião lutuosa. Então os dois homens resolveram dar marcha à ré no instinto, pois que ali era local inadequado para uma vergonheira daquelas, e interromperam o pugilato. Nenhum dos dois saiu mais daquele ginásio coberto até que saísse a procissão com o finado na comissão de frente levado pelas mãos de seis nas alças prateadas. Os dois odientos pareciam duas crianças de fraldas estrumosas. Haviam levado, parecia, um pito do presunto que ainda sabia se impor diante de situações graves como aquela. Cada um no seu canto, com a turma do deixa disso na pacificação, ambos pareciam arrependidos, mas nem se olhavam fingindo que rezavam entristecidos. Mas as cabeças concebendo planos para um lugar chamado depois. Até o sepultamento um iria ficar com a orelha inchada e mascada pela dentada do outro; e o outro de olho inchado e vermelho pelo sopapo do um.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente após o coveiro lacrar a carneira do finado, os dois retomaram o bate-boca com troca de insultos. Ainda concentrada na cerimônia a viúva dirigiu-se ao operário em tom gemente:&lt;br /&gt;— Acabou?&lt;br /&gt;— Acabou senhora, só falta agora calafetar as fuças desses dois aí — e despejou nos briguentos a colher de pedreiro cheia de massa.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6325181509819050156?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6325181509819050156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6325181509819050156' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6325181509819050156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6325181509819050156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/quem-estava-com-macaca.html' title='UM ADEUS ENROSCADO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7812693579875110691</id><published>2008-10-21T16:44:00.000-07:00</published><updated>2008-10-24T07:07:57.185-07:00</updated><title type='text'>VIVI PACHECO, O SEDUTOR</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;br /&gt;Quando questionado pelos colegas qual tipo de trabalho fazia na repartição, o bacharel Vivi Pacheco dizia que era um político e não estava obrigado a cumprir expediente. Que jogava no meio-de-campo, que era um articulador, um estrategista de estado e que não tinha satisfação para dar a ninguém. Mas era apenas um descansado que o amigo colunista chamava de boa praça e detetive da cidade. Posto ali em gratidão ao pai, que fora atleta, o homem só tinha cabeça para as mulheres. Sempre vestindo roupas diferenciadas e das melhores lojas, vivia mais empinado do que cavalo de circo, forcejando no contrapasso da cara muito mal-parecida. Contudo, não tinha culpa disso; coitado, era feio como um talho na bunda. Feio e vazio; mais que pastel de boteco. Só que era charmoso, bom e não conhecia a timidez. Se tivesse que falar com o governador mesmo sem agendar, ele dava um jeito e aparecia na frente do homem como quem sai do nada. Quantas vezes abriu as portas do palácio para aqueles que lhe tiravam sarro? Não sabia guardar rancor, dizia que era burrice. Para abordar uma garota na rua, caprichava no olhar dentro dos olhos dela e já mostrava logo o seu interesse. Quando ela se dava conta estava sorrindo para ele e falando em coisas tão diferentes de sedução que não percebia que aquela era a maneira dele seduzir. Primeiro ele cevava, cevava para depois fluir naturalmente para os lençóis de uma suíte de motel. Era-lhe proeminente um nariz que não sabia conviver com os óculos que possuía; por mais que tentasse, não havia Ray Ban que lhe caísse bem. Baixote e magrinho, o homem lembrava um beija-flor-da-mata: ave pequenina e de frágil aspecto que de repente aparece esvoaçante, melhorando o dia das pessoas. Quem observasse essa criaturinha, por certo conceberia o encanto residente em Vivi Pacheco, que também vivia de bater as invisíveis asinhas no ar para das pessoas extrair o doce. Ninguém se iluda ao buscar-lhe a perfeição que jamais possuiu. Como nas vezes em que, para impressionar, dava-se uma entonação arrogante na voz, como se fora carioca. Aí ficava horrível tê-lo por perto, porque fanhoso e falso como uísque paraguaio. Era um ilhéu da Crispim Mira e não conseguia representar nada melhor que isso. Educado e gentil, conhecia a dimensão do estrago que fazia nelas quando dizia sua melhor frase: “quero fazer você feliz”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escutar a respeito de suas conquistas era divertido porque também não escondia quando dava com os burros n'água. Como na vez em que abordou no corredor do Conselho Estadual uma deusa de enormes atributos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Procura alguém?&lt;br /&gt;— O Andrade, meu ex-marido.&lt;br /&gt;— Ainda não chegou... Aceita um cafezinho?&lt;br /&gt;— Sim, obrigado.&lt;br /&gt;No ir e vir com os dois copinhos de plástico queimando-lhe os dedos, um manual de artimanhas passava-lhe pela cabeça: "ex-esposa é legal; deve estar carente, a gostosa; que sorte a minha; easy, easy...”.&lt;br /&gt;— Seu rosto não me é estranho, sabia?&lt;br /&gt;— Mesmo? Olha só...&lt;br /&gt;— Por acaso você é advogada?&lt;br /&gt;— Sim.&lt;br /&gt;"Você é um iluminado, cara" — quase falou alto.&lt;br /&gt;— Será que conheço você da Ordem...?&lt;br /&gt;— Quase nunca vou lá.&lt;br /&gt;— Já sei, então conheço você do fórum — arriscou na certeza; qual o advogado vai negar nunca ter ido lá?&lt;br /&gt;— Pode ser.&lt;br /&gt;"Você é o cara" — exibiu-se para si mesmo.&lt;br /&gt;— Em qual vara você atua?&lt;br /&gt;— Fazenda Pública.&lt;br /&gt;— Logo vi, sou Procurador da Fazenda.&lt;br /&gt;— Trabalho lá e nunca vi o senhor.&lt;br /&gt;"Senhor já é deboche", — pensou perdendo a potência, mas ainda vivo no jogo.&lt;br /&gt;— Qual o seu cargo lá?&lt;br /&gt;— Juíza de Direito.&lt;br /&gt;— Humilhou... Quer dizer... Vou chamar o Andrade... Passar bem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabia rir de si mesmo e isso já era virtude que se acha em poucos. Confessava não saber resistir aos encantos de mulher sensual; dessas que jogam charme, mas negam. Como a Glória da Assembléia, que era uma cobiça vinda das profundas do inferno. Era uma garota cara, mais que argentina nova na zona. Diferente das outras, não demorava mais que cinco segundos para se deter num homem e dele extrair os detalhes como altura, cor dos olhos, dentes, cabelos, roupas, sapatos, aliança no dedo, relógio barato, braços, peitoral, carteira, tatuagem e cor das meias; cinco segundos que as outras demoravam vinte. Um homem para assimilar isso tudo, levava quase dois minutos. Mas aí já era tarde, porque ela já largara na frente e não deixava o infeliz respirar direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde já havia notado que Vivi Pacheco a observava do outro lado da rua. Então ela se demorou observando com interesse vistosa blusa que estava em destaque na vitrine de luxo. Entrou e pediu para ver até deixar que o procurador percebesse-lhe o interesse na suéter encantada. Experimentou, serviu e mandou que o vendedor guardasse depois que ele disse o preço. Em seguida saiu e foi para dar conta do expediente fantasma. Vivi abordou o vendedor e perguntou o preço da blusa. A pancada foi tal que chegou a fechar os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Tudo bem... Pode fazer em doze vezes no cartão? Se pode enleia para presente e manda agora na Assembléia com a mensagem que vou escrever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Glória sorriu quando abriu a caixa e leu o que estava escrito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Que meigo, o cuitelinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O romance durou três meses e quase desmancha o casamento com a Zefa, que era como ele se referia à esposa que o amava.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7812693579875110691?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7812693579875110691/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7812693579875110691' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7812693579875110691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7812693579875110691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/vivi-pacheco-o-sedutor.html' title='VIVI PACHECO, O SEDUTOR'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1844032406443410284</id><published>2008-10-13T11:50:00.000-07:00</published><updated>2008-10-24T12:32:33.714-07:00</updated><title type='text'>BONDADE AQUI? NÃO VAI CABER</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre se ganha, mas às vezes é melhor perder que empatar. Adão Xadeco, motorista de coletivo, desfrutava o primeiro dia de férias. Não conseguia ficar em casa; parecia ter de sobra era vocação para a rua. Não dava à Conilda a mínima chance de ser o que queria ser: esposa. Era uma empregada que ele usava para todo ano tirar umas crias. Onze filhos encordoados, "todos perfeitinhos, graças a deus; mas dão muito trabalho à mãe". Além disso, ele tinha amante também no plural, mas isso quem dizia era ela com a voz dolorosa. Tirada do jugo do pai aos dezesseis, com trinta e seis Conilda estava sob o jugo do mandão. Ele até dente de ouro tinha, ela, coitada, perdera todos em favor da ninhada. Os dois filhos mais velhos já trabalhavam fora. A mocinha era faxineira do hospital, o rapaz vivia de engraxar sapatos, mas achava que vender esteiras de palha dava mais. Outros dois meninos anotavam jogo do bicho. O de doze vendia banana recheada, mas era roubado e apanhava freqüentemente dos marmanjos. Assim mesmo, todo o dinheirinho na mão da mãe, que lavava roupa para oito famílias. Só não passava porque Adão caprichosamente não deixava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viajando de passageiro queria estar perto do colega para ir conversando. Fácil de fazer amizade, vivia impecável e perfumado, como filho de barbeiro (velha alegoria que ele detestava). Tinha fama de conquistador fatal. De repente viu que uma mulher sentara-se ao seu lado e se encostara um pouco nas pernas dele. Bonita, deixava aparecer um pouco de si pela fenda da saia. Estudou-a de cima a baixo e olhou para o motorista que lhe deu uma piscadela pelo espelho. Queria saber onde a moça ia desembarcar; pois desceu defronte ao portão principal do cemitério municipal. Não parou, sequer hesitou; foi entrando e andando pelo meio dos jazigos. Adão ia desembarcar, mas o colega fez-lhe sinal para que não. Disse-lhe conhecer a moça e que era costume dela visitar aquele cemitério toda quarta feira às nove da noite; vinha rezar. Xadeco consultou o relógio e percebeu que era hoje.&lt;br /&gt;— Será que vem?&lt;br /&gt;— Com certeza.&lt;br /&gt;— E como faço para ganhá-la?&lt;br /&gt;Então o outro ensinou como fazer para o garanhão se dar bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelas nove horas estava lá esperando para ver se ela aparecia mesmo. Duvidou, mas ela veio. Desceu do ônibus e foi se esgueirando pelo meio das sepulturas com desembaraço. Xadeco deixou ela se acomodar e aproximou-se para encontrá-la ajoelhada diante de um túmulo na parte mais escura do cemitério. A misteriosa dama trajava longa capa negra com um capuz sobre a cabeça. Lembrando os conselhos do colega, o motorista se aproximou por trás e disse-lhe ser um peregrino que andava no mundo procurando o genuíno amor. A moça assentiu com a cabeça, pôs-se de pé e abriu a capa. Xadeco estremeceu, mas em seguida experimentou uma sensação de paz que o comoveu. Então, num travão de arrependimento, falou que não era um peregrino; que havia ficado louco por ela quando a conheceu no ônibus. A moça escutou-o atentamente e falou que também gostara muito dele, um homem alinhado e sedutor. Mas que ela não era aquela de quem ele falava. O motorista quis adivinhar quem ela era, mas não teve tempo. Sacando uma pistola a mulher obrigou-o a deitar-se no chão com as mãos para trás. Apareceu o colega do ônibus que lhe amarrou os pulsos com uma língua-de-sogra. "Um seqüestro" — pensou, e dormiu nas profundas do abismo para acordar sem os rins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa soube dos detalhes pela exposição da crônica policial e largou tudo para cuidar das sessões de hemodiálise do infiel. Adão Xadeco aguardava sem esperança um doador compatível quando os médicos descobriram nela a salvação dele. Conilda deixou que brotasse a rosa na vala podre. Deu-lhe um rim, negou-lhe o perdão suplicado e mandou-se.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1844032406443410284?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1844032406443410284/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1844032406443410284' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1844032406443410284'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1844032406443410284'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/e-fulge-luz-da-redeno.html' title='BONDADE AQUI? NÃO VAI CABER'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5294996002157230837</id><published>2008-10-07T07:14:00.000-07:00</published><updated>2008-10-07T07:29:22.882-07:00</updated><title type='text'>Projeto Cidade Contada</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SOtwLt1SgOI/AAAAAAAAAIQ/SDawBfmx9Rc/s1600-h/RAUL+CALDAS+FILHO"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5254416736841793762" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SOtwLt1SgOI/AAAAAAAAAIQ/SDawBfmx9Rc/s320/RAUL+CALDAS+FILHO" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O HOMEM E SUA SOLIDÃO&lt;br /&gt;Jacqueline Iensen&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Raul Caldas Filho (foto) apresenta hoje o conto A Passageira no Cidade Contada.&lt;br /&gt;No dia em que completou 70 anos, Turíbio Sousa não abandonou a rotina. Avesso a comemorações pegou o barco e rumou para o trapiche para a pescaria do dia. Em meio aos pensamentos turvos acumulados ao longo de sete décadas de vida, teve um que, especialmente, iluminou o dia - e talvez a vida - do homem do mar que gostava da solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é tema de A Passageira conto do livro O Vendedor de Diabos que o escritor Raul Caldas Filho apresenta hoje no Projeto Cidade Contada, na Casa da Memória, em Florianópolis. O fato que despertou o brilho no olhar de Turíbio havia se passado há exatos 40 anos, em 13 de maio de 1929, dia da inauguração da Ponte Hercílio Luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma noite fria, com mar agitado pelo vento Sul. Aos 30 anos Turíbio estava num bar quando foi chamado para ir até um navio que recém-atracara nas proximidades da Ilha de Anhatomirim, onde permaneceria por 24 horas. Como de costume, Turíbio embarcou no navio para conferir os documentos quando viu uma bela e misteriosa passageira. Ao saber da inauguração da ponte a mulher quis conhecer tamanha e ousada obra de engenharia. E foi durante estas 24 horas que a vida de Turíbio mudou para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidade Contada é uma proposta de leitura pública de contos que tenham a cidade de Florianópolis como tema e que são ilustradas com imagens históricas. Uma forma de recuperar a memória urbana e paisagem natural da Ilha. O escritor Raul Caldas nasceu em São Francisco do Sul em 1940. Além da literatura, também se dedicou ao jornalismo, com atividade na imprensa cultural em SC e trabalhos para a revista Manchete. Publicou livros de crônicas, entre eles Delirante Desterro (1980), Oh! Que Delícia de Ilha (1995) e Oh! Casos e Delícias Raras (1998). Como contista, escreveu O Jogo Infinito (1984) e D de um desempregado (2000). Sua obra mais recente, de 2003, é o livro ABC do Manezinho. O projeto mensal é uma promoção da Casa da Memória da Fundação Cultura Florianópolis Franklin Cascaes (FCFFC). (&lt;a href="mailto:jacqueline.iensen@diario.com.br"&gt;jacqueline.iensen@diario.com.br&lt;/a&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando: hoje&lt;br /&gt;Onde: Auditório da Casa da Memória (Rua Padre Miguelinho, 58)&lt;br /&gt;Horário: 19h&lt;br /&gt;Ingresso: gratuito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte: Diário Catarinense Ed. Nº 8218. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5294996002157230837?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/5294996002157230837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=5294996002157230837' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5294996002157230837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5294996002157230837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/projeto-cidade-contada.html' title='Projeto Cidade Contada'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SOtwLt1SgOI/AAAAAAAAAIQ/SDawBfmx9Rc/s72-c/RAUL+CALDAS+FILHO' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6099941248755918734</id><published>2008-10-06T11:56:00.000-07:00</published><updated>2008-10-24T12:52:06.534-07:00</updated><title type='text'>O GUARDA DO TEMPLO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SOpmTNU2iuI/AAAAAAAAAHw/m3iqvpTD_Bo/s1600-h/guardiao+do+umbral.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5254124395461774050" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SOpmTNU2iuI/AAAAAAAAAHw/m3iqvpTD_Bo/s320/guardiao+do+umbral.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;font-size:130%;color:#009900;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom coração das pessoas parece ter limites para agir. É um embuste dos grandes, alguém decidir ser bom de um dia para outro. Mas ninguém se torna bom se não começar a imitar os guias da compaixão. Um dia o bom coração rebenta sem que o talo se dê conta. Mas até isso acontecer muita cena de remorso há de rolar. O aprendizado começa em casa, depois é a escola, a igreja e o trabalho, para se consolidar nos cafundós do mundo, que é onde as coisas acontecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois um templo é sempre local de refrigério para a alma. Local onde as pessoas procuram para aliviar a pesada carga da ossada. Conheci um na parte continental da cidade; na rua que dá para o mar. Desde criança tive conhecimento que ali era local de oração e caridade. Mas era também local de peregrinação de vivos e mortos. Diziam que desencarnados eram atendidos ali sem que lhes pedissem carteira de identidade. Para receber atendimento o visitante do além não precisava estar cadastrado; todos tinham assegurado o acolhimento independente do quilate devocional. Mas eu somente via a peregrinação dos vivos que para lá se dirigiam em busca de remédio, comida e dinheiro. Vizinhos eram constantemente incomodados pelos que pediam. Um deles havia colocado um aviso: “Aqui não é o Centro Estrela Guia”. Quem preparasse a mão para bater naquela porta dava de cara com esse aviso. Vi alguns recolherem a mão à meia viagem. Ficava engraçado quando vinham em dois conversando e se preparavam para golpear a porta daquela casa. Depois de ler o aviso faziam que nem avião quando recolhe o trem de pouso. Onde então o templo? Bem ao lado, e com um enorme letreiro indicando os dias e horários das sessões. Então como não ver? Exu, o orixá guardião dos templos e encruzilhadas certamente saberia dizer. Por certo, tinha-se que aquele era um local conhecido pela bondade dos seus membros, que diziam ser a fome física algo concreto para o mortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite o grupo estava reunido para tratar de assunto da economia da casa; o tempo previsto era de hora e meia. A reunião estava começando quando bateram de um jeito profano. Obreiro dedicado como sentinela, Neném Bordoada levantou-se para ver quem assim batia. Deu de cara com um freguês de cesta básica. Do alto de seus quase dois metros de altura ruminou má vontade: “Que diabo, esse cara está sempre aqui pedindo”. Entretanto, fez-se afável, recurvou a espinha, desculpou-se e pediu que o coitado viesse no dia próprio, isto é, dali a uma semana. "Boa-noite; boa-noite", fechou a porta e acomodou-se com aquele seu ar de mando para continuar a sessão. Sujeito lúcido, há muito passado dos branqueados oitenta, além de comandar sabia se desenhar como um gato que se põe alerta. Não conseguiu reprimir um recorrente pensamento doutrinal que lhe aflorou à mente: "A dor desse infeliz não lhe poderia ser útil para depurar-lhe o espírito?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali a cinco minutos o mendigo voltou a chamar os de dentro. Neném Bordoada controlou-se para atender o pedinte, que novamente pedia o rancho; a mesma desculpa, mas antes de despedir o homem, pediu-lhe que fosse para casa dormir e então viesse no dia seguinte para ver o que poderia fazer. Ambos tinham biografias curtidas, um pela cachaça e outro pela água salgada da vida, sabiam que a necessidade exige ação. Assim mesmo o guardião fechou a porta e sentou-se mais uma vez para dar seqüência à reunião, que não queria andar. Um exu não dorme, pensava, sequer relaxa; quando muito apenas descansa. Mesma coisa acontecia com o seu Neném; não estava ali para descansar. Quase imediatamente, o inimigo voltou a bater. Sim, porque somente um inimigo arrumaria uma provocação daquelas. O sangue subiu e deu uma raiva tal em Neném Bordoada que esmurrou a mesa para encarar o homem. Nem deixou o diabo abrir o bico para repetir a ladainha. Desferiu-lhe um direto no queixo para pô-lo nocaute. Assustado, não esperava que a bomba saísse com tamanha potência. Todos se levantaram para atender o mendigo, menos seu Neném, que chorava de remorso. Reconhecia faltar muito para ser bom. "Que raiva, — ganiu — dá vontade de desistir de tudo".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6099941248755918734?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6099941248755918734/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6099941248755918734' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6099941248755918734'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6099941248755918734'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/10/cuidado-piso-molhado.html' title='O GUARDA DO TEMPLO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SOpmTNU2iuI/AAAAAAAAAHw/m3iqvpTD_Bo/s72-c/guardiao+do+umbral.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4607352384631615149</id><published>2008-09-24T10:42:00.000-07:00</published><updated>2009-01-21T06:29:05.552-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='florianópolis'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='caçada'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='tatu'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='rural'/><title type='text'>ALCIDES</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;Um à-toa que nem o Alcides não se encontra por aí assim. Não que fosse mau, não era. Mas que era um safado aprontador, isso ele era. Durão, feito carapaça, mas tímido e introvertido que nem um tatu, quase sempre aproveitava as ocasiões para caprichar um desempenho fraudulento; mesmo que em cima do pai. O prazer de rir dos outros não lhe sobrepunha limites. Dizia que o mais difícil era fazer-se de insuspeito para ninguém dele desconfiar. Esse era o seu talento: manter-se oculto diante de todos; não se deixar revelar o próprio miolo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias de hoje pode-se dizer que a caçada ao tatu seja algo abominável, pois já tipificado como crime inafiançável. Mas nem sempre foi assim. Alcides foi convidado para uma caçada no sítio do próprio pai, lá para os lados da Vargem do Bom Jesus. Homem da roça, seu Manoel Liporda sustentava o dito repetitivo de que nunca o veriam com os dois pés no chão, de tanto que trabalhava. Uma vez no ano ele reunia os amigos em noite de lua cheia para caçar o tatu. Parecia ter intimidade com o cascudo; que o criara no fundo do quintal até que o bicho topasse com a derradeira hora se ver caçado. Dava a impressão que fazia um bem danado ao bicho, que só comia insetos de tão inofensivo que era. Como os poderosos, xingava o tatu de ingrato quando o pobre esperneava para se safar do facão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alcides iria participar daquilo que valia como um rito de passagem para a condição de quase adulto; um moço. Mas o jovem fora criado na cidade, cheia que era de escaninhos zombeteiros. Era muito à-toa, o rapaz. Definitivamente não era ainda um homem, mas o pai apostava nele; perdia sempre, mas arriscava. "Por enquanto esse à-toa não vale um ovo, por Deus do céu. Não presta para serviço nenhum. Mas um dia ele endireita".