sábado, 29 de novembro de 2008

CIDADE SEM XERIFE

Humberto Ilha

O dentista Orlandino Piedade fechou o consultório na hora do almoço e foi pegar o carro defronte ao prédio onde trabalhava. Vasculhou a rua toda e não encontrou o automóvel. Então começou a xingar o governo que não oferecia segurança. Seu carro desaparecera em plena luz do dia. Tomou um taxi e foi para casa, mas não conseguiu almoçar, pois estava indignado com a perda do veículo ainda financiado. Aquilo só podia ser coisa de gente que o andava negaceando para esperar a hora certa de agir com impunidade. A própria cidade não dava chance alguma aos cidadãos. Instituíra agora uma tal de zonazul com o pretexto de redistribuir as escassas vagas no centro para que todos usufruíssem com mais justiça. Mas o povo não assimilou o argumento e apelidou a idéia técnica de “pretexto para meter a mão no bolso dos cidadãos”.

Piedade foi até a Delegacia de Furtos e lavrou um Boletim onde deixou consignado todo o seu descontentamento com o prefeito. Bradou que iria trocar de partido político, como se isso fosse impressionar os policiais de plantão. Registrou a queixa e foi-se embora para esquecer tudo em menos de duas semanas. "Quem sabe um dia meu carrinho aparece". Comprou outro e tocou a vida.

Um mês depois havia atendido um amigo que lhe pedira carona. Vieram conversando pela Tiradentes quando o outro parou e ele seguiu falando sozinho. O dentista estranhou e fez sinal para que o acompanhasse até ao estacionamento. O outro ficou olhando para um determinado veículo e perguntou:
— Mas este aqui não é o seu carro?
Orlandino olhou, examinou bem aquele veículo todo empoeirado. Conferiu as placas e viu que se tratava do carro desaparecido. Olhou para trás e deu de cara com os barbeiros olhando para ele.
— Vocês sabiam que este carro estava aqui?
— Está aí há mais de mês e daí nunca saiu. A gente estranhava ver o doutor passar por ele e deixá-lo aí, mas fazer o quê? Decerto queria caminhar. Hoje isso está na moda, caminhar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O REBOCADOR TRIUNFO

Humberto Ilha

Manhã cedo, o pequeno navio R 22 ressoa a aguda sirene e atraca no porto da Rua Quatorze de Julho exibindo ainda as bandeiras sinalizadoras de serviço. Horatio Magalhães era o capitão de corveta mais charmoso da Armada; e o mais complicado também. Este era o seu primeiro comando. Ainda que fizesse algum esforço de parecer cortês, pela presença de civis no local, o cansaço da manobra era-lhe visível. Além disso era um militar de pouco riso. Podia-se dizer que já estava endurecido pelo sol e pela salmoura. Ainda jovem adquirira aguçado nível de lucidez. Fora preparado em casa para caminhar na dureza do convés das embarcações. O velho orgulhava-se da própria dispensabilidade para que o menino enfrentasse a vida por si. Estava sendo bem preparado. Chegou a compor a equipe brasileira de salto em altura nos Jogos Pan-americanos de Cali. Encaminhado para ser um campeão, era um daqueles que seguia vocação cultivando vaidade de família. Mas, diferente dos mortais, não tivera que fazer carreira com as mãos. Dizem que para ingressar na Escola Naval tivera dificuldades com a prova de Português. Deu branco e estava reprovado. Época de singular ordenamento nacional, ninguém ousou contestar argumentos do tipo “Todos sabemos que o garoto ficou nervoso. E também sabemos que ele sabe; ou não sabemos?”

Desde pequeno auferia proveito dos que gravitavam em torno do pai; olhava a maruja com descaso. Era exímio em bem demonstrar aquele ilusório ranço de elite, muito embora zeloso de suas obrigações. O comandante do Colégio Naval foi por ele chamado de maricão quando lhe exigiu a camaradagem da continência negada no pátio interno. O oficial envermelheceu diante de todos e entrou no gabinete para morder o ódio que nutria por ser mesmo diferente.

Horatio preferia não dar moleza aos de baixo para preservar a distância entre quem manda e quem tem juízo. Isso desde sempre; e não somente agora que estrondeara com força uma revolução, cuja gota d’água fora o desrespeito pela oficialidade do mar. Naquele cenário político, um oficial com algum cacoete nazista tinha carreira garantida nos quadros da Armada. E isso ele tinha de sobra. Talvez daí lhe viesse o apelido de Barradão, que é como os subordinados chamam aquele que lhes barra os melhores planos. Olhando-o de longe, parecia ficar melhor na pele de um fuzileiro naval de tão durão que era com os homens. Fora o primeiro de sua turma a conquistar o posto de oficial superior. Gostava de estudar e nisso ia fundo. Mas, se mandava nos homens e todos obedeciam, igualmente se via obrigado a obedecer ao mar e o que dele vinha. “Ah, o mar que a ninguém obedecia. Ai de quem viesse com a ladainha de que só a Netuno o mar respeitava; história!” O oficial era chegado em mastigar: “Netuno morreu faz tempo e o mar nada respeita”. Para rematar, se fosse provocado: “A negociação com o mar se dá antes de nele entrar. Como entrar no mar sem conhecer o retelho das nuvens e a leitura dos ventos?” Significa dizer que ele somente acreditava no planejamento, na prudência e no conhecimento do instante dramático a vivenciar no mar. “Os mortos — dizia — já esperam deitados; e deitado ninguém planeja. Ficar vivo no mar implica em ter que pedir licença para não precisar pedir socorro”.

Tudo o que Horatio Magalhães fazia, fazia bem feito. Sextante ele tinha quatro. Um deles era pequeno, para caber nas mãos do filho. Equipamento de mergulho eram dois novinhos. Um para ele e outro para a esposa, que adorava mergulhar nas ilhas da costa fluminense atrás de garoupa-chita. Lancha, era questão de honra, tinha uma com dois motores de cento e dez cavalos e toda adaptada para mergulho. A bordo do Vendaval, um veleiro de trinta e dois pés que lhe dera o pai, buscava a utopia da velejada perfeita. Poucos oficiais praticavam a navegação à vela. Mas onde mais se permitia desfrutar a própria essência era dentro da água, mergulhando em apnéia. Poucos sabiam onde estava o prazer de pertencer ao mar. Ali estava, dizia ele. “Lá dentro só escuto o pulso do meu coração. O mergulho me leva ao coração do impossível”.

Remanescente da Marinha americana, Triunfo era um rebocador empregado em missões de resgate. Tarefa pacífica que dava algum charme àquela embarcação tão antiquada quanto robusta. Um só mastro e um só castelo, o de proa. O resto da estrutura era destinado ao suporte das missões de força. Difícil achar quem não goste de um socorrista. Triunfo parecia um bicho vivo querendo se comunicar com o entorno. A comunicação pelo Código Internacional de Sinais através das quatro bandeiras já era mensagem de amizade e paz. Aquele rebocador, onde quer que aparecesse, invocava um sentimento bom nas pessoas porque não manifestava sinal de hostilidade advindo da exposição de armamentos próprios das embarcações de guerra. Ao invés de canhões, bombas e metralhas, viam-se no convés de popa rasa dele apenas grossas correntes, cordas, cabos de aço, roldanas enormes, sarilhos engenhosos, polias reforçadas e robusto pau de carga para agüentar o tranco nas operações de força em socorro de algum navio agonizante em ameaçador costão ou praia deserta. Ou ainda de algum outro refém da deriva tenebrosa no meio de alguma tormenta assassina a reclamar o sossego que as embarcações não lhe costumam dar.

Depois da atracação o cozinheiro supervisionava um embarque de carne. Três grumetes faziam a estiva da viatura para o frigorífico da embarcação. De repente um balaio cheio foi parar no mar. O grumete, negro musculoso de uns vinte e quatro anos, tropeçou nos trilhos do trapiche e não conseguiu evitar o acidente. Nesse momento o comandante estava chegando, viu tudo e já foi dando a ordem:
— Mergulha grumete; vá buscar a carne.
O rapaz ficou de calção e se atirou na água. Ali já estavam quase todos para verem no que ia dar a situação. Outros colegas queriam ajudar, mas aí o capitão deixou à mostra o tanto de peçonha que ainda habitava em seu caráter.
— Ninguém mais na água. A responsabilidade é dele.
A cada vez que voltava do fundo com um pedaço de carne o jovem tinha maior dificuldade. Numa das vezes voltou sem nada nas mãos e sangrando pelos ouvidos. O médico pediu para parar com aquilo, mas Horatio não concordou e mandou que mergulhasse mais. O sangue não parava, então o cozinheiro se meteu e disse ao grumete para não mergulhar mais. O comandante virou-se para o cabo:
— Como ousa?
— O senhor está errado e meu irmão não mergulha mais hoje.

O médico sentiu que era hora de intervir e mandou que o grumete fosse levado para a enfermaria. Sofrera um derrame cerebral que iria apagar o seu futuro e a carreira festiva de Horatio Magalhães, que recolheu a vergonha diante da gravidade do episódio e foi trancar-se na cabine. Inimigo de si mesmo, lembrou-se que um dia fora insolente com um comandante que também não conseguia domesticar a matraca.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

FAZ PARTE!

Humberto Ilha

O casal passava quando viu uma idosa tentando atravessar a avenida da vila militar. Era um lugar difícil até para os mais jovens. Reparando a dificuldade da mulher resolveram dar meia volta no carro e encolher a distância entre eles e aquela que nem conheciam. Ao retornarem ela ainda estava longe de atravessar a arriscada via. Apoiava-se numa bengala e carregava uma sacola com roupas. O homem se ofereceu para atravessá-la tomando-lhe a sacola no que ela enfiou o braço no dele. Quando sentiram que estava favorável começaram a cruzar. Ele fazia sinais ostensivos para os motoristas abaixarem a velocidade. Parou o trânsito na hora. Caminhando na velocidade que ela conseguia, chegaram ao outro lado. Então ele perguntou para onde ela estava indo. À missa na Igreja São Francisco; frei Balbílio é o celebrante. Ela se referia a um homem grande, vermelhão, inquieto, de alguma idade e saúde de ferro. Diziam que se curava com ervas que lhe vinham da Alemanha. Falava português com sotaque carregado e alegre. Trajava sempre aquela batina marrom e sandálias. Como ele se virava no inverno ninguém sabia, porque também nunca foi visto com outro abrigo além daquele traje capuchinho. No verão, a mesma coisa: um calorão medonho e ele dentro daquela roupa escura gerando mais calor. Ali, parece, dava demonstração do obstinado ofício como servo do Senhor. O povo dispensava-lhe estima; era confessor de gente graúda.

— Vou levar umas roupinhas de bebê que fiz. Faço parte de um grupo que se reúne todo mês; ele é o nosso orientador espiritual. Conhece cada um de nós pelo nome e sobrenome; um santo em vida.
— Posso deixá-la na igreja, se quiser.
— Ora, se não quero.

Colocada no banco da frente, a mulher nem sabia afivelar o cinto de segurança. Na tentativa ela arrumou uma confusão de braço por dentro e braço por fora até ficar com o pescoço imóvel pelo cinto. O casal achou graça da dificuldade. O homem lembrou-se da própria mãe, que também fazia aquela confusão. Ajeitou-lhe o cinto e foram para a igreja deixando-a na porta. A mulher agradeceu e foi entrando com aquela bengala de madeira envernizada que lhe dava dignidade. O casal voltou para o carro e retomou a viagem, que era na seqüência daquele trajeto: o cinema do shopping assistir Julio Verne na versão reciclada em terceira dimensão da sempiterna Viagem ao Centro da Terra, agora com Brendam Fazer. Jurou à esposa que os truques da produção não iriam surpreendê-lo. Era melhor ter fechado a matraca, porque no primeiro minuto de filme quis tirar com a mão um beija-flor que lhe veio pinicar o nariz. Depois de muitas risadas ele entregou-se ao filme e às atrações que oferecia: cavernas profundas, peixes voadores, dinossauros zangados, cipós que sufocavam o herói, rochas que desafiavam a gravidade. Como o livro, na Islândia também estava a porta de entrada para aquela aventura. Só que o guia no filme era uma linda mulher, coisa impensada pelo autor no machista século dezenove. Estava envolto naquela nostalgia quando algo lhe trovejou num efeito dolby surround: Fiquei com a sacola da velha dentro do carro. Quis explicar a confusão para a esposa. Ela mandou que abaixasse a voz porque o filme era dublado. O homem disse que ia sair e voltaria dentro de meia horinha: pode marcar no relógio.
—Hãm... Hãm... — de olho lá dentro do telão.

