domingo, 8 de fevereiro de 2009

O REGENTE

(Texto ficcional inspirado no conto “O Artista do Trapézio”, de Franz Kafka)
Humberto Ilha
Um capricho nem sempre é encarado de boa vontade pelas pessoas. Contudo, quando advindo de um artista, parece que todos se empenham em compreender. Daí que, o mestre de quem falo, ordenara sua vida de tal maneira a permanecer dia e noite no coro da igreja enquanto durasse o tempo para o qual fora contratado para reger o coral. Assim fazia por dois principais motivos: um mandamento profissional de perfeição e um capricho que se tornava cruel. Não arredava pé dali de jeito nenhum. Todas as suas necessidades eram voluntariamente satisfeitas por intermédio da coordenação do presidente e da diretoria do coral. Os cantores se revezavam para que nada faltasse ao regente.

Esse modo de viver não criava dificuldades especiais entre ele e as pessoas. Mas o regente era caprichoso e cobrava-se muito quanto ao próprio desempenho. Sem embargo, não deixava por menos o desempenho dos voluntários sob seu comando despótico. Era um tirano, e ninguém lhe contava isso, pois, se numa hora era cruel e duro, em outras era amável e doce. Alguns lhe lembravam a semelhança de personalidade que tinha com Mozart. E, quando isso chegava aos ouvidos dele, arrancava-se-lhe um sorriso bonito de explícita vaidade.

Ele era assim, mas os padres e os diretores do coral o perdoavam, porque se tratava de um artista extraordinário. Além disso, era sabido que vivia assim para estar sempre em forma artística. Ele também gostava de estar sempre lá em cima do coro. Até o banho ele tomava numa banheira trazida para cima. A água servida era carregada para baixo em baldes pelos cantores numa hora de nenhuma atividade na igreja. Contudo, suas relações humanas estavam muito limitadas. Alguma vez ele se permitia conversar com alguém que não fosse do coral; que subisse um colega regente para conversarem longamente. Às vezes, papeava com algum operário que consertava o teto do templo, trocando com ele algumas palavras. Ou com a zeladora da igreja, que fazia a limpeza diariamente. Com os conhecidos conversava de longe lhes dirigindo algumas palavras gritadas, mas respeitosas, se bem que pouco compreensíveis. A não ser por essas ocasiões, estava sempre solitário.

Muitas vezes algum fiel elevava o olhar procurando ver quem tão maravilhosamente executava peças sacras. Mas nada encontrava a não ser o som do órgão, que enchia toda a igreja. Tampouco o regente sabia que estava sendo observado por alguém que lhe admirava a arte. Nos ensaios, dava verdadeiro show de impaciência com os cantores menos dotados de alguma virtude vocal. Chamava qualquer um à atenção, homem ou mulher, jovem ou idoso. Se o infeliz resmungasse alguma coisa, ele então migrava para a humilhação. A cólera sobressaía-lhe do peito para esquecer que era um cristão praticante. Usava termos, como voz-de-galinha, miado-de-gato, gata-no-cio, voz-de-caipira ou voz-de-machorra, para caprichar na degradação. Vangloriava-se de ter um ouvido superior ao de todos ali. Melhor, que era dotado de ouvido absoluto. Não restava nenhuma virtude para ninguém. As que o coral possuía estavam com ele, regente. Quando o coral se reunia sem a presença dele, seus membros consideravam-se um bando de quadrúpedes.

Com tanto ódio pelos erros dos cantores, ele foi fazendo, sem o perceber, que o coral minguasse. Quase ninguém se submetia a cantar com ele. A não ser alguns que o toleravam porque era um ser humano. Alguns lhe davam conselhos amigáveis para melhorar o tratamento com as pessoas. Contudo, ele não aceitava isso de quem quer que fosse. Proclamava que preferia ficar com poucos e bons a muitos e ruins. Os coralistas queriam tirá-lo da regência, pois não agüentavam mais tanto rebaixamento moral. Mas, como dito, os padres gostavam muito dele. As missas eram belíssimas com ele na direção musical. Tinha ele grande prestígio junto aos dirigentes da igreja, pois conhecia como ninguém o rito de todas as cerimônias.

Tanto fez o regente que, um dia, após determinar não admitir a ausência de quem quer que fosse a uma missa, os cantores — todos — se combinaram e deixaram-no sozinho na hora do santo ofício. Viu-se sozinho no coro. Não se deu por vencido. Tocou todas as peças sacras com raro brilho. Naquele dia não houve cantores. Somente o órgão e a voz do povo. Ficou bonito e diferente. Mas o regente não aturou aquela desfeita. Chamou o pároco e contou-lhe o sucedido. O padre quis relativizar a atitude dos coralistas, eis que tinha inúmeras queixas contra o regente. Mas o maestro não aceitou. Disse que a partir daquele dia queria receber honorários dobrados. O padre ponderou não ser possível, que a Igreja vivia da entrega voluntária de cada fiel. Mas o dirigente argumentou que os coralistas deviam fazer um mutirão para arrumar o dinheiro que estava pedindo. Então o padre pediu para ele se lembrar de que estava dentro de uma igreja. Foi aí que o regente se deu conta do embaraço em que os coralistas o deixaram. Estava realmente sozinho. Acabava de levar uma admoestação do próprio padre, seu admirador. Então caiu num choro convulsivo de quase meia hora. O bondoso padre também reconheceu que havia exagerado na dose e lhe pediu desculpas. O regente o desculpou, mas não parava de chorar. Estava inconsolável. Foram chamados mais dois padres que não deram jeito na situação. Então o pároco chamou a mãe do regente. Quando ela chegou, ele se atirou em seus braços. Ela o abraçou carinhosamente e sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Estreitou seu rosto infantil molhado entre suas ternas mãos, fechou os olhos como num sofrimento sincero e balbuciou: “Meu filho, vamos embora. Quando você fizer doze anos, prometo trazê-lo de volta”.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

OMBRO, ARMAS!

Humberto Ilha

Quando cheguei à Praça XV o militar já estava lá, vendo tudo de cima. Com certeza madrugara para conseguir o melhor lugar. No carnaval também estivera naquele local bizarro. Sabe-se lá como se pusera tão no alto. Desconfio que deva ter sido com a ajuda do colega ao lado. Sozinho é que não deve ter sido. De se imaginar como desceria dali. Talvez fizesse isso numa hora sem alguém por perto. Quadro insólito deveria ser ele descendo daquela peanha de pedra. Por mais que se colocasse elegante deixaria transparecer estampa imprópria na hora de colocar um pé aqui e uma mão ali para se manter longe de desabar. O temor de perder a compostura com certeza trai-lo-ia diante das réstias iluminantes do sol da manhã. O gosto de estar no alto, no andar de cima, parece próprio dos que nada tem a esconder. Dos que nunca fracassaram no desempenho da capacidade geral para a cooperação social.

Quanto a mim, olhar o desfile do alto era um desejo recorrente. Muitos subiam em árvores, se apinhavam nas sacadas, se acomodavam em cima de muros e edifícios. O Dia da Independência era o verdadeiro teatro da cidade. A cada ano se extraía nova linguagem social. Uma poesia ainda não falada. Uma compreensão ainda não assimilada, não aprendida, não expressada em anos anteriores. A cidade se abraçava para o rito do Sete de Setembro que só sabe ser majestoso quando acontece nas ruas.
Cedo, muitas vezes eu chegava para o desfile conseguindo bons lugares. Ficava ali, na corda, aguardando durante horas, olhando as pessoas chegando, conversando, se acomodando. Contudo, à medida que o momento se aproximava, era tragado pela multidão e acabava vendo pouco. A me contentar, apenas o som intenso do evento. De se ver, somente as pernas dos que passavam. Conhecia prazer olhar o trabalho dos narradores, repórteres e auxiliares das emissoras de rádio. Ocupados em transmitir e preparar equipamentos, davam ares de que não tinham brecha na agenda para perceberem a muvuca no entorno. Iam e vinham, como bichinhos, não enxergando ninguém. Ainda que numa estudada aparência, era a elite: Antunes Severo, Acir Cabral, Souza Miranda, Eugênio Luiz e José Valério. Um time e tanto, mesmo com a ausência do Roberto Alves, que ainda era pintinho na Rádio Anita. Naquele dia não estavam todos ali. Mas reconheci o João Ari, único trajando vistosa calça faroeste com a bainha dobrada para fora, auxiliado nos cabos de transmissão por ninguém menos que Cici, que muitos chamavam de Gambá e até de Oraci. Há esse tempo, eu havia concebido um poleiro para ser encaixado no alto de um poste e de lá tudo ver melhor. Um trambolho que nunca ousei construir. Mais-a-mais, temia que a polícia me arrancasse de lá a tapas. Era uma época em que o toque dos adultos ainda me era dolorido; tanto dentro quanto fora de casa.

Conferindo o retelho das nuvens, vi o oficial no melhor ponto. Num estranhamento o flagrei com a atenção voltada para o mar da baía sul, lado oposto ao da alameda por onde haveriam de passar as tropas. Homem grande, mais que o habitual, trajava gala, o que lhe dava um ar de distinção. Dos que eu já conhecera era o mais nobre, mas também o mais acobreado e o mais sofrido dos oficiais de toda a brigada. Pontes de Miranda decerto com ele aprendera que “sofrer não significava desviver, mas conhecer e sentir a vida.” Devia tê-la conhecido profundamente; a vida.