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegou ao sítio uma semana antes da lua cheia marcada para o inocente folguedo. Os petrechos o velho já havia preparado: lanterna de querosene, bocó, vergas de bambu, cortadeiras, facão, cavadeiras, jabuticaba curtida e o cachorro Sabido. Chegada a noite, havia muita animação e uma tensão ancestral diante do ato de caçar. Tocaram mato adentro; Alcides na rabeira cantando Portãozinho e Porteirinha: "O tatu é bicho manso e nunca mordeu a ninguém. Só deu uma dentadinha na perninha do meu bem. Anda a roda tatu é teu; voltinha no meio tatu é meu." O pai do rapaz queria mais silêncio na veação.&lt;br /&gt;— Isca, Sabido! Vai procurar, vai!&lt;br /&gt;O bicho se mandou pela encosta de vegetação emaranhada. Morro acima e todos em silêncio a espera do cão, que não vinha; que nem latia. De repente o ganido conhecido do animal rasgou o silêncio e a correria na direção dos latidos através da capoeira grossa. Difícil, porque no escuro não se viam as pedras, os paus, os galhos, a lama e os formigueiros. "Perdeu-se o bicho" decretou o chefe da caçada. De repente Sabido saiu acoando seguido como a dizer: "ali está, por aqui, gente". Não fosse tão escuro, era de se dizer que o cachorro apontava a toca com a patinha abanando o rabo feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso Alcides fuçava sozinho para outros lados. Foi aí que encheu o peito e gritou bem alto: "Peguei um". E baixinho com orgulho: "O pessoal não vai acreditar que achei um baita logo na primeira vez". Não era fácil conseguir um; quantas vezes o grupo voltava sem nada? E olha que era gente de sorte. A diminuir o desencanto, naquelas vezes em que nada trazia, Liporda desdenhava o insucesso dizendo que fora caçar só por farra. Mas Alcides bem sabia que o velho ficava desconsolado. Isso ele via quando lá um belo dia o grupo trazia um bicho. Então o velho fazia uma festa daquelas. Diante do buraco, Alcides preparou a verga de bambu para cutucar a toca; devia esperar o pai, mas não quis dividir a glória. O vasilha não conhecia nada de mato; fora criado na cidade, lugar onde só se via tatu nos livros. Cutucão daqui, cutucão dali, o bicho fugiu. Nisso ele viu a turma chegando para ajudar a desentocar o desdentado. Alcides agarrou uma cabeça de pedra e fez que rolasse morro abaixo fazendo grande estrondo. "Fugiu, fugiu", gritava fingindo desencanto. O pessoal saiu correndo atrás do barulho medonho; inclusive o cão, que se meteu na frente da pedra para barrar-lhe a fuga e dela tomou um solavanco resultando um vergão no lombo. O velho achou que o bicho fazia estrago demais na coivara; devia ser mais que um porco-do-mato ou mesmo um terneiro assustado. Vieram descendo na pilha do barulho, mas já viam também o rastro deixado para trás na roça de cana. "É coisa grande, minha gente", alertava Liporda já temeroso: "Deus que me perdoe, mas parece um boi-tatá". Quanto mais descia a pedra ganhava mais velocidade. Estavam chegando de volta à casa de morada quando se ouviu um estrondo medonho na parede de estuque da cozinha. O velho dono do sítio arfava de cansaço quando lhe abriram um claro para que visse o tamanho do estrago que fizera aquela pedra: abriu um buraco na parede entrando cozinha adentro indo parar no meio dos destroços do fogão. Desanimado, seu Manoel pegou uma pomboca de querosene, olhou bem para a obra do filho e gritou: "Alcides, seu urubu, o que mais eu não sei de ti?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais dele nada sabia. Sequer lhe suspeitava a vocação despertada durante aquela caçada. O rapaz foi para a Austrália, fundou a Alcides Excavation &amp;amp; Demolitions, ficou rico e de lá não sai tão cedo.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4607352384631615149?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4607352384631615149/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4607352384631615149' title='29 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4607352384631615149'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4607352384631615149'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/um-conto-rural.html' title='ALCIDES'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>29</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-9078081686638576821</id><published>2008-09-21T06:22:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:52:14.446-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='banco de sangue'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cavalaria'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exército'/><title type='text'>O SARGENTO DESMAIOU</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6666;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6666;"&gt;A carteira do Banco de Sangue conferia-lhe a condição de doador universal. Não ia deixar de atender ao pedido do comandante: levar cinco com sangue "O positivo" ao Hospital para socorrer um baleado grave. "Deixa comigo que dou um jeito, major". A fala do sargento soou convincente e responsável num quase brado militar. E dali foi atrás de mais quatro porque ele já era um.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6666;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6666;"&gt;Diante de tão inoportuna missão ocorreu-lhe procurar entre os domesticados da cozinha. Estava com sorte, arrumou quatro e se foram num velho jipe de puxar esterco. No trajeto percebeu que nenhum deles havia doado sangue. Então o homem disse que na Capital isso era corriqueiro mostrando-lhes orgulhoso a carteira de doador; que era procedimento indolor para homens de fibra; explicou-lhes o valor da solidariedade humana sem esquecer que depois de tudo vinha um lanche reforçado para cada um. Pareceu-lhe que a gororoba fora o melhor argumento até ali, porque eles riram um pouco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6666;"&gt;Ao desembarcar da viatura percebeu que os quatro estavam com as mangas já arregaçadas e com uma das mãos sobre o local do braço onde iam receber a agulhada. "Estão encagaçados; acho que vou ter trabalho com os cozinheiros. Parecem tão fortes e tão cheios de maricagem". O médico do Esquadrão já os esperava; o baleado queria morrer, parece. Levou todos para uma sala de procedimentos e perguntou quem era o primeiro. Os quatro olharam para o sargento, que designou um já branqueando diante da incerteza daquela sala cheirando a éter. O jovem sentou confortável numa espreguiçadeira e a freira nem deixou que sentisse dor alguma. Quando o rapaz se deu conta já estava se esvaindo para dentro de uma bolsa estéril; meio litro. Veio o segundo com mais arrojo, mas sério e branco como um defunto. Deu meio litro do precioso e ganhou o sorriso de aprovação do sargento. Com o terceiro foi mais fácil a adesão, mas a agulhada fechou a cara do mísero numa careta ostensória. A enfermeira acabou perdendo a veia do rapaz para dar mais uma espetada. Outro meio litro já levado lá para dentro, mas o doador ficou meio desencantado num canto da sala segurando o algodão no braço. O quarto voluntário foi o cabo cozinheiro, um avô que acreditava em papai-noel. Antes de oferecer seu inestimável braço olhou para o chefe como a perguntar: "posso me entregar"? Um gesto do sargento deixou-o suave e à mercê da freira que só queria saber de furar. O homem levantou-se e decretou: "Agora é a vez de o sargento dar". Arisco na ironia o militar corrigiu: "Não vou dar coisa nenhuma; vou doar". Era a vez do líder que já se arregaçava todo para deixar que lhe espetassem o braço quantas vezes fossem necessárias para o efetivo desempenho da missão que lhe fora confiada (clichê albergado ainda na Escola Militar). Quase buzinou nos ouvidos dos cozinheiros o patrono Marquês do Herval: “É fácil a missão de comandar homens livres: basta mostrar-lhes o caminho do dever”. Mas achou melhor fechar a matraca e ensinar:&lt;br /&gt;— Não disse a vocês que era tudo muito simples?&lt;br /&gt;Dizia isso com aquela voz de mandar nos outros, daquela que vinha sempre de cima. Enquanto doutrinava, abria e fechava a mão sem que ninguém pedisse. Como se fosse ele quem tivesse inventado a doação de sangue; melhor, como se tivesse inventado o sangue (quem se lembrar de Machado de Assis aqui, não pense tratar-se de mera coincidência). Os quatro soldados, testemunhando tamanha segurança advinda daquele jovem líder já estavam de olhos meio arregalados. Nunca se viu alguém tão cheio de bossa como aquele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A coleta no sargento havia terminado e já se preparavam todos para abocanhar a prometida merenda, quando o maioral perdeu a audição. Depois perdeu a visão e o equilíbrio para se agarrar no que estivesse por perto. Atracou-se com a freira alarmada: "Alguém segura este homem que sozinha não consigo". Foram os dois para o chão. "Desmaiou... Ventila, ventila... Abaixa a cabeça dele... Água, água..." Até que melhorou. Foi uma vergonheira, credo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o jipinho do esterco chegou ao quartel parecia que todos esperavam um funeral. Queriam saber do sargento. Sentado no primeiro banco, verde, cabeça pendendo para o lado de fora, lábios descorados, olhos fechados, seguia vagarosamente como se fora Charlton Heston em El Cid Campeador, morto sobre o cavalo a desfilar diante da tropa contristada. Mas só por agora, porque depois o calvário do doador universal ia começar. Então o major perguntou o que houvera. O velho cabo assumiu o comando dos quatro e respondeu sufocando o deboche:&lt;br /&gt;— Homem de Deus, o sargento desmaiou.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-9078081686638576821?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/9078081686638576821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=9078081686638576821' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/9078081686638576821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/9078081686638576821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/crnica-de-guarita.html' title='O SARGENTO DESMAIOU'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1700504878706724739</id><published>2008-09-17T10:40:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:52:56.641-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ônibus'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='humildade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='engano'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='roubo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='viagem'/><title type='text'>ESTAVA INDO TÃO BEM...</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Engana-se quem pensa que o céu é perto. José Galo era um Contador capaz e exercia o ofício de Auditor do Estado. Num domingo à noite, voltando ao interior, trajava blusa de lã muito fina e inadequada para o clima da serra. Acomodou-se em duas poltronas do Reunidas Noturno. Necessário descansar para encarar o dia penoso na manhã seguinte. Acostumado a dormir no primeiro balanço, o veículo nem andou dez minutos e Zé Galo já era. Só acordou três horas depois tiritando de frio, com o ônibus parado fazendo escala no pé da serra. Três graus de temperatura dentro do veículo; lá fora, horrível. Entraram quatro moças e um rapaz. Uma foi na direção dele sorrindo e caminhando vagarosamente procurando o lugar que lhe cabia. A cada busca do número ela olhava e esboçava-lhe sorriso iluminado. O Auditor arriscou pensar que ela ansiava sentar-se ao lado dele. "Está no papo", pensou. José Galo se considerava um assaltante, em matéria de conquistar mulheres; tinha faro de predador e escassa compaixão pela presa. A moça colocou a bolsa de mão no bagagito e se preparava para sentar ao seu lado, quando alguém reivindicou a poltrona. Conferiram os bilhetes e ela foi sentar-se num banco imediatamente à frente. Quando Zé Galo olhou de cima a baixo o vizinho quase não acreditou. Era um rapaz de tez acobreada, puxando a bugre. Trajava uma camisa fina de manga curta, calça jeans e tênis todo detonado. Era um ferrado, um caboclo. Trescalou, no sentar, cheiro de álcool e morrinha de quem não se lava. O fedor vinha também dos poros do homem. O chulé que subia do porão das calças espalhou-se no salão de passageiros. O ônibus não tinha calefação para dar conforto aos usuários, mas catinga quente ele tinha. José Galo, que ia ficar tão bem albergado ao lado da moça bonita, de repente se viu obrigado a viajar mais seis horas ao lado daquele caminhão do lixo: "deus-que-me-perdoe". A moça olhou para trás, sorriu e fez com os ombros que sentia muito. Os passageiros começaram a pedir que o motorista fechasse a porta e tocasse o ônibus. O frio parecia entrar pelo corredor como lança de gelo para lacerar em dor o peito de Zé Galo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em menos de dez minutos aquela fossa errante já havia adormecido com direito a ronco. E o pior: dormiu encostado no ombro de José Galo, que o empurrou delicadamente de volta ao seu lugar. Novamente o imundo foi repousar no ombro do já irritado Auditor. Contudo, além da cabeça, o homem encostou-lhe os braços e as pernas. Antes de obrigá-lo a se arranjar em seu lugar, José Galo, que estava gelado, experimentou o calor do corpo daquele homem ao seu lado. Resolveu deixar que ficasse ali, quentinho e quieto. Sentia tanto frio que não fez caso da repulsa de estar quase abraçado ao ensebado. Dizia sempre que detestava macho; que, mesmo perfumado, homem tinha catinga. Mas aquela era uma circunstância que o desobrigava da regra. O frio era desumano para se ater às comichões machistas. Queria mais era se esquentar, nem que para isso tivesse que pagar mico. As luzes estavam apagadas, todos dormindo; por que não? Aconchegou-se, ele também, ao corpo daquele que há pouco desprezara. Tão quentinho estava que dormiu direto. Só se apercebeu do final da viagem porque sentiu falta do balanço do ônibus. Olhou em volta e não viu os passageiros. Levantou-se sobressaltado e foi resgatar a bagagem de mão. Não encontrou nada. Pensou no diabo que estivera ao seu lado. Foi no bagageiro recuperar a mala grande, nada. "Foi ele", pensou. Já estava se dirigindo para reclamar no guichê da empresa quando avistou o bugre patife. Agarrou-o pelo colarinho e derrubou-o no chão aplicando-lhe poderosa chave de braço ao som dos palavrões mais absurdos para àquela hora da manhã.&lt;br /&gt;— Onde está minha bagagem?&lt;br /&gt;Sem poder emitir som, o rude apontou para os sanitários da rodoviária. Descorado de tanta cólera e desejo de vingança Zé Galo foi entrando porta adentro sem nada encontrar. Olhando na direção do bugre, como a indagar num amplo gesto com os braços, perguntou pela bagagem. Novamente o índio apontou para os sanitários, mas desta vez para o feminino. Entrou lá e encontrou seus pertences com a piranha da poltrona da frente.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1700504878706724739?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1700504878706724739/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1700504878706724739' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1700504878706724739'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1700504878706724739'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/nem-tudo-que-balana-cai.html' title='ESTAVA INDO TÃO BEM...'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-2654346180779794558</id><published>2008-09-11T19:50:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:53:58.036-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='assassino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Parque'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Coruja'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='palhaço'/><title type='text'>O PALHAÇO QUE ENXERGAVA NO ESCURO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#009900;"&gt;“Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão” (Choro Bandido, de Chico Buarque e Edu Lobo).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#009900;"&gt;No dia seguinte ele já estava trabalhando no Parque de Diversões. É que um dia antes fez algo por baixo dos panos. Dormiu pouco, mesmo assim não se via sinal de trinca na estrutura da fachada do homem. Antes de tudo escutou aquela história dramática que ia ribombar em sua cabeça até que conseguisse aquietar o deus da morte, de quem era vizinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soube que um homem adotara um menino criando-o junto com a própria filha. Ao tornar-se um rapaz, tornou-se também um mandrião que não queria saber de trabalho. Isso dava imenso desgosto ao pai, que trabalhava duro na roça de cana junto com a menina. O vadio já havia se metido em várias encrencas e ganhara um golpe de facão em cima do olho esquerdo que lhe deixou cicatriz e o olho cego. Então ficou sendo conhecido como Caolho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A adolescente queixou-se ao pai de que o irmão estava se aproveitando da bondade dele. Um dia, em conversa com o marmanjo, o velho chamou-o à atenção sobre o que a filha havia dito. O rapaz prometeu arrumar emprego. Mas, ardiloso, ele concebeu uma vingança: matou a irmã dentro de uma patente no fundo do quintal e fugiu do lugar. O caso ganhou contornos pesarosos e se espalhou na região. Por se tratar de crime violento, gerou revolta nas pessoas germinando ali um perigoso clamor de vingança. Mas o assassino já estava longe; veio morar no Sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados dois anos um viajante, que se declarava revoltado com a falta de justiça, comentou o caso com um dos atores do elenco do filme "O Preço da Ilusão" (argumentado por Eglê Malheiros e Salim Miguel) que estava sendo rodado na cidade aonde Caolho viera se esconder. Outro não era senão o palhaço Coruja, que decretou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Conheço o assassino e sei onde ele está. Diga ao pai da menina para descansar que o malvado já era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, como nas outras, ostentava aquela gravata horizontal: poá com as abas grandes. As largas riscas brancas do traje impecável deixavam-no mais longilíneo. Mulato de olhos azuis, alto quase arcado, gostava de sapatos pretos de tacões sempre novos para garantir o andar aprumado e leve. "Um artista, dizia, nunca terá dignidade com os saltos dos sapatos desgastados". Camisas sempre brancas — tinha umas quinze para trocar três por noite — levemente borrifadas pelo fuxiquento Lancaster. Unhas grandes nas mãos suaves confrontavam a rude torquês de arrancar as setas disparadas nos alvos pelas espingardas de pressão. Dentão de ouro maciço, visível até quando pensava. Vasta cabeleira crespa já prateando, Coruja dava ares de ser alguém especial e que já se despedia de fazer coisas arriscadas pela vida. A voz toda de César Ladeira ele a gastava anunciando os pontos enquanto manipulava com rara habilidade o alicate para extrair as setinhas de plumas coloridas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ir e vir até o balcão divertia-se fazendo malabarismos perigosos com aquele alicate nas mãos quase enfeitiçadas. Possuía duas tenazes daquelas, mas da maior era melhor ficar longe. Aquela torquês parecia ter parte com o diabo. Para arrancar aquelas tachinhas da madeira não precisava tanto. Mesmo assim nunca despertou sentimento de medo em quem lhe prestasse atenção. Pelo contrário, não fosse tão conhecido bem poderia ser confundido com um cervo de linhas efeminadas. E olha que ontem nem parecia ser quem era, pois trajava roupa furtiva; um preto sobre preto. Quase invisível a olho nu, aplicava-se ainda venda preta no olho direito; e isso lhe era bem visível. Aquele tampão apagava as suspeitas sobre seus rastros, se por ventura alguém os descobrisse. Imóvel dentro da sombra do "Margarete" somente respirava; quer dizer, respirava e pensava. Estava prestes a dar conta de um carreto prometido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lenço preto na cabeça escondia o pixaim prateado. Às vezes escapava-lhe uma tosse abafada, para dentro; quase um rosnar de bicho. Naquele instante Coruja era um bicho. Esperava alguém que viria do "Bar Glória". Sem perceber, o tal veio se abrigar da garoa ao lado do próprio carrasco. Primeiro recebeu uma fita plástica na boca e depois duas algemas nas mãos para trás. Com o único olho arregalado, protestava maneando a cabeça fazendo que não. Estava imobilizado e diante de um algoz conhecido de outras bandas. Coruja sorriu um sorriso perverso dando-se a conhecer por aquela ameaçadora presa de ouro na boca. Então Caolho ficou aterrorizado dando ares de tudo entender, enquanto era dissecado pelo olhar gelado de atravessar tudo do carrasco; enquanto ouvia a voz do predador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— Um dia te deixei viver para veres o mundo com o olho direito; para compreenderes o que é positivo na vida: a felicidade, o amor e a compaixão. Agora me enxergas com esse tampão no olho. É que desejei te enxergar com o meu olho esquerdo, que é por onde enxergo a podridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida Coruja sufocou o sobrinho pinçando-lhe as narinas com aquela torquês do inferno, já escondida por dentro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-2654346180779794558?