Saiu ansiado da sala como surdo em bingo. Uma pobre lixeira voou fazendo estardalhaço numa canelada que deu quando saiu da sala sem enxergar nada. Já no estacionamento olhou a sacola da senhorinha no banco de trás e tocou para a igreja. Quando chegou já havia terminado a missa, mas notou a presença de algumas pessoas por ali. Foi entrando porta adentro encontrando frei Balbílio que saía às pressas e olhando para trás. Dentro da igreja somente umas pessoas em oração aqui e ali. Perdi a velha. Olhando na sacristia viu um bolo de gente. Ela estava vomitando numa pia; as amigas em volta dela. Coitada, por que o padre não ficou aqui para atendê-la já que a conhecia pelo nome e sobrenome? Por que, já que era o orientador espiritual do grupo? Lembrou que ainda o vira se afastando, decerto para não ficar refém da responsabilidade. Levou a senhorinha à emergência do Hospital Senhor dos Passos. Depois de encaminhada colocou junto à cama a sacolinha e voltou para o cinema buscar a esposa. Precisavam voltar ao hospital e depois levar a mulher em casa: era no Buraco da Onça.

Já contou algumas vezes esta história com a gravidade que merece, mas não quer mais porque o pessoal começa a rir e dizer-lhe bem-feito, metido.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O DOM DE NÃO ENTENDER

Um sossego de varanda e então dormi,
‘inda vi casal tentando vôo sem graça
abatido no gramado sucumbir.

Grave ela ferida na agonia
ele aflito se havendo em covardia
por desgosto de com ela então morrer.
Mas ficar ali por perto era preciso;
de verdade bem saber ele sabia.

Esperar por mais seis luas e voltar
para o sol, após velar o que amou.
A esse tempo a pobre ave quis saber:
Por quê?

Por seus olhos quis fazê-lo então saber
que esta vida é fugidia, mas convém
ser levado igual criança no viés
do mistério que o juízo indulgencia.

Longe de entender, por mais que tente,
uma ave não me sabe compreender.
Como igual não entendo o próprio Deus,
que descendo vem olhar no meu olhar
e dizer-me o que não posso decifrar.

(Humberto Ilha)


sábado, 8 de novembro de 2008

SONO E SOMBRA


Na sombra, às vezes me deixo
Dormir igual a um vadio
Um sono de longo trecho,
Mas torto e fugaz... Vazio.

Nem sempre consigo um sonho
Daqueles bons de sonhar
Às vezes de tão medonho
Dou-me graças de acordar.

E quando eu sonho calado
Nada de mal me acontece.
Mas se é sonho agoniado
Meu coração desfalece.

Mil vezes viro menino
No’embrulho dessa magia
Sonhando um sonho divino
De alegrar a alegria.

Nesse dia tudo cabe.
Bom e ruim tomam vida.
Quem nunca sonhou não sabe
E dos que sabem duvida.

Acordar nem sempre é bom,
Quando o sonho é de primeira.
Há que se ter algum dom
P’rá parar com a brincadeira.

Sonhar tem que ser assim:
O mal e o bem juvenis.
Se um sonho me deixa ruim,
Outro me deixa feliz.
(Humberto Ilha)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CLIENTE LEVA BRONZE

Humberto Ilha

Toda semana ele enfrentava aquela aporrinhação dos caixas eletrônicos. A tecnologia da informação viera para atrapalhar os que foram pegos de surpresa; como os da terceira idade. Claudionor era dos que não se davam com a parafernália de cartões magnéticos, senhas alfanuméricas, portas giratórias de segurança, casamatas blindadas, guardas armados, câmaras de vídeo, alarmes. Recente no bloco dos idosos, desejava usufruir regalia dos de sua categoria: usar um caixa preferencial. Não estava disposto a abrir mão desse direito há pouco reconhecido. Queria ser atendido com requinte nem que fosse uma só vez. Foi ao banco e não gostou do que viu lá dentro. Imaginava receber um pouco mais de consideração. Aquele aviso indicando o caixa destinado a atender idosos era perverso. Primeira vez que se permitira a ele recorrer achava aquilo uma carta de exclusão. Mesma coisa que tocar uma sirene obsequiosa para todo mundo ficar sabendo que ali estava um velho. Remascava que o atendimento merecia mais recato. Diabos, se um idoso, uma gestante ou um deficiente físico precisasse de atenção especial era só pedir que o banco saberia atender. Reinava em todo lugar, de uma hora para outra, uma mesura nervosa em favor do senil, mas parece que não sabiam atendê-lo. Havia supermercado que oferecia café da manhã. Prefeituras que garantiam gratuidade no transporte. Até as primas faziam promoção no cachê para os mais travessos. Outro dia a televisão mostrou uma dona Rosinha de setenta e três anos fazendo ponto numa esquina de São Paulo dando atendimento preferencial de geriatria.

Aproximando-se do caixa a ele destinado, Claudionor ia esboçar um sorriso de boa-tarde quando uma jovem senhora lhe tomou a frente. Ignorando-o, ela furou-lhe a vez toda sorridente e com a bolsa aberta cheia de maços de dinheiro para depositar. Era tanto dinheiro que fora levado para a máquina eletrônica de contar. Flip-flip-flip; nunca tinha visto tanta grana junta, nem mulher tão linda. Ele era um bugre criado mato-a-dentro lá pelas barrancas do Uruguai. Um xokleng simbólico: baixo, moreno, quase um bronze, sem um fio de grisalho na cabeça; braços e pernas fortes. Havia de relatar em casa o que estava presenciando. Mesmo sentindo-se transparente tragava prazer enorme e não perdia um movimento da gorducha mulher. Que visão do céu. Por ele não saía mais dali; e não saiu mesmo. Disse para si que ninguém o tiraria dali por nada. Se necessário esperaria o resto do dia. A senhora passava maços e maços de dinheiro ao caixa. A sacola parecia não ter fundo, de tanto dinheiro que havia ali dentro. Entretanto, dava a impressão de querer desvencilhar-se logo da grana como que a transferir de uma vez ao banco a responsabilidade pela guarda daquele pequeno tesouro. Queria logo o recibo, a prova do depósito. E Claudionor: "Ao invés de abraçar e beijar aquele dinheiro todo, ela quer se ver livre dele". Ali, de pé atrás da mulher, podia sentir o perfume cítrico que ela usava. "Uma delícia! Devia custar mais que o rancho mensal". Ainda ali, de pé atrás da mulher, se encantou com o longo sobretudo vermelho que lhe cobria o corpo. O aroma vinha daquele casaco que se mexeu com a mulher dentro para chamar o marido.
— Nego, chega aqui.
Claudionor pode então ver como era linda. Era muita merenda para o recreio do Nego, que era um dragão de feio. Depois de cochichar algo no ouvido dele, o homem encostou-se nela colocando-lhe as mãos na cintura. Isso fez de modo acintoso e olhando nos olhos de Claudionor, dando-lhe ainda vigorosa cotovelada nas costelas. O índio achou haver sido sem querer. Então, o amargoso se mexeu novamente e deu-lhe outro cotovelão para o coitado resmungar algo como “putz”. Agora estava passando da conta. O prosa virou-se para trás e perguntou se o outro não estava desconfiando de nada.
— ???
— Afaste-se de minha esposa. Você está invadindo a privacidade dela. Seu lugar é para além da faixa amarela; e não colado na patroa.
Claudionor percebeu o vacilo; tinha razão, o infame. Desacostumado com a novidade nos bancos, nem percebera que estava invadindo o ninho daquela cobra. Mesmo assim deixou claro ao homem que não gostara do tom da voz dele, para em seguida ouvir:
— Será que eu vou ter que me incomodar com você?
Claudionor já estava tomando o caminho do seu modesto lugar, atrás daquela faixa amarela colada no piso da sala. Faixa Amarela... Algo ameaçador estrondeou dentro da cabeça dele. Lembrou que era ele um faixa-preta. Fora admoestado pelo salgado diante de pessoas e não gostara. O comportamento impróprio do homem deixou-o furioso, mas conseguiu abafar-se. Entretanto, dissera ao outro para se cuidar porque na próxima ele o faria engolir os insultos. Claudionor bem sabia que acabara de proferir uma ofensa maior do que a que havia escutado. O trouxa mordeu a isca e falou esbravejando desgovernadamente:
— Vai querer me encarar?
O bugre conteve-se mais um pouco. Era necessário provocar mais raiva no outro até sobrevir o ponto ideal de enfrentá-lo. Até que ficasse totalmente sem controle emocional. Antegozando um ódio desmedido e represado retrucou na debocheira:
— Posso encarar você, mas não vale me chifrar.

Xingar alguém de corno era uma de suas melhores provocações. De sua boca não saiam palavras afetuosas quando o sangue lhe subia. O valentão arremeteu com tudo para cima de Claudionor, mas girou como só um bailarino gira, terminando aterrissado junto ao bebedouro. Que lambança; a bombona explodiu no chão como um torpedo, encharcando tudo. O segurança tentou imobilizá-lo, mas o bugre fê-lo soltar um grito horrível. De não acreditar, mas Claudionor neutralizou-o fazendo forte pressão num dos dedos dobrados da mão do guarda. Como fazia muita choradeira, o bugre desvencilhou-se dele com grande estrondo; também ele beijou a lona. E no chão dormiu de ladinho perto de uma dentadura quebrada que não se sabe de onde veio. Agora ia juntar o confiado para completar o trabalho. Mas a cúmplice mulher subitamente avançou contra ele, como se tivesse sido atingida por uma espetada no popô. Nem deu tempo para desconsiderar a ameaça. A água espalhada fez que patinasse como se patina pela primeira vez: numa coreografia desengonçada com os braços abertos e os olhos arregalados de pânico. Todo o corpo atraente dela deslizou até amontoar-se sobre um vaso ornamental. Funcionários juntaram-na e ao marido e levaram os dois lá para dentro. Claudionor estava branco e alerta. Eram mesmo de bronze seus braços e pernas de tanto estrago que faziam. Sabia que o pior estava a caminho. Como a se defender, falou aos que viram o bafafá que fora um erro o homem tê-lo desafiado daquele jeito. “Meter-se comigo é caixão. Afinal, eu pratico artes marciais”, falou bancando o campeão de si mesmo. E era verdade, mas seu maior talento era a rapidez de raciocínio aliada à grande mobilidade diante de situações desse tipo. Sobrevinha-lhe ainda saber combinar rapidez com potência de golpes certeiros. Era um ninja, desses que a gente vê na televisão. Durante todo o entrevero não emitia palavra, mas nada lhe escapava à atenção. Nem o guardinha dormindo no chão, nem as câmaras de vídeo que tudo registravam.

Como parte da rotina de segurança os funcionários chamaram a polícia, que cercou a agência com grande aparato de resposta tática, preparada que veio para enfrentar assaltantes, seqüestradores, terroristas ou sabe-se lá o que mais. O oficial que tudo aquilo comandava não imaginara que fora acionado para acabar com um bate-boca. Sirenas, faróis acesos, pisca-pisca, bombeiros, coletes de segurança, escudos blindados, armamento pesado e muita tropa entrincheirada por detrás dos carros tipo caveirões. Aquele monumento de bronze feito homem olhou para fora e balanceou a situação: “tô ferrado”. Fitou as pessoas no interior do banco, quase que a pedir ajuda. Mas ninguém parecia lhe dispensar benevolência. Sequer chegavam perto dele. Decidiu então encarar sozinho o caso, como sempre fizera na vida.
Um megafone saiu por trás de uma viatura camuflada, e dele vinha a ordem para que todos se atirassem ao chão. Foi pra já! Todos se deitaram, inclusive Claudionor, que se deitou ao lado do segurança que dormia de ladinho. Os policiais entraram e não encontraram a oposição que esperavam. Sequer sabiam a quem prender. Mas um comandante de polícia tem lá suas manhas. Com pausada voz de comando determinou que somente os funcionários do banco se levantassem. Ainda assim, verificou que havia muita gente pelo chão. A seguir autorizou que o segurança também se erguesse. No chão, só os clientes. E entre eles, por certo, os autores de toda aquela encrenca. Separando o joio do trigo ficaria mais fácil prender os bandidos.