Revestido de luvas, dragonas, espada e quepe, trazia à mão vistosa luneta, que bem merecia ser insígnia de comando. Provável que para melhor fazer o reconhecimento do terreno, coisa bem a gosto de comandantes. Quase certo que divagava em recordações de campanha enquanto aguardava o passo grave dos irmãos de armas. Olhar no longe, parecia sobrepor ao mar seu vulto de fantasia para encaixar no ouvido, que é por onde quase tudo começa, o vento-sul com notícias de algum lugar conhecido. Dava mostras de que procurava localizar a ilha dos Ratos, a julgar pela posição do rosto virado para aquele rumo; mal sabia que agora já designada "do Carvão". Pareceu-me querendo entender o ambiente estranho daquela praça se sobrepondo ao miramar e ao mercado público com as pessoas, os escravos e as cozinheiras atrás de carne, farinha e pescado. Pensativo, nem se mexeu quando me agarrei à bainha de sua espada para erguer-me um pouco acima das pessoas. Fiz como já houvera feito antes, agarrando-me à generosidade dos bons para subir os lanços que precisava subir para aprender, ser útil e ver melhor. Fiquei bem colocado. Não tanto quanto o militar que, repito, supunha importante a julgar pela farda e o porte. No rebrilho do sol da manhã, parecia ter o austero rosto ornado por um bronzeado meio sorriso. Pudera, com a visão que descortinava não era de admirar. Fiquei encarapitado naquele granito que, de tão polido, parecia ter sido esculpido para ele. Bem me lembro que fiquei sem me mexer, sequer aplaudir, para não chamar-lhe a atenção. A despeito de muito me impressionarem as manobras das tropas terrestres, da ordem unida, dos veículos, das encilhas dos animais, das bandeiras históricas, dos galhardetes das pequenas frações e das ordens bem troadas dos comandantes, dele nada escutei que lhe traísse emoção. Nem mesmo quando o locutor oficial nomeava os heróis do passado e suas batalhas: Luis Alves de Lima, Antônio Sampaio, Fernando Machado, Felisberto Caldeira de Andrada, Farroupilha, Curuzu, Passo da Pátria, Tuiuti, Potreiro Pires, Linha Sauce, Curupaiti e Humaitá.

No chão, o som de fundo dos coturnos marcava os compassos dos dobrados que a banda executava. Tudo isso me deixava encrespado, do pé à ponta. Era aflição e alegria, tudo misturado. Meu coração parecia haver recebido, lá no oco, uma pastilha que permanecia fervilhando concedendo-me grande prazer. Ali, naquela atmosfera de patriotismo íntimo eu me consagrei a viver meu quinhão social em favor do Brasil pelo viés do Exército. E então fiz a escolha primordial da minha vida. Fiquei alucinado, palavra de honra.

Ocorreu-me perguntar ao respeitável oficial sobre as evoluções militares que iam acontecendo. Ele dava-me respostas convincentes. Num português impecável, lembro, disse que o mais importante trabalho daqueles homens ficava invisível no coração deles. Não havia dúvida de que estava diante de um patriota, longe de um daqueles cujo poder somente serve para mandar soltar e prender. Vi tratar-se de um cavalheiro, a julgar pela paciência no responder. Arrisquei saber de onde viera.
— De Nossa Senhora do Desterro, mas ainda jovem me apartei dos encantos da capital para cursar a Escola Militar da Corte. Trabalhei duro, guardei a fé no Brasil, lutei batalhas impossíveis no sul até a derradeira de sessenta e oito, que me levou o corpo que ora longe inverna.

Tudo falava sem que me olhasse. Não experimentei estranhamento, pois que tudo perguntava sem nele também colocar meus olhos. Com atributos tão singulares, seria alguém conhecido? Ainda uma vez gentil, saciou minha angústia interrogativa:
— Sou o sargento Kawahala, fotógrafo. O da estátua é o coronel Fernando Machado de Souza, herói morto na Batalha do Itororó contra Solano.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

LITERATURA (Deu no DC)

Duas feras das letras na Barca dos Livros
A Barca dos Livros de hoje recebe dois grandes nomes das letras catarinense. Sérgio da Costa Ramos e Flávio José Cardozo, autores de centenas de livros, vão falar sobre a crônica, o estilo de texto escrito de forma livre e pessoal, que aborda assuntos da atualidade nos mais variados temas como política, artes, esportes, cotidiano, entre outros. A edição A Arte de Escrever Crônicas tem entrada franca e começa às 20h, na Rua Senador Ivo D’Aquino, 103 (em frente aos trapiches), na Lagoa da Conceição, em Florianópolis.Os dois escritores lançaram juntos recentemente a obra Duas Violas Arteiras. Ambos dividiram páginas espelhadas por cerca de um ano no Diário Catarinense, jornal no qual Sérgio possui uma coluna diária. Eles aproveitaram a “vizinhança” para trocar alguns provocações amigáveis, crônicas travessas e molecagens que agora estão reunidas neste livro. Esse duelo literário poderá ser conferido também neste bate-papo gostoso de dois escritores que transformam um dia simples numa bela, engraçada, inteligente e interessante crônica. É a maneira que eles encontraram de ver a vida com outros olhos.Informações pelo fone (48) 3879-3208.
Fonte: Diário Catarinense edição de 23 de janeiro de 2009.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

MAU PRESSÁGIO

Humberto Ilha
Era urgente ter uma conversa séria com a mãe. Arãozinho não pretendia estudar para ser padre. E também não queria mais ser coroinha da Igreja. Era-lhe insuportável ver tantos coleguinhas debocharem e cuspirem na sua cruz. Um dia enfrentou a velha de homem para homem: ia acabar com o calvário da sua amargurada vida. Nem bem havia começado a argumentar quando ela o interrompeu para repetir a ladainha de sempre: que o rapaz fora consagrado à vida sacerdotal desde quando resgatado do mar após dia inteiro de busca e suplício da família.
— Eu nem me lembro disso.
— Não blasfema, insolente.
— Quem mandou a senhora fazer uma promessa ridícula dessas.
Foi pior ter aberto o diálogo com a professora. Dela escutou que era possuidor de méritos proféticos; e de fato era mesmo. O menino nem sabia como essas coisas aconteciam. O entendimento daquilo, nem o mais letrado desenredava. Era complicado explicar como o garoto adivinhava o futuro e encontrava coisas escondidas. Eram fenômenos que aconteciam quando menos esperava. Vinham do nada e a qualquer momento. De repente sentia mudança no ambiente ou um desconforto passageiro. Podia contar, algo iria acontecer. A mãe, que não perdia um lance da vida do rapaz, tinha lá suas razões para alicerçar a fé inabalável na carreira religiosa do filho.
— Se é para viver com esses dons — dizia —, então que seja com as vestes de um sacerdote.

A maior preocupação de Arãozinho, naqueles dias, eram os colegas. Muito difícil ficar escutando um xingatório do tipo: "carola". Ainda que revidasse baixinho: “excomungado”, escutava em seguida: "papa hóstia". Então replicava com maior ofensa: “tua mãe não é séria”. Era terrível escutar: "sacristão", para arrematar com ódio: "teu pai é um corno". Só podia responder às provocações da matilha de forma muito tímida.

Um dia, Corpus Christi, estando perfilado para acompanhar a procissão carregando um incensório improvisado, notou a presença da cachorrada antegozando a teatral passagem pela frente deles. "Isso não vai prestar" — cismou pessimista; — "ninguém merece tanto enxofre". Olhou para o sacerdote que estava pálido. Era inverno, mas o homem suava no rosto. "Que lhe teria acontecido?" Pensou em pedir-lhe ajuda, mas parecia que o padre tinha visto fantasma. Ocorreu-lhe que o religioso devia ter muita fé para estar ali tão doente assim. Diante de tamanha pressão, decidiu abandonar o cortejo mentindo.
— Padre, tenho de ir à patente agora.
— Nada de banheiro. Se fosse um desmaio eu aceitaria, mas titica de jeito nenhum.
E o bondoso homem rompeu a marcha sem dar chance de reação ao menino. Problema maior era o dele, padre. De manhãzinha constatara que haviam roubado diversos utensílios sacros da igreja. Nem havia dado tempo de registrar queixa na delegacia de polícia. Isso ficaria para depois. Agora, o importante e mais urgente era dar conta da cerimônia.

Foi só Arãozinho passar pelos meninos e começou a escutar os elogios. E o pior, a corja vinha acompanhando a cerimônia pertinho dele, todos no gargarejo da primeira fila. Cabeça baixa, trazia o ar compungido de quem estava diante do próprio Deus. Tinha que dar essa impressão para a mãe que a tudo acompanhava. Quem primeiro pisava no tapete de flores era o inefável Corpo de Deus através dos pés do sacerdote, que ali era simples assistente ritualístico — conforme pregava. Esse ambiente de encantamento fascinava o garoto. Contudo seus coleguinhas estavam longe de entenderem tal situação no mesmo grau. Achava que as pessoas não se permitiam ofuscar pela presença de Deus. Por isso os coleguinhas não respeitavam o papel que ele estava exercendo naquele momento. Diante disso não se achava com suficiente vocação para a vida religiosa, pois tinha vontade de esganar um por um.