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/2654346180779794558/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=2654346180779794558' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2654346180779794558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/2654346180779794558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/um-conto-de-atmosfera.html' title='O PALHAÇO QUE ENXERGAVA NO ESCURO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-535527226888134255</id><published>2008-09-09T16:53:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:54:56.545-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='bondade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='embriaguês'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='caridade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='gardenal'/><title type='text'>CHUVA REVELA OURO SOB A CARCAÇA</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Muitas vezes quem bebeu todas quer mesmo é ficar encostado à cangalha da bebedeira, no velho exercício da autocomiseração. Quem chega de fora, mesmo na primeira fila, pouco vê o que possa existir lá dentro daquela carcaça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O infortúnio jamais encontrou abrigo tão adequado como na pessoa de Aristides, que logo cedo começava com uma dose a comemoração pelo fato de haver parado de beber na noite anterior. Estalava a língua quando mandava dois marteletes de cachaça para dentro. Mas não agüentava a inocente mistura de vinho, conhaque e aniseta. Era de revirar-lhe o bucho e o dia estava perdido. De estatura baixa, magro, quase um índio, mas com a alma azul, que desafiava a justiça divina quando comparada com as coisas da terra. Não havia criatura de melhor coração e de pior sorte. Padecia de beleza, mas trazia escondido dentro de si as melhores digitais da moralidade. Estivador, amava jogar no bicho. Tinha estilo e coerência para fazer a fezinha. Perseguidor incansável da centena 188, jamais soubera pronunciar direito o nome do felino correspondente. Não é que entendesse alguma coisa de numerologia. É que confiava na sabedoria do acaso. Havia juntado do chão uma placa esmaltada com o tal número estampado. Uma dessas que se coloca nas casas para os carteiros encontrarem o endereço das pessoas. Teve a idéia de pregá-la na fachada da privada, no fundo do quintal, como se fora um troféu. Lá uma vez perdida ganhava uma bolada. O bicheiro era homem honesto. Ironia à parte, era honesto dentro do ilícito. Em acordo com a lei da rua. Enquanto isso ia ficando riquinho com a contravenção tolerada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase analfabeto Aristides só lia papel de letras grandes. A exceção que fazia era para as letrinhas no caderno da venda. Depois das seis da tarde entrava lá e começava a implicar com o proprietário. “O café está caro; sei onde tem mais barato”. Ao Nestor cabia-lhe apenas represar a irritação. Aristides divertia-se à larga. Mas também a encrenca dos dois não passava disso. Dizem que Aristides bebia por desgosto. A mulher se consumia em tuberculose; coitada, internada no Nereu Ramos o tempo todo. Tratado como um sem vontade para largar o vício, merecia o respeito dos que o conheciam e ao seu drama. De qualquer jeito parecia desumano tratá-lo dessa forma. A vizinhança lhe conferia apoio, menos Duarte, um marujo que dava duro para viver. De justiça diga-se que muito fez para ampará-lo quando enchia a cara.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O estivador chegava em casa e começava a jogar porta a fora a louça, as panelas e os talheres. Em seguida pegava os dois potes cheios de água e os estourava na rua com grande alarde e aos gritos de “O negócio é o seguinte... seguinte... seguinte”. Não dizia nada com nada. As duas crianças corriam para a casa dos vizinhos. A mulher de Duarte pedia e o marido ia lá, dava um banho nele, colocava-o na cama e punha-o para dormir; fizera-o muitas vezes, mas agora não estava mais disposto a ajudá-lo. Então passou a não mais atender aos pedidos de socorro que a própria esposa lhe fazia. Começou a endurecer no tratamento com o vizinho, que tinha parentes bem nascidos. Entretanto, somente o primo Osni Motter, &lt;em&gt;o feio&lt;/em&gt;, o recebia na Assembléia Legislativa para atender-lhe as necessidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duarte sofria de hipertensão severa, segundo o médico do Instituto. Além do mais era epilético e fazia tratamento com um barbitúrico: Gardenal. Muitas vezes ficava descompensado e não havia quem conseguisse o remédio na cidade. A não ser o Aristides. Quando sabia que o vizinho estava assim ele ia à casa do primo e conseguia o medicamento. Mas agora o irritado marinheiro havia proibido a esposa de pedi-lo para trazer o remédio. Não queria mais favor dele. Mas também não o ajudaria mais quando chegasse chumbado em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite chovia de fazer barulho, Aristides chegou encharcado em casa. Por dentro e por fora. Começou a quebrar as coisas e as crianças fugiram. Depois foi para a rua e começou a desafiar: “Seu Lucas, está com medo ou está com nojo?”. Duarte estava de cama, com a pressão altíssima e sem medicação; quase tendo um derrame. A provocação durou um tempo até que o embarcadiço cedeu aos pedidos da esposa para ir lá e colocar o homem a dormir. Resmungou que tinha era vontade de dar-lhe uma surra.&lt;br /&gt;— Melhor é compreendê-lo; — disse ela — creditar-lhe virtudes que você não tem.&lt;br /&gt;— O Aristides é um indigente de caráter.&lt;br /&gt;— Nem tanto. Você tem pressa de envelhecer quando não consegue disfarçar sua voracidade pelas notícias do vermelho Novos Rumos; ele nem sabe ler. Você ama polemizar usando argumentos bem nutridos, fluentes, diretos, contundentes e realistas. Ele é um homem bom, romântico como os bêbados, que vão para lá e depois para cá; que param, andam, resmungam, ameaçam os fantasmas que só eles vêem, ironizam, falam sozinhos, pois se bastam a si; que choram, escorregam e caem para se levantar e seguir na vida. Ele vai viver mais que você. Quando ela começava assim, Duarte tinha que sair de fininho para não escutar o que ela consignava nas notas de rodapé. Foi lá e encontrou o outro estirado no chão com a chuva do telhado caindo-lhe sobre o rosto vincado pela dor na alma, pelo trabalho duro da estiva, pela solidão sem luz, pela falta de futuro. “O corno está morto e não sabe” — sorriu, —“a carcaça já larga catinga...” Discutiram um pouco e Duarte levou-o para dentro, tirou-lhe a roupa, deu-lhe um banho, pô-lo para dormir e ia iniciar uma prece quando Aristides sentou na cama, coçou a cabeleira preta e zombou:&lt;br /&gt;— Está com medo ou está com nojo?&lt;br /&gt;Duarte virou-lhe as costas e o outro caiu já roncando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao passar pela cozinha Duarte deparou-se com três caixas de Gardenal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:verdana;color:#cc33cc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-535527226888134255?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/535527226888134255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=535527226888134255' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/535527226888134255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/535527226888134255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/uma-crnica-do-estreito.html' title='CHUVA REVELA OURO SOB A CARCAÇA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7994038383441698045</id><published>2008-09-07T07:56:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:55:54.440-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='florianópolis'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Ponte Hercílio Luz'/><title type='text'>O INESQUECÍVEL ANTÔNIO PÉ DE PATO</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMPsZ0xUV8I/AAAAAAAAAHQ/sq8VDlb6bJg/s1600-h/cia+carl+hoepcke+ponte+hluz.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5243294319595771842" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMPsZ0xUV8I/AAAAAAAAAHQ/sq8VDlb6bJg/s320/cia+carl+hoepcke+ponte+hluz.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;div&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Alberto &lt;em&gt;Capa Preta&lt;/em&gt; veio contar que Antônio &lt;em&gt;Pé de Pato&lt;/em&gt; estava trabalhando de operário na ponte batendo ferrugem. Mesmo que a gente dissesse que era um bom trabalho, ele não gostava porque lhe soava que o estivéssemos mandando ir trabalhar. "Fico desempregado, mas não vou me pendurar lá como um macaco amarrado pela cintura no sol e na chuva". Achava isso desonroso. Pelo menos &lt;em&gt;Antoninho&lt;/em&gt; estava defendendo o jabá de cada dia porque a vida era pedreira. Mas &lt;em&gt;Betinho&lt;/em&gt; era metido a ser especial só porque tinha cara de roqueiro; só porque andava para cima e para baixo com o Roberto &lt;em&gt;Carneiro&lt;/em&gt; cantando o repertório do Elvis; ficava imitando o astro como se acometido de epilepsia. Na época ninguém sabia, mas aquela panca de artista só fazia sucesso na &lt;em&gt;zona&lt;/em&gt;, onde era conhecido como &lt;em&gt;Capa Preta&lt;/em&gt;. Amargou esse apelido o resto da vida junto com as doenças que pegou por lá. Teve juízo, porque jamais casou para evitar o alastramento da praga encalacrada na carcaça. Cancro Duro, Crista de Galo, Esquentamento, Hepatite B e Chato, só para não deixar grande a lista de moléstias que arranjou com aquela veneta de virar roqueiro num lugar pequeno. Quando ele apontava longe as mulheres já o bradavam por causa daquela capa de lã até as orelhas. Entrava e já ia desabotoando tudo para parecer melhor de se ver. Para deixar evaporar o &lt;em&gt;Topaze&lt;/em&gt; legítimo que conseguia com os &lt;em&gt;muchachos&lt;/em&gt; argentinos nos trapiches da &lt;em&gt;Rua 14 de Julho&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia seguinte o vadio levantava somente quando &lt;em&gt;Pé de Pato&lt;/em&gt; chegava para almoçar, pois a casa era ao lado.&lt;br /&gt;— Vai lá rapaz; a vaga ainda é sua.&lt;br /&gt;— O salário é mesmo aquele?&lt;br /&gt;— Vai lá; vai lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi mesmo, mas queria primeiro ver Antônio trabalhando; conferir se ele próprio agüentava o tranco. "Que seja, mas não gosto de trabalhar amarrado como um mico". O outro veio e explicou as graves responsabilidades de segurança no serviço. Alberto resolveu encarar. Para debochar do canteiro de obras perguntou:&lt;br /&gt;— Posso urinar lá para baixo?&lt;br /&gt;— Só não molha as ferramentas.&lt;br /&gt;Era tanta urina acumulada que iniciou fazendo um arco, depois umas rodilhas e o resto foi em cima de uns cabos de alta tensão. Nem se lembra disso, mas foi jogado no mar desacordado lá de cima. Do guascaço que recebeu somente lhe ficou na cabeça a sensação de que estava encolhendo até ficar do tamanho de um palito de fósforo junto com a visão nítida de um caixão de defunto de guarnições roxas. Pelo que se soube depois, fora eletrocutado por uma corrente elétrica de quase mil volts que se conectou na urina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trinta metros de queda livre os dois; sim, porque Antônio desafivelou rapidamente o cinto de segurança e se jogou logo atrás no vazio para socorrer o vizinho preguiçoso, mas não o avistou na superfície; o jeito foi mergulhar. Não era à toa que tinha o apelido de &lt;em&gt;Pé de Pato&lt;/em&gt;. Com aqueles pés defeituosos que ganhara não se sabe de quem, seu nadar era ligeiro. E foi ligeiro que encontrou o amigo cada vez mais afundando inconsciente. O engenheiro que lhe exigia o cinto amarrado na cintura era o mesmo que lhe ensinara os primeiros socorros. Foi o que salvou o moço bonito da &lt;em&gt;zona&lt;/em&gt; nos primeiros minutos após o acidente. Ambos foram direto para o Hospital Senhor dos Passos. Não era seu gosto, mas Antônio até falou nas rádios da cidade. Diminuindo o feito acabou famoso pela coragem e pela bondade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De prêmio, o Distrito Naval convidou o herói para fazer cobiçado curso de prático na Baía da Babitonga, garantindo-lhe a velhice. Foi promovido &lt;em&gt;comandante&lt;/em&gt; por merecimento. &lt;em&gt;Capa Preta&lt;/em&gt; preferiu garantir a velhice das &lt;em&gt;bruacas&lt;/em&gt; e foi promovido a &lt;em&gt;coronel&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo que se sabe, até hoje ocupa o posto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;Foto: Ponte Hercílio Luz, acervo do Intituto Carl Hoepcke.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7994038383441698045?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7994038383441698045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7994038383441698045' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7994038383441698045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7994038383441698045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/uma-crnica-da-ponte-velha.html' title='O INESQUECÍVEL ANTÔNIO PÉ DE PATO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMPsZ0xUV8I/AAAAAAAAAHQ/sq8VDlb6bJg/s72-c/cia+carl+hoepcke+ponte+hluz.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-3547759496243544037</id><published>2008-09-05T05:43:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T17:56:48.580-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='delegado'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='foto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='ladrão'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='crime'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cadeia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='policial'/><title type='text'>A SUSPEITA</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMEwNG4k8TI/AAAAAAAAAHI/X4JvnxKZv6w/s1600-h/jail.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5242524442980315442" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMEwNG4k8TI/AAAAAAAAAHI/X4JvnxKZv6w/s320/jail.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;color:#009900;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A foto mostrava a alegria do rapaz com o produto do roubo. Só que o delegado queria enjaular mais um.&lt;/span&gt; &lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-3547759496243544037?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/3547759496243544037/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=3547759496243544037' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/3547759496243544037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/3547759496243544037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/micro-conto_05.html' title='A SUSPEITA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMEwNG4k8TI/AAAAAAAAAHI/X4JvnxKZv6w/s72-c/jail.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5681877700703848385</id><published>2008-09-04T11:56:00.000-07:00</published><updated>2010-02-13T10:11:40.517-08:00</updated><title type='text'>NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMAze3Z61sI/AAAAAAAAAHA/kbUIuGWoYFo/s1600-h/uti007.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; DISPLAY: block; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5242246571621013186" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMAze3Z61sI/AAAAAAAAAHA/kbUIuGWoYFo/s320/uti007.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:verdana;font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Quando ele voltou a si, repetia: "Chega, desliga tudo".&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5681877700703848385?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5681877700703848385'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5681877700703848385'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/micro-conto.html' title='NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SMAze3Z61sI/AAAAAAAAAHA/kbUIuGWoYFo/s72-c/uti007.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-733525070177021756</id><published>2008-09-01T18:31:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T18:00:07.340-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='militar'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='exército'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='guarda-bandeira'/><title type='text'>GUARDA-BANDEIRA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLyaKuqcC2I/AAAAAAAAAGc/vgCGhtSdLic/s1600-h/guarda-bandeira+2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5241233575467813730" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLyaKuqcC2I/AAAAAAAAAGc/vgCGhtSdLic/s320/guarda-bandeira+2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menos de vinte e quatro horas depois o tenente já estava ansioso para compor a guarda-bandeira. Queria degustar aquela honra. Glória somente menor que "morrer num campo de batalha todo roto por balas" (era-lhe ainda recorrente o casto verso da canção da arma). O comando da guarda era dado ao mais novo oficial. Não era questão de merecimento, mas de tradição. Quando se tratava de um novato com formação na Academia Militar o protocolo se revestia de graça e beleza. Aí residia o encanto, pois não é sempre que se vê um jovem galante envergando garboso uniforme no desempenho de algo tão digno. Tradição determinada pelos comandantes de cabelos já esbranquiçados, o rito ajudava-lhes a entender a própria alma batida pelos ventos da dura vida nas guaritas. Olhando a juventude no desempenho de tão elevada missão, esses veteranos se viam nela. Melhor, passavam a residir nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Experimentei o regozijo de fazer parte disso durante algum tempo. O porta-bandeira era um oficial recém-formado. O que ele tinha de capricho no cerimonial, tinha o equivalente a dívidas nos carnês. Um dia antes tinha tomado uns solavancos do velho coronel por causa de um telefonema recebido do banco. Não fosse esse podre era um deus para nós. Nas vésperas dos desfiles o caudilhinho nos treinava exaustivamente até que todos os movimentos saíssem perfeitos. Éramos dois cabos e três soldados. Todos da mesma altura para harmonizar a formação. Ele, armado de pistola e espada, conduzia o pavilhão nacional; cada um de nós, um fuzil com baioneta armada. Como aquilo pesava; nossa! Nos ensaios deixava-nos amargar durante muito tempo em ombro-arma, que era "a posição primordial de uma guarda-bandeira que se preze". As praças de uma guarda de honra jamais faziam o movimento de apresentar-arma. Era a tropa quem o fazia em homenagem ao intocado pavilhão nacional. O homem também não aceitava que fizéssemos qualquer outro movimento para aliviarmos a postura incômoda do ombro-arma. Ficávamos ali, debaixo de sol ou chuva durante o tempo que ele decretasse. Muitas vezes nossos braços adormeciam enrijecidos. Ainda assim, estar sob as ordens de um militar de carreira era adequado porque ele sabia o que estava fazendo. Éramos voluntários, pois se assim não fosse ele não nos queria ali. Para ele iam os elogios, para nós o breve privar do seu convívio pessoal; pois que no recreio ele se tornava nosso companheiro de cigarro. Chegou a nos contar sobre aquela chacoalhada do dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havíamos entrado num concurso para a escolha da melhor guarda-bandeira da Quinta Região. Vencemos, mas naquele dia aconteceu uma que jamais esquecerei. As guardas tinham que desfilar diante da tropa perfilada, executar alguns comandos marciais de marchas e contramarchas e se postar diante do palanque onde estavam os comandantes e a comissão julgadora. Essa parte da cerimônia era chamada de "introdução da bandeira". Nossa guarda foi chamada, fizemos uma apresentação impecável e nos colocamos diante do palanque em posição de ombro-arma durante quase uma hora; tudo de acordo com o nosso treinamento. As outras guardas desfilavam e após ficavam em posição de sentido, com os fuzis e a bandeira nacional em posição de descanso. Desnecessário dizer que nossa posição inflexível agradou e fomos escolhidos a guarda-bandeira da Região Militar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então veio desfilando a guarda-bandeira do Centro de Preparação de Oficias da Reserva comandada por um tenente novinho, quase ainda um civil. Vinha progredindo sem muito brilho diante do palanque quando um repentino vento de rebordo fez que a bandeira nacional arrancasse o capacete da cabeça do oficial. Primeiro o vento caprichoso drapejou o &lt;em&gt;pátrio pendão&lt;/em&gt; ao som de um dobrado comovente. O tenente arrepiou-se do pé à ponta igual a um tamanduá-bandeira ouriçado: "agora eu ganho a disputa". Depois, talvez com raiva dos que tão mal o tutelavam, ele próprio, o &lt;em&gt;símbolo augusto da paz&lt;/em&gt;, arrebatou a cobertura mal assentada na cabeça do jovem para atirá-la no chão feito uma pipoca descontrolada: &lt;em&gt;ploc-ploc-ploc&lt;/em&gt; pelo meio da espaçosa &lt;em&gt;Brigadeiro Franco&lt;/em&gt;. Que saia justa! Deixasse o diabo do capacete no chão e seguisse em frente. Mas não; ficou tentando resgatar o equipamento com a haste da bandeira feito lança, já arrastando suas respeitáveis pontas pelo chão. Cada tentativa malograda produzia faíscas na pedra do pavimento. Quando deu por si o tenente estava longe, já dobrando a esquina da &lt;em&gt;Praça Osvaldo Cruz&lt;/em&gt;. E dali se escafedeu. Uma cena dessas nem era para ser engraçada; mas foi.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Foto: FC Aldo do Comando Militar do Nordeste, onde é comandante o Gen. Ex. Jarbas Bueno da Costa; meu amigo na juventude.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-733525070177021756?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/733525070177021756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=733525070177021756' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/733525070177021756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/733525070177021756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/09/esquisito-mas-aconteceu.html' title='GUARDA-BANDEIRA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLyaKuqcC2I/AAAAAAAAAGc/vgCGhtSdLic/s72-c/guarda-bandeira+2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-9105208152851563811</id><published>2008-08-30T14:03:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T18:02:11.679-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='veleiro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='regata'/><title type='text'>DOIS VELEIROS</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLqe3Lr27tI/AAAAAAAAAGQ/fziYMBXlyAY/s1600-h/O+Guga+Buy.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5240675787265732306" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLqe3Lr27tI/AAAAAAAAAGQ/fziYMBXlyAY/s320/O+Guga+Buy.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;Após vender seu antigo veleiro a um amigo, Oilte Nunes adquiriu outro novinho. Bom velejador, o homem tinha fama de não perder regatas sem luta. Não raro gabava-se de ter esse "defeito" em seu currículo médico. Mais ainda, dizia-se uma Ferrari andando por estradas cheias de buracos. Metáfora óbvia para proclamar que os hospitais da cidade não estavam à altura do seu "bisturi de ouro". Se descuidassem ele se proclamava deus. Enfermeiros e Auxiliares não gostavam de trabalhar com ele, de tão arbitrário que era. Dia desses, era madrugada, resolveu passar no hospital para atender um paciente. O segurança barrou-lhe a entrada.&lt;br /&gt;— Vou verificar quem é o senhor.&lt;br /&gt;Enquanto o outro se comunicava com alguém lá dentro, Oilte enfiou o pé na porta de vidro e entrou levando tudo por diante.&lt;br /&gt;— Não posso aceitar que o hospital onde trabalho não me conheça.&lt;br /&gt;Os diretores da casa o perdoaram, pois ele de fato era credor de respeito profissional. Mas os funcionários passaram a tratá-lo de cavalo. Cá para nós, era desejável que nessa profissão ele fosse alguém que não aceitasse levar trambolhões na vida. Em competições esportivas isso era algo detestável porque ele não reconhecia a prevalência dos adversários. Inocentes regatas eram ocasiões de encrencar com os amigos. O homem virava um pau de bater em maluco. Transformava-se num tirano mal educado tamanho o baixo vocabulário que usava para se fazer entender. Mas havia que ter mais cuidado no exercício de profissão tão humana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de entregar a embarcação desafiou o novo proprietário para uma regatinha ao redor da Ilha dos Ratones. Era um percurso de uma hora. Meio sem jeito o outro aceitou, sabendo que iria perder. Além de novo o veleiro de Oilte era veloz. Com aquele ventinho nordeste era uma vantagem e tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dada a largada o médico pulou na frente. Quase se via o sorriso sarcástico de Oilte Nunes liderando a prova. Queria, precisava ganhar nem que fosse à base de ciganice. Mas o outro o conhecia bem e preparou-lhe coisa de caso pensado: ao ver-se distante ligou o motor na lenta e navegou de bordo contrário. Quando fez o contorno da ilha, o médico estava muito atrás. O amigo venceu a regata e esperou a chegada do azedo, que resolveu abandonar a prova e atracar o barco. Não entendeu como aquilo pudesse ter acontecido. Prometeu colocar anúncio no jornal para vender o veleiro. Alegando que a embarcação era hostil e que não obedecia com rapidez seus comandos de leme e escota da vela mestra, Oilte não a queria mais. Queria um veleiro arisco e não um cocho de lavar roupas. Diante dos amigos ficou com tanta vergonha que ofereceu o veleiro para quem quisesse comprá-lo por um preço de ocasião. Então o amigo que o havia vencido naquela regata de brincadeira aproximou-se.