Mas, e Claudionor? Fez-se oculto ali mesmo. A polícia não sabia onde ele estava, muito embora parecesse que havia sido indultado pelos que tinham visto o seu desempenho em defesa da honra ultrajada; atuação que todos viram mas não entenderam, tamanha a rapidez e precisão de movimentos daquele herói solitário. Nosso Senhor depois de ressuscitar no terceiro dia foi mais demorado para se esconder nas nuvens, de acordo com o que nos contaram na catequese. Com tudo que O qualificava demorou muito mais tempo que o bugre para fazer-se oculto. E agora nem bem deitou ao lado do guardinha esse velhaco desaparece diante dos olhos de todo mundo para ressurgir fardado ninguém sabe como. Sobrou à polícia apenas prender o casal de lambanceiros. Queria o depoimento deles para o competente inquérito. Por muito pouco não levou uma vaia.
Enquanto tudo isso se passava, o segurança falava ao rádio em voz alta com alguém a respeito da briga que havia presenciado no interior da agência bancária. Ao tempo em que parecia relatar tudo com detalhes ganhava a rua movimentada. E assim caminhou até o ponto de ônibus para sumir da vista da polícia. Entrando em casa, de uniforme, a mulher estranhou e perguntou se ele havia arranjado emprego de guarda. Fez que não com a cabeça.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O INEVITÁVEL DANIEL BARBADA

Humberto Ilha

— Pode haver coisa mais absurda? Estudante civilizado não há de trapacear nas provas. Só se for por cima do meu cadáver.
Era um vexame. Um rapaz tão galante levar tão grave sermão de mulher tão cheia de letras quanto bonita. Mas também era quase uma imprudência falar de maneira tão áspera a alguém tão engenhoso, porque ele era bem capaz de passar por cima dela para colar só por deboche.
Ninguém pode afirmar que "desta água não beberei". Sempre existe o imponderável argumento da outra parte. Seja em palavras, gestos ou intenções. O rapaz demonstrava saber dar a volta por cima das situações já perdidas. Sabia curvar a espinha diante de ventos fortes, mas não deixava de aplicar um pouco de fortidão na pegada com as mulheres. Era disso que elas gostavam nele; aquela irresistível pegada.

Nesses tempos em que se convive com escolas invadidas por vândalos, professores agredidos por delinqüentes armados, tiroteios, tráfico de drogas no portão dos colégios e gravidez precoce tolerada nos pátios, colar devia parecer um delito menor. Mas não, agredir, tirotear, fumar e cafungar são crimes que não mais surpreendem a polícia. Quando nem a escola, que é o recurso de edificação da sociedade, é digna de respeito, o alarme dispara causando susto em todos. Delito não menos pior, copiar clandestinamente num exame escrito é algo que ensangüenta a honra, liquida a carreira do estudante e deixa o professor vacilante. Felipe Gonzáles garantia que o estudante que manchasse o currículo com um episódio de cola jamais seria político na Espanha. Um delito tão pequeno, praticado por pequenos, mas que vira um dragão para o resto da vida. A cola é irreparável e não merece perdão pelo intrínseco da sua gravidade. Conheci alguns dos bons nessa arte. A eles jamais me entreguei para deles extrair sequer notícias de futebol. Quando passam parece que ainda ostentam a tatuagem da vergonha na testa. Não foram e não serão confiáveis porque a prática da cola é sorrateira, planejada e mentirosa. Tanto que sobressalta os educadores e os que zelam pela formação ética da juventude. Muito pior se o delinqüente for universitário. A aflição do professor que pilha alguém com a boca na botija semelha-se ao luto pelo próprio filho. Ficará ruminando muitos dias: “Onde foi que eu errei? Veja o suíno que irá me substituir” Se o transgressor for mulher, dessas que escondem a tramóia nas coxas, pode contar: é daquelas tendentes às negociações suspeitas. Emparelhar com elas num casamento é chifre certo.

Barbada, o que estava levando aquele sermão escandaloso, era desses com as pernas demasiado cabeludas para enternecer alguém. Portanto, tinha que arrumar um jeito de esconder o cambalacho noutro lugar. Fotógrafo competente, Daniel passava boa parte do escasso tempo livre a reproduzir e reduzir textos escolares. Transformava tudo em instantâneos de trapaça para se dar bem nas provas. Na hora oportuna fazia sumir todo o petrecho nas furnas da própria roupa. Era comum vê-lo com maços de cigarros, cada um encobrindo um estelionato. Mesmo em dias de calor trajava famigerado fardão de lã cheio de bolsos. Aparecia no abafo todo encilhado de malfeitor. Bruxo requintado, jamais fora pego em flagrante. Professores faziam de tudo para ele não colar; pois colava. Uns diziam que eles sabiam e condenavam-no a morder o próprio rabo como no mito da serpente cósmica. Deixavam-no proscrito na circularidade da própria falência. Outros não compreendiam como o rapaz se valia desse meio suspeitoso se possuía brilhante inteligência. Outros ainda lembravam o lendário gol de mão de Diego Maradona: "indigno, mas fantástico". Aliás, é de se perguntar se os que baixam o pau no argentino teriam a grandeza de, no lugar dele, pedirem ao árbitro que invalidasse o gol em nome do fair play, mesmo que disso resultasse a derrota da própria equipe. Duvi-de-ó-dó.

A seu favor Daniel confessava-se inseguro para fazer provas escolares. Contudo, em seu benefício havia o carisma de ser um profissional requisitado pelas principais agências publicitárias do país. Conhecia o mundo, tornando-se um humanitário diante do que captou e transformou em instantâneos. Suas fotos eram veementes nas exposições e publicações que organizava. Suas lentes focavam as pessoas na guerra, no trabalho, na alegria, no esporte, na escravidão, na orfandade, na dor, na morte, na ternura, no abuso, na solidariedade, na prepotência, no desamparo, no amor. Sua câmara foi intensa e denunciadora de barbáries contra as gentes do Timor Leste. No Zaire dos diamantes foi levado pelas mãos de crianças aos locais de ternura embrulhados pela dor de uma guerra até hoje não prescrita. Trabalhando tão apaixonadamente, aprendia que a Geografia era o espaço onde as pessoas viviam. E esse era o motivo pelo qual estava ali. Queria ser um fotógrafo-geógrafo; pois que o deixassem sê-lo, por certo para o bem. Contudo, em dias de exames virava uma pilha de nervos e tudo ficava embaralhado em sua cabeça. Pressionado errava até tabuada de seis. Para os que duvidavam mostrava a caixa de calmantes que tomava à noite. Conseguir notas boas era uma barbada quando o professor era descuidado, gabava-se. Para a maioria das pessoas ele era um safado. Rodava pelos corredores que um professor chegou a pegá-lo com o caderno aberto no chão e o baita só se dando ao trabalho de copiar, virando as páginas com a absurda destreza dos dedos dos pés. Diziam que o professor, diante de tamanha cara-de-pau, não tivera coragem de dar-lhe zero. Pelo jeito Daniel Barbada também conhecia o íntimo das pessoas ao apostar na falta de ação do mestre, porquanto um delito desses, praticado com o sol a pino, era coisa de merecer redondo zero. Mas, dizem, o catedrático tremelicou de tanta vergonha que sentiu pelo velhaco. A partir desse episódio a fama do fraudador e sua inditosa arte só fez crescer. Quando o Diretor tomou conhecimento do fato, chamou a professora que havia jurado barrar-lhe a farsa. Aquela braba do esculacho e do corpo torneado descrita no início. Barbada estava no meio de um rolo enorme, contudo alegava jamais haver usado os petrechos malditos para fazer as provas. Admitia preparar, mas não chegava a usá-los. Dócil, chamava “aquela fratura exposta” de lembrete ou material de apoio. Ninguém lhe negava a fama construída na falcatrua, mas também o reconheciam como um sedutor convincente.

A última prova do curso seria realizada sob a supervisão daquela fera tão amarga quanto linda. Se Barbada lograsse êxito sem colar na prova, sua mala cheia de culpa ficaria esquecida para sempre. Tinha que aceitar o desafio, mas estava acovardado: “Sou bruxo, mas nem tanto. Esse sargentão fareja tudo e vai me espicaçar”. Pensou em fazer um acordo com o Diretor, mas não lhe ocorria nada lícito que viesse em seu amparo. Sem saída, concordou com os termos da proposta. Faria a prova final sozinho e sob a supervisão da tal que lhe jurara nocaute. Havia feito duas provas com notas baixíssimas, precisava sair-se bem na última. Foi no banheiro e voltou trajado como um feiticeiro para o desonroso truque de tirar água de pedra. No entanto, ao botar os olhos na professora ficou paralisado. Como era linda aquela mulher. Agora é que se dava conta vendo-a num minivestido de seda preta que lhe desvelava as formas perfeitas. Como um radar, Daniel percebeu a existência de uma tatuagem indefinida no tornozelo da moça. Isso dava a ela um ar de independência e charme. O desenho, quase impreciso sem seus óculos de grau, parecia querer proclamar a própria presença naquela parte quase oculta do corpo da deusa. Lembrava algo já visto, contudo não conseguia decifrar aquela figura. Foi aí que sentiu estrondear-se por inteiro experimentando o angustiante ímpeto de gritar que havia achado a mulher da sua vida. Mas Daniel Barbada sufocou o sentimento para não piorar ainda mais a situação em que estava metido. Recompôs-se nos alicerces, mas parece que ela percebeu-lhe os estragos.

Mandado começar a prova, tudo tentou que sabia na arte da diabrura da cola. Inventou mil truques e nada dava certo. Estava cada vez mais tenso. Meia hora de prova e não respondera nada. Então começou a rezar e imaginar o conteúdo das perguntas. Oxossi, o que mandava na mata, haveria de lembrar-se dele mais uma vez. Entregou a alma e matutou: "O que o destino me mandar, eu encaixo". De repente pareceu que lera em algum lugar a resposta de uma das questões, escrita com inconfundível caligrafia feminina. Esboçou ar de riso e cravou a alternativa correta. Voltou o pensamento para o santinho caçador de dragões. Assumiu o trejeito de quem estava raciocinando e veio-lhe a segunda resposta. Antes de responder olhou a professora, que demonstrava estar virando uma tocha ardente diante dele. As respostas vinham em borbotões, como uma torneira que não consegue estancar a água. Barbada respondia as perguntas com rapidez uma atrás da outra. Quando respondeu a derradeira, a mulher parecia estar cheia de luz. Instalou-se dentro dela um desabalar nevoento de fantasias. Havia passado por um jovializante processo e agora estava arpoada. Estava deixando o mesmo que uma porta aberta para o ladrão. Daniel combinou consigo mesmo: "Ela voltou dos infernos". Olhou aquele fermento indomável com um travo de paixão. Quis entregar a prova e sair dali, mas, como que por magia, ficou preso à presença dela. Estava também arpoado. O coração queria saltar-lhe pelo umbigo de tanto querer, mas seus olhos não se despregavam da cola caprichosamente escrita naquele tornozelo de fada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

LADEIRA ABAIXO

Humberto Ilha

A semana no pé daquela serra majestosa iniciava com rebuliço; pelo menos no povoado. Nada assombroso se o começo da lida não fosse às quatro da manhã. Em meia hora o ônibus sairá para engatar com o horário do trem das seis para Tubarão. "Levanta o patrão porque hoje o motorista não veio". Quando isso acontecia sobrava sururu para todo mundo. O próprio dono ia fazer a linha dirigindo o veículo; a mulher já na cozinha para o café; o filho fazendo o embarque. Sempre rigorosamente calmo, justo e honesto nos negócios, manso e cordial, Riccoldo Mansi planejara não precisar mais trabalhar duro após os quarenta. Era bom no que fuçar a vida, mas era péssimo no como fazê-lo. Para tanto botava os filhos e empregados. Jamais negou uma vaguinha para um parente, mas costumava pagar quase nada de salário. Econômico, não abria a mão nem para espantar moscas. Adorava comer ensopado de pato, mas quando havia carne de gado gostava de patinho para comer assado com recheio de toicinho e pimentão. Sedutor no silêncio, bonitão, olhos azuis expressivos, não sabia dizer não às mulheres que nele se encostavam como abelhas no mel. Vinha daí a infelicidade da esposa que o amava e unida cavucava com ele no esfocinhar a vida.

Quando o empresário chegou à garagem, o cobrador já havia aprontado o veículo para a viagem. Sentou-se ao volante, conferiu tudo e partiram devagar. A vizinhança já acordada com a maldição diária do barulho de esquentar o motor. Quem tinha juízo não chiava; o homem era também dono do armazém, da sapataria e da mina; um patrão meio blindado aos desaforos de empregados e parentes.