Quando o acompanhamento chegou defronte ao armazém Casemiro Rosa parou para uma estação ritualística. O incenso fumegava além do combinado. O sacerdote fazia sinais desesperados para o pequeno ajudante abaixar o volume do fumo. O garoto não sabia manusear aquele turíbulo todo amassado e velho. Quanto menos fumaça o padre pedia, mais o braseiro consumia o pó do incenso. Arãozinho resolveu abafar o turíbulo fumegante com a própria batina na ânsia de atender a ordem do apavorado religioso. Foi pior, não suportando o calor da brasa entre as mãos juvenis, acabou por liberar o medonho fumacê. O padre quase chorava de raiva. O menino tentou balançar com velocidade a peça repositória das essências aromáticas. Até resolvia um pouco, mas quando parava o movimento, por cansaço, o fumo era ainda maior. Ocorreu-lhe uma idéia que, no improviso, poderia funcionar. Começou a fazer círculos com o incensório como os de uma roda gigante. Fez um ar de riso, porque funcionou bem. Era-lhe menos cansativo, eficiente e divertido. Mas o revés da sorte mandou-lhe recado: a peça ritual, que em muito se parecia com uma chaleira de chimarrão, desprendeu-se da correntinha e foi cair com grande estrondo em cima do armazém. Dois quilos de puro ferro fumegante. Havia fiéis que, do final do cortejo, juravam ter tido uma visão de arrebatamento espiritual, tamanha a esteira de fumaça, ruído e brilho que produziu o lançamento daquele meteoro esotérico. Sem ação diante daquela visão quase profética, alguns se ajoelharam contritos e esperaram pelo pior. Era coisa de Deus ou do diabo? Isso todos iriam ver em seguida.

O impacto fez um rombo no telhado e um vulcão ficou ativo dentro do sótão do velho prédio. O buraco fumegava semelhante chaminé e dele saiu um homem fumarento com um saco cheio de coisas às costas tilintando desordenadamente. Correria na procissão; "desçam o homem do telhado". Quem era, quem não era? E o turíbulo, como fica? Logo depois, e graças à polícia, o equipamento litúrgico já estava incorporado ao cortejo, mais amarrotado e com o pito já apagado.

Arãozinho, contudo, não estava mais ali. O sermão ia ser grande. Então começou a arrumar as roupas na mochila para ir para a casa da avó na Terra Fraca. Não deu tempo. Porta adentro entrou a mãe, que foi perguntando:
— Arão, como fizeste aquilo?
— Aquilo o quê?
— Incrível, hás de ser mesmo um padre. Quem, senão um iluminado, iria adivinhar que o ladrão da igreja estava escondido no sótão do armazém?
— Oh não! Por que me persegues, encosto?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

SAI DESSA!

Humberto Ilha
Não posso deixar de falar nas coisas que ouço. Algumas, de tão cabeludas, me deixam confuso e sem ação para rebater as declarações de descrença que sou obrigado a ouvir. O que vou relatar aconteceu na subida da Serra. Zé Amaro adoecia grave e não batia a caçoleta. Naquele vai-não-vai há um mês, a teimosia em permanecer vivo era desaprovação geral. Há tempo andava com aquele ar de quem morre em breve, mas morrer mesmo que é bom ele não morria. Orgulhoso empedernido que a todos contrariava e aborrecia, fincava pé nas convicções inarredáveis e dali não se movia. Além disso, era metido a valentão; mas isso era só de boca. Coitado, talvez quisesse viver mais um pouco além do pouco. Porque a vida, mesmo longa, é muito curta. Homem de muitos pecados e pouca água benta, maltratava dona Alfreda e ainda vivia de caçoada com as outras. Além de avô amargo era um atleta dos abismos da vida. Assim fazia para lá ficar enquanto concebia planos inconfessáveis. Havia descoberto que devia praticar mais a beira do abismo. Ousar mais, ir lá onde o medo tritura a coragem. Sem freqüentar o limite, sem esgarçar a dor, não conheceria a substância de uma vida insolente diante do medo. Para, quando aquela hora chegar, caminhar de olhos fechados até o precipício que o tragará. Porque a morte é a morte e a quem a terra entulhar, nunca mais o largará.
Com os anos a patroa havia acumulado muitas contrariedades advindas dele. Agora, diante da morte do marido, lembrava da brigalhada que ele aprontara por conta de um zelo em vida. Ela havia comprado dois terrenos no cemitério. Um para ele e outro para ela. O agora moribundo não concordara ser enterrado num só lote, se um dia — claro — largasse a casca. Os que ficassem haveriam de sepultá-lo sozinho e no meio das duas vagas que ela comprara. Tinha mal-morrer e mal-dormir. Quantas noites ele se atravessara na cama deixando-a de fora? Nos finais de semana era certo acontecer. Mamava misturado de conhaque, vinho e funcho para depois ficar entregue aos urubus. Ela que não deixava, embora dele colhesse estranha gratidão: "Vá dormir no quartinho, nega". Para não levar adiante o rolo, ia concordando. Fosse ela encarregada de enterrá-lo o serviço seria feito como planejado, um no ladinho do outro. Se contrário, que ele fizesse como quisesse, pois já estava morta mesmo. Não queria se ocupar do furdunço antes da hora. Prática, Alfreda alinhava os ouvidos no vento e nada mais entrava ali que não quisesse. Antevendo o velho esticar o pernil já dava mostras de sentir os percalços da viuvez. Quanto desejou isso a ele, o luto. Quanto desejou morrer antes do companheiro; pelo menos ia descansar. Mas parece que a vez era do teimoso. Ele é que ia para a sombra.
Diante da prolonga, a torcida pressionava e bradava dolorosas nênias em silêncio: "esse velho que não morre; basta desgraçado; vai em paz, estrume". Em verdade, desde que adoecera e ficara grave, não mais se ouvia em casa os rugidos de luta que sabia produzir. Não se escutava mais os gritos ferozes de ameaças e nem seus queixumes tristes. Muito menos mais se ouvia o estalar do ameaçador relho de couro cru no cano da bota preta. Até um fantasma vestido de mortalha roxa deixou de aparecer na sala. Daí que seu Régis, um barbeiro-farmacêutico, sugeriu se lhe desse boa colher de graspa. "Mas isso só com a ordem de dona Alfreda" — que estava ocupada na cozinha. Chamada, fez o que tinha de fazer: trancou o nariz do marido e forçou o líquido descer goela abaixo. A dose fora excessiva, disseram depois. O homem branqueou, fixou os olhos na esposa, careteou um pouco e defuntou. Era o que faltava para o desafogo do entorno doméstico, que bem não era uma família e sim um ajuntamento, tamanho o desprezo pelo extinto, agora sem mais proveito. Quanto alívio lhes trouxera aquela unção tão incomum. Cochichavam que o derradeiro trago dera-lhe o descanso da sua amotinada alma.
Haviam de tomar conta do morto. Ninguém melhor que o compadre. "Chama o cabo Dourado" — um corneteiro do quartel e cúmplice das boas farras do finado. Quase um profissional do luto, aos que partiam se oferecia a dar banho, vestir o terno, amarrar o queixo bem amarrado, tamponar tudo, deitar na essa, juntar as mãos, atar os pés, acender as duas tochas, encomendar o corpo, ler trecho próprio da bíblia, providenciar a certidão, combinar o enterro e executar Silêncio junto à cova. Sensível, não conseguia tocar a música sem que lhe escorresse sentidas lágrimas pelo rosto. Era raro fazer, mas, considerando o renome do falecido, finalizava o concerto com o terceiro movimento da Marcha Fúnebre de Chopin. Ali ele se perdia nos caminhos da arte incompreendida. Alguns achavam aquilo luminoso, mas a maioria não gostava e ia dando o fora diante do agouro saído daquela trombeta do anjo vingador. Tudo isso o velho cabo fazia como se procurador do além. "No meu fraco pensar" — dizia — "um sepultamento é um ato comunitário para recomendar a alma a receber a graça divina. Para harmonizar — pela mediação da cabocla Jurema — o ambiente de dor que o finado deixa. Para consolar a família a receber os desejos de leve luto. Um velório seguido de sepultamento" — ensinava — "é desafio que dura o dia inteiro". Concluía: "enterrar com dignidade um e consolar os parentes que um dia também irão, pois disso ninguém escapa". Havia um cunhado metido ali que resmungava muito; fazia tempo que não aparecia. Naquele dia apareceu com um crucifixo acorrentado no pescoço, o agourento, para recomendar que do morto nada mais se falasse. "O que ele fez, está feito; a conferência dele agora é com Aquele-lá-de-cima; e tem que enterrar logo o corpo antes que comece a feder".
A vizinhança começou a chegar e dona Alfreda botou de lado o desânimo para providenciar assistência aos amigos e parentes que vinham de lugares distantes para prestar tributos ao finado. Café preto, rosca de polvilho, pão de casa, geléia e licor de butiá. Tão rápido preparou a mesa que se desconfiava que havia preparado tudo antes do marido morrer. Vez em quando algum parente vinha beijar a testa do branco defunto. A reza do terço não parou até a meia-noite, quando a maioria foi dormir.
Dia amanheceu, galaria cantando há muito, e a tampa do caixão já ameaçadora encostada na parede da sala. Chegaram mais pessoas e mais tumulto. Mas o corneteiro botava ordem em tudo. Conhecia o ritual mais que ninguém. Marcado para as onze horas, resolveu que o sepultamento havia de ser antecipado, pois o ribombo de trovoada vindo dos lados do Morro Grande deixava todos assustados. Trovão vindo daquelas bandas era certeza de muita água. Com sorte daria tempo para o procedimento. "Enterro debaixo de chuva era uma coisa desventurada" — dizia.
O cortejo seguia apressado com o caixão carregado por seis homens. Dois mais traziam os cavaletes de descanso. Mas havia uma ponte no meio do caminho. No meio do caminho havia uma ponte que dava susto nas pessoas. A bem dizer não era sequer um pontilhão e sim uma pinguela improvisada, uma estiva. Quando chegaram ali já chovia um bocado. Tudo liso, o chão, as alças da urna, a ponte, os sapatos. A segurar a caixa mortuária, somente dois homens iam transpor a carga: um na cabeça e outro nos pés. Um peso enorme daqueles tinha que ser para dois dos bons; acostumados a fazer força.
E dê-lhe chuva e mais chuva. O riacho enchia rápido. Um dos que seguravam a urna — Mané Caetano, que também atendia por Graxaim — usava sandálias de dedos e se equilibrava andando de costas em cima da pinguela. Ninguém vai de retro calçando sandálias sem que arrume confusão. É no que dá: perdeu o calçado, parou para enfiar o pé e não mais se reachou. O da outra ponta — um tal de Quiça — queria andar e empurrar. Daí que o de costas corrupiou no tronco liso e levou todos para dentro do bueiro. A caixa escura bateu forte no passadiço e caiu na enxurrada. O defunto foi de borco para o lado oposto. Efeito dominó, um foi se agarrando no outro e todos para dentro do rio. Não foram poucos os esbarrões, cabeçadas, gritos e encontrões. Eunice, moça com nome a zelar, caiu focinhada na lama aparecendo-lhe a calcinha de saca branca que a mãe lhe fizera. Recompôs-se rápido, mas deu para ver a logomarca: Farinha de Trigo Aymoré, Marca Registrada. Isso e mais a estampa de um indomável silvícola com uma pena atravessada no nariz. Posteriormente, quando ela aparecia nas domingueiras, como zombaria, os rapazes passavam o dedo indicador entre o nariz e o bigode lembrando o adorno indígena. Não suportou; de tão humilhada foi morar na capital. Isso ela não merecia, pois que era mulher de valor, com grande capacidade de suportar situações-limite, com paixão de viver. Provou-o ao longo de toda sua honrada vida. Era dessas pintadas com tintas fortes.
Salva esse, puxa aquele, empurra pra cima o outro, retira o defunto. "Onde está o morto?" A torrente levou. Os homens no rio de transbordo a mergulhar, a procurar o corpo. Duvidoso de crer, mas o falecido conseguiu ficar engalhado por um braço na margem. Fosse pelos acompanhantes, Zé Amaro se perderia naquela inundação. Parece que seu instinto de preservação ainda estava bem vivo. E com isso acabou salvando a cerimônia. Aparece novamente o cabo Dourado, deita o homem no ataúde e prega a tampa com uns pregos enormes ruminando: "Fica-te aí, encrenqueiro". Virando-se para o coveiro: "toca a sepultar de uma vez, porque este negado não está cooperando".
Anos depois a esposa é que se foi. Então começaram a preparar outra cova ao lado da sepultura do marido. Dourado era homem acostumado com os assombros daqui e do além, mas naquele dia por pouco ele também não foi dançar nas nuvens. Com os olhos fixos dentro do buraco, mastigando incerteza, viu que a carcaça de Zé Amaro estava atravessada no terreno ocupando duas vagas, bem do jeito como queria. Ruminou com meio sorriso: "Velho teimoso!"