&lt;br /&gt;— Por que você coloca a culpa no barco?&lt;br /&gt;— Não admito perder para você nem de brincadeira.&lt;br /&gt;— Não percebeu que não venci você?&lt;br /&gt;—...???&lt;br /&gt;— Você perdeu para você mesmo. Quer vender o seu veleiro? Pois não deixo&lt;/span&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Foto: Veleiro "Guga Buy", gentileza de José Zanella.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-9105208152851563811?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/9105208152851563811/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=9105208152851563811' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/9105208152851563811'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/9105208152851563811'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/ainda-assim-admiro-nenm-falange.html' title='DOIS VELEIROS'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLqe3Lr27tI/AAAAAAAAAGQ/fziYMBXlyAY/s72-c/O+Guga+Buy.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4840909546731972107</id><published>2008-08-27T18:53:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T18:02:58.959-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='releitura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='escola'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Leonor de Barros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='leitura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='meio ambiente'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antonieta de Barros'/><title type='text'>ADEMAR? PRESENTE!</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLapwR20XYI/AAAAAAAAAGI/lUfhYRP1mzg/s1600-h/menino+lendo+5.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239561863384292738" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLapwR20XYI/AAAAAAAAAGI/lUfhYRP1mzg/s320/menino+lendo+5.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo perambular por aí sujeira e esgoto quando penso no menino Ademar, que um dia me apresentou aos livros. Inteligência notável e memória privilegiada, o menino lia tudo que lhe caísse às mãos; melhor, devorava. Intuitivamente percebia que, lendo muito, ele era mais original; muito embora seus conhecimentos fossem baseados no que diziam os outros. E, lendo muito, sabia escrever. E, escrevendo, aprendia mais e melhor. Abelhudo, quase nada lhe escapava ao agudo interesse pela leitura. Nem os pedacinhos de jornal higiênico da privada no fundo do quintal. Por vezes relia mais do que lia, quando topava algo interessante. Percebia que reler era melhor que ler. Desconfiava que fossem de suas releituras que nasciam suas reflexões criadoras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Perto de onde morava havia um buraco enorme que ficava cheio de água na época das chuvas; lá por setembro. O garoto encantava-se admirando a água daquela cacimba. Levantava cedinho e corria para a beira da lagoinha sonhando com veleiros navegando, canoas de pescadores, tainhotas pulando, revoada de garças, lontras pardas e crianças nadando. Muitas vezes corria para lá e via o reflexo do sol nascente na água parada. O céu, translúcido e sem um fiapo de nuvem, rebrilhava como pano de fundo. Depois, &lt;em&gt;Cuíca&lt;/em&gt;, como também era conhecido, ficava lançando pedrinhas em vôos rasantes para fazê-las resvalarem no espelho da água mansa.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;Um dia construiu rudimentar canoa de madeira com a ajuda de &lt;em&gt;Fornalha&lt;/em&gt;, seu eterno assistente para os projetos de engenharia juvenil. Remar naquele mundo fascinante da lagoa da cava era um sonho perseguido com interesse e paixão. Mas vogar num bote infiel, de tão malfeito, exigia-lhe mais destreza do que possuía. Era péssimo em trabalhos desse tipo. Não herdara o refino manual do pai. Focado no sonho de navegar como o &lt;em&gt;velho&lt;/em&gt;, para ele aquela bateira transformou-se numa armadilha. Negava-lhe explícita obediência. Parecia que fora feita para emborcar. Exigia do remador senso de equilíbrio para ali se manter. E esse dom Ademar não possuía. Nisso ele era sutil como uma bigorna. Mas nadava bem e era persistente feito um cão. Isso de emborcar a canoa, se molhar, voltar a remar, emborcar e remar de novo era nada, em comparação à vista que ele extraía quando ficava no meio do lago. Era o céu descortinado diante daqueles ávidos olhos azuis. Era um mundo dentro do mundo. Mais, um universo mágico e inexprimível.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;À medida que a água da cava ia baixando, coroas de terra iam aparecendo. Então, olhando de dentro para as beiradas do lago, o menino identificava os recantos intocados. Uma nesga de terra beijando a água já se transformava num lugar de sonhar, num lugar de busca e cômodo para o seu talentoso espírito. Vislumbrava e nomeava as praias: Saquinho, Caranhas, das Almas, Rendeiras, da Costa, do Canto e do Porto. Algumas ele somente acessava de barco. Mais ao longe jurava enxergar um frondoso ipê amarelo no lugar de um pé de inhame, que ninguém sabia como havia se criado ali. No entorno da lagoa artificial ainda visualizava as praias de mar grosso: Mole, Rio Vermelho, Moçambique, Galheta, Santinho, da Barra, Joaquina e Campeche. O laguinho era ponto de encontro consigo mesmo. Tinha até um centrinho com a cara urbana. Ali os moradores se encontravam. Gambás e vespas, por certo, mas eram encontros naturais e importantes para a vida da comunidade. Gambás não pescavam, nem vespas eram malabaristas dos bilros nas almofadas de rendas. Mas, às vezes, ele apostava que via isso. De certo via mesmo, mas através dos olhos de sua inocente alma juvenil.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;De repente percebeu que o sol impiedoso secava o lago. As praias foram se transformando em lama, revelando a imundície que insistia em aparecer. Eram garrafas e sacos plásticos, animais mortos, pneus velhos, tranqueira de galhos de árvores, poltronas e móveis inservíveis, lixo e mais lixo. Até os restos da carcaça de um fusca apareceu no baixar da água. A cada novo dia ficava mais difícil navegar. Até que o inferno mostrou-se por inteiro. Um postal que só albergava fedorenta revoada de urubus cobiçando as carniças que iam aparecendo. O mesmo sol que produzia o encanto do amanhecer apagou o futuro do lago de inspiração poética. Não que o sol fosse o responsável pela degradação ambiental da lagoa; não. Ele apenas cumpria o seu papel de permanecer sol. Quanto mais brilhava, mais fazia sumir a água do lago. &lt;em&gt;Cuíca&lt;/em&gt; quase entrou em desespero diante da angústia de nada poder fazer para salvar a lagoa que se transformava num charco podre. Também: pilhou vizinhos depositando ali os entulhos que produziam nas próprias casas. Deixa; talvez na época das chuvas o lago fosse renascer. Isto se o &lt;em&gt;Chida&lt;/em&gt;, o proprietário, não tampasse o buraco.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff0000;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span &gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;Novel ginasiano, hoje doutor, tinha como professora de português a dedicada Leonor de Barros. Irmã da não menos ilustre Antonieta, primeira catarinense a ter assento na Assembléia Legislativa do Estado e conhecida literariamente como Maria da Ilha. Ao final de uma de suas aulas, a mestra estabeleceu como tarefa de casa uma redação com o tema “O Amanhecer na Lagoa da Conceição”. O menino produziu um texto tão fiel que lhe renderia homenagens da veneranda senhora pelo resto do ano. Convertendo a cacimba em linguagem literária, transferiu tudo para o oco do coração daquela mulher. Iniciou oferecendo uma visão apaixonada do paraíso e concluiu chorando-lhe a morte, num breve e irremediável destino, se algo não fosse feito. Perguntado se conhecia o local, respondeu que jamais estivera lá. Indagado, ainda, como soubera tão fielmente descrevê-lo, explicou, com o desembaraço e o verdor de inteligência que lhe definia a personalidade: “relendo o jornal que embrulhava o peixe”.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4840909546731972107?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4840909546731972107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4840909546731972107' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4840909546731972107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4840909546731972107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/um-menino-como-poucos.html' title='ADEMAR? PRESENTE!'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLapwR20XYI/AAAAAAAAAGI/lUfhYRP1mzg/s72-c/menino+lendo+5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7520519936658638757</id><published>2008-08-26T10:00:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T18:03:57.250-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amizade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='medo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='morte'/><title type='text'>ADIANTA SE ESCONDER?</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLW5rJufR9I/AAAAAAAAAFo/8hvXsduZA-A/s1600-h/coroa1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Quem há de saber rezar para evitar a morte; para se proteger? A palavra morte causa espanto nas pessoas. Ao se pronunciar a dita cuja já se escuta: ”cruz credo!” ou “deus me livre!”. Para descarrego do medo, nada como desafiar a safada; falar da atrevida sem temor. Era assim, o Juci. Um mulato cheio de catequese que pouco acreditava nas velas que fazia arder enquanto rezava jaculatórias decoradas. Acendia o lumaréu por ordinária tradição. Dizia não temer a morte, mas de ninguém escondia sentir enorme tristeza quando nela pensava.&lt;br /&gt;— A saudade, ensinava, mora na morte. Morrer é nada, em relação a viver, que é tão bom.&lt;br /&gt;Era bíblico, para ele, haver tempo de viver e de morrer. Vida e morte eram companheiras na jornada de cada pessoa. Mas também, melhor morrer a viver cheio de tubos, cadeiras especiais, cama alta para facilitar o acesso, dores, ziguezague nos vídeos dos aparelhos, mangueiras, agulhadas, cânulas, escalpes, lancetas, lâminas, cubas, remédios, sedação e outros recursos para prolongar o que devia se acabar com dignidade. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;Bom marido, dedicado pai e fiel tesoureiro do apostolado, sabia do risco a que estava sujeito ao empreender a temível travessia por essa vida diante das forças do bem e do mal. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:georgia;color:#cc33cc;"&gt;Fazia parte de um grupo que estava amargando mês insólito, dois membros já haviam esticado o pernil. A média era de um por ano. Juci estava triste ao mesmo tempo em que ironizava a perda dos colegas. Recomendava requinte nas orações, estava morrendo gente demais. Usava o termo morrer, tão sinistro, mas reprimia a vontade de fazer gracejo. Se fosse de sua escolha usaria termos como “deletar”, “queimar a bateria” ou “sentar no colo do capeta”. Não era chegado em desenhar a morte como horror natural na vida de cada um. Mas também não usava remedinhos para adocicar as desesperanças alheias. De verdade, Juci temia morrer. Sabia que, mais dia menos dia, isso iria acontecer. Mas ansiava bater a caçoleta sorrindo, rodeado de prantos sinceros dos que, por derradeiro, lhe fechassem a tampa da caixa. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Definitivamente havia algo de mau agouro no ar. A irmandade havia comprado duas coroas fúnebres que fez a conta bancária ficar no vermelho. Mesmo assim, todos se divertiam diante do melancólico atrevimento contido nas palavras daquele mulato de boca grande e olhos revirados enquanto falava. Ou melhor, interpretava. Cada opinião, conceito ou juízo que se metesse a fazer diante dos amigos era uma encenação teatral irretocável. Em casa era diferente. A esposa não gostava nada e os filhos odiavam a aptidão natural do pai. Ivonete, amiga e presidenta da congregação, não deixava escapulir oportunidade de espetá-lo:&lt;br /&gt;— Juci, cuida de ficar vivo. O próximo a bater a alcatra não vai ganhar coroa. Não há mais gaita.&lt;br /&gt;Gargalhada geral. Quem há de apostar numa intuição sutil como a de Ivonete? Quem há de suspeitar que a própria mortalha já esteja pronta? Quem há de rogar com proveito para evitar morrer? Ivonete dizia que suas orações eram infalíveis. Mas confessava não saber rezar para si própria.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Naquele domingo o grupo participava de retiro espiritual. O momento era de oração e preceito religioso, mas Juci não agüentava a vontade, quase fisiológica, de fazer gracejo. Ao final da palestra do Padre Aloísio, Juci estava no meio de um grupo conversando quando Ivonete apareceu no corredor tocando uma sineta, anunciando que era hora de oração. Ele reagiu:&lt;br /&gt;— Pessoal, da próxima vez não mais convidamos essa mulher. Vive badalando aquela sineta da reza o tempo todo. Que que há? Ninguém merece... Ela só quer rezar... Rezar... Não pensa em se divertir... Nunca anuncia o recreio... Deus não quer isso para nós... Ivonete não vem mais conosco, gente...&lt;br /&gt;A mulher entrou na caçoada e prometeu rezar por Juci. Aí ele se superou na troça. Ajoelhou-se em súplica pedindo que não o fizesse, pois mais iria atrapalhá-lo que socorrê-lo. Ela ainda resmungou:&lt;br /&gt;— Cretino de uma figa, vou nomear você ministro do mau agouro na diocese.&lt;br /&gt;O grupo todo começava a rir quando ela passava com o sininho na mão como se fora um inspetor de alunos. Ainda fazia uns contrapassos solenes para depois se perder nos corredores do convento rebolando as avantajadas cadeiras.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:georgia;font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Acabado o retiro, Juci foi para casa do irmão. Ia levá-lo ao aeroporto. Mas sentiu-se mal e foi levado às pressas ao pronto-socorro. No trajeto, olhos arregalados de surpresa, Juci parecia ver o rosto pesaroso de Ivonete, empenhada numa sincera oração para o amigo não arribar em definitivo desta vida. Mas não era a amiga não. Era o médico lutando para se agarrar no fiapo de vida restante do homem que não queria morrer. Não naquele momento. Nunca houvera passado por uma situação de quase morte. Sentiu o perigo e desejou que aquela circunstância fosse-lhe a penúltima. Mas percebeu que estava indo embora. Veio-lhe a reminiscência da imagem da Virgem de Michelangelo, com Jesus morto em seus braços. No aconchego daquela mãe, morrer era nada. Então, sentindo estranho conforto, decidiu entregar os pontos. Chegou morto no hospital, sem tempo para as despedidas protocolares.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:lucida grande;"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Tristeza geral no velório. A irmandade compareceu para sepultar o fiel tesoureiro. De repente chegou um carro preto com vistosa coroa de flores. Por certo a mais cara que havia na loja. Espetado num cavalete envernizado, o adorno fúnebre estava repleto de brilhos e fitas de plástico com mensagens de condolências. Quem trazia a homenagem póstuma era Ivonete, de luto fechado e soluçando de remorso. Inconformada, deixava à mostra o profundo pesar de não haver caprichado o suficiente nas orações em favor de Juci. Olhando para o corpo do amigo esticado no caixão compreendeu que em vida ele esperou a sorrateira de pé e não de joelhos não. Tão ousado fora que Ivonete esboçou um sorriso. Juci, sem sinal de pânico e quase sorrindo, fez que a própria morte se pusesse de luto.&lt;/span&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#33cc00;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7520519936658638757?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7520519936658638757/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7520519936658638757' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7520519936658638757'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7520519936658638757'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/conto-em-homenagem-ao-juci.html' title='ADIANTA SE ESCONDER?'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6320573936574513415</id><published>2008-08-21T10:06:00.000-07:00</published><updated>2008-10-25T18:07:27.230-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='cavalo'/><title type='text'>CADILHÁQUI</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SQPCq2WZvXI/AAAAAAAAAIg/9z0NWlRyku0/s1600-h/cavalo+de+fogo.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5261262831098641778" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 245px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SQPCq2WZvXI/AAAAAAAAAIg/9z0NWlRyku0/s320/cavalo+de+fogo.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; &lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Humberto Ilha &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Dos mecânicos do &lt;em&gt;Bairro de Fátima&lt;/em&gt; era ele, de longe, o melhor; o Paulo Pavão. Mas parece que só tinha alegria quando fechava a oficina e se lavava com gasolina. "Fica-te aí que amanhã tem mais", dizia para a bancada de trabalho. Bebericava aguardente com coca-cola o dia todo. Depois, já bebote, montava &lt;em&gt;Cadilháqui&lt;/em&gt; e ia acabar a noite na &lt;em&gt;Vila Palmira&lt;/em&gt;. Mas ia com o Nilo para não se render sozinho ao engano das &lt;em&gt;perdidas&lt;/em&gt;. Anos a fio nesse delito com a leniência da esposa: "ruim com ele pior sem ele". Ainda posava de respeitoso como se a companheira de nada suspeitasse: "ai de mim se ela desconfia". Bem que merecia um trato de pau para aprender o dom do respeito pelas pessoas de bem. Parecia dar valor somente à &lt;em&gt;carne comprada&lt;/em&gt;. Chegava ao bordel com a roupa do serviço porque sabia haver sempre ali uma que perdia o tino diante da &lt;em&gt;inhaca&lt;/em&gt; feiticeira da gasolina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Cadilháqui&lt;/em&gt; dava ares de gostar da transgressão do senhorio porque, quando queria, agarrava o caminho da &lt;em&gt;zona&lt;/em&gt; sem que alguém lhe ensinasse o norte. A mulherada o conhecia de longe; "passa a corda no pescoço do bicho que é do Pavão". Não que lhe dispensassem alguma consideração; não. É que o cavalo gostava de uma algazarra quando fuçava no lixo. Quando o dono dava pela falta do animal chamava o &lt;em&gt;Paulo Poliça&lt;/em&gt;, um cabo reformado, que ia buscar o desertor pelo preço de uma cerveja. O proprietário do &lt;em&gt;Bar Coringa&lt;/em&gt;, que era defronte à oficina, dava graças a deus quando o mecânico se perdia por lá. Gostava dele, mas não o suportava embriagado. Entrava no estabelecimento como uma torre cavaleira e se postava no meio das mesas de sinuca para pedir um trago. Dando de mão nas rédeas o cavalo se ouriçava todo e sapateava no chão do boteco. Ensaiava empinar ali dentro, só que trazia no lombo um cavaleiro que mantinha o controle da situação. E no equilíbrio com pouco espaço, o animal escorregava as patas traseiras bem ferradas para depois se recompor. Ainda que, a custo, restabelecida a integridade do conjunto, &lt;em&gt;Cadilháqui&lt;/em&gt; permanecia arisco a julgar pelo movimento dos olhos arregalados e das cabeçadas no ar revelando a ânsia de sair para rua. O mecânico não precisava fazer isso. Altamiro botava as mãos na cabeça desesperado pela iminência do animal largar imundice pelo chão da bodega. "Pavão, leva esse cavalo, amigo; vai correr com a freguesia e sujar tudo aqui". Que se saiba nunca o bicho fez-lhe essa desfeita. Mas só pelo susto o fim de semana não prestava mais para Altamiro. Pavão curtia o desespero do proprietário porque tinha lá seus segredos, oras. Antes de cavalgar dava um chá de folha de goiaba ao animal e negava-lhe a ração para que não saísse pelas ruas emporcalhando tudo. Mas isso ele não contava ao apavorado vizinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí eu soube que, pelo início da madrugada, lá da &lt;em&gt;gandaia&lt;/em&gt; vinham mais dois encorujados numa Lambreta. O açougueiro e o corneteiro do Batalhão, freqüentadores recidivos do fervilhante meretrício. Já havia uns dias que o cabo do acelerador do frágil veículo se partira. Combinaram que o da garupa controlaria a aceleração quando o outro solicitasse: "puxa o cabo; alivia". Para dar ordens desse tipo o militar ficava à vontade porque era reiúno velho de quartel e dono da motoneta. Não sabiam eles que &lt;em&gt;Cadilháqui&lt;/em&gt; mais uma vez estava visitando o lixo da &lt;em&gt;Churrascaria Globo&lt;/em&gt; em busca de verdejo. Naquela noite o proprietário do estabelecimento iria dar uma lição no animal. Não fosse o estrago nas latas de lixo e a sujeira espalhada pelo pátio até toleraria o bruto, que era manso. Mas já se lhe esgotara a paciência todas as manhãs ter de arrumar o estrago que o animal fazia. Então preparou &lt;em&gt;uma boa&lt;/em&gt;. Aproximou-se amistosamente de &lt;em&gt;Cadilháqui&lt;/em&gt; e amarrou-lhe, bem amarrado, uma fieira de latas nas pernas. Estalou uma chicotada nas ancas do alazão, que disparou rua abaixo a toda. Quanto mais corria, mais se assustava e mais queria correr. As luzes das casas foram se acendendo à medida que o cavalo ia passando com estardalhaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso os dois da Lambreta vinham se equilibrando precariamente. Como viajava na garupa e com menor compromisso, o açougueiro estava quase dormindo. Mesmo assim vinha obedecendo direitinho aos comandos do amigo. Isso até à hora que surgiu aquela espécie de &lt;em&gt;mula sem cabeça&lt;/em&gt;, ensandecida pelo escarcéu que as latas faziam. O corneteiro gritou: “Alivia o cabo, Raulino!”; o outro fez o inverso; esgarçou tudo até o último. A Lambreta acelerou enlouquecida numa roda e foi se estatelar nos pneus de um caminhão estacionado ao lado do edifício dos Correios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebendo a miséria que havia provocado, o dono da churrascaria meteu-se dentro de casa, apagou todas as luzes e ficou escutando o medonho rebuliço. Do cavalo escutava ainda os relinchos desesperados e o tropel das latas enquanto passava pela frente da Escola de Marinha em direção à &lt;em&gt;Vila Palmira&lt;/em&gt;. Dos dois boêmios sequer um gemido. Mas depois, fazendo que chegara agora, ajudou a colocá-los na ambulância. Ficou o dito pelo não dito e ninguém soube quem fora o causador daquele tumulto que quase levou três para o buraco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas semanas depois o militar e o açougueiro estavam engessados dos pés até a cabeça. Pareciam duas múmias vivas. &lt;em&gt;Cadilháqui &lt;/em&gt;entrou em depressão e só encontrava consolo quando vinha sujar o pátio e remexer o lixo da churrascaria, pois ninguém conseguia nele colocar um inocente cabresto.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6320573936574513415?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6320573936574513415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6320573936574513415' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6320573936574513415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6320573936574513415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/um-conto-animal.html' title='CADILHÁQUI'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SQPCq2WZvXI/AAAAAAAAAIg/9z0NWlRyku0/s72-c/cavalo+de+fogo.