Na última poltrona, todo escanchado, viajava um compadre que era mais chato que chinelo de gordo. O velho, miudinho, não economizava deboche quando Mansi era o motorista; proclamava que o amigo guiava mal. "Hoje ninguém chega lá; cuidado aí, chofer". Fazia mais escândalo do que relincho de burro garanhão. O gringo era homem de pouco riso, mas também sabia encaixar com humor os gracejos do outro. Então o veículo começou a fazer uma descida grave. O cobrador começou subir a escada externa para cobrar os passageiros que se amontoavam na capota. Quando sentiu a velocidade aumentando além do costume, achou melhor se atracar com a escada; pressentiu que aquela descida ia ser diferente. Rabeou os olhos para os passageiros lá de cima e riu para dentro, porque eles já estavam apavorados com as mãos garreadas nas grades. Acostumado a passar por ali todos os dias, o menino percebeu que o empresário perdera o controle do veículo. Com algum esforço o veículo conseguiu fazer a primeira curva, mas daí deparou-se com uma tora de bracatinga atravessada. Não havia o que mais fazer: o homem firmou-se no volante, calçou os pés, virou o rosto contraído e encarou o tronco. O choque foi medonho; mais feio que indigestão de torresmo. Os cinco que estavam na capota voaram para se estatelar no chão, mas um foi parar na frente daquele dragão desgovernado. Ficou no chão quieto, parecia desacordado. Nesse meio tempo o veículo subiu um pequeno barranco parecendo querer parar. Mas não, voltou para o meio da estrada reiniciando o ziguezaguear do inferno na direção daquele que estava estirado. Mas também, foi só dar uns buzinaços que ele rolou para a beira da estrada, feito James Bond diante da morte. Safou-se, mas ficou com o cotovelo virado de ré para o resto da vida. Mas aquela era um época em que pouco se via alguém cavando falta para levar vantagem. De modos que nunca vindicou uma merecida indenização.
Com a parada repentina o zombeteiro que viajava na cozinha veio escorregando pelo corredor encharcado de óleo empacando esbeiçado em cima do painel de instrumentos. Não perdeu a pose: "Compadre Riccoldo Mansi, você tem aí uma carta de motorista ou um Almanaque da Lua"?
Depois desse episódio os fregueses fizeram um abaixo-assinado para impedir o proprietário de dirigir o próprio ônibus, mas ele ignorou o petitório. Então formalizaram queixa na delegacia de polícia. Com isso começaram a aparecer outras reclamações. Um queixou-se que ele havia atropelado por querer quatro galinhas. Outro dava conta que em dias de chuva ele fazia questão de passar por dentro das poças encharcando todo mundo. Outro reclamava da falta de horários. Outros ainda acusavam atrasos quando o motorista era o dono. E teve até passageiro reclamando que ele deixava embarcar animais como cabritos, bezerros e marrecos infernizando a vida de todos dentro do ônibus. Diziam que uma novilha enjoou e deixou uma fedentina insuportável. Daí não teve jeito, o delegado pediu que o homem não dirigisse mais o veículo. Mas ele se dizia injustiçado por se considerar um bom motorista; mas não era não.

sábado, 25 de outubro de 2008

UM CANDIDATO DE RESPEITO

Humberto Ilha

Aquele idoso havia sido o melhor prefeito da cidade. Como fizeram em eleições passadas, os notáveis da cidade se reuniram e decidiram apoiar-lhe a candidatura. Mas ele não queria ser reeleito.

O desejo de ser prefeito nascera-lhe de uma indignação, quando ainda jovem. Consta que tomou conhecimento do que vinha sendo feito com o dinheiro público. “É uma ladroeira que ninguém dá jeito”, dizia corajoso. Tanto que seu discurso base era não roubar para poder administrar. Agora velho, mas ainda topetudo, vivia dizendo que se merecesse a aprovação popular iria pavimentar cinco quilômetros de atoleiro, que alguns chamavam de estrada, somente com o dinheiro economizado do roubo. A estrada era um anseio comunitário prometido e nunca cumprido. Era uma obra necessária para escoar oitenta por cento da produção de cebola do município. Ninguém o levava a sério, mas ele insistia no plano.

De tanto perseverar acabou sendo procurado pelo grupo de pessoas nascidas ali, mas que morava em outras cidades. Era esse o tal grupo de notáveis que, diziam, decidia o rumo das eleições. Nos quadros figuravam médicos, magistrados, um ex-governador, professores universitários, um líder comunitário de avançada idade, dois generais da reserva e uma senadora da república. Eram pessoas de bem e por isso mereciam credibilidade da cidade. Em anos anteriores o grupo havia escolhido um critério de preferência: a capacidade intelectual. Pessoas estudadas eram mais aderentes a um plano de ética pública. Mas não adiantava; parece que, quanto mais inteligente, mais o ladrão sabia roubar.

Chamaram o velho para uma reunião e deram-lhe a chance de expor o plano que propalava nas ruas. Não era ele um homem que reunisse as melhores qualidades que o grupo buscava. Com palavras simples e às vezes mal pronunciadas, ele falou somente do plano geral que tinha em mente.
— Eu só prometo não deixar o dinheiro sumir. Com a economia vou levar a rodovia até as tifas das lavouras de cebola. Um dia depois de assumir o engenheiro começa a trabalhar na obra.
O grupo pediu que ele mencionasse a origem dos recursos; se pensava em aumentar os impostos. Mais uma vez ele foi claro.
— Vou acabar com o esquema de propina. Trabalhando com honestidade nas concorrências públicas vou baixar os custos dos bens e serviços que a prefeitura contrata. Não vou aceitar e não deixarei que peguem propinas durante a minha gestão. O controle do dinheiro passará por mim pessoalmente. Vou ficar com a chave do cofre em respeito ao povo.
O grupo suspendeu a reunião por meia hora e voltou com a decisão.
— Vamos dar ao senhor a oportunidade que tanto pede e vamos elege-lo — disse-lhe a senadora falando em nome do grupo.

A partir daquele dia o homem começou a se trajar totalmente de branco. E vestiu-se desse jeito até o dia da posse. Não gastou sequer um centavo com a própria campanha. O trabalho do grupo foi eficiente porque se multiplicou pelos seguidores e parentes, mas a mensagem de que o candidato estava de mãos limpas para servir foi definitiva para o resultado estrondoso das urnas. Fora uma mensagem como nunca ninguém viu. Só se falava no homem de branco.

No dia seguinte à posse, sua neta foi vista demarcando a área para a construção da rodovia prometida. Fixou o prazo de cem semanas para entregar a obra. Na inauguração, nada de foguetório. Entregou a estrada sem alardear e continuou trabalhando serenamente até a hora que o mesmo grupo veio pedir para reelegê-lo. Não quis mais o cargo; já havia feito o que lhe competia. Aconselhou que escolhessem outra pessoa que aceitasse trajar roupas brancas durante o mandato. Então o grupo solicitou que ele indicasse alguém. Relutou por causa do nepotismo, mas no fim foi convencido e indicou uma pessoa jovem e com pouca visibilidade na cidade: a engenheira da rodovia, sua neta.

No dia da posse da moça, ambos trajavam roupas brancas. Como se fosse um branco pontifício, comprometido com a honra e a ética que o cargo exigia.

DEU A CAÇAPA CANTADA NA BARRA

Humberto Ilha

Naquela noite houvera um bafafá medonho com um paulista, só porque usava vistoso chapéu branco de rodeio com as abas enroladas feito Rocky Lane. Rapazes da barra costumam provocar forasteiros atraídos pela beleza e paz da cidade. É nada disso, a violência campeia impune nas ruas. Nem se sabe mais se é caso de punição, pois o que se está reconhecendo é que os índices de criminalidade aumentam com a ampliação da injustiça social. O direito de ir-e-vir das pessoas estava sendo ignorado pelos moços da barra. É inegável a implicância de algumas pessoas com relação aos visitantes. A barra é comunidade fechada que se nega a entregar a virgindade por razões que nem sempre se entende. Abrir-se para o novo pode provocar insegurança e medo. E o medo faz coisas. Se não fosse a lojista reacionária, o turista seria muito machucado. A mulher, uma gaúcha, meteu-se no meio da briga e prometeu chamar a polícia a bem de pararem com aquela agressão. Mas o automóvel importado dele ficou bastante danificado de tanto coco que recebeu. Era apenas um psiquiatra que estava em férias contra um grupo local que passava dos limites. Melhor, era um bando de hienas sorridentes com as presas afiadas querendo guardar a praia e o verão que julgavam ser deles.

Os rapazes ainda estavam saboreando a vitória covarde, quando a atenção das pessoas ficou voltada para nova demonstração de intolerância. Dois gaúchos trajando bombachas e alpargatas mal iniciaram a matear fora da camionete estacionada de frente para a maresia, quando começaram a ser insultados. Os dois não deram importância para as chacotas até que escutaram o bufo do habitual coco se esborrachando na porta do carro. Foram conferir o estrago e pediram para que parassem. Um dos gaúchos, um cinqüentão chamado Gotardo, que se soube também tocava acordeona, quis falar mais alguma coisa, mas foi atingido por uma latinha cheia de cerveja que lhe abriu uma fossa enorme na cabeça. Em seguida, foi jogado no chão e agredido a pontapés até ficar em coma. O outro, um homem de Sarandi, conseguiu afastar os agressores e colocar meio jogado o amigo na caçamba da perua. Tinha pressa de seguir para a emergência do Hospital Universitário. Nem esboçou reação de bate-boca, pois só queria socorrer o ferido que sangrava muito. Furtivamente encarou cada um dos oito covardes. Sem movimentos bruscos embarcou no veículo avaliando o quanto aqueles rapazes eram malvados. Foram mais pontapés, palavrões e cocos, armas eficientes saídas da secura do verão. O forasteiro foi embora enquanto o bando proclamava vitória. Mas era só o começo do rebuliço, pois quase imediatamente ele voltou. Deixara o companheiro encaminhado para um cirurgião remover-lhe um coágulo no cérebro. Só que agora trouxe um reforço também bombachudo, o dono do carro e irmão da vítima. Os malfeitores de finais de semana passaram a hostilizá-los com mais veemência. Não o fariam se suspeitassem que o homem era um delegado de polícia acostumado a lidar com salteadores e assassinos. Os dois turistas desceram do carro amassado e o proprietário perguntou quem se responsabilizaria pelo estrago. Um dos valentes respondeu que não tinham visto nada e recomendou que eles fossem embora dali. Mas os dois vieram com um plano e imobilizaram o valentão que falara. Como num passe de mágica o delegado armou-se de uma pistola e colocou-a entre as pernas do rapaz. À vista daquela arma ameaçadora os demais fugiram como fogem os covardes. Então o policial disse que eles estavam se metendo com quem não conheciam. Que um gaúcho não admitia insultos; e que ele não gostava de cocos — matava a sede com chimarrão amargoso na losna — e que o chiru refém ia saber o que era ser perverso. Disse mais: que era obrigado a ensiná-lo da pior maneira, pois a lei da rua o obrigava assim proceder quando não sentisse necessidade de tirar a vida de um bicho sem mais préstimo. Dizia isso aos demais com a arma sempre encostada no corpudo, que chorava arrependimento inútil.

De repente um estampido forte, uma cápsula zunindo e o rapaz se contorcendo em desespero no chão; o tiro mutilou o futuro do que ainda era casto no moço topetudo da barra.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

UM ADEUS ENROSCADO

Humberto Ilha

Enquanto rezava junto ao corpo do amigo, Antônio Valadão acreditava que somente a prece dele tinha o poder de salvar aquela alma. Não poderia ter faltado ao velório para pedir em favor daquela alma tão cansada da luta que teve em vida. Sem a encomendação especial que sabia fazer, aquele homem não conseguiria bom descanso eterno. Sem o passaporte que sabia providenciar era provável que o morto fosse morar no rebordo do purgatório por bom tempo. Em vida tinha sido bom homem, obtendo créditos celestiais pelas virtudes que sempre cultivara. Mas esse prestígio de nada serviria se ele em pessoa não recomendasse aquela alma.