sábado, 3 de janeiro de 2009

SANTA ANA

Humberto Ilha
Viera do sul e lá deixara a família, até que arranjasse local de morar. Longe da patroa, começou a procurar sarna. Não devia; esposas que amam e se mantêm decentes deviam merecer blindagem contra traição; e ainda por cima, dois filhos de encanto. Tinha tudo o que um homem queria para ser feliz. Mas parece que isso não lhe bastava, o faminto. Queria, sabe-se lá por que, dar a mão ao capeta e caminhar de olhos fechados até a beira do buraco que, impiedoso, tragá-lo-ia. Sabia disso, mas ia chafurdar na lama assim mesmo, o excomungado.

Na hora de sair ficava arrebitando o bigode já grisalho diante do espelho. Touceira tão vasta que passara da corpulência permitida pelo regulamento militar, em formato e dimensão. Tanto zelo vinha-lhe da convicção de um finado reúno que não dispensara tratamento menor ao conjunto barba e bigode, até ganhar fama de sedutor nos salões nobres da nova República que acabara de proclamar. No cofiar de ornamento tão perfumado vinha-lhe ainda a certeza de que amealhara mais alegria que dor de cabeça.

Há dias elegera um destino certo de sedução: o cinema. Minto: a moça do cinema. Depois de muito subir, descer, espreitar, rondar e pesar cravou a mira no único cinema da cidade. Fizera toda essa aproximação como um franco atirador em missão. Nisso era competente: mandar bala nos outros. Tanto que ensinava os companheiros recrutas. Mas nunca dizia que era para atirar nas pessoas; não, era para atirar no alvo. Decerto era para se embromar, pois jamais estivera numa situação real de confronto armado. Isso lhe passava pela cabeça, mas muito de longe. Enquanto o inimigo não aparecia, ele queria rosetar. E ninguém melhor que a moça das balas, que era quem queria abater. Mas ela já estava de sobreaviso, porque apesar de mulher nova não precisava que lhe ensinassem uma coisa dessas. Nem adiantava ele vir com aquela tapeação sobre seus filmes preferidos que ela já lhe percebera as dissimuladas intenções. "Então não me respeita, diacho? Não se enxerga?"

O marido, dono dela e do cinema, também sacara tudo. A tentativa de encanto para cima da moça era encorajada por algo nebuloso na cabeça de Santa Ana. Será que era porque o marido tinha um bigode como o dele? "Se ele usa é porque ela gosta", cogitava. Talvez fosse apenas a atração crescente que tinha por ela, que encurralada, quase não podia negar-lhe o assédio. Talvez fosse pela delicadeza do marido que, dono de um estabelecimento público, quase tinha obrigação de tratá-lo amistosamente. Era certo que Santa Ana percebera algo no ar que o encorajava a prosseguir com a sedução. E para ganhar a esposa, conjuminou, tinha que partir para cima do marido, um senhor de idade em vista dela, tão moça ainda. Tinha de conquistar primeiro o velho. Deu então jeito de encontrá-lo no mercado, na feira, no banco e no bar; ganhou um amigo.

Numa noite de pouca gente nas ruas Santa Ana estava mais adulterino do que o rabudo. Quando a sessão começou, ele levantou-se e foi comprar chicletes. Planejou pagar com dinheiro grande e provocar enguiço no troco. Ela devolveu e disse para ele pagar outra hora. E no pegar de volta, segurou e beijou-lhe carinhosamente a mão. O roçar do bigode na mão da mulher foi fatal. Olhou fundo nos olhos de Santa Ana para dizer: "Adoro homens de bigode, sabia?" Com um sorriso de quem acabara de inventar o amor, Santa Ana disse que ia acabar de ver o filme; ia executar a segunda parte do plano.

Final da sessão, pessoal saindo, Santa Ana ficou por último. Veio o proprietário:
— Vamos embora?

Ajudou a ferrolhar a porta e passar trancas nas janelas, num agrado de má intenção. Deu certo, o homem começou puxar conversa e falar do frio. Ela cochichou algo e o outro convidou Santa Ana para tomar algo quente em casa; uma sopa, um aperitivo.

O apartamento bem organizado, mas ela pediu que não reparasse na bagunça. Ficaram os dois na sala enquanto ela sumia lá para dentro. Já estavam no segundo amarulla quando ela passou de roupão branco sorrindo. O homem convidou para assistir um pouco de televisão. Quando ele entrou ficou encantado com tanto conforto que havia no dormitório do casal; até perfumado o quarto era. Ela deitada em baixo das cobertas de olho nas Olimpíadas. Foi um rebuliço na cabeça de Santa Ana.

— Senta aí — mandando-o sentar na cama ao lado da esposa.
O velho acomodou-se ali fingindo atenção na TV; ela no meio. Antes, ele tirou os sapatos e enfiou-se nos cobertores. Santa Ana olhou para ela, que não tirava os olhos da transmissão. Olhou para o outro, que o mandou se cobrir porque o frio era de amargar. Então Santa Ana deslocou-se direto para o céu.