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5416294859421399556</id><published>2008-08-20T16:53:00.000-07:00</published><updated>2008-08-20T16:58:23.436-07:00</updated><title type='text'>Vela Olímpica - Classe Laser</title><content type='html'>Jogos Olímpicos – um sonho em duas partes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho completo não acabou. Só foi adiado por quatro anos.&lt;br /&gt;por Bruno Fontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Desde que comecei na vela, sempre tive dois sonhos. O primeiro era participar de uma Olimpíada, representando o Brasil. O outro ainda é subir ao pódio e receber uma medalha. Vinte e um anos se passaram, desde então, contado com o apoio incondicional de família, patrocinadores e amigos. Período de muitas vitórias e de derrotas contra grandes adversários, alguns deles também amigos, que me fizeram evoluir tanto como velejador, como pessoa. A trajetória até a conquista da vaga na classe Laser em Beijing 2008 foi de muito trabalho e abdicações. Um ciclo de quatro anos, desde a derrota para Robert Scheidt, na seletiva para Atenas. Com um dos sonhos garantidos, a meta para a China era a conquista de uma medalha olímpica. Algo que parecia viável, por toda a preparação, pelos meus resultados nas competições e, inclusive, pelo treinamento na semana anterior ao início das classificatórias, já em raias chinesas. Porém, na hora, nada deu certo, e tudo que parecia conspirar ao meu favor durante os treinos, não se repetiu nas regatas. O misto de sentimentos, ao mesmo tempo, de dever cumprido e de frustração foi minha companhia nestes últimos dias. Sei que tentei o meu melhor, mas o 27º lugar desta competição ficou muito aquém do meu objetivo principal, do meu sonho. As condições imprevisíveis foram as mesmas para todos os atletas, mas não foram favoráveis a mim. Por outro lado, sei que, como velejador, não devo nada, em termos de qualidade, a quaisquer de meus adversários. Como todo brasileiro, que não desiste nunca, tento não me abater. Pois em 2012 temos os Jogos Olímpicos de Londres e tenho esta pendência da medalha para ser resolvida comigo mesmo e com o meu País, e, deste modo, completar a segunda parte do meu sonho. Fica como inspiração e incentivo o desempenho das meninas da classe 470 – Fernanda Oliveira e Isabel Swan – que em sua terceira participação individual em Olimpíadas e a primeira como dupla, conquistaram a tão sonhada medalha. O momento agora é de autocrítica, de aferir meus erros e avaliar o que posso melhorar e aplicar isso nos treinos, pois tenho muita água e ventos pela frente. O sonho não acabou. Só foi adiado por quatro anos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5416294859421399556?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/5416294859421399556/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=5416294859421399556' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5416294859421399556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5416294859421399556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/vela-olmpica-classe-laser.html' title='Vela Olímpica - Classe Laser'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1031339200838596112</id><published>2008-08-19T13:02:00.000-07:00</published><updated>2008-08-28T07:20:53.975-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amizade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='realidade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='coragem'/><title type='text'>Não sei perder</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;ZELITA &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;(Humberto Ilha)&lt;br /&gt;Mais uma luz se apaga.&lt;br /&gt;Minha amiga &lt;em&gt;"Zélis"&lt;/em&gt; morreu; por aqui está mais escuro.&lt;br /&gt;Nada me faz crer que ela viva em algum lugar, mesmo que tenha sido tão bondosa.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;Nada me remete a outro endereço senão o do &lt;em&gt;"Jardim da Paz".&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Melhor crer nisso do que me entupir de remédio com prazo vencido.&lt;br /&gt;Minha angústia básica diante da morte merece respeito.&lt;br /&gt;Nada de abraçar a ilusão para continuar vivendo.&lt;br /&gt;Muitas vezes ela me disse:&lt;br /&gt;"Segue em frente, recolhe o caquedo e enfrenta o escuro".&lt;br /&gt;Nada tão verdadeiro.&lt;br /&gt;Credo, como a vida é esquiva, arisca, desconfiada e desertora da gente.&lt;br /&gt;Busco a conformação num enorme silêncio que nada responde.&lt;br /&gt;Clamo pelo deus dos homens, mas ele teima em se esconder.&lt;br /&gt;Então vejo que estou sozinho nesse confronto desigual que é a vida.&lt;br /&gt;Quer dizer: sozinho não! Tenho você, que ainda vive; desaforo!&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1031339200838596112?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1031339200838596112/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1031339200838596112' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1031339200838596112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1031339200838596112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/no-sei-perder.html' title='Não sei perder'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7272903214520228030</id><published>2008-08-16T17:39:00.000-07:00</published><updated>2008-09-02T10:44:30.521-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='respeito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='briga'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Hoepcke'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='regulamento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='raiva'/><title type='text'>Um conto do Mar</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SKm05666zzI/AAAAAAAAAFY/N44BPG63F5Q/s1600-h/cia+navio+carl+hoepcke+anna+max+rebocador+s+francisco.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5235914948956835634" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SKm05666zzI/AAAAAAAAAFY/N44BPG63F5Q/s320/cia+navio+carl+hoepcke+anna+max+rebocador+s+francisco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;ADEUS, LUCIMAR&lt;br /&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;Houve uma briga na cozinha do &lt;em&gt;Annita&lt;/em&gt; enquanto navegava nos limites da costa catarinense. A embarcação fora um navio de guerra americano. Agora, adaptado, era um misto de carga e passageiros da &lt;em&gt;Empresa Nacional de Navegação Hoepcke&lt;/em&gt;. Haviam se atracado em luta corporal um dos copeiros e o primeiro motorista de bordo. É que o veterano auxiliar de cozinha cumpria com zelo o regulamento para as rotinas dos serviços de bordo. Já o das máquinas, além de novo na empresa, era negado a obedecer ordens. Tinha o costume de trabalhar para o chefe e não para a empresa. Fizera carreira em pequenos cargueiros e em barcos de pesca. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;Uma hora antes de aportarem Duarte já estava demitido. Consta que fora até a cozinha tomar café e fizera uso de um copo ao invés de uma xícara. Mais ainda, mexeu o açúcar com o cabo de um garfo quando deveria usar uma colherzinha. Fora admoestado pelo taifeiro diante de colegas e não gostara. O comportamento impróprio do copeiro deixou-o furioso, mas conseguiu conter-se. Entretanto, dissera ao outro que na próxima ocasião ele o faria engolir os insultos. Duarte bem sabia que acabara de proferir uma ofensa maior do que as que havia escutado. O taifeiro mordeu a isca e partiu para cima dele esbravejando:&lt;br /&gt;— Olha aqui, &lt;em&gt;Linguado&lt;/em&gt;, vais ter que me encarar é agora.&lt;br /&gt;O maquinista conteve-se mais um pouco. Era necessário provocar mais raiva no outro até que chegasse ao ponto ideal de atacá-lo; até que ficasse totalmente sem controle emocional. Antegozando um ódio desmedido e represado cutucou quase sorrindo:&lt;br /&gt;— Não brigo com mulheres. Muito menos com as que cozinham para mim. Tenho medo de ser envenenado.&lt;br /&gt;Foi a gota d’água; um talonaço de faca parou na curva do braço de Duarte que rapidamente liberou toda a sua ira. Foram dois socos potentes direto no rosto do colega, que girou por cima de um corrimão para despencar de dois metros. Amontoou-se como um saco de areia no piso de ferro fraturando as duas pernas. Colegas passaram trabalho para deixá-lo imobilizado, pois daquele jeito ainda queria agredir o motorista. Era bom de briga, mas não o bastante para aquele homem de punhos de aço. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;Dia seguinte &lt;em&gt;Linguado&lt;/em&gt; apareceu a bordo trazendo pela mão um menino de cinco anos com os olhos muito azuis. Foi ao camarote que ocupara até o dia anterior e esvaziou o armário onde guardava as coisas. Ao passar pela escada de onde arremessara o copeiro proseou-se para o filho: “Foi daqui que joguei o canalha”.&lt;br /&gt;Despedindo-se do Comandante perguntou pelo homem que surrara. Soube que estaria no gesso durante um mês e que seria remanejado para trabalhar no estaleiro da Empresa, pois aquela não era a primeira briga que arrumara. O Capitão lamentou a breve estada do maquinista sob seu comando e os dois se despediram. Do trapiche lançou um olhar de tristeza para a melhor embarcação que jamais trabalhara. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;Linguado&lt;/em&gt; era um apelido que Duarte odiava porque tinha origem num detalhe físico. Quando ainda com dezessete anos envolvera-se num quebra-pau para defender o irmão contra onze e dali saiu com um aprofundamento de crânio na região frontal esquerda. Isso fez que o olho ficasse saltado da órbita. Não tratava ninguém por apelidos porque já ele sofria com isso. Era um homem reservado e metido com seu trabalho solitário nos porões. Era bem casado com uma mulher vinte anos mais jovem, o que também ensejava alguns gracejos dos desavisados. Além disso, era pai, razão pela qual enfrentava o mar pavoroso ainda que não soubesse nadar. Aspirava levar uma vida mais folgada em terra. Contudo, vivia embarcado, pois era onde ganhava mais. Ansiava novamente constituir família, já que era viúvo. Olhava para os dois filhos e lembrava-se dos outros dois da anterior união que haviam falecido com menos de cinco anos. Perdera uma família e queria valorizar a que possuía. Para tanto lutava com garra e não rejeitava empreitada por mais risco que houvesse de correr. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;Desempregado, ficou aborrecido por uns dias. Em contrário, estava mais perto da família que tanto amava. Tinha confiança de que nem precisaria sair de casa a pedir emprego. Logo viriam convidá-lo para se integrar a alguma equipagem. Foi o que aconteceu. Em cinco dias tinha duas propostas; ou um barco de pesca, ou um cargueiro com estrutura de madeira de nome &lt;em&gt;Lucimar&lt;/em&gt;, cujo armador era sediado em Santos. Conversando com a esposa decidiu-se pelo cargueiro. Viajou naquela mesma noite a bem de providenciar o embarque. O navio estava em reparos de estaleiro, mas isso não o impediu de começar a trabalhar. Havia muito a fazer nos dois motores e nos geradores de energia. Assim, manteve-se ocupado o tempo todo. Era dessa forma alienante que procurava sufocar uma raiva interna que não compreendia por que estava nele. Sua auto-estima era baixa demais para se relacionar sem brigar com as pessoas. Amava o conflito, o choque, a colisão, a desavença, as ameaças e não afiançava a paz, que acreditava ser a súplica de fracos, velhos e mulheres. Era um brigão nascido e incorrigível. Quanto mais tensão no ambiente, melhor. Não sabia viver no sossego. Desconfiava da paz, da harmonia entre as pessoas, da ausência de conflitos. Não acreditava que um ambiente tranqüilo ensejasse o respeito entre as pessoas. Para ele, paz era a existência de respeito e não a ausência de guerra. Postulava que o respeito era via de mão única, porquanto inútil esperá-lo espontaneamente de alguém. Ninguém respeitaria nada se não fosse compelido a fazê-lo ao talante da lei ou do trabuco. Essa quimera não existia nem nos mosteiros. Bradava que a natureza do ser humano era perversa e tinha de ser contida na marra. Ficava desconfiado quando estava tudo em paz, pois alguém estaria se aproveitando da situação. E com ironia lembrava que criança quieta ou está fazendo arte ou cocô. E lá ficava ele, perdido em pensamentos em cima dos motores. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;Em oito dias estava navegando para o sul em pequena cabotagem, mas nunca o &lt;em&gt;Lucimar&lt;/em&gt; chegaria lá. A barlavento de Florianópolis o navio enfrentou mau tempo e uma onda gigante o afundou com todos a bordo e mais uma carga de cento e vinte e duas toneladas de tubos de ferro fundido para rede de água. A notícia da tragédia noturna chegou aos ouvidos da esposa pela tarde. Dirigindo-se ao &lt;em&gt;Cabo Submarino&lt;/em&gt; pediu confirmação do ocorrido. O radiotelegrafista confirmou o naufrágio no começo da madrugada. Então ela perguntou se havia uma lista de desaparecidos. O homem informou que todos a bordo haviam morrido. Ela negava-se a receber pêsames de parentes e amigos. De tanto ela insistir, o radiotelegrafista solicitou a última relação dos tripulantes do barco quando deixaram o porto de Itajaí. Nela não constava o nome do marido. Ali fora desembarcado e já estava navegando no &lt;em&gt;Olímpico&lt;/em&gt; com destino ao porto de Santos, levando uma carga de tubos de ferro fundido para rede de água. Comentando com o Chefe de Máquinas, Duarte revelou não entender porque a mesma carga andava de um lado para outro. Só isso já era motivo de descontentamento interior. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:130%;"&gt;Fora desembarcado do &lt;em&gt;Lucimar&lt;/em&gt; para continuar vivo no &lt;em&gt;Olímpico&lt;/em&gt;. Tudo porque se atracara em luta corporal com o taifeiro do &lt;em&gt;Lucimar&lt;/em&gt; após ser admoestado na frente dos colegas. Com as mãos sujas de graxa se atrevera a tomar café numa branquíssima xícara de porcelana destinada aos oficiais e visitantes ao invés de fazê-lo num copo de vidro tosco, como era o costume a bordo do &lt;em&gt;Lucimar&lt;/em&gt;. Continuava sem entender os regulamentos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:Arial;font-size:85%;color:#000000;"&gt;Foto: Acervo do Intituto Carl Hoepcke.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7272903214520228030?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7272903214520228030/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7272903214520228030' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7272903214520228030'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7272903214520228030'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/conto-do-mar.html' title='Um conto do Mar'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SKm05666zzI/AAAAAAAAAFY/N44BPG63F5Q/s72-c/cia+navio+carl+hoepcke+anna+max+rebocador+s+francisco.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4278133897218482764</id><published>2008-08-08T17:25:00.000-07:00</published><updated>2008-08-27T16:09:48.074-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luzes'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='natal'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Mário Quintana'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='morte'/><title type='text'>Conto</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJzvP9kvE5I/AAAAAAAAAFQ/o3GQYl61BsE/s1600-h/luzes+de+natal.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5232319924603392914" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJzvP9kvE5I/AAAAAAAAAFQ/o3GQYl61BsE/s320/luzes+de+natal.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;POR FAVOR, NÃO DESLIGUEM AS LUZES DO NATAL&lt;br /&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;A julgar pelos enfeites dava mesmo para sentir a presença do espírito do natal todas as vezes que — de manhã — o homem passava defronte àquela casa. Imaginou que, se toda iluminada à noite, seria uma exposição de encantamento. Sentia uma trepidação ancestral na época que antecedia o natal. Talvez em razão de alguma lembrança do tempo em que ainda morava com a família. Talvez de uma reminiscência dos irmãos, quando se deliciava com a alegria da espera do natal. O dia do natal passava muito rápido e cheio de compromissos, de horários. O bom era esperar o dia de natal. Sonhar com o que ia acontecer. A chegada de um parente que estava longe. O cartão de boas festas do outro que não queria ser chamado de esquecido. De voltar a encontrar alguns que moravam fora e estavam pela cidade. De receber o décimo terceiro para desafogar um pouco a forca do banco. Das vitrines das lojas com motivos mais que próprios para mais vender. Do interior dos shoppings com aquela decoração profissional, muito embora vinda do frio metido ali de xereta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos vão passando e as pessoas vão querendo enfeitar suas casas com esses motivos natalinos. Mangueiras iluminadas desenhando pinheiros estranhos na frente dos condomínios. Árvores enrodilhadas pelas luzinhas tão simpáticas. Acende-apaga-acende-apaga, minha mãe adorava isso. Puxa o fio para cá, estica para lá a fieira iluminada, isola o desencapado para não dar choque. Os shoppings tão mais encantados por dentro. As casas tão mais bonitas por fora. O natal no sul vem meio de esguelha no simbolismo dos enfeites. Mas não há como negar-lhe a alegria proporcionada, as lembranças do que já passou e a esperança do que vem por aí. Quem decide enfeitar sua moradia com motivos festivos do natal do verão já vive o clima dentro do peito alegre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem insistia em passar defronte àquela casa para nela ver alguma mensagem ainda não decifrada. Deixou de passar um dia e sentiu um aperto no coração quando já estava deitado. Desde então dava sempre um jeitinho de passar lá bem devagarzinho. Mesmo durante o dia, com as luzes apagadas, a decoração lhe completava algo que residia inacabado no peito. Se por fora era tão reluzente, por dentro aquela morada devia ser um brinco cintilante. Na pilha de Mario Quintana até diria: "Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das luzes natalinas" &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=4278133897218482764#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;. De mais a mais, por uma intuição secreta, afirmava que a escuridão era o sol dos mortos. "As ditaduras e as assombrações agem no breu da noite", recitava com os dedos já cruzados como querendo afastar tudo que viesse das sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Hoje passo lá e peço para entrar, para ficar ali um pouco com a família. Afinal, o espírito do natal é isso. A fraternidade entre as pessoas mesmo que não se conheçam". Foi lá e viu muita gente diante da casa. Deviam ser parentes se reencontrando, amigos se dando abraços e mãos. Viu até lágrimas sinceras. Desceu do carro e entrou como se fosse esperado. Antes lançou um olhar para a decoração externa e o jardim todo iluminado com as crianças correndo suas brincadeiras. Quando entrou percebeu o interior da casa também todo iluminado, mas não havia as risadas dos que estavam fora. "Estão celebrando novena", pensou. E parecia mesmo, porque estavam todos de mãos postas e ajoelhados no meio da sala. Quatro tochas ardendo grave e um capelão puxador de reza em latim (essa é boa, em latim); se bem memorizado, tanto mais fajuto. Então viu quem reinava ali dentro: um silêncio fúnebre que acolhia respostas jaculatórias de encomendação da alma de alguém cujo corpo jazia no meio de luzes de natal.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=4278133897218482764#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt; “Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas”. (Mário Quintana)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4278133897218482764?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4278133897218482764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4278133897218482764' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4278133897218482764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4278133897218482764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/conto.html' title='Conto'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJzvP9kvE5I/AAAAAAAAAFQ/o3GQYl61BsE/s72-c/luzes+de+natal.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-3862393799877798160</id><published>2008-08-05T18:20:00.000-07:00</published><updated>2008-08-28T10:52:30.703-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='briga'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amizade'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='coragem'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='moda'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Manuel Bandeira'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='paz'/><title type='text'>Crônica da noite</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLXgFKCwUaI/AAAAAAAAAFw/qMN_Q12zHnU/s1600-h/homem+no+bar+2.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5239340120715317666" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLXgFKCwUaI/AAAAAAAAAFw/qMN_Q12zHnU/s320/homem+no+bar+2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJj808ExX5I/AAAAAAAAAFI/1UF7hIkPzWQ/s1600-h/galo-de-briga.gif"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;SOU, QUEM NÃO É?&lt;br /&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;Paulo Ovídio tinha visível talento com as mulheres, que não o deixavam em paz. Abandonava os cursos que iniciava por falta de freqüência às aulas. Inteligente e galanteador, isso o tornava querido de todos. Andava na moda, em se tratando de roupas e carros. Lembro das respeitáveis cuecas Ban-tan; duráveis, sempre brancas e confortáveis, mas chamadas de samba-canção pelo contraposto às do estilo &lt;em&gt;Zorba, o Grego&lt;/em&gt;. Foi só Anthony Quinn aparecer no filme em traje sumário para que o brasileiro descobrisse que usava um forro medieval a cobrir-lhe as partes. PO, ao que eu saiba, foi o primeiro da minha geração a se deixar ver usando aquela minúscula &lt;em&gt;calcinha&lt;/em&gt;, como chamávamos a moderna peça. De primeiro fizemos um estardalhaço com ele. Depois todos aderimos ao novo tipo de roupa de baixo. E também não era mais aquela calcinha vitoriana. Era esquisita, confortável e as mulheres aprovavam, mormente se nelas houvesse alguma mensagem ou estampa homenageando o amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amigo era um romântico cheio de dúvidas existenciais. Sonhava com um lugar de fantasia onde: "Lá sou amigo do rei... Lá tenho a mulher que eu quero... Na cama que escolherei". &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=3862393799877798160#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt; Quantas vezes agüentei o mau humor dele com ele mesmo? Dizia-se um homem de cabeça aberta, mas um dia, chorando lágrimas sinceras, confessou-me um segredo que não conseguia guardar. Estava tendo um caso com a esposa de um colega de serviço. A sentença era dele mesmo: “sou um patife”. Não adiantava civilizar o delito; sempre tinha uma pergunta para sublinhar sua canalhice: “aonde é que vamos parar? O mundo está perdido pela devassidão e pela busca do prazer individual”. Dizia mais: “eu sabia que fazer uma coisa dessa era errado, mas como fui fazê-lo? Sou mesmo um canalha”. E eu, aderindo, para aliviar-lhe a culpa: “Quem não é?