Olhou para os lados e deparou-se com o padre Aristeu rezando junto ao defunto. Por brevíssimo momento supôs que a prece do ministro fosse mais forte que a dele. E devia ser mesmo, pois trouxera os utensílios litúrgicos para a cerimônia: o aspersório, a estola roxa e a bíblia cheia de macetes, marcadores coloridos e até fecho ecler, parecendo o estojo de um violino raro. Mas depois, lembrando ter visto a atuação do padre na parada da diversidade, convenceu-se que seria ele, Valadão, a garantir ao finado as bem-aventuranças necessárias para triunfalmente entrar no paraíso. Afastou-se um pouco, fez-se triste junto aos familiares e, após longo recolhimento e conferência com o além, foi cumprimentar alguns conhecidos que não via há muito. “Há quanto tempo, fulano. É verdade, sicrano”. No momento em que se percebe como o tempo castigou o outro com rugas, manchas na pele e cabelos brancos, é que se vê como a gente também envelheceu. “Fazer o que? Antes velho do que vestir a mortalha”. Cumprimentando alguns deu de cara com um que havia sido seu subordinado numa empresa de ônibus. Estendeu-lhe a mão de maneira amistosa, mas o outro refugou. Havia uma rusga antiga que estava esquecida para Tonhão, mas não para o outro, que fora pego em flagrante roubando o dinheiro dos passes que vendia no guichê. O gatuno era ainda um jovem descabeçado, mas fora demitido com desonra. Fora exemplo aos demais para mostrar que o crime não compensava. Mas isso fora há trinta anos. Deveria tudo já estar esquecido, mas não estava.
— Como estás?
O outro olhou para a namorada e falou:
— É ruim, hein? Eu te conheço?
— Sou o Antônio, fui teu gerente na empresa de ônibus.
— Conheci lá um desgraçado que me botou no olho da rua. Eras tu?
— Que exagero, meu. Desgraçado, não.
— Deus é justo, cara. Hoje é o Nascimento, mas quem deveria estar esticado ali eras tu.
— Se Deus fosse justo tu é quem deverias estar ali. Só não estás ali deitado porque Deus é bom, ladrão de uma figa.
O outro levantou da cadeira sem cor no rosto: branco como vela de igreja, armou todo o corpo para o ataque. Antônio manteve-se calmo e arriscou:
— Que que é, vais me encarar?

O outro voou-lhe em cima e ambos foram cair sobre um biombo de pano preto junto ao caixão. Aquele anteparo móvel servia para isolar a câmara mortuária dos demais espaços profanos do ginásio, da lanchonete e dos banheiros. Sem nenhum respeito ao defunto os dois queriam brigar. Um deles parecia ter razão, o outro só queria esconder a vergonha que diante de todos. Engalfinhados, foram ao chão com os petrechos do velório: um par de velas acesas, um negro livro de condolências e uma coroa de flores do campo no cabide envernizado. O susto foi geral diante do estrondo. Ninguém acreditava no que estava se passando ali. Uma peleia num ambiente tão impróprio. Mas a cena mortuária se impôs, porque era preciso fazer força para deixar de ouvir o timbre da voz daquela câmara fatal. Uma voz que parecia a própria do falecido: “cambada de cachorros, vamos parar com essa encrenca no velório; vamos ter mais respeito e menos barulho”. Não havia como negar pelo menos isso ao dono daquela reunião lutuosa. Então os dois homens resolveram dar marcha à ré no instinto, pois que ali era local inadequado para uma vergonheira daquelas, e interromperam o pugilato. Nenhum dos dois saiu mais daquele ginásio coberto até que saísse a procissão com o finado na comissão de frente levado pelas mãos de seis nas alças prateadas. Os dois odientos pareciam duas crianças de fraldas estrumosas. Haviam levado, parecia, um pito do presunto que ainda sabia se impor diante de situações graves como aquela. Cada um no seu canto, com a turma do deixa disso na pacificação, ambos pareciam arrependidos, mas nem se olhavam fingindo que rezavam entristecidos. Mas as cabeças concebendo planos para um lugar chamado depois. Até o sepultamento um iria ficar com a orelha inchada e mascada pela dentada do outro; e o outro de olho inchado e vermelho pelo sopapo do um.

Imediatamente após o coveiro lacrar a carneira do finado, os dois retomaram o bate-boca com troca de insultos. Ainda concentrada na cerimônia a viúva dirigiu-se ao operário em tom gemente:
— Acabou?
— Acabou senhora, só falta agora calafetar as fuças desses dois aí — e despejou nos briguentos a colher de pedreiro cheia de massa.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

VIVI PACHECO, O SEDUTOR

Humberto Ilha

Quando questionado pelos colegas qual tipo de trabalho fazia na repartição, o bacharel Vivi Pacheco dizia que era um político e não estava obrigado a cumprir expediente. Que jogava no meio-de-campo, que era um articulador, um estrategista de estado e que não tinha satisfação para dar a ninguém. Mas era apenas um descansado que o amigo colunista chamava de boa praça e detetive da cidade. Posto ali em gratidão ao pai, que fora atleta, o homem só tinha cabeça para as mulheres. Sempre vestindo roupas diferenciadas e das melhores lojas, vivia mais empinado do que cavalo de circo, forcejando no contrapasso da cara muito mal-parecida. Contudo, não tinha culpa disso; coitado, era feio como um talho na bunda. Feio e vazio; mais que pastel de boteco. Só que era charmoso, bom e não conhecia a timidez. Se tivesse que falar com o governador mesmo sem agendar, ele dava um jeito e aparecia na frente do homem como quem sai do nada. Quantas vezes abriu as portas do palácio para aqueles que lhe tiravam sarro? Não sabia guardar rancor, dizia que era burrice. Para abordar uma garota na rua, caprichava no olhar dentro dos olhos dela e já mostrava logo o seu interesse. Quando ela se dava conta estava sorrindo para ele e falando em coisas tão diferentes de sedução que não percebia que aquela era a maneira dele seduzir. Primeiro ele cevava, cevava para depois fluir naturalmente para os lençóis de uma suíte de motel. Era-lhe proeminente um nariz que não sabia conviver com os óculos que possuía; por mais que tentasse, não havia Ray Ban que lhe caísse bem. Baixote e magrinho, o homem lembrava um beija-flor-da-mata: ave pequenina e de frágil aspecto que de repente aparece esvoaçante, melhorando o dia das pessoas. Quem observasse essa criaturinha, por certo conceberia o encanto residente em Vivi Pacheco, que também vivia de bater as invisíveis asinhas no ar para das pessoas extrair o doce. Ninguém se iluda ao buscar-lhe a perfeição que jamais possuiu. Como nas vezes em que, para impressionar, dava-se uma entonação arrogante na voz, como se fora carioca. Aí ficava horrível tê-lo por perto, porque fanhoso e falso como uísque paraguaio. Era um ilhéu da Crispim Mira e não conseguia representar nada melhor que isso. Educado e gentil, conhecia a dimensão do estrago que fazia nelas quando dizia sua melhor frase: “quero fazer você feliz”.

Escutar a respeito de suas conquistas era divertido porque também não escondia quando dava com os burros n'água. Como na vez em que abordou no corredor do Conselho Estadual uma deusa de enormes atributos.

— Procura alguém?
— O Andrade, meu ex-marido.
— Ainda não chegou... Aceita um cafezinho?
— Sim, obrigado.
No ir e vir com os dois copinhos de plástico queimando-lhe os dedos, um manual de artimanhas passava-lhe pela cabeça: "ex-esposa é legal; deve estar carente, a gostosa; que sorte a minha; easy, easy...”.
— Seu rosto não me é estranho, sabia?
— Mesmo? Olha só...
— Por acaso você é advogada?
— Sim.
"Você é um iluminado, cara" — quase falou alto.
— Será que conheço você da Ordem...?
— Quase nunca vou lá.
— Já sei, então conheço você do fórum — arriscou na certeza; qual o advogado vai negar nunca ter ido lá?
— Pode ser.
"Você é o cara" — exibiu-se para si mesmo.
— Em qual vara você atua?
— Fazenda Pública.
— Logo vi, sou Procurador da Fazenda.
— Trabalho lá e nunca vi o senhor.
"Senhor já é deboche", — pensou perdendo a potência, mas ainda vivo no jogo.
— Qual o seu cargo lá?
— Juíza de Direito.
— Humilhou... Quer dizer... Vou chamar o Andrade... Passar bem...

Sabia rir de si mesmo e isso já era virtude que se acha em poucos. Confessava não saber resistir aos encantos de mulher sensual; dessas que jogam charme, mas negam. Como a Glória da Assembléia, que era uma cobiça vinda das profundas do inferno. Era uma garota cara, mais que argentina nova na zona. Diferente das outras, não demorava mais que cinco segundos para se deter num homem e dele extrair os detalhes como altura, cor dos olhos, dentes, cabelos, roupas, sapatos, aliança no dedo, relógio barato, braços, peitoral, carteira, tatuagem e cor das meias; cinco segundos que as outras demoravam vinte. Um homem para assimilar isso tudo, levava quase dois minutos. Mas aí já era tarde, porque ela já largara na frente e não deixava o infeliz respirar direito.

Naquela tarde já havia notado que Vivi Pacheco a observava do outro lado da rua. Então ela se demorou observando com interesse vistosa blusa que estava em destaque na vitrine de luxo. Entrou e pediu para ver até deixar que o procurador percebesse-lhe o interesse na suéter encantada. Experimentou, serviu e mandou que o vendedor guardasse depois que ele disse o preço. Em seguida saiu e foi para dar conta do expediente fantasma. Vivi abordou o vendedor e perguntou o preço da blusa. A pancada foi tal que chegou a fechar os olhos.

— Tudo bem... Pode fazer em doze vezes no cartão? Se pode enleia para presente e manda agora na Assembléia com a mensagem que vou escrever.

Glória sorriu quando abriu a caixa e leu o que estava escrito.

— Que meigo, o cuitelinho.

O romance durou três meses e quase desmancha o casamento com a Zefa, que era como ele se referia à esposa que o amava.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

BONDADE AQUI? NÃO VAI CABER

Humberto Ilha

Nem sempre se ganha, mas às vezes é melhor perder que empatar. Adão Xadeco, motorista de coletivo, desfrutava o primeiro dia de férias. Não conseguia ficar em casa; parecia ter de sobra era vocação para a rua. Não dava à Conilda a mínima chance de ser o que queria ser: esposa. Era uma empregada que ele usava para todo ano tirar umas crias. Onze filhos encordoados, "todos perfeitinhos, graças a deus; mas dão muito trabalho à mãe". Além disso, ele tinha amante também no plural, mas isso quem dizia era ela com a voz dolorosa. Tirada do jugo do pai aos dezesseis, com trinta e seis Conilda estava sob o jugo do mandão. Ele até dente de ouro tinha, ela, coitada, perdera todos em favor da ninhada. Os dois filhos mais velhos já trabalhavam fora. A mocinha era faxineira do hospital, o rapaz vivia de engraxar sapatos, mas achava que vender esteiras de palha dava mais. Outros dois meninos anotavam jogo do bicho. O de doze vendia banana recheada, mas era roubado e apanhava freqüentemente dos marmanjos. Assim mesmo, todo o dinheirinho na mão da mãe, que lavava roupa para oito famílias. Só não passava porque Adão caprichosamente não deixava.

Viajando de passageiro queria estar perto do colega para ir conversando. Fácil de fazer amizade, vivia impecável e perfumado, como filho de barbeiro (velha alegoria que ele detestava). Tinha fama de conquistador fatal. De repente viu que uma mulher sentara-se ao seu lado e se encostara um pouco nas pernas dele. Bonita, deixava aparecer um pouco de si pela fenda da saia. Estudou-a de cima a baixo e olhou para o motorista que lhe deu uma piscadela pelo espelho. Queria saber onde a moça ia desembarcar; pois desceu defronte ao portão principal do cemitério municipal. Não parou, sequer hesitou; foi entrando e andando pelo meio dos jazigos. Adão ia desembarcar, mas o colega fez-lhe sinal para que não. Disse-lhe conhecer a moça e que era costume dela visitar aquele cemitério toda quarta feira às nove da noite; vinha rezar. Xadeco consultou o relógio e percebeu que era hoje.
— Será que vem?
— Com certeza.
— E como faço para ganhá-la?
Então o outro ensinou como fazer para o garanhão se dar bem.

Pelas nove horas estava lá esperando para ver se ela aparecia mesmo. Duvidou, mas ela veio. Desceu do ônibus e foi se esgueirando pelo meio das sepulturas com desembaraço. Xadeco deixou ela se acomodar e aproximou-se para encontrá-la ajoelhada diante de um túmulo na parte mais escura do cemitério. A misteriosa dama trajava longa capa negra com um capuz sobre a cabeça. Lembrando os conselhos do colega, o motorista se aproximou por trás e disse-lhe ser um peregrino que andava no mundo procurando o genuíno amor. A moça assentiu com a cabeça, pôs-se de pé e abriu a capa. Xadeco estremeceu, mas em seguida experimentou uma sensação de paz que o comoveu. Então, num travão de arrependimento, falou que não era um peregrino; que havia ficado louco por ela quando a conheceu no ônibus. A moça escutou-o atentamente e falou que também gostara muito dele, um homem alinhado e sedutor. Mas que ela não era aquela de quem ele falava. O motorista quis adivinhar quem ela era, mas não teve tempo. Sacando uma pistola a mulher obrigou-o a deitar-se no chão com as mãos para trás. Apareceu o colega do ônibus que lhe amarrou os pulsos com uma língua-de-sogra. "Um seqüestro" — pensou, e dormiu nas profundas do abismo para acordar sem os rins.