A moça não tirava os olhos das Olimpíadas. Roupão jogado, cabelo revolto, pegada firme, regata suada e ela torcendo na final dos cem metros nado livre. O velho de olho grudado na prova, mas nada via do que se passava na televisão; história dele! Desconfiança e medo, pistola na mão por baixo do travesseiro e ela finalmente solta o fôlego trancado para medalhar o recordista.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

O BOM SAMARITANO

Humberto Ilha
Passava das nove da noite, quando Thumé Cruz saiu do escritório. Esperava o ônibus quando ouviu um gemido. Demorou a achar o homem na vala. Puxou o coitado enquanto os carros passavam, mas pessoas se ajuntavam. Constatou fratura na perna. Pensou em hemorragia e pediu chamarem o resgate enquanto fazia torniquete com o próprio cinto. Colocou a mão sobre o nó do garrote para sentir calor intenso no local. Pensou em jorro de sangue. “Faça agora o que tem de ser feito”. Ao ouvir aquela voz cadenciada sentiu um assombro, parecia ser do senhor da escuridão. Contudo, não se permitiu pavor. Naquele instante só queria a polícia e dar o fora. Mas o dono do escuro insistiu dizendo que ia desmaiar. “Meu São Francisco de Assis!”, murmurou Thumé. Foi quando a própria mão ficou azul além de quente. Começou a passá-la suavemente na perna do homem. Daí que tudo foi se recompondo estranhamente. Continuou com os movimentos na ânsia de ver no que ia dar aquela alucinação. A perna se refez curada e o homem voltou a si. “Meu São Francisco”, essa era a intimidade de Thumé Cruz. Perguntou e o estranho disse que estava bem. Sorriu levemente e desatou o nó do garrote. Dos ferimentos não ficou vestígio. O outro agradeceu e pôs-se de pé. Thumé Cruz ficou ajoelhado ainda por um tempo com o coração aos solavancos. Os lábios e o nariz anestesiados. Tudo instantâneo, mas estava chocado. Havia acabado de presenciar algo maior que ele. Só não pensava em ser coisa do capeta porque já ouvira a respeito.
Quase chorando Thumé Cruz abriu os braços respondendo que não sabia, quando o bombeiro perguntou como estava. Foi convidado a entrar na ambulância, que saiu dali com a sirene aberta para o hospital. O médico disse que ele estava só assustado e aplicou-lhe uma injeção. Nem deixou dizer que o atropelado era outra pessoa. Quando acordou pediu para ficar descansando. Sozinho e com a cabeça no acontecido, eis que entrou um casal. Thumé sentou-se e percebeu que eles se entreolharam. O homem maneou a cabeça como a indicar Thumé, que reconheceu nele o motorista da ambulância. Nunca tinha visto a mulher, mas ela lhe entregou uma pequena sacola. Thumé Cruz viu que ali estava o próprio cinto usado no socorro. Ela sorriu:
— É o cinto dos iniciados na Ordem de Samaria.
— ???
— Francisco de Assis é o Primeiro Guardião.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

NATAL, UM PONTO DE VISTA

Da pertença da leitura do natal,
Bem assim também da quaresmal,
Que Jesus por nós se entrega em dor.
Nasce e morre nosso Salvador.

Madeiro da cruz e cocheira, a esperança,
Quis Jesus a um só tempo então juntar
Mostrando pela fé que o dom de amar
É fortuna nos deixada como herança.

De pensar em qual dia se deu mais
Se na cruz, em suplício solitário.
Ou então, muito mais, pelo contrário,

Ao nascer, nos tornando imortais.
Teve a dor do Senhor breve passagem,
Pois nascer foi Seu ato de coragem.


(Humberto Ilha)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

ENCOMENDA MUITO ÍNTIMA

“Eu sou desonesto. E pode-se sempre confiar num desonesto, porque vocês sabem que ele sempre será desonesto. Honestamente, são os honestos que devem ser vigiados. Porque nunca se sabe quando eles farão algo incrivelmente estúpido!” (Cap. Jack Sparrow, Piratas do Caribe)

Humberto Ilha
Sabe a Leila Diniz? Dizia que conhecera muitos cafajestes, mas todos eram uns anjos de pessoas. Ocorre que esse tipo de gente parece ter sempre missão na aldeia dos bons. Canalhas que indultamos porque deles precisamos. Refinados, não se prestam a cuspir na calçada ou deixar a toalha molhada em cima da cama. Nada disso. Com eles o buraco é mais embaixo. Adoram dizer: sou seu dono. E isso é que é grave. A metade deles desconfia que esteja fazendo benemerência. A outra metade tem certeza. Em férias por São Paulo, presencie uma campana policial na 25 de Março para neutralizar um desses que se achava o cara. Um tal Simão Cireneu que aguardava o momento de a mulher passar por ali para dar o bote. Todos os dias ela fazia o mesmo trajeto; já era caçapa cantada há dias. Ia ser facinho; um serviço de acordo com o que ambos haviam combinado sem dizer palavra. Ambos não, os três. A mulher era de idade. O camelô era um louco, um espião da vida alheia, um pervertido. Já avistara o vadio e esfregava as mãos, ansioso pelo momento do ataque. Num quase sorriso mastigava o cigarro de tanta tensão, ao mesmo tempo em que esfregava as mãos com impaciência. Conheciam a mulher, inclusive seus mais secretos escaninhos. Ela possuía o que Simão queria, pois carregava em vida o que não queria carregar. Dizia ser fardo, os pertences: pulseiras, bolsas, anéis, cartões e dinheiro. Cismava: “Tanta gente passando necessidade e eu no luxo”. Desejar pouco para viver. Dia claro, aquela era uma rua inimputável diante das contravenções de toda hora; diante da banalização dos pequenos crimes que dali sobrevinham. Ao contrário de muitos cenários, aquele era um local para se trabalhar de dia; com o sol resplandecente. Fosse à noite não haveria gente, platéia, nada. Só o caminhão do lixo e os enfeites de natal apagados. Cireneu era um solitário no cavar a vida. Roubar ou aliviar o fardo alheio? Disso fizera uma opção de vida. Não se incomodava com os pensamentos que tinha. Era a sua lógica, o seu absurdo, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em ser roubado, mas sabia de gente que morria de vontade de sê-lo. Os que se deixavam roubar eram os doentes, os ingênuos, os medrosos, os culpados, os trouxas, os otários. Os que roubavam eram os cafajestes, os espertos, os donos das ruas. A mulher ele conhecera sentada ao lado no ônibus. Sorriram e se encontraram depois: "só pela amizade", mentia ele. Saíram diversas vezes sem nunca darem aos encontros algo diferente que o sentido da amizade. Ela sincera, ele tramando. E concluiu que era ela quem dele precisava; que lhe cabia a tarefa de mitigar os mais íntimos desejos dela; reclamos de sua indecifrável alma. Viu-se um anjo de capa preta diante da mulher.
— Você se importa — perguntava ela — de eu ser assim?
Ele fazia que não com a cabeça. O camelô impaciente vez por outra cruzava o olhar com o do bandido e mandava, por gestos, quase uma intimação. Dava ares de um juiz de futebol, só que não interferia no resultado. Não conseguia vender nada enquanto não trombasse com algo forte no começo do dia. Nervoso, não tinha sossego enquanto não lhe viesse o descarrego da alma lavada. Enquanto não sentisse o cheiro do sangue do outro; amargava enquanto não sofresse nocaute. Então ela apareceu na rua apinhada de gente. Mas tanta que dali trescalava cheiro de pele humana. O rapaz foi-lhe ao encontro e percebeu-a diferente: olhos cristalizados, narinas ofegantes e mãos trêmulas. De olhos fechados, esperou o inevitável. Foi despojada de tudo: pulseiras, relógio, brincos, carteira, telefone, cartão de crédito... O rapaz não disse palavra enquanto atendia a mulher, que gemia baixinho. Havia nela uma expressão de alívio e um meio sorriso no rosto. Entre eles havia um entendimento da transgressão, que revelava o prazer proibido albergado em cada um. Ela fez-se paciente e resignada, cônscia de estar cumprindo penitência; viajava. Temeu demais aquilo que podia acontecer. Encontrou algum consolo quando aconteceu. Antes de sair dali o safado disse-lhe dentro do ouvido:
— Sou teu anjo negro. Eu te alivio a mochila que carregas. O covarde declamou isso inspirado na própria coragem que veio do medo estampado na alma da mulher, que permanecia imóvel e esvaindo-se ali mesmo. Ao passar pelo mascate, a mulher dele recebeu uma toalhinha felpuda para ajudar na faxina e a proclama gritante:
— Vi tudo; nada perdi; foi chocante. Deu-se ele também por aliviado da pressão interna. Estava feliz como pinto no lixo. O cafajeste, já identificado, ainda estava lidando com um remorso que não conseguia sentir. Pilhado em flagrante, reinventou-se em amargurada vítima para escapar. Mentiroso, confessava arrependimento. A mulher precisava equilibrar o gosto de ser roubada, que tinha origem num passado que iria continuar supurando. Ele merecia cadeia. Policiais sequer encostavam-lhe a mão. Haveria de ser encaminhado à delegacia de menores. Aparentando agilidade e sangue frio, respondeu canalhamente ao repórter:
— Roubo? Apenas aliviei a embarcação para que não submergisse.

sábado, 6 de dezembro de 2008

ALQUIMIA DO BEM

Humberto Ilha

A moça padecia de um mal que ninguém conseguia sequer diagnosticar. Consta que nascera saudável e com dez meses contraíra doença neurológica que a incapacitava progressivamente. Com vinte anos, e cadeirante há dez, os pais a levaram para uma consulta com o doutor Asteróide do Espírito Santo. Após exames diversos decidiu que a moça ficaria no hospital para um tratamento que ele havia concebido. Entretanto a jovem estava há uma semana deitada numa maca da emergência sem conseguir vaga para um quarto. Quase tudo ali lhe era negado: a higiene pessoal, o repouso, a dignidade, a gentileza de um sorriso. Quando sucedia precisar de banheiro era tirada dali às pressas. Viajava pelos corredores olhando o teto e vendo os rostos distorcidos das pessoas; sentindo cada solavanco das rodinhas da maca nas curvas para chegar ao elevador e lá ficar confinada, acompanhada pelo murmúrio do engenho das correntes e dos contrapesos da caixa de aço. Depois, de volta, tudo de novo sob o comando de outro atendente, pois o que a trouxera fora lanchar ou entregara o plantão para descansar no colchão macio de casa. Sentia-se longe da própria casa diante do efeito maca-na-emergência. Uma semana ali varreria da memória de qualquer um os contornos da própria carteira de identidade; mas a moça era valente e resistia, saindo daquela impiedosa cena para se abrigar na vigorosa esperança que lhe nutria a alma.