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, fui saber, a safada abandonou o marido tão correto e manso; caiu na vida. Passou a freqüentar a boate &lt;em&gt;Chatanooga&lt;/em&gt;, garantindo clientes nunca vistos por ali. Depois foi para o nordeste, vindo a morrer nas mãos de um cafetão. Paulo nunca aceitou isso sem sofrimento. Visitava toda sexta-feira o inferninho onde ela havia brilhado na esperança de mitigar-lhe a ausência. Porque tinha propensão para o bem, dei um jeito de encaminhá-lo ao capelão do Hospital Militar que amenizou um pouco a dor dos pregos que se permitia cravar na carne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um homem difícil de perdoar-se. Quando aparecia na boate para ter uma noite de alegria o que menos conseguia era ficar alegre. Sentia dó das vendidas e lá vinha a depressão. Então mandava forrar a mesa com cerveja para se refazer do ódio que sentia de si próprio. Depois, ficar embriagado e virar romântico. Na seqüência, virar macho. Queria a melhor menina do salão e encarava quem se atravessasse no caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela sexta, após assistir a uma apresentação de sapateado de um corpo de baile espanhol no Teatro Guaíra, resolvi passar na boate, reduto certo do Paulo àquelas horas. Entrei e senti o ambiente pesado. Procurei PO e o encontrei embriagado no meio das garrafas. Ele estava com o rosto machucado. A camisa aberta no peito deixava à mostra o abdome malhado cingido por moderna cuequinha. Quando me viu, abriu os braços e começou a chorar. Abracei-o e chorei junto, pois era uma lástima vê-lo daquele jeito. De fato ele era um amigo bom. Mas é nas ruas que a verdade mora. E a verdade é feia. E com ela moram os ruins e os bons. Convidei-o para terminar a noitada por ali mesmo, mas não:&lt;br /&gt;— Se eu levantar desta cadeira vou apanhar muito mais.&lt;br /&gt;— De quem?&lt;br /&gt;— Do &lt;em&gt;bigode&lt;/em&gt; atrás de mim. Disse isso apontando com o dedo mínimo  o espelho a sua frente. Disfarcei e virei o acento da banqueta para ver melhor. Era um homem forte, um &lt;em&gt;Golias&lt;/em&gt; medonho, e não vi bebida sobre a mesa. Falei que precisava ir ao banheiro e procurei o segurança da casa, que me alertou:&lt;br /&gt;— O Paulo provocou esse gaúcho e já apanhou três vezes. Quando tudo parece que vai se acalmar ele fica na frente desse &lt;em&gt;armário&lt;/em&gt; e mostra o que está escrito naquela cueca infame piscando-se todo e mandando-lhe beijinhos com o biquinho dos lábios. O homem está armado e todos aqui estamos com medo. Mas o &lt;em&gt;gigante&lt;/em&gt; não está nem aí para nós. Quer bater mais. Agora que você chegou, vou lhe dar uma sugestão: cai fora. Deixa esse debochado aí que ele sabe se virar.&lt;br /&gt;— Quero um jeito de tirá-lo daqui em paz.&lt;br /&gt;— O Paulo não quer paz; quer briga e vai te envolver nisso. Portanto, cai fora já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funcionário tinha razão. Meu amigo era um galinho de briga sarcástico. Mesmo ensangüentado, miudinho, queria ir para cima do rival e zombar da cara dele. Mas era só um galinho, coitado. Como eu o abandonaria naquela situação? Nisso escutamos estardalhaços de quebra-pau. Corremos para o salão e vimos Paulo Ovídio no meio de uma luta injusta. Pensei em pedir trégua em nome da inferioridade física. Mas não deu tempo. PO foi esmurrado tão forte no rosto que rodopiou para se aninhar com grande estrondo por entre os pés das cadeiras vazias no canto do salão. E por lá ficou não se levantando mais. Então o homem chegou perto e viu que ele estava nocauteado. Pagou a conta e saiu. Para poder chegar até onde ele estava tive de arredar as cadeiras; vi que estava de fato estroçado. Chamei por ele diversas vezes e não respondeu. De repente abriu os olhos bem pouquinho com um sorriso sacana na cara inchada. Viu que estávamos somente nós dois e me disse:&lt;br /&gt;— Fica quieto e faz de conta que eu estou desmaiado.&lt;br /&gt;— Levanta que o &lt;em&gt;muro&lt;/em&gt; foi embora.&lt;br /&gt;— E a conta?&lt;br /&gt;— Você paga, claro.&lt;br /&gt;— Então me deixa ficar dormindo aqui.&lt;br /&gt;— Paulo Ovídio, você é um cachorro sem vergonha.&lt;br /&gt;— Sou, quem não é? Ih, Ih, Ih...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse isso já mostrando o recado na cuequinha: "Amo você".&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=3862393799877798160#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt; Trecho de "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-3862393799877798160?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/3862393799877798160/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=3862393799877798160' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/3862393799877798160'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/3862393799877798160'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/crnica-da-noite.html' title='Crônica da noite'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLXgFKCwUaI/AAAAAAAAAFw/qMN_Q12zHnU/s72-c/homem+no+bar+2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-71683960580432818</id><published>2008-08-04T12:53:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:49.121-08:00</updated><title type='text'>Deu na rádio.</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJdwUrPTwOI/AAAAAAAAAEw/Ri1Vae2UAxg/s1600-h/kombi+velha1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5230772992720748770" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJdwUrPTwOI/AAAAAAAAAEw/Ri1Vae2UAxg/s320/kombi+velha1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJdfo7OR1hI/AAAAAAAAAEo/xO4X121hUPk/s1600-h/kombi+velha1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;SÓ O QUE FALTAVA &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;Não era mulher de esfregar os cotovelos no parapeito da janela da frente para botar fé no que se passava na rua. Mas os palavrões dos dois homens já estavam passando da conta para que não lhe chamasse a atenção. No início não entendeu porque tanta irritação dos dois diante de uma velha Kombi enguiçada. Foi entender quando os dois abandonaram o veículo e se foram de ônibus para a Capital, distante uns dez quilômetros. Única testemunha do veículo abandonado, a mulher ficou debruçada na janela assuntando tudo o que dizia respeito àquela cena tão incomum, talvez para se revestir de primeira testemunha de um feito que sentia não ia acabar bem. O pobre carro era velho além da conta; fora deixado com as portas abertas; pertencia ao asilo e era usado para o transporte de algo que não era do bem. Teve ímpeto de ir lá ver de perto o insólito espólio da rua, mas achou melhor observar no que ia dar a curiosidade das crianças que estavam saindo da escola. Um por um chegando e xeretando o interior da Kombi. Era olhar e sair em corrida desembestada. Uns deixavam o cartapácio no chão; outros saiam gritando de toda goela em direção de casa; outros mais branqueavam e saiam de olhos arregalados; houve um menino que desenhou o sinal da cruz no peitinho e começou a vomitar. O que é; o que não é? Com certeza era a carga da Kombi. A mulher abandonou a janela e foi conferir a causa de tanto pavor. Não era para menos; as crianças jamais esqueceriam o cenário macabro de cinco cadáveres empilhados no chão do veículo abandonado. Nem as crianças e nem ela própria. Foi direto avisar o seu Argeu vereador que era perto dali; pois nem ele tão lanhado da vida encarou aquilo sem se assombrar. Fechou a cara e mandou um empregado chamar o cabo Pedroso. Mas quem apareceu do nada foi o Manolo da Rádio. Examinou a cena e decidiu faturar a notícia que lhe caíra no colo de graça; retirou do porta-malas da Mercury os fones de ouvido, a fonte portátil e o microfone com antena para dar o furo sem demora. A mulher da janela custou a crer que Manolo, que era amante da amante do Balduino Codorna, ia botar o acontecido no ar. Sintonizou o rádio e começou a escutar a voz do repórter dando a notícia do abandono não de uma Kombi velha enguiçada no lugar chamado Santa Filomena, mas de cinco corpos vindos do asilo; uma falta de respeito. Dizia que era "um absurdo aqueles cadáveres abandonados; não era para ter ali um espetáculo tão insólito... E tinha".&lt;br /&gt;A mulher na janela sacou que Manolo estava se divertindo com aquilo tudo, pois no que transmitia a notícia já declinava o nome da amante na camuflagem de um palavreado poético. Porque poeta ele era, isso todo mundo reconhecia. Nascido no sul com passagem pela antiga capital federal, nos anos dourados ele emprestou sua voz de locutor para declamar versos de poetas consagrados. Muitas vezes dava um jeito de encaixar uns versos de sua lavra. Mas isso era só quando era muito solicitado, pois não tinha muita fé no próprio taco. E recriminava a irresponsabilidade do asilo; que "aquilo era uma vergonha"; que "ia entrar com um pedido de destituição do governador", de quem era adversário político. Falava isso tudo com um sorriso nos lábios, mas sua voz na rádio não o demonstrava; a mulher tinha disso certeza porque ao mesmo tempo em que o via diante de sua janela o escutava no rádio da sala. Percebendo-lhe a intenção zombeteira, a mulher da janela procurou entre as pessoas que se acotovelavam ao redor da Kombi ninguém menos que a amada do radialista e o amante da amada; seu Balduino Codorna. Os três quase se trombavam naquela muvuca, mas faziam que não se conheciam. Como eram descarados; o que não faziam por amor...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-71683960580432818?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/71683960580432818/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=71683960580432818' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/71683960580432818'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/71683960580432818'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/deu-na-rdio.html' title='Deu na rádio.'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJdwUrPTwOI/AAAAAAAAAEw/Ri1Vae2UAxg/s72-c/kombi+velha1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5346894057531096756</id><published>2008-08-03T20:53:00.000-07:00</published><updated>2008-09-01T21:55:09.495-07:00</updated><title type='text'>Crônica da Rodovia da Morte</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLzG13MuDnI/AAAAAAAAAGo/mI7H3-WUJaQ/s1600-h/Cadeirante%5B1%5D.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5241282695005081202" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLzG13MuDnI/AAAAAAAAAGo/mI7H3-WUJaQ/s320/Cadeirante%5B1%5D.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;PRECISO FALAR ALGO FORTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;A campanha pela duplicação da BR-101 em Santa Catarina é louvável em todos os aspectos, menos no foco. A bandeira mais desfraldada pelos populares é "a morte na rodovia”. Todo santo dia morre alguém que ousa encarar a megera indomada. E é aqui que peço licença para falar algo mais forte. Esse argumento jamais vai tirar o sono dos burocratas.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;Conheço um padre que, ao encomendar um defunto, começa dizendo: “Irmãos, este corpo que aqui está, nós temos que sepultá-lo imediatamente”. Nada mais certo. Primeiro porque isso tira o foco do corpo físico do morto para valorizar-lhe a alma indestrutível (de acordo com a fé geral). E segundo, porque de verdade, não resta nada mais a fazer. Para as autoridades, quem morre precisa é de um bom enterro. Ao invés de mostrarmos as cruzes dos nossos sepultados, devemos enchê-los de fotos e filmes dos que sobreviveram aos acidentes. E essas pessoas são mais de noventa por cento. Uns estão até hoje em hospitais. Outros estão mutilados. Outros viraram alcoólatras, depressivos e desesperados. E quanto está custando isso tudo?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#ff6600;"&gt;Perceberam agora quão forte estou falando? É de assustar. Se para nós uma vida não tem preço, para os burocratas o que tem preço é o acidentado que teima em viver. Esse incomoda e se transforma num centro de custos que sangra o Tesouro. E se incomoda, vamos mudar o foco da nossa campanha já. E o morto? Só nos resta sepultá-lo no silêncio da nossa dor, para que não acorde quem descansa no Planalto.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5346894057531096756?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/5346894057531096756/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=5346894057531096756' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5346894057531096756'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5346894057531096756'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/08/crnica-da-rodovia-da-morte.html' title='Crônica da Rodovia da Morte'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLzG13MuDnI/AAAAAAAAAGo/mI7H3-WUJaQ/s72-c/Cadeirante%5B1%5D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6036175768610917732</id><published>2008-07-26T11:40:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:49.436-08:00</updated><title type='text'>O exercício do texto ficcional</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLzIKZq4dQI/AAAAAAAAAGw/b8s9UqjUVlU/s1600-h/Hitler.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5241284147367408898" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLzIKZq4dQI/AAAAAAAAAGw/b8s9UqjUVlU/s320/Hitler.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SItwyIrgWKI/AAAAAAAAACo/hvl2TkoEImE/s1600-h/Hitler.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#cc33cc;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;MEIA VOLTA... VOLVER!&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;Humberto Ilha&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Brasileiros lutando contra brasileiros? Sim, senhor... Após o partido nacionalista ganhar as eleições na Alemanha, e antevendo um período de progresso nunca visto, teuto-brasileiros começaram a fazer o caminho de volta em busca de melhores condições de vida. Alguns saíram do Brasil em razão de hostilidades sofridas de cunho ideológico. Caso do pai de Alberto Roedter, deportado com a família sob a acusação de espionagem. Todos lanhados pelo preconceito estúpido. Com o advento da declaração de guerra, ninguém mais pode sair da Alemanha. Alberto e os irmãos foram convocados. Havia um novo desenho que permeava a cidadania, os direitos e os deveres de tantos quanto fossem alemães. Era um furdunço: “Quem está fora não entra e quem está dentro não sai”. Era de chorar, cantando “Piston de Gafieira”, de Billy Blanco e interpretado por Moreira da Silva nos idos de 1965. Lembrou, não é? Pois é, quando a Alemanha rangeu os dentes ficou desse jeito. Todo mundo vestiu farda em respeito ao Führer. Primeiro, foi por respeito, por ufanismo. Depois, foi na marra mesmo. A brincadeira estava se prolongando além da conta quando caiu a ficha dos mais puros. A Alemanha estava em guerra e valia tudo. Matar não era nada, o pior era morrer. “Eu quero ir para o recreio, gente...” Tarde demais, “ou dá ou desce”. Alguns saídos do Paraná e Santa Catarina foram mandados para a frente da Itália. O inimigo era tido como tropa de sanguinários. Uns tropicais embrutecidos que sangravam a golpes de peixeira. “Alto lá, mein Führer, são brasileiros... Faz isso não... É tudo gente fina... Deixa que a gente resolve essa parada na conversa”. Não adiantou, foram lutar. Mas houve um médico italiano que não pensava assim e livrou a cara dos brasileiros que lutavam pelo lado de lá. Atestou diagnóstico estranho para um Grupo de Combate: Endometriose.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt; Foi o jeito para não deixá-los marcar gol contra. Direcionados para outra frente de batalha, acabaram ficando doentes de verdade. Depressão das brabas.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc33cc;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc33cc;"&gt; Texto ficcional baseado na coluna de Ligia Martoni, publicada na edição de 09/11/2007 do Diário do Paraná, on-line.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=182461342470910111#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc33cc;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc33cc;"&gt; Doença caracterizada pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#cc33cc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6036175768610917732?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6036175768610917732/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6036175768610917732' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6036175768610917732'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6036175768610917732'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/o-exerccio-do-texto-ficcional.html' title='O exercício do texto ficcional'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SLzIKZq4dQI/AAAAAAAAAGw/b8s9UqjUVlU/s72-c/Hitler.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1887673878032352281</id><published>2008-07-23T11:29:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:49.683-08:00</updated><title type='text'>Batman - The Dark Knight</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SId60arpb6I/AAAAAAAAACg/e6AEFBnpm0U/s1600-h/BATMAN.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5226280933520928674" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SId60arpb6I/AAAAAAAAACg/e6AEFBnpm0U/s400/BATMAN.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Assisti Batman, O Cavaleiro "Trevoso" - dublado - na sala 2 do Shopping Itaguaçu e fiquei frustrado, embora a dublagem não estivesse ruim. Christian Bale, quando recebe o "caboclo morcego" muda de voz. Não se sabe quem o dubla naquela voz de lata. Ficou meio inverossímil, mas não sei se foi esse o propósito no idioma original. Que desempenho do Coringa Heath Ledger, hein? Roubou a cena, mas não ficou entre nós para conferir que era mais do bem que o zangado herói, eis que, noticiam, baixou o porrete na mãe (61) e na irmã no dia da estréia em Londres (21/07). Uuuuhh, danado!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Há um tempo até precisava assistir filmes dublados; hoje não. Lembro do Salvito, de quem sinto saudades, que um dia tentou me ajudar. Mas foi pior, porque chorei de tanto rir. Vai, Salvito, de onde quer que você esteja Irmão.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SALVITO&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;O cartaz do cine Glória dizia alguma coisa interessante pelas fotografias do anúncio. Não entendia nada do que estava ali escrito. Ainda não sabia juntar as letras para formar palavras. Nem em português e muito menos em inglês. Mas Salvito já sabia ler um pouquinho e silabou: "a-pon-te-que-vai". Que era filme de guerra ambos sabíamos, mas quem guerreava?&lt;br /&gt;Muito depois soube tratar-se de "The Bridge on the River Kwai", com Alec Guinness e William Holden. Uma produção anglo-americana ganhadora de sete Oscars. O cenário era a Segunda Guerra Mundial onde um militar inglês e sua tropa fora aprisionada pelo inimigo. Forçados a construir uma ponte sobre o rio, o líder decide fazê-la bem feita, a fim de humilhar os japoneses e deixar clara a superioridade britânica. Uma batalha psicológica onde não se batiam japoneses e ingleses, mas os indivíduos. Um filme de guerra, mas que dela não fazia propaganda. Pelo contrário, quase pregava a paz.&lt;br /&gt;Pedi em casa para assistir o filme na sessão das cinco, minha mamãe disse que não era sessão livre. Portanto eu não podia entrar desacompanhado de um responsável. Salvito foi sozinho, o peste. Não sei de que maneira sempre conseguia entrar nos filmes impróprios para dez anos. Acho que era por causa do olhar quase frio de tanta tristeza que deixava transparecer mais idade. Ou talvez fosse porque já era bem crescido para a idade tão pouca. Como barrar a entrada de um menino que tinha um cacoete de gente grande? A cada minuto fazia um movimento com o nariz. Eu desejava ter um vício igual para ganhar mais aparência de adulto. Só não queria o apelido que o pai lhe dera: "relampo", que era como via a careta do filho; rápida como um relâmpago. Dia seguinte eu quis saber do filme. Disse-me que entendera o filme mais ou menos, mas que iria me contar só as partes principais.&lt;br /&gt;— Tiroteio e romance eu não vi. Se houve eu estava cochilando porque o filme era muito chato. Havia gritos e muitas ordens para os soldados brancos. Os japoneses tinham armas, os outros não. Uma guerrinha bem desigual. Numa hora o chefe dos brancos falou alguma coisa para o chefe dos japoneses: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Prá quê? Recebeu uma bofetada que lhe virou o pescoço para o lado sul. O brancão ainda replicou: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Outra bofetada e o pescoço virado para o norte. Então o japonês o olhou bem de pertinho e disse: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". O de bigodinho nada respondeu e chamou todos para dormir. Decerto ficou com receio de perder o pescoço. Ele e os companheiros eram muito relaxados. Andavam com as roupas sujas e até rasgadas. Eu gostava quando a tropa rasgada assobiava uma canção parecida com a do sargento Parmasso da clarineta. O certo é que passaram o filme todo construindo uma ponte de madeira debaixo de muito sacrifício. E sabe o que fizeram com ela? Destruíram ela inteirinha. No final, o galã que dinamitou tudo acabou morrendo. Antes de morrer ainda disse para o chefe dos brancos: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Decerto estava pedindo desculpa pela bobagem que fez. E o chefe dos brancos respondeu com lágrima nos olhos: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Aí foi triste, credo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1887673878032352281?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1887673878032352281/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1887673878032352281' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1887673878032352281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1887673878032352281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/batman-dark-knight.html' title='Batman - The Dark Knight'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SId60arpb6I/AAAAAAAAACg/e6AEFBnpm0U/s72-c/BATMAN.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4410573830241594964</id><published>2008-07-22T16:02:00.001-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:49.994-08:00</updated><title type='text'>Notícias de encantamentos</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIZqgRbS5rI/AAAAAAAAAB4/N3YMgRchFoE/s1600-h/13cascaes1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5225981520276285106" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIZqgRbS5rI/AAAAAAAAAB4/N3YMgRchFoE/s320/13cascaes1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#6600cc;"&gt;&lt;strong&gt;Antologia "13 Cascaes"&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#6600cc;"&gt;O editor, ilustrador e os 13 cronistas do livro "13 CASCAES": Dennis Radünz (editor), Silveira de Souza, Salim Miguel, Eglê Malheiros, Jair Hamms, Fábio Brüggemann, Júlio Queiroz, Adolfo Boos Jr., Amílcar Neves, Flávio José Cardozo, Raul Caldas, Tércio da Gama (ilustrador), Maria de Lourdes Krieger, Olsen Jr. e Péricles Prade, por ocasião do lançamento do livro no mês de junho na Casa da Memória em Florianópolis. Publicação foi uma homenagem aos 100 anos de nascimento do bruxo da Ilha Franklin Cascaes. Peninha (Gelci José Coelho) não está na foto, mas foi dele o "Depoimento - alguma memória" enriquecendo a obra.