A esposa soube dos detalhes pela exposição da crônica policial e largou tudo para cuidar das sessões de hemodiálise do infiel. Adão Xadeco aguardava sem esperança um doador compatível quando os médicos descobriram nela a salvação dele. Conilda deixou que brotasse a rosa na vala podre. Deu-lhe um rim, negou-lhe o perdão suplicado e mandou-se.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Projeto Cidade Contada



O HOMEM E SUA SOLIDÃO
Jacqueline Iensen


Raul Caldas Filho (foto) apresenta hoje o conto A Passageira no Cidade Contada.
No dia em que completou 70 anos, Turíbio Sousa não abandonou a rotina. Avesso a comemorações pegou o barco e rumou para o trapiche para a pescaria do dia. Em meio aos pensamentos turvos acumulados ao longo de sete décadas de vida, teve um que, especialmente, iluminou o dia - e talvez a vida - do homem do mar que gostava da solidão.

Este é tema de A Passageira conto do livro O Vendedor de Diabos que o escritor Raul Caldas Filho apresenta hoje no Projeto Cidade Contada, na Casa da Memória, em Florianópolis. O fato que despertou o brilho no olhar de Turíbio havia se passado há exatos 40 anos, em 13 de maio de 1929, dia da inauguração da Ponte Hercílio Luz.

Era uma noite fria, com mar agitado pelo vento Sul. Aos 30 anos Turíbio estava num bar quando foi chamado para ir até um navio que recém-atracara nas proximidades da Ilha de Anhatomirim, onde permaneceria por 24 horas. Como de costume, Turíbio embarcou no navio para conferir os documentos quando viu uma bela e misteriosa passageira. Ao saber da inauguração da ponte a mulher quis conhecer tamanha e ousada obra de engenharia. E foi durante estas 24 horas que a vida de Turíbio mudou para sempre.

Cidade Contada é uma proposta de leitura pública de contos que tenham a cidade de Florianópolis como tema e que são ilustradas com imagens históricas. Uma forma de recuperar a memória urbana e paisagem natural da Ilha. O escritor Raul Caldas nasceu em São Francisco do Sul em 1940. Além da literatura, também se dedicou ao jornalismo, com atividade na imprensa cultural em SC e trabalhos para a revista Manchete. Publicou livros de crônicas, entre eles Delirante Desterro (1980), Oh! Que Delícia de Ilha (1995) e Oh! Casos e Delícias Raras (1998). Como contista, escreveu O Jogo Infinito (1984) e D de um desempregado (2000). Sua obra mais recente, de 2003, é o livro ABC do Manezinho. O projeto mensal é uma promoção da Casa da Memória da Fundação Cultura Florianópolis Franklin Cascaes (FCFFC). (jacqueline.iensen@diario.com.br)

Quando: hoje
Onde: Auditório da Casa da Memória (Rua Padre Miguelinho, 58)
Horário: 19h
Ingresso: gratuito

Fonte: Diário Catarinense Ed. Nº 8218.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O GUARDA DO TEMPLO

Humberto Ilha

O bom coração das pessoas parece ter limites para agir. É um embuste dos grandes, alguém decidir ser bom de um dia para outro. Mas ninguém se torna bom se não começar a imitar os guias da compaixão. Um dia o bom coração rebenta sem que o talo se dê conta. Mas até isso acontecer muita cena de remorso há de rolar. O aprendizado começa em casa, depois é a escola, a igreja e o trabalho, para se consolidar nos cafundós do mundo, que é onde as coisas acontecem.

Pois um templo é sempre local de refrigério para a alma. Local onde as pessoas procuram para aliviar a pesada carga da ossada. Conheci um na parte continental da cidade; na rua que dá para o mar. Desde criança tive conhecimento que ali era local de oração e caridade. Mas era também local de peregrinação de vivos e mortos. Diziam que desencarnados eram atendidos ali sem que lhes pedissem carteira de identidade. Para receber atendimento o visitante do além não precisava estar cadastrado; todos tinham assegurado o acolhimento independente do quilate devocional. Mas eu somente via a peregrinação dos vivos que para lá se dirigiam em busca de remédio, comida e dinheiro. Vizinhos eram constantemente incomodados pelos que pediam. Um deles havia colocado um aviso: “Aqui não é o Centro Estrela Guia”. Quem preparasse a mão para bater naquela porta dava de cara com esse aviso. Vi alguns recolherem a mão à meia viagem. Ficava engraçado quando vinham em dois conversando e se preparavam para golpear a porta daquela casa. Depois de ler o aviso faziam que nem avião quando recolhe o trem de pouso. Onde então o templo? Bem ao lado, e com um enorme letreiro indicando os dias e horários das sessões. Então como não ver? Exu, o orixá guardião dos templos e encruzilhadas certamente saberia dizer. Por certo, tinha-se que aquele era um local conhecido pela bondade dos seus membros, que diziam ser a fome física algo concreto para o mortal.

Naquela noite o grupo estava reunido para tratar de assunto da economia da casa; o tempo previsto era de hora e meia. A reunião estava começando quando bateram de um jeito profano. Obreiro dedicado como sentinela, Neném Bordoada levantou-se para ver quem assim batia. Deu de cara com um freguês de cesta básica. Do alto de seus quase dois metros de altura ruminou má vontade: “Que diabo, esse cara está sempre aqui pedindo”. Entretanto, fez-se afável, recurvou a espinha, desculpou-se e pediu que o coitado viesse no dia próprio, isto é, dali a uma semana. "Boa-noite; boa-noite", fechou a porta e acomodou-se com aquele seu ar de mando para continuar a sessão. Sujeito lúcido, há muito passado dos branqueados oitenta, além de comandar sabia se desenhar como um gato que se põe alerta. Não conseguiu reprimir um recorrente pensamento doutrinal que lhe aflorou à mente: "A dor desse infeliz não lhe poderia ser útil para depurar-lhe o espírito?"

Dali a cinco minutos o mendigo voltou a chamar os de dentro. Neném Bordoada controlou-se para atender o pedinte, que novamente pedia o rancho; a mesma desculpa, mas antes de despedir o homem, pediu-lhe que fosse para casa dormir e então viesse no dia seguinte para ver o que poderia fazer. Ambos tinham biografias curtidas, um pela cachaça e outro pela água salgada da vida, sabiam que a necessidade exige ação. Assim mesmo o guardião fechou a porta e sentou-se mais uma vez para dar seqüência à reunião, que não queria andar. Um exu não dorme, pensava, sequer relaxa; quando muito apenas descansa. Mesma coisa acontecia com o seu Neném; não estava ali para descansar. Quase imediatamente, o inimigo voltou a bater. Sim, porque somente um inimigo arrumaria uma provocação daquelas. O sangue subiu e deu uma raiva tal em Neném Bordoada que esmurrou a mesa para encarar o homem. Nem deixou o diabo abrir o bico para repetir a ladainha. Desferiu-lhe um direto no queixo para pô-lo nocaute. Assustado, não esperava que a bomba saísse com tamanha potência. Todos se levantaram para atender o mendigo, menos seu Neném, que chorava de remorso. Reconhecia faltar muito para ser bom. "Que raiva, — ganiu — dá vontade de desistir de tudo".

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ALCIDES

Humberto Ilha
Um à-toa que nem o Alcides não se encontra por aí assim. Não que fosse mau, não era. Mas que era um safado aprontador, isso ele era. Durão, feito carapaça, mas tímido e introvertido que nem um tatu, quase sempre aproveitava as ocasiões para caprichar um desempenho fraudulento; mesmo que em cima do pai. O prazer de rir dos outros não lhe sobrepunha limites. Dizia que o mais difícil era fazer-se de insuspeito para ninguém dele desconfiar. Esse era o seu talento: manter-se oculto diante de todos; não se deixar revelar o próprio miolo.

Nos dias de hoje pode-se dizer que a caçada ao tatu seja algo abominável, pois já tipificado como crime inafiançável. Mas nem sempre foi assim. Alcides foi convidado para uma caçada no sítio do próprio pai, lá para os lados da Vargem do Bom Jesus. Homem da roça, seu Manoel Liporda sustentava o dito repetitivo de que nunca o veriam com os dois pés no chão, de tanto que trabalhava. Uma vez no ano ele reunia os amigos em noite de lua cheia para caçar o tatu. Parecia ter intimidade com o cascudo; que o criara no fundo do quintal até que o bicho topasse com a derradeira hora se ver caçado. Dava a impressão que fazia um bem danado ao bicho, que só comia insetos de tão inofensivo que era. Como os poderosos, xingava o tatu de ingrato quando o pobre esperneava para se safar do facão.

Alcides iria participar daquilo que valia como um rito de passagem para a condição de quase adulto; um moço. Mas o jovem fora criado na cidade, cheia que era de escaninhos zombeteiros. Era muito à-toa, o rapaz. Definitivamente não era ainda um homem, mas o pai apostava nele; perdia sempre, mas arriscava. "Por enquanto esse à-toa não vale um ovo, por Deus do céu. Não presta para serviço nenhum. Mas um dia ele endireita".

Chegou ao sítio uma semana antes da lua cheia marcada para o inocente folguedo. Os petrechos o velho já havia preparado: lanterna de querosene, bocó, vergas de bambu, cortadeiras, facão, cavadeiras, jabuticaba curtida e o cachorro Sabido. Chegada a noite, havia muita animação e uma tensão ancestral diante do ato de caçar. Tocaram mato adentro; Alcides na rabeira cantando Portãozinho e Porteirinha: "O tatu é bicho manso e nunca mordeu a ninguém. Só deu uma dentadinha na perninha do meu bem. Anda a roda tatu é teu; voltinha no meio tatu é meu." O pai do rapaz queria mais silêncio na veação.
— Isca, Sabido! Vai procurar, vai!
O bicho se mandou pela encosta de vegetação emaranhada. Morro acima e todos em silêncio a espera do cão, que não vinha; que nem latia. De repente o ganido conhecido do animal rasgou o silêncio e a correria na direção dos latidos através da capoeira grossa. Difícil, porque no escuro não se viam as pedras, os paus, os galhos, a lama e os formigueiros. "Perdeu-se o bicho" decretou o chefe da caçada. De repente Sabido saiu acoando seguido como a dizer: "ali está, por aqui, gente". Não fosse tão escuro, era de se dizer que o cachorro apontava a toca com a patinha abanando o rabo feliz.

Enquanto isso Alcides fuçava sozinho para outros lados. Foi aí que encheu o peito e gritou bem alto: "Peguei um". E baixinho com orgulho: "O pessoal não vai acreditar que achei um baita logo na primeira vez". Não era fácil conseguir um; quantas vezes o grupo voltava sem nada? E olha que era gente de sorte. A diminuir o desencanto, naquelas vezes em que nada trazia, Liporda desdenhava o insucesso dizendo que fora caçar só por farra. Mas Alcides bem sabia que o velho ficava desconsolado. Isso ele via quando lá um belo dia o grupo trazia um bicho. Então o velho fazia uma festa daquelas. Diante do buraco, Alcides preparou a verga de bambu para cutucar a toca; devia esperar o pai, mas não quis dividir a glória. O vasilha não conhecia nada de mato; fora criado na cidade, lugar onde só se via tatu nos livros. Cutucão daqui, cutucão dali, o bicho fugiu. Nisso ele viu a turma chegando para ajudar a desentocar o desdentado. Alcides agarrou uma cabeça de pedra e fez que rolasse morro abaixo fazendo grande estrondo. "Fugiu, fugiu", gritava fingindo desencanto. O pessoal saiu correndo atrás do barulho medonho; inclusive o cão, que se meteu na frente da pedra para barrar-lhe a fuga e dela tomou um solavanco resultando um vergão no lombo. O velho achou que o bicho fazia estrago demais na coivara; devia ser mais que um porco-do-mato ou mesmo um terneiro assustado. Vieram descendo na pilha do barulho, mas já viam também o rastro deixado para trás na roça de cana. "É coisa grande, minha gente", alertava Liporda já temeroso: "Deus que me perdoe, mas parece um boi-tatá". Quanto mais descia a pedra ganhava mais velocidade. Estavam chegando de volta à casa de morada quando se ouviu um estrondo medonho na parede de estuque da cozinha. O velho dono do sítio arfava de cansaço quando lhe abriram um claro para que visse o tamanho do estrago que fizera aquela pedra: abriu um buraco na parede entrando cozinha adentro indo parar no meio dos destroços do fogão. Desanimado, seu Manoel pegou uma pomboca de querosene, olhou bem para a obra do filho e gritou: "Alcides, seu urubu, o que mais eu não sei de ti?"