Todos os dias o médico dizia que estava providenciando um lugar. Durante o tempo que a visitava parecia que também fazia alguns exames misteriosos. Espetava-lhe as partes dormentes das pernas, das mãos, dos braços, dos pés, das costas, do abdome e da cabeça. Muito embora ela experimentasse leve desconforto, mantinha-se resignada durante os exames. Guardava uma fé quase absurda de cura mais-dia menos-dia. Mas esperando naquele corredor ela também pressentia que não ia acontecer nada.

Daí que os pais decidiram levá-la para casa à revelia do médico. Tiveram um trabalho imenso para encaixá-la naquela cadeira da má sorte. Ajuntaram as coisas e já iam saindo quando o doutor chegou.
— Vamos levá-la para casa. Isto aqui é desumano — disse a mãe.
— Ela não pode interromper o tratamento.
— Tratamento? O senhor está de brincadeira.
— Ela tem de ficar no hospital. Esperem que irei providenciar um quarto. Além do quadro clínico tenho de resolver o enguiço administrativo. Odeio isso.
Saiu e não voltou, mas dois funcionários de roupões verdes, pantufas e toucas acomodaram-na num quarto com mais duas mulheres. Então os pais puderam dormir em casa naquela noite. Dia seguinte voltaram e não a encontraram. Havia duas camas vazias e uma doente que dormia profundo. Deram-lhe alguns safanões delicados para acordá-la, mas parece que ela queria ficar dormindo. Com os olhos fechados perguntou "o que é?"
— Onde estão as pacientes? — perguntou a mãe com angústia na voz.
— As duas foram levadas à noite, mas parece que uma não resistiu.
Disse isso e voltou a dormir no abismo. Pai e mãe entraram em aflição e desembestaram correria ao posto de enfermagem saber o certo. Escutava-se o desespero deles pelo corredor e muitas pessoas vinham ver. Nisso veio também o doutor Asteróide. Ambos voaram-lhe em cima para dele exigir explicações. Nem o deixavam falar, que, ainda assim, mantinha-se calmo.
—Vamos até o quarto — precisou decretar. O que aconteceu com ela e com mais alguns ainda não sabemos explicar. O certo é que isso está me trazendo algum desgosto e nociva fama porque está fora do padrão profissional. Só não abandono isso porque o meu sonho de ajudar os doentes é muito maior do que eu. Mas confesso que essa loucura está ganhando vida própria e ficando maior que tudo.

Encontraram a paciente que havia dado aquela notícia trágica dormindo como desfalecida. Para surpresa geral a jovem sumida saiu andando sozinha do banheiro enxugando os cabelos. Abraçou os pais e contou que estava curada. Que fora levada dali na madrugada para uma sala com pessoas que a esperavam. Que o doutor disse que iam fazer nela uma cirurgia, mas que durante o procedimento ninguém tocou nela. Que fora trazida de volta e dormira bem o resto da noite. Quando acordou quis levantar-se e tomar um banho.
— O resto vocês já sabem.

Os pais procuraram o médico que não estava mais ali. Foi encontrado combinando no telefone móvel outra cirurgia para aquela noite, pois somente a noite sabia guardar os segredos dos fenômenos de assimetria.

sábado, 29 de novembro de 2008

CIDADE SEM XERIFE

Humberto Ilha

O dentista Orlandino Piedade fechou o consultório na hora do almoço e foi pegar o carro defronte ao prédio onde trabalhava. Vasculhou a rua toda e não encontrou o automóvel. Então começou a xingar o governo que não oferecia segurança. Seu carro desaparecera em plena luz do dia. Tomou um taxi e foi para casa, mas não conseguiu almoçar, pois estava indignado com a perda do veículo ainda financiado. Aquilo só podia ser coisa de gente que o andava negaceando para esperar a hora certa de agir com impunidade. A própria cidade não dava chance alguma aos cidadãos. Instituíra agora uma tal de zonazul com o pretexto de redistribuir as escassas vagas no centro para que todos usufruíssem com mais justiça. Mas o povo não assimilou o argumento e apelidou a idéia técnica de “pretexto para meter a mão no bolso dos cidadãos”.

Piedade foi até a Delegacia de Furtos e lavrou um Boletim onde deixou consignado todo o seu descontentamento com o prefeito. Bradou que iria trocar de partido político, como se isso fosse impressionar os policiais de plantão. Registrou a queixa e foi-se embora para esquecer tudo em menos de duas semanas. "Quem sabe um dia meu carrinho aparece". Comprou outro e tocou a vida.

Um mês depois havia atendido um amigo que lhe pedira carona. Vieram conversando pela Tiradentes quando o outro parou e ele seguiu falando sozinho. O dentista estranhou e fez sinal para que o acompanhasse até ao estacionamento. O outro ficou olhando para um determinado veículo e perguntou:
— Mas este aqui não é o seu carro?
Orlandino olhou, examinou bem aquele veículo todo empoeirado. Conferiu as placas e viu que se tratava do carro desaparecido. Olhou para trás e deu de cara com os barbeiros olhando para ele.
— Vocês sabiam que este carro estava aqui?
— Está aí há mais de mês e daí nunca saiu. A gente estranhava ver o doutor passar por ele e deixá-lo aí, mas fazer o quê? Decerto queria caminhar. Hoje isso está na moda, caminhar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O REBOCADOR TRIUNFO

Humberto Ilha

Manhã cedo, o pequeno navio R 22 ressoa a aguda sirene e atraca no porto da Rua Quatorze de Julho exibindo ainda as bandeiras sinalizadoras de serviço. Horatio Magalhães era o capitão de corveta mais charmoso da Armada; e o mais complicado também. Este era o seu primeiro comando. Ainda que fizesse algum esforço de parecer cortês, pela presença de civis no local, o cansaço da manobra era-lhe visível. Além disso era um militar de pouco riso. Podia-se dizer que já estava endurecido pelo sol e pela salmoura. Ainda jovem adquirira aguçado nível de lucidez. Fora preparado em casa para caminhar na dureza do convés das embarcações. O velho orgulhava-se da própria dispensabilidade para que o menino enfrentasse a vida por si. Estava sendo bem preparado. Chegou a compor a equipe brasileira de salto em altura nos Jogos Pan-americanos de Cali. Encaminhado para ser um campeão, era um daqueles que seguia vocação cultivando vaidade de família. Mas, diferente dos mortais, não tivera que fazer carreira com as mãos. Dizem que para ingressar na Escola Naval tivera dificuldades com a prova de Português. Deu branco e estava reprovado. Época de singular ordenamento nacional, ninguém ousou contestar argumentos do tipo “Todos sabemos que o garoto ficou nervoso. E também sabemos que ele sabe; ou não sabemos?”

Desde pequeno auferia proveito dos que gravitavam em torno do pai; olhava a maruja com descaso. Era exímio em bem demonstrar aquele ilusório ranço de elite, muito embora zeloso de suas obrigações. O comandante do Colégio Naval foi por ele chamado de maricão quando lhe exigiu a camaradagem da continência negada no pátio interno. O oficial envermelheceu diante de todos e entrou no gabinete para morder o ódio que nutria por ser mesmo diferente.

Horatio preferia não dar moleza aos de baixo para preservar a distância entre quem manda e quem tem juízo. Isso desde sempre; e não somente agora que estrondeara com força uma revolução, cuja gota d’água fora o desrespeito pela oficialidade do mar. Naquele cenário político, um oficial com algum cacoete nazista tinha carreira garantida nos quadros da Armada. E isso ele tinha de sobra. Talvez daí lhe viesse o apelido de Barradão, que é como os subordinados chamam aquele que lhes barra os melhores planos. Olhando-o de longe, parecia ficar melhor na pele de um fuzileiro naval de tão durão que era com os homens. Fora o primeiro de sua turma a conquistar o posto de oficial superior. Gostava de estudar e nisso ia fundo. Mas, se mandava nos homens e todos obedeciam, igualmente se via obrigado a obedecer ao mar e o que dele vinha. “Ah, o mar que a ninguém obedecia. Ai de quem viesse com a ladainha de que só a Netuno o mar respeitava; história!” O oficial era chegado em mastigar: “Netuno morreu faz tempo e o mar nada respeita”. Para rematar, se fosse provocado: “A negociação com o mar se dá antes de nele entrar. Como entrar no mar sem conhecer o retelho das nuvens e a leitura dos ventos?” Significa dizer que ele somente acreditava no planejamento, na prudência e no conhecimento do instante dramático a vivenciar no mar. “Os mortos — dizia — já esperam deitados; e deitado ninguém planeja. Ficar vivo no mar implica em ter que pedir licença para não precisar pedir socorro”.