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4410573830241594964?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4410573830241594964/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4410573830241594964' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4410573830241594964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4410573830241594964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/notcia.html' title='Notícias de encantamentos'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIZqgRbS5rI/AAAAAAAAAB4/N3YMgRchFoE/s72-c/13cascaes1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-5701696864045849687</id><published>2008-07-22T15:10:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:50.208-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Dennis Radünz'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='xokleng'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='índio'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Lindolf Bell'/><title type='text'>A poesia de Lindolf Bell e o zelo de Dennis Radünz</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIut8Kw40OI/AAAAAAAAADI/h--XNbLeToI/s1600-h/lindolfo_bell_1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5227463041686753506" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIut8Kw40OI/AAAAAAAAADI/h--XNbLeToI/s320/lindolfo_bell_1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc33cc;"&gt;O desvelo que o poeta blumenauense Dennis Radünz tem pela obra de Lindolf Bell (foto ao lado) me impressiona e faz que eu seja ainda mais seu admirador. Dele e de Lygia Helena Roussenq Neves, professora e crítica de arte. "Dennis Radünz, hoje, é um dos cinco melhores poetas brasileiros nascidos de 1960 pra cá" (Paulo de Toledo, poeta e ensaísta). E também é o atual coordenador de Patrimônio da Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes. Fui lá no encarte especial da TeleListas 2007/2008 e vesti a carapuça da denúncia veemente de Lindolf num dos seus poemas destacados pelo Dennis.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;POEMA PARA O ÍNDIO XOKLENG&lt;br /&gt;(Lindolf Bell)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um índio xokleng&lt;br /&gt;Subjaz&lt;br /&gt;No teu crime branco&lt;br /&gt;Limpo depois de lavar as mãos &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;Se a terra&lt;br /&gt;De um índio xokleng&lt;br /&gt;Alimenta teu gado&lt;br /&gt;Que alimenta teu grito&lt;br /&gt;De obediência ou morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um índio xokleng&lt;br /&gt;Dorme sob a terra&lt;br /&gt;Que arrancaste debaixo de seus pés,&lt;br /&gt;Sob a mira de tua espingarda&lt;br /&gt;Dentro de teus belos olhos azuis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se um índio xokleng&lt;br /&gt;Emudeceu entre castanhas, bagas e conchas&lt;br /&gt;De seus colares de festa&lt;br /&gt;Graças a tua força, armadilha, raça:&lt;br /&gt;Cala tua boca de vaidades&lt;br /&gt;E lembra-te de tua raiva, ambição, crueldade&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#cc6600;"&gt;Veste a carapuça&lt;br /&gt;E ensina teu filho&lt;br /&gt;Mais que a verdade camuflada&lt;br /&gt;Nos livros de história.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-5701696864045849687?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/5701696864045849687/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=5701696864045849687' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5701696864045849687'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/5701696864045849687'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/poesia-de-lindolf-bell-e-o-zelo-de.html' title='A poesia de Lindolf Bell e o zelo de Dennis Radünz'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIut8Kw40OI/AAAAAAAAADI/h--XNbLeToI/s72-c/lindolfo_bell_1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6396888389528244768</id><published>2008-07-22T15:07:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:50.412-08:00</updated><title type='text'>Crônica de guarita</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIvhhctMonI/AAAAAAAAAEA/7ddPjIXbUOE/s1600-h/f5_copia.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5227519757251289714" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIvhhctMonI/AAAAAAAAAEA/7ddPjIXbUOE/s320/f5_copia.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;&lt;strong&gt;QUEBRADA&lt;br /&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;Dia desses conversava com meu irmão. Veio de Porto Alegre me visitar e conferir se eu ainda estava vivo. Ele conhecia deus e todo mundo. De repente passou por nós um major do exército, antigo cliente dele no banco Nacional e que na intimidade atendia pelo apelido de Pinduca, por ser careca. Vinha andando com o barrete na mão e absorto em pensamentos graves. Era um conhecido ornitólogo bancário criador de aves de bico forte, grosso e recurvo, mas a ele meu irmão dispensava tratamento VIP. Se não por ser uma autoridade, então por ser uma figura de notável simpatia. Lauro não se conteve e começou a esboçar sorriso velhaco antevendo o susto que ia dar no amigo. Aprontar uma quebrada, coisa que fazia com raro talento. Tratava-se de chamar alguém pelo nome e dele se esconder, causando-lhe embaraço, dúvida e até susto. Principalmente se não o visse há algum tempo. Mesmo que não soubesse o nome, ainda assim praticava a quebrada como só o Vampiro de Curitiba &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6396888389528244768#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; soubera eternizar em prosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu irmão perdeu o interesse no que eu falava e fixou o olho na cara do amigo do peito. Sim, era ele e não haveria de ser outro. Cabelos grisalhos havia-lhe sobrevindo do estresse na tesouraria da caserna. Ingressara na Academia para ser um combatente e virara um gênio das finanças nos quartéis por onde era mandado servir, coisa que abominava. E disso até o general sabia. Mas não atendia seus apelos, bem o sei, sinceros, de tirá-lo daquela situação. Ameaçava pedir demissão da tropa. Mas o que lhe retornava eram sugestões de se tratar, de descansar, de não se matar no serviço, de fazer exercícios físicos, de manter a calma, pois era tido como indispensável no trato com as finanças. Tanto tempo aprendendo cálculo diferencial, derivadas e equações complexas, para acabar como um contabilista de luxo.  Correndo na calha, seguia em frente com a vida. Fazer o quê? Onde a felicidade? Na família que tanto prezava e nos amigos. Amizade como a que conferia a meu irmão. Aliás, disso sempre tive orgulho do Lauro. Sabia fazer amigos, embora não tanto guardá-los. Explicava-se, por ser um existencialista nascido. Procurava se colocar no presente sartriano para estar feliz.&lt;br /&gt;Enquanto o militar passava bem pertinho sem nos perceber, e Lauro me pedia silêncio com o dedo indicador sobre o biquinho que fazia com os lábios, eu pensei: "que vai ser agora?" O que vi foi coisa de remordimento até hoje. Meu irmão gritou com aquela voz grave, que dizia ser parecida com a de Nelson Gonçalves, muito embora eu o achasse melhor na pele de Vicente Celestino:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;— PINDUCA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra quê foi fazer isso? Assustou o major; assustou e o coitado tombou nocaute ali mesmo com as mãos nas costas. Ainda o vi na maca sendo colocado na ambulância, os olhos esgazeados, enxergando, parece, o que ninguém conseguia, e balbuciando para o soldado bombeiro algo como: “o senhor é o general Sampaio?” &lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6396888389528244768#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;. Enfarto, susto? Menos... Virou-se tão rapidamente que rendeu as costas. “É nervo torto”, disse-lhe a mãe; e mãe é mãe. Depois soube que era hérnia de disco. Uma semana de repouso da tesouraria, do banco e dos amigos que inventaram essa tal de quebrada.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#009900;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6396888389528244768#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; Dalton Jérson Trevisan.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6396888389528244768#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;[2]&lt;/a&gt; O Brigadeiro Antônio de Sampaio foi consagrado, em Dec. 51429 de 13 de março 1962, patrono da Arma de Infantaria, em cujo seio se forjou e se destacou sobremodo como bravo e modelar líder de combate, instrutor e disciplinador da Infantaria, a frente da qual, representada pela sua 3ª Divisão de Infantaria - a Divisão Encouraçada, teve seu glorioso encontro com a glória militar em 24 de maio 1866, na Batalha de Tuiutí, a maior batalha campal travada na América do Sul. (Cláudio Moreira Bento, in www.regiaodasagulhasnegras.com.br).&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6396888389528244768?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6396888389528244768/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6396888389528244768' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6396888389528244768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6396888389528244768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/crnica.html' title='Crônica de guarita'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIvhhctMonI/AAAAAAAAAEA/7ddPjIXbUOE/s72-c/f5_copia.gif' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-1041779039911017278</id><published>2008-07-21T21:01:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:50.583-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='preconceito'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='casamento'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='bodas de ouro'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><title type='text'>DE CARA COM O SONHO E DE FRENTE PARA A VIDA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5227406106340320690" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIt6KGEfZbI/AAAAAAAAAC4/FFxah7lpG60/s320/casamento.gif" border="0" /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;Humberto Ilha &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;Ao tempo em que sonhava ser amado por uma mulher já feita, eu tinha quatorze anos. Um dia contei para uma amiga mais velha que estava amando alguém que sequer conhecia. Que amava alguém como num sonho. Tempos depois Antônia veio com a notícia de que sabia quem era a mulher que ocupava minha cabeça. Era Laura, que também sonhava com um menino imaginário bem do meu jeito. Uma explosão de alegria aconteceu no meu coração. A amiga estabeleceu que Laura e eu primeiramente nos corresponderíamos através de cartas. Houve um período de um ano com cartas indo e vindo toda semana. Ao cabo desse tempo havia verdadeiro amor entre nós. Antônia confirmara que eu era loiro, magro, olhos azuis, sorriso fácil, bonito e ainda por cima ajudava nas tarefas de casa. Laura era morena, olhos negros, mãos cuidadas, doze anos, sabia governar a casa e tinha o enxoval de casamento pronto. Eu tão menino, ela tão mulher. Essa magia era o encanto da minha paixão pela moça. Os pais da menina ansiavam conhecer-me. Os meus pais achavam aquilo uma brincadeira. Mamãe mandava-me pegar os livros e estudar. Meu pai olhava-me atravessado e não dizia nada. É que na cidade eu era uma criança. Na roça Laura já nascera pronta para a vida. Conhecia os segredos das rendas, bordava o crivo de bastidor, ensinava as primeiras letras e dava catequese às crianças, escrevia cartas com caneta tinteiro para os adultos e atendia o balcão do armazém do pai. Tudo isso era garantia de algum dinheiro para comprar suas coisas.&lt;br /&gt;Um dia, já passado ano e meio, a amiga apareceu-me com uma foto de Laura. Era tudo o que eu queria. Mas a mulher somente entregaria a fotografia se eu também entregasse uma para a moça. “É prá já”, pensei. Arranquei aquela da identidade escolar e a entreguei para Antônia que me passou a de Laura. Segurando a foto com as duas mãos não acreditei no que vira. Era o retrato sorridente de uma menina negra. Senti vontade de chorar, de berrar, de me esganar todo. Não me considerava preconceituoso, mas agora estava diante de mim, um indigente racista. Sobrou-me covardia para não prosseguir amando Laura. Amontoei-me como um couro num canto do quarto e só queria sentir dó de mim mesmo. Mamãe achou melhor assim e papai ficou muito triste com o meu drama. Ambos disseram-me que a cor de uma pessoa não deveria ser impedimento para amá-la. Mas achavam-me jovem demais para me envolver com gente da roça.&lt;br /&gt;Três meses depois Antônia procurou-me e propôs um encontro entre Laura e eu. Sábia mulher, porque se fora naquela semana da revelação a resposta teria sido um rancoroso “não”. Eu estava amedrontado com aquele episódio e pedi um tempo. Conversei abertamente com meus pais. Ambos acharam que eu deveria conhecer a menina e encarar a situação.&lt;br /&gt;O encontro aconteceu em cinco semanas. Fui direto para a casa dos pais de Antônia, tomei um banho demorado e vesti minha mais nova roupa. Dali fomos para a casa da moça. À medida que íamos passando na estrada os moradores se aproximavam para conhecer-me e acompanhar-me. Então percebi que eu era quase uma lenda naquele lugar. Diziam de mim coisas interessantes. Que não era bom ninguém se meter comigo porque eu sabia muitos truques de boxe e luta livre. “Quanta vergonha”, pensava eu. Mandado entrar, fiquei aguardando sozinho na sala ampla e vazia enquanto minha amiga fora lá para dentro cochichar com as pessoas. Em seguida entraram os pais de Laura e trocamos cumprimentos. Olhei para fora e vi a multidão de vizinhos testemunhando o “encontro do ano”.&lt;br /&gt;Na platéia ninguém falava. O pai da moça vociferava alto e grave, como a falar também para os de fora. A mãe ficava o tempo todo de cabeça baixa. Percebi que estava sendo tratado como um homem e não como um garoto. Gostei disso e ajeitei a gola da camisa, como era meu costume. Seu Aníbal chamou Laura e eis que aparece ela num vestido azul rendado. Estava deslumbrante num sorriso que transbordava felicidade. Fiquei surpreso com a beleza de Laura e comecei a fazer o caminho de volta daquele romance que não merecia ser interrompido. Nos demos as mãos e depois nos atiramos nos braços um do outro. Então um longo beijo de amor, preparado nas cartas, aconteceu. Todos sabiam o que era um beijo apaixonado, mas ninguém tinha ainda presenciado um ao vivo. Laura me olhou nos olhos e lágrimas começaram a rolar em nossos rostos. Antônia desabou ali mesmo e não parava mais de chorar. Retirei do meu dedo um anel de ouro com minhas iniciais e coloquei no dedo médio da mão direita de Laura proclamando que estávamos noivos. Houve uma algazarra geral. A filha do Aníbal iria casar com o moço da capital. E casamos, parece ontem; amanhã Antônia será &lt;/span&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIt4HS_Pl2I/AAAAAAAAACw/jXUR2D-cCD4/s1600-h/LAURA.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#666666;"&gt;nossa madrinha em bodas de ouro.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-1041779039911017278?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/1041779039911017278/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=1041779039911017278' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1041779039911017278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/1041779039911017278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/conto_21.html' title='DE CARA COM O SONHO E DE FRENTE PARA A VIDA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIt6KGEfZbI/AAAAAAAAAC4/FFxah7lpG60/s72-c/casamento.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4260776687847122944</id><published>2008-07-18T21:02:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:50.802-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='laser'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='olimpíadas 2008'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='medalhas'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='regata'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='bruno fontes'/><title type='text'>Olimpíadas de Pequim 2008</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIai2QsVpmI/AAAAAAAAACA/k8c8nB_2lSA/s1600-h/Bruno+Fontes.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5226043470687610466" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIai2QsVpmI/AAAAAAAAACA/k8c8nB_2lSA/s320/Bruno+Fontes.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Este aí é o catarinense BRUNO FONTES, substituto de Robert Scheidt na classe Laser, que está em Pequim lutando por medalha. Treinou muito na raia de Jurerê (olha só essa cambada, gente) e vai competir, parece, numa raia tão suja que vai ter que levar uma varinha para limpar leme e quilha travados. Preocupa porque, no futebol, campo ruim favorece a quem não tem toque de bola. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Debulha, garoto. Bons ventos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4260776687847122944?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4260776687847122944/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4260776687847122944' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4260776687847122944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4260776687847122944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/olimpadas-de-pequim-2008.html' title='Olimpíadas de Pequim 2008'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIai2QsVpmI/AAAAAAAAACA/k8c8nB_2lSA/s72-c/Bruno+Fontes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-7169029980022076848</id><published>2008-07-16T20:02:00.000-07:00</published><updated>2008-07-22T16:10:53.779-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='amor'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='soneto'/><title type='text'>Poesia</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;SONETO DO AMOR IMPRÓPRIO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Humberto Ilha)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando um dia me fiz tão sem juízo&lt;br /&gt;Ao querer-te de modo livre e aberto&lt;br /&gt;Descobri o que estava descoberto.&lt;br /&gt;Decidi que perdera o paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confinados ficamos no amor,&lt;br /&gt;Nossa vida virou um mar de prazer.&lt;br /&gt;Se de nós só se ouvia algum rumor,&lt;br /&gt;Nós, por nós, um eterno enlouquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem sempre se perde com a verdade.&lt;br /&gt;Ela mesma se expõe e em si revela&lt;br /&gt;A grandeza do amor. Quando há humildade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fica o par tão unido e então desvela&lt;br /&gt;Um amor tão maior que acotovela&lt;br /&gt;A quem queira se haver na improbidade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-7169029980022076848?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/7169029980022076848/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=7169029980022076848' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7169029980022076848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/7169029980022076848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/poesia.html' title='Poesia'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-4246534938516021348</id><published>2008-07-14T10:20:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:50.934-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='luto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mãe'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='soneto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='morte'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='filhos'/><title type='text'>Poesia de chorar</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIuAysJ4pAI/AAAAAAAAADA/ffF34IYikvs/s1600-h/C%C3%82MARA+ARDENTE.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5227413400828027906" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 365px; CURSOR: hand; HEIGHT: 289px" height="231" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIuAysJ4pAI/AAAAAAAAADA/ffF34IYikvs/s320/C%C3%82MARA+ARDENTE.jpg" width="297" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;CÂMARA ARDENTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Humberto Ilha)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Véu da morte a cobrir inerte a face&lt;br /&gt;Da mulher que deixou-se mãe ficar&lt;br /&gt;De três grandes que vêem no desenlace&lt;br /&gt;Tão serena mulher se desfolhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde a hora que deu final alento,&lt;br /&gt;No princípio do dia em plena aurora,&lt;br /&gt;Foi seu corpo escondendo o abatimento&lt;br /&gt;E mostrando a beleza de hora em hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mãos que amparam e juras nos abraços,&lt;br /&gt;Mas no fim os três grandes estarão sós,&lt;br /&gt;Condolências formais são como passos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que somente perguntam pela dor&lt;br /&gt;Que ainda lá está escura e atroz&lt;br /&gt;Esperando tornar liberto o amor. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-4246534938516021348?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/4246534938516021348/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=4246534938516021348' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4246534938516021348'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/4246534938516021348'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/poesia-soneto.html' title='Poesia de chorar'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIuAysJ4pAI/AAAAAAAAADA/ffF34IYikvs/s72-c/C%C3%82MARA+ARDENTE.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-6421353137434405274</id><published>2008-07-11T13:04:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:51.020-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='II GG'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Marinha do Brasil'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='II Guerra Mundial'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Gruggenberger'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='U-513'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='submarino'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><title type='text'>O SUBMARINO</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SL2BFHqxQAI/AAAAAAAAAG4/X_Jz9v-cT7I/s1600-h/guberge1.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5241487466286891010" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SL2BFHqxQAI/AAAAAAAAAG4/X_Jz9v-cT7I/s320/guberge1.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#3333ff;"&gt; Capitão Gruggenberger (27), comandante do &lt;em&gt;U-513&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJZvvntt7XI/AAAAAAAAAEQ/9aJ3QK-S6HU/s1600-h/u377.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;Humberto Ilha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O maquinista do barco fora chamado às pressas pelo mestre do pesqueiro. Às oito horas e véspera do Natal de 1943 o sol surgia por detrás de uma embarcação estranha. Havia movimentos precisos de homens no convés do submarino identificado como U-513. O Suez já estava na alça de mira do canhão de proa. Da torre de comando um megafone ordenava "Achtung! Stoppen Sie den Maschinen" repetidas vezes. O humilde barco ficou passivo e pronto para ser invadido. "Alemães" — rosnou o mestre. Em seguida dirigiu-se ao maquinista:&lt;br /&gt;— Não sei o que eles querem. Mas não deve ser nada demais. Atenda-os que eu vou à casinha. Não se assuste que vieram em paz.