E mais dele nada sabia. Sequer lhe suspeitava a vocação despertada durante aquela caçada. O rapaz foi para a Austrália, fundou a Alcides Excavation & Demolitions, ficou rico e de lá não sai tão cedo.

domingo, 21 de setembro de 2008

O SARGENTO DESMAIOU

Humberto Ilha

A carteira do Banco de Sangue conferia-lhe a condição de doador universal. Não ia deixar de atender ao pedido do comandante: levar cinco com sangue "O positivo" ao Hospital para socorrer um baleado grave. "Deixa comigo que dou um jeito, major". A fala do sargento soou convincente e responsável num quase brado militar. E dali foi atrás de mais quatro porque ele já era um.
Diante de tão inoportuna missão ocorreu-lhe procurar entre os domesticados da cozinha. Estava com sorte, arrumou quatro e se foram num velho jipe de puxar esterco. No trajeto percebeu que nenhum deles havia doado sangue. Então o homem disse que na Capital isso era corriqueiro mostrando-lhes orgulhoso a carteira de doador; que era procedimento indolor para homens de fibra; explicou-lhes o valor da solidariedade humana sem esquecer que depois de tudo vinha um lanche reforçado para cada um. Pareceu-lhe que a gororoba fora o melhor argumento até ali, porque eles riram um pouco.

Ao desembarcar da viatura percebeu que os quatro estavam com as mangas já arregaçadas e com uma das mãos sobre o local do braço onde iam receber a agulhada. "Estão encagaçados; acho que vou ter trabalho com os cozinheiros. Parecem tão fortes e tão cheios de maricagem". O médico do Esquadrão já os esperava; o baleado queria morrer, parece. Levou todos para uma sala de procedimentos e perguntou quem era o primeiro. Os quatro olharam para o sargento, que designou um já branqueando diante da incerteza daquela sala cheirando a éter. O jovem sentou confortável numa espreguiçadeira e a freira nem deixou que sentisse dor alguma. Quando o rapaz se deu conta já estava se esvaindo para dentro de uma bolsa estéril; meio litro. Veio o segundo com mais arrojo, mas sério e branco como um defunto. Deu meio litro do precioso e ganhou o sorriso de aprovação do sargento. Com o terceiro foi mais fácil a adesão, mas a agulhada fechou a cara do mísero numa careta ostensória. A enfermeira acabou perdendo a veia do rapaz para dar mais uma espetada. Outro meio litro já levado lá para dentro, mas o doador ficou meio desencantado num canto da sala segurando o algodão no braço. O quarto voluntário foi o cabo cozinheiro, um avô que acreditava em papai-noel. Antes de oferecer seu inestimável braço olhou para o chefe como a perguntar: "posso me entregar"? Um gesto do sargento deixou-o suave e à mercê da freira que só queria saber de furar. O homem levantou-se e decretou: "Agora é a vez de o sargento dar". Arisco na ironia o militar corrigiu: "Não vou dar coisa nenhuma; vou doar". Era a vez do líder que já se arregaçava todo para deixar que lhe espetassem o braço quantas vezes fossem necessárias para o efetivo desempenho da missão que lhe fora confiada (clichê albergado ainda na Escola Militar). Quase buzinou nos ouvidos dos cozinheiros o patrono Marquês do Herval: “É fácil a missão de comandar homens livres: basta mostrar-lhes o caminho do dever”. Mas achou melhor fechar a matraca e ensinar:
— Não disse a vocês que era tudo muito simples?
Dizia isso com aquela voz de mandar nos outros, daquela que vinha sempre de cima. Enquanto doutrinava, abria e fechava a mão sem que ninguém pedisse. Como se fosse ele quem tivesse inventado a doação de sangue; melhor, como se tivesse inventado o sangue (quem se lembrar de Machado de Assis aqui, não pense tratar-se de mera coincidência). Os quatro soldados, testemunhando tamanha segurança advinda daquele jovem líder já estavam de olhos meio arregalados. Nunca se viu alguém tão cheio de bossa como aquele.

A coleta no sargento havia terminado e já se preparavam todos para abocanhar a prometida merenda, quando o maioral perdeu a audição. Depois perdeu a visão e o equilíbrio para se agarrar no que estivesse por perto. Atracou-se com a freira alarmada: "Alguém segura este homem que sozinha não consigo". Foram os dois para o chão. "Desmaiou... Ventila, ventila... Abaixa a cabeça dele... Água, água..." Até que melhorou. Foi uma vergonheira, credo.

Quando o jipinho do esterco chegou ao quartel parecia que todos esperavam um funeral. Queriam saber do sargento. Sentado no primeiro banco, verde, cabeça pendendo para o lado de fora, lábios descorados, olhos fechados, seguia vagarosamente como se fora Charlton Heston em El Cid Campeador, morto sobre o cavalo a desfilar diante da tropa contristada. Mas só por agora, porque depois o calvário do doador universal ia começar. Então o major perguntou o que houvera. O velho cabo assumiu o comando dos quatro e respondeu sufocando o deboche:
— Homem de Deus, o sargento desmaiou.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

ESTAVA INDO TÃO BEM...

Humberto Ilha

Engana-se quem pensa que o céu é perto. José Galo era um Contador capaz e exercia o ofício de Auditor do Estado. Num domingo à noite, voltando ao interior, trajava blusa de lã muito fina e inadequada para o clima da serra. Acomodou-se em duas poltronas do Reunidas Noturno. Necessário descansar para encarar o dia penoso na manhã seguinte. Acostumado a dormir no primeiro balanço, o veículo nem andou dez minutos e Zé Galo já era. Só acordou três horas depois tiritando de frio, com o ônibus parado fazendo escala no pé da serra. Três graus de temperatura dentro do veículo; lá fora, horrível. Entraram quatro moças e um rapaz. Uma foi na direção dele sorrindo e caminhando vagarosamente procurando o lugar que lhe cabia. A cada busca do número ela olhava e esboçava-lhe sorriso iluminado. O Auditor arriscou pensar que ela ansiava sentar-se ao lado dele. "Está no papo", pensou. José Galo se considerava um assaltante, em matéria de conquistar mulheres; tinha faro de predador e escassa compaixão pela presa. A moça colocou a bolsa de mão no bagagito e se preparava para sentar ao seu lado, quando alguém reivindicou a poltrona. Conferiram os bilhetes e ela foi sentar-se num banco imediatamente à frente. Quando Zé Galo olhou de cima a baixo o vizinho quase não acreditou. Era um rapaz de tez acobreada, puxando a bugre. Trajava uma camisa fina de manga curta, calça jeans e tênis todo detonado. Era um ferrado, um caboclo. Trescalou, no sentar, cheiro de álcool e morrinha de quem não se lava. O fedor vinha também dos poros do homem. O chulé que subia do porão das calças espalhou-se no salão de passageiros. O ônibus não tinha calefação para dar conforto aos usuários, mas catinga quente ele tinha. José Galo, que ia ficar tão bem albergado ao lado da moça bonita, de repente se viu obrigado a viajar mais seis horas ao lado daquele caminhão do lixo: "deus-que-me-perdoe". A moça olhou para trás, sorriu e fez com os ombros que sentia muito. Os passageiros começaram a pedir que o motorista fechasse a porta e tocasse o ônibus. O frio parecia entrar pelo corredor como lança de gelo para lacerar em dor o peito de Zé Galo.

Em menos de dez minutos aquela fossa errante já havia adormecido com direito a ronco. E o pior: dormiu encostado no ombro de José Galo, que o empurrou delicadamente de volta ao seu lugar. Novamente o imundo foi repousar no ombro do já irritado Auditor. Contudo, além da cabeça, o homem encostou-lhe os braços e as pernas. Antes de obrigá-lo a se arranjar em seu lugar, José Galo, que estava gelado, experimentou o calor do corpo daquele homem ao seu lado. Resolveu deixar que ficasse ali, quentinho e quieto. Sentia tanto frio que não fez caso da repulsa de estar quase abraçado ao ensebado. Dizia sempre que detestava macho; que, mesmo perfumado, homem tinha catinga. Mas aquela era uma circunstância que o desobrigava da regra. O frio era desumano para se ater às comichões machistas. Queria mais era se esquentar, nem que para isso tivesse que pagar mico. As luzes estavam apagadas, todos dormindo; por que não? Aconchegou-se, ele também, ao corpo daquele que há pouco desprezara. Tão quentinho estava que dormiu direto. Só se apercebeu do final da viagem porque sentiu falta do balanço do ônibus. Olhou em volta e não viu os passageiros. Levantou-se sobressaltado e foi resgatar a bagagem de mão. Não encontrou nada. Pensou no diabo que estivera ao seu lado. Foi no bagageiro recuperar a mala grande, nada. "Foi ele", pensou. Já estava se dirigindo para reclamar no guichê da empresa quando avistou o bugre patife. Agarrou-o pelo colarinho e derrubou-o no chão aplicando-lhe poderosa chave de braço ao som dos palavrões mais absurdos para àquela hora da manhã.
— Onde está minha bagagem?
Sem poder emitir som, o rude apontou para os sanitários da rodoviária. Descorado de tanta cólera e desejo de vingança Zé Galo foi entrando porta adentro sem nada encontrar. Olhando na direção do bugre, como a indagar num amplo gesto com os braços, perguntou pela bagagem. Novamente o índio apontou para os sanitários, mas desta vez para o feminino. Entrou lá e encontrou seus pertences com a piranha da poltrona da frente.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O PALHAÇO QUE ENXERGAVA NO ESCURO

“Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão” (Choro Bandido, de Chico Buarque e Edu Lobo).

Humberto Ilha

No dia seguinte ele já estava trabalhando no Parque de Diversões. É que um dia antes fez algo por baixo dos panos. Dormiu pouco, mesmo assim não se via sinal de trinca na estrutura da fachada do homem. Antes de tudo escutou aquela história dramática que ia ribombar em sua cabeça até que conseguisse aquietar o deus da morte, de quem era vizinho.

Soube que um homem adotara um menino criando-o junto com a própria filha. Ao tornar-se um rapaz, tornou-se também um mandrião que não queria saber de trabalho. Isso dava imenso desgosto ao pai, que trabalhava duro na roça de cana junto com a menina. O vadio já havia se metido em várias encrencas e ganhara um golpe de facão em cima do olho esquerdo que lhe deixou cicatriz e o olho cego. Então ficou sendo conhecido como Caolho.

A adolescente queixou-se ao pai de que o irmão estava se aproveitando da bondade dele. Um dia, em conversa com o marmanjo, o velho chamou-o à atenção sobre o que a filha havia dito. O rapaz prometeu arrumar emprego. Mas, ardiloso, ele concebeu uma vingança: matou a irmã dentro de uma patente no fundo do quintal e fugiu do lugar. O caso ganhou contornos pesarosos e se espalhou na região. Por se tratar de crime violento, gerou revolta nas pessoas germinando ali um perigoso clamor de vingança. Mas o assassino já estava longe; veio morar no Sul.

Passados dois anos um viajante, que se declarava revoltado com a falta de justiça, comentou o caso com um dos atores do elenco do filme "O Preço da Ilusão" (argumentado por Eglê Malheiros e Salim Miguel) que estava sendo rodado na cidade aonde Caolho viera se esconder. Outro não era senão o palhaço Coruja, que decretou:

— Conheço o assassino e sei onde ele está. Diga ao pai da menina para descansar que o malvado já era.

Naquela noite, como nas outras, ostentava aquela gravata horizontal: poá com as abas grandes. As largas riscas brancas do traje impecável deixavam-no mais longilíneo. Mulato de olhos azuis, alto quase arcado, gostava de sapatos pretos de tacões sempre novos para garantir o andar aprumado e leve. "Um artista, dizia, nunca terá dignidade com os saltos dos sapatos desgastados". Camisas sempre brancas — tinha umas quinze para trocar três por noite — levemente borrifadas pelo fuxiquento Lancaster. Unhas grandes nas mãos suaves confrontavam a rude torquês de arrancar as setas disparadas nos alvos pelas espingardas de pressão. Dentão de ouro maciço, visível até quando pensava. Vasta cabeleira crespa já prateando, Coruja dava ares de ser alguém especial e que já se despedia de fazer coisas arriscadas pela vida. A voz toda de César Ladeira ele a gastava anunciando os pontos enquanto manipulava com rara habilidade o alicate para extrair as setinhas de plumas coloridas.