Tudo o que Horatio Magalhães fazia, fazia bem feito. Sextante ele tinha quatro. Um deles era pequeno, para caber nas mãos do filho. Equipamento de mergulho eram dois novinhos. Um para ele e outro para a esposa, que adorava mergulhar nas ilhas da costa fluminense atrás de garoupa-chita. Lancha, era questão de honra, tinha uma com dois motores de cento e dez cavalos e toda adaptada para mergulho. A bordo do Vendaval, um veleiro de trinta e dois pés que lhe dera o pai, buscava a utopia da velejada perfeita. Poucos oficiais praticavam a navegação à vela. Mas onde mais se permitia desfrutar a própria essência era dentro da água, mergulhando em apnéia. Poucos sabiam onde estava o prazer de pertencer ao mar. Ali estava, dizia ele. “Lá dentro só escuto o pulso do meu coração. O mergulho me leva ao coração do impossível”.

Remanescente da Marinha americana, Triunfo era um rebocador empregado em missões de resgate. Tarefa pacífica que dava algum charme àquela embarcação tão antiquada quanto robusta. Um só mastro e um só castelo, o de proa. O resto da estrutura era destinado ao suporte das missões de força. Difícil achar quem não goste de um socorrista. Triunfo parecia um bicho vivo querendo se comunicar com o entorno. A comunicação pelo Código Internacional de Sinais através das quatro bandeiras já era mensagem de amizade e paz. Aquele rebocador, onde quer que aparecesse, invocava um sentimento bom nas pessoas porque não manifestava sinal de hostilidade advindo da exposição de armamentos próprios das embarcações de guerra. Ao invés de canhões, bombas e metralhas, viam-se no convés de popa rasa dele apenas grossas correntes, cordas, cabos de aço, roldanas enormes, sarilhos engenhosos, polias reforçadas e robusto pau de carga para agüentar o tranco nas operações de força em socorro de algum navio agonizante em ameaçador costão ou praia deserta. Ou ainda de algum outro refém da deriva tenebrosa no meio de alguma tormenta assassina a reclamar o sossego que as embarcações não lhe costumam dar.

Depois da atracação o cozinheiro supervisionava um embarque de carne. Três grumetes faziam a estiva da viatura para o frigorífico da embarcação. De repente um balaio cheio foi parar no mar. O grumete, negro musculoso de uns vinte e quatro anos, tropeçou nos trilhos do trapiche e não conseguiu evitar o acidente. Nesse momento o comandante estava chegando, viu tudo e já foi dando a ordem:
— Mergulha grumete; vá buscar a carne.
O rapaz ficou de calção e se atirou na água. Ali já estavam quase todos para verem no que ia dar a situação. Outros colegas queriam ajudar, mas aí o capitão deixou à mostra o tanto de peçonha que ainda habitava em seu caráter.
— Ninguém mais na água. A responsabilidade é dele.
A cada vez que voltava do fundo com um pedaço de carne o jovem tinha maior dificuldade. Numa das vezes voltou sem nada nas mãos e sangrando pelos ouvidos. O médico pediu para parar com aquilo, mas Horatio não concordou e mandou que mergulhasse mais. O sangue não parava, então o cozinheiro se meteu e disse ao grumete para não mergulhar mais. O comandante virou-se para o cabo:
— Como ousa?
— O senhor está errado e meu irmão não mergulha mais hoje.

O médico sentiu que era hora de intervir e mandou que o grumete fosse levado para a enfermaria. Sofrera um derrame cerebral que iria apagar o seu futuro e a carreira festiva de Horatio Magalhães, que recolheu a vergonha diante da gravidade do episódio e foi trancar-se na cabine. Inimigo de si mesmo, lembrou-se que um dia fora insolente com um comandante que também não conseguia domesticar a matraca.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

FAZ PARTE!

Humberto Ilha

O casal passava quando viu uma idosa tentando atravessar a avenida da vila militar. Era um lugar difícil até para os mais jovens. Reparando a dificuldade da mulher resolveram dar meia volta no carro e encolher a distância entre eles e aquela que nem conheciam. Ao retornarem ela ainda estava longe de atravessar a arriscada via. Apoiava-se numa bengala e carregava uma sacola com roupas. O homem se ofereceu para atravessá-la tomando-lhe a sacola no que ela enfiou o braço no dele. Quando sentiram que estava favorável começaram a cruzar. Ele fazia sinais ostensivos para os motoristas abaixarem a velocidade. Parou o trânsito na hora. Caminhando na velocidade que ela conseguia, chegaram ao outro lado. Então ele perguntou para onde ela estava indo. À missa na Igreja São Francisco; frei Balbílio é o celebrante. Ela se referia a um homem grande, vermelhão, inquieto, de alguma idade e saúde de ferro. Diziam que se curava com ervas que lhe vinham da Alemanha. Falava português com sotaque carregado e alegre. Trajava sempre aquela batina marrom e sandálias. Como ele se virava no inverno ninguém sabia, porque também nunca foi visto com outro abrigo além daquele traje capuchinho. No verão, a mesma coisa: um calorão medonho e ele dentro daquela roupa escura gerando mais calor. Ali, parece, dava demonstração do obstinado ofício como servo do Senhor. O povo dispensava-lhe estima; era confessor de gente graúda.

— Vou levar umas roupinhas de bebê que fiz. Faço parte de um grupo que se reúne todo mês; ele é o nosso orientador espiritual. Conhece cada um de nós pelo nome e sobrenome; um santo em vida.
— Posso deixá-la na igreja, se quiser.
— Ora, se não quero.

Colocada no banco da frente, a mulher nem sabia afivelar o cinto de segurança. Na tentativa ela arrumou uma confusão de braço por dentro e braço por fora até ficar com o pescoço imóvel pelo cinto. O casal achou graça da dificuldade. O homem lembrou-se da própria mãe, que também fazia aquela confusão. Ajeitou-lhe o cinto e foram para a igreja deixando-a na porta. A mulher agradeceu e foi entrando com aquela bengala de madeira envernizada que lhe dava dignidade. O casal voltou para o carro e retomou a viagem, que era na seqüência daquele trajeto: o cinema do shopping assistir Julio Verne na versão reciclada em terceira dimensão da sempiterna Viagem ao Centro da Terra, agora com Brendam Fazer. Jurou à esposa que os truques da produção não iriam surpreendê-lo. Era melhor ter fechado a matraca, porque no primeiro minuto de filme quis tirar com a mão um beija-flor que lhe veio pinicar o nariz. Depois de muitas risadas ele entregou-se ao filme e às atrações que oferecia: cavernas profundas, peixes voadores, dinossauros zangados, cipós que sufocavam o herói, rochas que desafiavam a gravidade. Como o livro, na Islândia também estava a porta de entrada para aquela aventura. Só que o guia no filme era uma linda mulher, coisa impensada pelo autor no machista século dezenove. Estava envolto naquela nostalgia quando algo lhe trovejou num efeito dolby surround: Fiquei com a sacola da velha dentro do carro. Quis explicar a confusão para a esposa. Ela mandou que abaixasse a voz porque o filme era dublado. O homem disse que ia sair e voltaria dentro de meia horinha: pode marcar no relógio.
—Hãm... Hãm... — de olho lá dentro do telão.

Saiu ansiado da sala como surdo em bingo. Uma pobre lixeira voou fazendo estardalhaço numa canelada que deu quando saiu da sala sem enxergar nada. Já no estacionamento olhou a sacola da senhorinha no banco de trás e tocou para a igreja. Quando chegou já havia terminado a missa, mas notou a presença de algumas pessoas por ali. Foi entrando porta adentro encontrando frei Balbílio que saía às pressas e olhando para trás. Dentro da igreja somente umas pessoas em oração aqui e ali. Perdi a velha. Olhando na sacristia viu um bolo de gente. Ela estava vomitando numa pia; as amigas em volta dela. Coitada, por que o padre não ficou aqui para atendê-la já que a conhecia pelo nome e sobrenome? Por que, já que era o orientador espiritual do grupo? Lembrou que ainda o vira se afastando, decerto para não ficar refém da responsabilidade. Levou a senhorinha à emergência do Hospital Senhor dos Passos. Depois de encaminhada colocou junto à cama a sacolinha e voltou para o cinema buscar a esposa. Precisavam voltar ao hospital e depois levar a mulher em casa: era no Buraco da Onça.

Já contou algumas vezes esta história com a gravidade que merece, mas não quer mais porque o pessoal começa a rir e dizer-lhe bem-feito, metido.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O DOM DE NÃO ENTENDER

Um sossego de varanda e então dormi,
‘inda vi casal tentando vôo sem graça
abatido no gramado sucumbir.

Grave ela ferida na agonia
ele aflito se havendo em covardia
por desgosto de com ela então morrer.
Mas ficar ali por perto era preciso;
de verdade bem saber ele sabia.

Esperar por mais seis luas e voltar
para o sol, após velar o que amou.
A esse tempo a pobre ave quis saber:
Por quê?

Por seus olhos quis fazê-lo então saber
que esta vida é fugidia, mas convém
ser levado igual criança no viés
do mistério que o juízo indulgencia.

Longe de entender, por mais que tente,
uma ave não me sabe compreender.
Como igual não entendo o próprio Deus,
que descendo vem olhar no meu olhar
e dizer-me o que não posso decifrar.