&lt;br /&gt;— Em paz? O Mestre do barco é você, Nino. Como vai à privada numa hora dessas? Repara só no tamanho daquele canhão.&lt;br /&gt;— Assuma até que eu volte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz metálica do megafone era curta e todos entendiam. Era de tremer de medo, sim. Os pescadores estavam diante de uma embarcação de guerra alemã, a julgar pela identificação do galhardete içado à torre. Duarte acenou para os de bordo querendo dizer que obedeciam sem resistência. O cozinheiro agarrou-se ao braço do maquinista e balbuciou algo como “chegou a nossa hora”. Num instante os alemães já estavam a bordo do Suez. Duarte calçou o par de luvas de couro e recebeu do contramestre do submarino a ordem de colocar todos em forma no convés.&lt;br /&gt;— Sete são os tripulantes?&lt;br /&gt;— Nós estamos em oito, o mestre está na privada.&lt;br /&gt;— Traga ele para cá e mande seus homens abrirem os porões. Queremos o pescado e o combustível.&lt;br /&gt;— Dies ist eine verschleierte U-Boot?&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6421353137434405274#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt; — experimentou Duarte num alemão colonial. O oficial fez cara de que entendeu.&lt;br /&gt;— Ja, Ja. U-Boot 513.&lt;br /&gt;E então o golpe fatal no alemão:&lt;br /&gt;— Sie sind eine Menge der Feiglinge&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6421353137434405274#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;[2]&lt;/a&gt;, Ladrrons und Filhedeputi.&lt;br /&gt;Respondeu que sim, estampando um sorriso amistoso no rosto ainda jovem. Em seguida ordenou que Duarte falasse português. Os porões e os tanques foram abertos e inspecionados. Depois mandou que fizessem a transferência do pescado em balaios enquanto a bomba de sucção transferia o combustível. Terminada a operação o oficial alertou ao maquinista que nas próximas duas horas sua embarcação estava proibida de se comunicar por qualquer meio. Avisou ainda que o pesqueiro tinha suficiente combustível até o porto mais próximo: Cananéia.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante o mestre do barco saiu da patente arrumando as alças do suspensório. Sequer olhou para o mandão. Piscou para o maquinista e maneou a cabeça em desaprovação ao deparar-se com uma poça de urina embaixo dos pés do taifeiro. Sorriu levemente e já ensaiava dizer algo, mas foi interrompido pelo inimigo.&lt;br /&gt;— Quem é este homem?&lt;br /&gt;— É o mestre, senhor — respondeu Duarte.&lt;br /&gt;— Você é o mestre?&lt;br /&gt;— Sim, por quê?&lt;br /&gt;— Ponha-se também você na fila com os outros.&lt;br /&gt;A ordem veio acompanhada de um tiro de pistola para o alto. Mas foi tão de perto que Nino achou ter sido atingido na cabeça. Mais uma poça de urina no convés do pesqueiro. O coitado desmontou-se ali, mas conseguiu balbuciar:&lt;br /&gt;— Posso falar?&lt;br /&gt;— Fale com o seu maquinista.&lt;br /&gt;— Duarte, posso voltar para a privada, amigo?&lt;br /&gt;— Ele quer voltar para a privada, senhor.&lt;br /&gt;— Não, ele tem que permanecer no convés para que eu possa vigiá-lo.&lt;br /&gt;— Nino, você tem que ficar aí mesmo. Não complica a situação.&lt;br /&gt;— Vou-me sujar todo. Vai ser um vexame diante dos meus homens.&lt;br /&gt;— Sim, mas você sobreviverá.&lt;br /&gt;— O que vocês estão conversando? — perguntou o oficial a Duarte.&lt;br /&gt;— Que suas ordens serão obedecidas.&lt;br /&gt;— Nós vamos partir. O recado a Vargas é: "volte à neutralidade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante duas horas ninguém falou com ninguém. Nino viajou até Cananéia dentro da privada. Mandou que Duarte fizesse o relatório ao sindicato dos marítimos enquanto ia encomendar uma missa em ação de graças. Dia seguinte ambos foram procurados pelo Capitão de Fragata H. Reis que pediu o parecer conclusivo do Mestre.&lt;br /&gt;— Era um submarino alemão, Comandante.&lt;br /&gt;— E você, Duarte, o que diz?&lt;br /&gt;— Era um submarino americano.&lt;br /&gt;— E com que propósito?&lt;br /&gt;— O de forçar Getúlio a intensificar o esforço de guerra contra a Alemanha.&lt;br /&gt;— Duarte, vem aqui fora.&lt;br /&gt;Saíram e novamente o oficial se dirigiu ao maquinista:&lt;br /&gt;— O Nino não está pensando a mesma coisa que você.&lt;br /&gt;— É que ele tem um terreno baldio no lugar do cérebro.&lt;br /&gt;— E de onde você tirou uma conclusão dessas? Não me venha com teoria da conspiração.&lt;br /&gt;— O U-513 está no fundo do mar há cinco meses e aqui mesmo nesta área. Friedrich Guggenberger era o seu comandante e não aquele americano safado de ontem. A foto do alemão saiu em todos os jornais. Teve muita sorte, pois foi resgatado com mais seis e é prisioneiro de guerra em Salvador. Admira o senhor não saber disso. Olhe esta cápsula deflagrada pelo oficial no convés do Suez. E onde já se viu um alemão que não entende o próprio idioma?&lt;br /&gt;Duarte então contou o diálogo que tivera com o outro. Voltaram para a sala do sindicato e o capitão, que estava aturdido, falou:&lt;br /&gt;— O que vou dizer a vocês dois agora não é conselho, é uma ordem: daqui para frente bico muito calado, entenderam? E você Duarte, vai comigo para Santos agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca mais se ouviu falar do maquinista.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6421353137434405274#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; "Este é um submarino disfarçado?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=182461342470910111&amp;amp;postID=6421353137434405274#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;[2]&lt;/a&gt; “ Vocês são um bando de covardes”.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-6421353137434405274?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/6421353137434405274/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=6421353137434405274' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6421353137434405274'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/6421353137434405274'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/conto_8793.html' title='O SUBMARINO'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SL2BFHqxQAI/AAAAAAAAAG4/X_Jz9v-cT7I/s72-c/guberge1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-904166764738999765</id><published>2008-07-11T09:46:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:51.226-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='florianópolis'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='marinha'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='mar'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='beira-mar'/><title type='text'>HOMEM AO MAR</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJczYZ7ccLI/AAAAAAAAAEg/NIBq2wIqC4Q/s1600-h/Lancha+Homem+ao+Mar.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5230705986584211634" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJczYZ7ccLI/AAAAAAAAAEg/NIBq2wIqC4Q/s320/Lancha+Homem+ao+Mar.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#999999;"&gt;Humberto Ilha &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#999999;"&gt;A aquisição de uma lancha, qualquer lancha, era meu sonho de infância jamais adormecido. Havia uns três meses que eu a comprara, mas não conseguia navegar porque sempre faltava alguma coisa para arrumar. O antigo dono deixou tudo por fazer até que ficou inviável lançá-la na água. Então preferiu vendê-la para estancar a despesa e também para não mais discutir com a esposa, que dizia ser a embarcação uma outra família que o marido tinha. De fato era mais que isso. Era um saco sem fundo de tanto dinheiro que consumia em detrimento da casa. Todo mês tinha uma coisa quebrada ou um reparo a fazer nela. Agora na minha mão, uma hora era o equipamento de salvatagem que não era reconhecido pela Marinha. Outra eram os documentos que precisavam de atualização. Outra ainda era a necessidade de revisar o motor de duzentos e vinte cavalos, sem contar com o pagamento da apólice de seguro vencido há três anos. O pessoal dizia que aquilo era excesso de preciosismo. Mas sempre gostei de andar dentro dos ditames da lei. Comprei até um aparelho de posicionamento global por satélite. Além disso, adquiri um rádio para operar com freqüência de VHF, pistolas de sinalização, coletes salva-vidas e rádio com CD player. Pois foi assim que minha lancha e eu passamos o verão: no hangar do clube trabalhando. No início do outono meu irmão decretou uma data fatal da lancha ir para água de qualquer jeito. Convidamos mais um amigo, um advogado que chamávamos de doutor, e demos o dia como certo e nas condições em que o tempo se encontrasse. Fazer o quê, se eu não estava sendo capaz de decidir a data esperada, então alguém haveria de fazer isso. Hoje eu vejo que, se dependesse de mim, ainda estaria consertando aqui e ali.&lt;br /&gt;Finalmente chegou o grande dia. Era um sábado de cartão postal. Chegamos os três no Iate Clube para a nossa planejada aventura pelas águas mansas das duas baías que encantavam a cidade de Florianópolis. Não conseguia esconder o nervosismo e a alegria diante do passeio náutico. Levamos de tudo, porque a jornada prometia. Suco de laranja, maçãs, peras, biscoitos, sanduíches, bananas, refrigerantes e uma enorme caixa de isopor cheia de latinhas de cerveja.&lt;br /&gt;Os marinheiros do clube colocaram a embarcação na água e os três pulamos a bordo. Num momento de intensa felicidade abrimos três latinhas para o brinde, como era o nosso costume. Depois disso arvorei a bandeira do Brasil no mastro de popa para sairmos na direção norte, direto para desfilar ao longo da Avenida Beira Mar. Eram quatro quilômetros de glória diante de parentes e amigos que moravam ali. A exibição também queria alcançar os que nos conheciam e que estavam fazendo a caminhada diária ao longo da charmosa via.&lt;br /&gt;Olhávamos um para o outro e sorríamos de satisfação. Nessa época eu usava um bigode tradicionalista, bem ao gosto dos que viviam no alto da serra de onde nós três tínhamos vindo. Os três usávamos óculos de sol. O meu era um modelo Fitipaldi, que me deixava com cara de mafioso italiano. Eu nem ligava, depois de três latinhas eu era mais eu e me garantia. Meu boné de capitão ajudava a acentuar a autoridade que me vinha por estar pilotando uma embarcação reconhecida pela Marinha. Enquanto eu pilotava a lancha, o doutor e o Chico tomavam sol e cerveja na poltrona de vante. Na preguiça apreciavam cada movimento em terra. Se meu pai visse o quadro daria três seqüências de assovio e abanava os braços em saudação. Ah, meu velho pai e amigo. Deputado por duas legislaturas testemunhou dois automóveis serem destruídos por mim em momento de grande inspiração na minha adolescência. E ele que resmungasse alguma coisa. Eu o entregaria para a mamãe e o casamento dos dois já era.&lt;br /&gt;Eu era um capitão amador habilitado pela Capitania dos Portos. A rigor pouco sabia na prática. Havia feito uma prova teórica e lograra êxito teórico. Era assim no Brasil, fazia-se uma prova escrita e recebia-se uma licença também escrita, para o bem e para o mal. Na época em que fizera o mestrado em Análises Clínicas na Inglaterra me contaram não existir lá a tal licença. Qualquer um podia navegar a embarcação que desejasse. Mas ai do infeliz que cometesse um só ato de imperícia náutica. Um processo de responsabilidade civil era imediatamente aberto pelo Tribunal Marítimo de Sua Majestade. A habilitação lá era prática e não teórica. No Brasil minha licença era um prato cheio para qualquer advogado transformar em primeira defesa, se envolvido estivesse eu num sinistro marítimo. Mas isso não me tirava o sono, eu queria era navegar.&lt;br /&gt;Sentia meus cabelos ao vento como jamais sentira desde adolescente nas corridas de cancha reta no lombo do alazão de propriedade do papai. Ficamos dando voltas na Beira Mar durante uma hora quando Chico sugeriu tomarmos o rumo norte-sul na direção do Praia Clube lá para o lado de Coqueiros, perto da casa do governador. Fiz uma manobra de largo alcance e tomei a proa norte-sul. O mar calmo permitia uma velocidade de trinta nós para o nosso conforto. Como era bom apreciar a orla marítima do continente, com vista do mar para a terra. Tudo era muito novo para nós três.&lt;br /&gt;Ao cabo de poucos minutos encostamos a lancha na praia. Tínhamos um estoque grande de cerveja na geladeira. Mas decidimos fazer bonito e ir beber no deck do Clube. Certamente pagamos o dobro. Mas o Chico disse: “isso não tem preço”. Então, que venham mais latinhas. Ali ficamos bebendo e apreciando a lancha, que estava sendo admirada pelos que passavam. As moças ficavam encantadas e nos convidavam para passear. Mas nossa convicção a esse respeito era celibatária. Não abríamos mão desse preceito nem com dez latinhas na caveira. Os três éramos casados. As pessoas chegavam a parar para bem admirarem aquele tipo de embarcação de raras paragens por ali. Tudo nela era glamuroso. Tinha escotilhas douradas, cortinas e até tapete desejando boas vindas a quem subisse a bordo. Eu quase chorava de emoção. Enfim meu dia sonhado chegara. Eu era um capitão de respeito. Bem, pelo menos era assim que eu me sentia. O doutor dizia que não entendia nada de navegação e que estava em minhas mãos. O Chico dizia o mesmo ao confessar que nem nadar sabia. Como era bom ouvir pessoas dizerem isso para mim. Mesmo que fossem aqueles dois velhacos. De fato eu era um piloto responsável. Contudo até a terceira latinha. Daí em diante os amigos diziam que eu apagava, para virar um louco-manso. Eu não podia passar daquelas três malditas latas, pois o álcool interagia com minha medicação anti-pressórica. Certa vez, na Lagoa da Conceição, com a turma, fui levantar da mesa e tropecei em mim mesmo. Nem eu sei como consegui tal proeza. Girei, cai e bati com a cabeça numa porta de vidro para ficar desacordado durante quatro horas. Eu era um perigo para mim mesmo, depois da terceira lata. E àquela altura eu já passava da oitava. Daí para frente nossa conversa se resumia muito mais a risadas do que a palavras. Ríamos de tudo e por nada ríamos. Sabe aquele jeito engraçado de rir apontando para a cara do outro? Estávamos os três desse jeito.&lt;br /&gt;— Chico, disse eu, paga a conta aí que vamos navegar.&lt;br /&gt;— Por que eu?&lt;br /&gt;— Porque você é o melhor Chico que temos por perto, respondi com ar de deboche.&lt;br /&gt;— Cachorro, nem adianta vir com palavras bonitas que eu não vou te beijar.&lt;br /&gt;— Rápido no gatilho, hein? Então é na ironia?&lt;br /&gt;— É, sim, respondeu meu irmão.&lt;br /&gt;— Bem, se é assim eu vou acertar com o garçom. Mas você me paga, cão infiel, disse-lhe já puxando o dinheiro do bolso da bermuda. Fingindo-se de morto, o doutor cantarolava um xote conhecido. Declarava-se em desconforto quando a encrenca era em família. Já administrava conflitos familiares além da conta no escritório de segunda à sexta. Mas todos sabíamos que assumia aquele comportamento tangentóide somente para não se envolver com a despesa.&lt;br /&gt;E lá fomos nós de volta à baía norte. O bom era andar de lá para cá e de cá pra lá, acompanhando o contorno da via mais badalada da capital. Em marcha lenta então, era demais. Percebi que o doutor e o Chico se haviam passado da conta porquanto não paravam mais de rir. Minhas suspeitas se confirmaram quando, como se num gesto ensaiado, ambos atiraram duas latas de cerveja vazias ao mar. Cruz credo, ali diante de todo o mundo vip era um ato criminoso. Alertei os dois sobre a agressão ambiental, mas eles só riam e riam. Um desastre ambiental estava acontecendo no mar da Praia de Fora. Pior é que era bem diante do obelisco em honra ao mártir Francisco Dias Velho, o fundador da freguesia de Nossa Senhora do Desterro, cujo nome não resistiu ao desejo de alguém bajular um líder de coturno alto feito Presidente da República e que atendia pelo nome de Floriano.&lt;br /&gt;Preservação da natureza havia sido um tema bem enfocado pelo Oficial da Marinha quando dele recebi minha carta de capitão. Esse fato me causou bastante surpresa porque não imaginava que a Armada Brasileira fazia esse trabalho de conscientização. E já estava surtindo seus efeitos porque fiquei ansioso para que ninguém houvesse notado a transgressão dos dois. Contudo, aquele foi um ato muito ostensivo. Os dois mamavam direto e pediam mais velocidade. Alguém ali tinha que manter o controle da situação. No caso seria eu, o capitão, já completamente embriagado. Subitamente veio-me a vontade recorrente de dar cavalos-de-pau com a lancha. O espetáculo juntou muita gente na borda da avenida. Chico e o doutor já nem bebiam mais, eis que mal conseguiam manterem-se na poltrona para não serem lançados para fora da lancha. Eu só escutava os dois gritarem: toca o pau, marujo!&lt;br /&gt;O barulho era medonho quando esgarçava toda a potência do motor em manobras radicais. Então aconteceu o que a torcida mais queria. A lancha subiu num banco de areia e parou instantaneamente. Meu irmão e o velho doutor foram jogados na água e eu fui parar na proa com a cabeça dentro da geladeira de isopor toda destruída. Quase desmaiando escutei meu irmão gritar por socorro. Era a voz desesperada do sangue a me chamar. Lancei uma âncora ao mar, disparei um foguete de sinalização e, num esforço somente visto no espírito de um lobo do mar, atirei-me na água para salvá-lo. Entretanto, não sem antes bradar o regulamentar: homem ao mar! E olha que caprichei na voz grave e pausada, conforme determina o Regulamento Internacional para Evitar Abalroamentos no Mar. A água fria despertou-me e com poucas braçadas o alcancei. Fiz a abordagem padrão dos salva-vidas, isto é, por trás da vítima. E comecei a puxá-lo para perto da lancha. Então vi o povo dando gargalhadas e apontando para nós três, novéis náufragos nos mares da Praia de Fora. Somente fui entender o motivo da gozação geral quando vi que o doutor estava de pé diante de nós e nos mandava parar de nadar que a água estava pelo umbigo. Foi a maior desonra naval de um capitão de brinquedo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-904166764738999765?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/904166764738999765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=904166764738999765' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/904166764738999765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/904166764738999765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/conto_11.html' title='HOMEM AO MAR'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SJczYZ7ccLI/AAAAAAAAAEg/NIBq2wIqC4Q/s72-c/Lancha+Homem+ao+Mar.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-182461342470910111.post-8938217736744722560</id><published>2008-07-11T08:59:00.000-07:00</published><updated>2008-11-13T12:26:51.331-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='médicos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='medicina'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='conto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='vasco da gama'/><title type='text'>A CERTEZA PERMITIDA</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIvbtSs60GI/AAAAAAAAAD4/LYLNoMV4UFg/s1600-h/m%C3%A9dico.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5227513363654430818" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIvbtSs60GI/AAAAAAAAAD4/LYLNoMV4UFg/s320/m%C3%A9dico.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:85%;color:#3333ff;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-size:130%;color:#3333ff;"&gt;Humberto Ilha &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="color:#3333ff;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;De tudo ele já havia tentado. Começava as coisas com entusiasmo e lá pelas tantas, desatinava e ficava deprimido. As primeiras dificuldades faziam desabar o projeto sonhado. Isso desde que era criança. Mas a mãe não iria deixá-lo coroar-se um perdedor nascido. Fez que se preparasse para o vestibular mais charmoso: medicina. Foram dois anos com jornada puxada de seis horas por dia. Passou no vestibular e concluiu o curso nos seis anos na Escola Nacional de Medicina. Fez dois anos de especialização em cardiologia clínica e parou tudo para descansar um pouco. E nisso estava há quatro anos. Gostava era de curtir a noite e as mulheres, que não eram poucas.&lt;br /&gt;Durante o curso fez amizade com um colega cuja mãe já se dava com a dele. Freqüentando com regularidade a casa, passava as tardes estudando com o amigo. Às vezes dormia por lá mesmo. A copeira da casa era uma potranca já feita e se desmanchava toda por ele. Começaram a ter um caso descompromissado. Ele só queria deitar com ela, mas Clara o amava de verdade.&lt;br /&gt;Era ela a garantia derradeira dele sair da fossa quando estava lá. Mas não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe, diz a trova bem feita. Por um inconfessável motivo, a empregada foi demitida. Mas o bagual deu um jeito de freqüentar o novo emprego dela. A nova família era conhecida em São Cristóvão pela simplicidade e dinheiro que ganhava trabalhando com linhas de ônibus urbanos. A paixão ali era o Clube de Regatas Vasco da Gama do qual eram sócios mantenedores. Estava tudo certo porque ele também era um vascaíno doente.&lt;br /&gt;Ficou sem freqüentar a casa durante os seis meses que passara no interior de São Paulo. Um dia, a casa dos Bredes estava festejando os Santos Cosme e Damião e já passava da uma da manhã. Ele procurava a empregada e não a encontrava. Criou coragem e perguntou por ela à governanta. Ficou sabendo que Clara estava nos últimos dias para dar à luz uma criança. Ele então se desmontou ali mesmo. Perguntou como seria possível aquilo, mas ela calou-se e saiu. Achava que o romance com a empregada era segredo. O tom de voz da mulher desfez essa certeza.&lt;br /&gt;Foi para o salão de festa imaginando uma maneira de ver a empregada. Estava ensaiando uma nova abordagem à cozinha quando a senhora Bredes pediu silêncio a todos e perguntou se havia na festa alguém que pudesse fazer um atendimento de emergência. Amigos rodearam-no e quase o empurraram para que atendesse a dona da casa.&lt;br /&gt;— De jeito nenhum. Faz quatro anos que não exerço.&lt;br /&gt;— Vai ficar aí em cima do muro para sempre? Escolha um lado e desse daí. Não sei se lhe sobra covardia ou lhe falta coragem para viver sua vida. Vai lá. Você é o melhor que temos aqui.&lt;br /&gt;— Sou?&lt;br /&gt;Foi levado às pressas ao quarto da mulher. Espantado, viu Clara dando à luz um menino robusto. Só deu tempo de aparar a criança nas mãos. Instintivamente abraçou o bebê e exclamou sua primeira e definitiva certeza:&lt;br /&gt;— Meu filho!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/182461342470910111-8938217736744722560?l=humbertoilha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://humbertoilha.blogspot.com/feeds/8938217736744722560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=182461342470910111&amp;postID=8938217736744722560' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8938217736744722560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/182461342470910111/posts/default/8938217736744722560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://humbertoilha.blogspot.com/2008/07/conto.html' title='A CERTEZA PERMITIDA'/><author><name>Humberto Ilha</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16154818083222503156</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://bp3.blogger.com/_ecaw4rTUwWA/SIvPbTE9WcI/AAAAAAAAADo/xsj2KJXompU/S220/DSC03329.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ecaw4rTUwWA/SIvbtSs60GI/AAAAAAAAAD4/LYLNoMV4UFg/s72-c/m%C3%A9dico.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