No ir e vir até o balcão divertia-se fazendo malabarismos perigosos com aquele alicate nas mãos quase enfeitiçadas. Possuía duas tenazes daquelas, mas da maior era melhor ficar longe. Aquela torquês parecia ter parte com o diabo. Para arrancar aquelas tachinhas da madeira não precisava tanto. Mesmo assim nunca despertou sentimento de medo em quem lhe prestasse atenção. Pelo contrário, não fosse tão conhecido bem poderia ser confundido com um cervo de linhas efeminadas. E olha que ontem nem parecia ser quem era, pois trajava roupa furtiva; um preto sobre preto. Quase invisível a olho nu, aplicava-se ainda venda preta no olho direito; e isso lhe era bem visível. Aquele tampão apagava as suspeitas sobre seus rastros, se por ventura alguém os descobrisse. Imóvel dentro da sombra do "Margarete" somente respirava; quer dizer, respirava e pensava. Estava prestes a dar conta de um carreto prometido.

O lenço preto na cabeça escondia o pixaim prateado. Às vezes escapava-lhe uma tosse abafada, para dentro; quase um rosnar de bicho. Naquele instante Coruja era um bicho. Esperava alguém que viria do "Bar Glória". Sem perceber, o tal veio se abrigar da garoa ao lado do próprio carrasco. Primeiro recebeu uma fita plástica na boca e depois duas algemas nas mãos para trás. Com o único olho arregalado, protestava maneando a cabeça fazendo que não. Estava imobilizado e diante de um algoz conhecido de outras bandas. Coruja sorriu um sorriso perverso dando-se a conhecer por aquela ameaçadora presa de ouro na boca. Então Caolho ficou aterrorizado dando ares de tudo entender, enquanto era dissecado pelo olhar gelado de atravessar tudo do carrasco; enquanto ouvia a voz do predador.

— Um dia te deixei viver para veres o mundo com o olho direito; para compreenderes o que é positivo na vida: a felicidade, o amor e a compaixão. Agora me enxergas com esse tampão no olho. É que desejei te enxergar com o meu olho esquerdo, que é por onde enxergo a podridão.

Em seguida Coruja sufocou o sobrinho pinçando-lhe as narinas com aquela torquês do inferno, já escondida por dentro.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

CHUVA REVELA OURO SOB A CARCAÇA

Humberto Ilha

Muitas vezes quem bebeu todas quer mesmo é ficar encostado à cangalha da bebedeira, no velho exercício da autocomiseração. Quem chega de fora, mesmo na primeira fila, pouco vê o que possa existir lá dentro daquela carcaça.

O infortúnio jamais encontrou abrigo tão adequado como na pessoa de Aristides, que logo cedo começava com uma dose a comemoração pelo fato de haver parado de beber na noite anterior. Estalava a língua quando mandava dois marteletes de cachaça para dentro. Mas não agüentava a inocente mistura de vinho, conhaque e aniseta. Era de revirar-lhe o bucho e o dia estava perdido. De estatura baixa, magro, quase um índio, mas com a alma azul, que desafiava a justiça divina quando comparada com as coisas da terra. Não havia criatura de melhor coração e de pior sorte. Padecia de beleza, mas trazia escondido dentro de si as melhores digitais da moralidade. Estivador, amava jogar no bicho. Tinha estilo e coerência para fazer a fezinha. Perseguidor incansável da centena 188, jamais soubera pronunciar direito o nome do felino correspondente. Não é que entendesse alguma coisa de numerologia. É que confiava na sabedoria do acaso. Havia juntado do chão uma placa esmaltada com o tal número estampado. Uma dessas que se coloca nas casas para os carteiros encontrarem o endereço das pessoas. Teve a idéia de pregá-la na fachada da privada, no fundo do quintal, como se fora um troféu. Lá uma vez perdida ganhava uma bolada. O bicheiro era homem honesto. Ironia à parte, era honesto dentro do ilícito. Em acordo com a lei da rua. Enquanto isso ia ficando riquinho com a contravenção tolerada.

Quase analfabeto Aristides só lia papel de letras grandes. A exceção que fazia era para as letrinhas no caderno da venda. Depois das seis da tarde entrava lá e começava a implicar com o proprietário. “O café está caro; sei onde tem mais barato”. Ao Nestor cabia-lhe apenas represar a irritação. Aristides divertia-se à larga. Mas também a encrenca dos dois não passava disso. Dizem que Aristides bebia por desgosto. A mulher se consumia em tuberculose; coitada, internada no Nereu Ramos o tempo todo. Tratado como um sem vontade para largar o vício, merecia o respeito dos que o conheciam e ao seu drama. De qualquer jeito parecia desumano tratá-lo dessa forma. A vizinhança lhe conferia apoio, menos Duarte, um marujo que dava duro para viver. De justiça diga-se que muito fez para ampará-lo quando enchia a cara.

O estivador chegava em casa e começava a jogar porta a fora a louça, as panelas e os talheres. Em seguida pegava os dois potes cheios de água e os estourava na rua com grande alarde e aos gritos de “O negócio é o seguinte... seguinte... seguinte”. Não dizia nada com nada. As duas crianças corriam para a casa dos vizinhos. A mulher de Duarte pedia e o marido ia lá, dava um banho nele, colocava-o na cama e punha-o para dormir; fizera-o muitas vezes, mas agora não estava mais disposto a ajudá-lo. Então passou a não mais atender aos pedidos de socorro que a própria esposa lhe fazia. Começou a endurecer no tratamento com o vizinho, que tinha parentes bem nascidos. Entretanto, somente o primo Osni Motter, o feio, o recebia na Assembléia Legislativa para atender-lhe as necessidades.

Duarte sofria de hipertensão severa, segundo o médico do Instituto. Além do mais era epilético e fazia tratamento com um barbitúrico: Gardenal. Muitas vezes ficava descompensado e não havia quem conseguisse o remédio na cidade. A não ser o Aristides. Quando sabia que o vizinho estava assim ele ia à casa do primo e conseguia o medicamento. Mas agora o irritado marinheiro havia proibido a esposa de pedi-lo para trazer o remédio. Não queria mais favor dele. Mas também não o ajudaria mais quando chegasse chumbado em casa.

Naquela noite chovia de fazer barulho, Aristides chegou encharcado em casa. Por dentro e por fora. Começou a quebrar as coisas e as crianças fugiram. Depois foi para a rua e começou a desafiar: “Seu Lucas, está com medo ou está com nojo?”. Duarte estava de cama, com a pressão altíssima e sem medicação; quase tendo um derrame. A provocação durou um tempo até que o embarcadiço cedeu aos pedidos da esposa para ir lá e colocar o homem a dormir. Resmungou que tinha era vontade de dar-lhe uma surra.
— Melhor é compreendê-lo; — disse ela — creditar-lhe virtudes que você não tem.
— O Aristides é um indigente de caráter.
— Nem tanto. Você tem pressa de envelhecer quando não consegue disfarçar sua voracidade pelas notícias do vermelho Novos Rumos; ele nem sabe ler. Você ama polemizar usando argumentos bem nutridos, fluentes, diretos, contundentes e realistas. Ele é um homem bom, romântico como os bêbados, que vão para lá e depois para cá; que param, andam, resmungam, ameaçam os fantasmas que só eles vêem, ironizam, falam sozinhos, pois se bastam a si; que choram, escorregam e caem para se levantar e seguir na vida. Ele vai viver mais que você. Quando ela começava assim, Duarte tinha que sair de fininho para não escutar o que ela consignava nas notas de rodapé. Foi lá e encontrou o outro estirado no chão com a chuva do telhado caindo-lhe sobre o rosto vincado pela dor na alma, pelo trabalho duro da estiva, pela solidão sem luz, pela falta de futuro. “O corno está morto e não sabe” — sorriu, —“a carcaça já larga catinga...” Discutiram um pouco e Duarte levou-o para dentro, tirou-lhe a roupa, deu-lhe um banho, pô-lo para dormir e ia iniciar uma prece quando Aristides sentou na cama, coçou a cabeleira preta e zombou:
— Está com medo ou está com nojo?
Duarte virou-lhe as costas e o outro caiu já roncando.

Ao passar pela cozinha Duarte deparou-se com três caixas de Gardenal.

domingo, 7 de setembro de 2008

O INESQUECÍVEL ANTÔNIO PÉ DE PATO

Humberto Ilha

Alberto Capa Preta veio contar que Antônio Pé de Pato estava trabalhando de operário na ponte batendo ferrugem. Mesmo que a gente dissesse que era um bom trabalho, ele não gostava porque lhe soava que o estivéssemos mandando ir trabalhar. "Fico desempregado, mas não vou me pendurar lá como um macaco amarrado pela cintura no sol e na chuva". Achava isso desonroso. Pelo menos Antoninho estava defendendo o jabá de cada dia porque a vida era pedreira. Mas Betinho era metido a ser especial só porque tinha cara de roqueiro; só porque andava para cima e para baixo com o Roberto Carneiro cantando o repertório do Elvis; ficava imitando o astro como se acometido de epilepsia. Na época ninguém sabia, mas aquela panca de artista só fazia sucesso na zona, onde era conhecido como Capa Preta. Amargou esse apelido o resto da vida junto com as doenças que pegou por lá. Teve juízo, porque jamais casou para evitar o alastramento da praga encalacrada na carcaça. Cancro Duro, Crista de Galo, Esquentamento, Hepatite B e Chato, só para não deixar grande a lista de moléstias que arranjou com aquela veneta de virar roqueiro num lugar pequeno. Quando ele apontava longe as mulheres já o bradavam por causa daquela capa de lã até as orelhas. Entrava e já ia desabotoando tudo para parecer melhor de se ver. Para deixar evaporar o Topaze legítimo que conseguia com os muchachos argentinos nos trapiches da Rua 14 de Julho.

Dia seguinte o vadio levantava somente quando Pé de Pato chegava para almoçar, pois a casa era ao lado.
— Vai lá rapaz; a vaga ainda é sua.
— O salário é mesmo aquele?
— Vai lá; vai lá.

Foi mesmo, mas queria primeiro ver Antônio trabalhando; conferir se ele próprio agüentava o tranco. "Que seja, mas não gosto de trabalhar amarrado como um mico". O outro veio e explicou as graves responsabilidades de segurança no serviço. Alberto resolveu encarar. Para debochar do canteiro de obras perguntou:
— Posso urinar lá para baixo?
— Só não molha as ferramentas.
Era tanta urina acumulada que iniciou fazendo um arco, depois umas rodilhas e o resto foi em cima de uns cabos de alta tensão. Nem se lembra disso, mas foi jogado no mar desacordado lá de cima. Do guascaço que recebeu somente lhe ficou na cabeça a sensação de que estava encolhendo até ficar do tamanho de um palito de fósforo junto com a visão nítida de um caixão de defunto de guarnições roxas. Pelo que se soube depois, fora eletrocutado por uma corrente elétrica de quase mil volts que se conectou na urina.

Trinta metros de queda livre os dois; sim, porque Antônio desafivelou rapidamente o cinto de segurança e se jogou logo atrás no vazio para socorrer o vizinho preguiçoso, mas não o avistou na superfície; o jeito foi mergulhar. Não era à toa que tinha o apelido de Pé de Pato. Com aqueles pés defeituosos que ganhara não se sabe de quem, seu nadar era ligeiro. E foi ligeiro que encontrou o amigo cada vez mais afundando inconsciente. O engenheiro que lhe exigia o cinto amarrado na cintura era o mesmo que lhe ensinara os primeiros socorros. Foi o que salvou o moço bonito da zona nos primeiros minutos após o acidente. Ambos foram direto para o Hospital Senhor dos Passos. Não era seu gosto, mas Antônio até falou nas rádios da cidade. Diminuindo o feito acabou famoso pela coragem e pela bondade.

De prêmio, o Distrito Naval convidou o herói para fazer cobiçado curso de prático na Baía da Babitonga, garantindo-lhe a velhice. Foi promovido comandante por merecimento. Capa Preta preferiu garantir a velhice das bruacas e foi promovido a coronel.

Pelo que se sabe, até hoje ocupa o posto.
Foto: Ponte Hercílio Luz, acervo do Intituto Carl Hoepcke.