(Humberto Ilha)


sábado, 8 de novembro de 2008

SONO E SOMBRA


Na sombra, às vezes me deixo
Dormir igual a um vadio
Um sono de longo trecho,
Mas torto e fugaz... Vazio.

Nem sempre consigo um sonho
Daqueles bons de sonhar
Às vezes de tão medonho
Dou-me graças de acordar.

E quando eu sonho calado
Nada de mal me acontece.
Mas se é sonho agoniado
Meu coração desfalece.

Mil vezes viro menino
No’embrulho dessa magia
Sonhando um sonho divino
De alegrar a alegria.

Nesse dia tudo cabe.
Bom e ruim tomam vida.
Quem nunca sonhou não sabe
E dos que sabem duvida.

Acordar nem sempre é bom,
Quando o sonho é de primeira.
Há que se ter algum dom
P’rá parar com a brincadeira.

Sonhar tem que ser assim:
O mal e o bem juvenis.
Se um sonho me deixa ruim,
Outro me deixa feliz.
(Humberto Ilha)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

CLIENTE LEVA BRONZE

Humberto Ilha

Toda semana ele enfrentava aquela aporrinhação dos caixas eletrônicos. A tecnologia da informação viera para atrapalhar os que foram pegos de surpresa; como os da terceira idade. Claudionor era dos que não se davam com a parafernália de cartões magnéticos, senhas alfanuméricas, portas giratórias de segurança, casamatas blindadas, guardas armados, câmaras de vídeo, alarmes. Recente no bloco dos idosos, desejava usufruir regalia dos de sua categoria: usar um caixa preferencial. Não estava disposto a abrir mão desse direito há pouco reconhecido. Queria ser atendido com requinte nem que fosse uma só vez. Foi ao banco e não gostou do que viu lá dentro. Imaginava receber um pouco mais de consideração. Aquele aviso indicando o caixa destinado a atender idosos era perverso. Primeira vez que se permitira a ele recorrer achava aquilo uma carta de exclusão. Mesma coisa que tocar uma sirene obsequiosa para todo mundo ficar sabendo que ali estava um velho. Remascava que o atendimento merecia mais recato. Diabos, se um idoso, uma gestante ou um deficiente físico precisasse de atenção especial era só pedir que o banco saberia atender. Reinava em todo lugar, de uma hora para outra, uma mesura nervosa em favor do senil, mas parece que não sabiam atendê-lo. Havia supermercado que oferecia café da manhã. Prefeituras que garantiam gratuidade no transporte. Até as primas faziam promoção no cachê para os mais travessos. Outro dia a televisão mostrou uma dona Rosinha de setenta e três anos fazendo ponto numa esquina de São Paulo dando atendimento preferencial de geriatria.

Aproximando-se do caixa a ele destinado, Claudionor ia esboçar um sorriso de boa-tarde quando uma jovem senhora lhe tomou a frente. Ignorando-o, ela furou-lhe a vez toda sorridente e com a bolsa aberta cheia de maços de dinheiro para depositar. Era tanto dinheiro que fora levado para a máquina eletrônica de contar. Flip-flip-flip; nunca tinha visto tanta grana junta, nem mulher tão linda. Ele era um bugre criado mato-a-dentro lá pelas barrancas do Uruguai. Um xokleng simbólico: baixo, moreno, quase um bronze, sem um fio de grisalho na cabeça; braços e pernas fortes. Havia de relatar em casa o que estava presenciando. Mesmo sentindo-se transparente tragava prazer enorme e não perdia um movimento da gorducha mulher. Que visão do céu. Por ele não saía mais dali; e não saiu mesmo. Disse para si que ninguém o tiraria dali por nada. Se necessário esperaria o resto do dia. A senhora passava maços e maços de dinheiro ao caixa. A sacola parecia não ter fundo, de tanto dinheiro que havia ali dentro. Entretanto, dava a impressão de querer desvencilhar-se logo da grana como que a transferir de uma vez ao banco a responsabilidade pela guarda daquele pequeno tesouro. Queria logo o recibo, a prova do depósito. E Claudionor: "Ao invés de abraçar e beijar aquele dinheiro todo, ela quer se ver livre dele". Ali, de pé atrás da mulher, podia sentir o perfume cítrico que ela usava. "Uma delícia! Devia custar mais que o rancho mensal". Ainda ali, de pé atrás da mulher, se encantou com o longo sobretudo vermelho que lhe cobria o corpo. O aroma vinha daquele casaco que se mexeu com a mulher dentro para chamar o marido.
— Nego, chega aqui.
Claudionor pode então ver como era linda. Era muita merenda para o recreio do Nego, que era um dragão de feio. Depois de cochichar algo no ouvido dele, o homem encostou-se nela colocando-lhe as mãos na cintura. Isso fez de modo acintoso e olhando nos olhos de Claudionor, dando-lhe ainda vigorosa cotovelada nas costelas. O índio achou haver sido sem querer. Então, o amargoso se mexeu novamente e deu-lhe outro cotovelão para o coitado resmungar algo como “putz”. Agora estava passando da conta. O prosa virou-se para trás e perguntou se o outro não estava desconfiando de nada.
— ???
— Afaste-se de minha esposa. Você está invadindo a privacidade dela. Seu lugar é para além da faixa amarela; e não colado na patroa.
Claudionor percebeu o vacilo; tinha razão, o infame. Desacostumado com a novidade nos bancos, nem percebera que estava invadindo o ninho daquela cobra. Mesmo assim deixou claro ao homem que não gostara do tom da voz dele, para em seguida ouvir:
— Será que eu vou ter que me incomodar com você?
Claudionor já estava tomando o caminho do seu modesto lugar, atrás daquela faixa amarela colada no piso da sala. Faixa Amarela... Algo ameaçador estrondeou dentro da cabeça dele. Lembrou que era ele um faixa-preta. Fora admoestado pelo salgado diante de pessoas e não gostara. O comportamento impróprio do homem deixou-o furioso, mas conseguiu abafar-se. Entretanto, dissera ao outro para se cuidar porque na próxima ele o faria engolir os insultos. Claudionor bem sabia que acabara de proferir uma ofensa maior do que a que havia escutado. O trouxa mordeu a isca e falou esbravejando desgovernadamente:
— Vai querer me encarar?
O bugre conteve-se mais um pouco. Era necessário provocar mais raiva no outro até sobrevir o ponto ideal de enfrentá-lo. Até que ficasse totalmente sem controle emocional. Antegozando um ódio desmedido e represado retrucou na debocheira:
— Posso encarar você, mas não vale me chifrar.

Xingar alguém de corno era uma de suas melhores provocações. De sua boca não saiam palavras afetuosas quando o sangue lhe subia. O valentão arremeteu com tudo para cima de Claudionor, mas girou como só um bailarino gira, terminando aterrissado junto ao bebedouro. Que lambança; a bombona explodiu no chão como um torpedo, encharcando tudo. O segurança tentou imobilizá-lo, mas o bugre fê-lo soltar um grito horrível. De não acreditar, mas Claudionor neutralizou-o fazendo forte pressão num dos dedos dobrados da mão do guarda. Como fazia muita choradeira, o bugre desvencilhou-se dele com grande estrondo; também ele beijou a lona. E no chão dormiu de ladinho perto de uma dentadura quebrada que não se sabe de onde veio. Agora ia juntar o confiado para completar o trabalho. Mas a cúmplice mulher subitamente avançou contra ele, como se tivesse sido atingida por uma espetada no popô. Nem deu tempo para desconsiderar a ameaça. A água espalhada fez que patinasse como se patina pela primeira vez: numa coreografia desengonçada com os braços abertos e os olhos arregalados de pânico. Todo o corpo atraente dela deslizou até amontoar-se sobre um vaso ornamental. Funcionários juntaram-na e ao marido e levaram os dois lá para dentro. Claudionor estava branco e alerta. Eram mesmo de bronze seus braços e pernas de tanto estrago que faziam. Sabia que o pior estava a caminho. Como a se defender, falou aos que viram o bafafá que fora um erro o homem tê-lo desafiado daquele jeito. “Meter-se comigo é caixão. Afinal, eu pratico artes marciais”, falou bancando o campeão de si mesmo. E era verdade, mas seu maior talento era a rapidez de raciocínio aliada à grande mobilidade diante de situações desse tipo. Sobrevinha-lhe ainda saber combinar rapidez com potência de golpes certeiros. Era um ninja, desses que a gente vê na televisão. Durante todo o entrevero não emitia palavra, mas nada lhe escapava à atenção. Nem o guardinha dormindo no chão, nem as câmaras de vídeo que tudo registravam.

Como parte da rotina de segurança os funcionários chamaram a polícia, que cercou a agência com grande aparato de resposta tática, preparada que veio para enfrentar assaltantes, seqüestradores, terroristas ou sabe-se lá o que mais. O oficial que tudo aquilo comandava não imaginara que fora acionado para acabar com um bate-boca. Sirenas, faróis acesos, pisca-pisca, bombeiros, coletes de segurança, escudos blindados, armamento pesado e muita tropa entrincheirada por detrás dos carros tipo caveirões. Aquele monumento de bronze feito homem olhou para fora e balanceou a situação: “tô ferrado”. Fitou as pessoas no interior do banco, quase que a pedir ajuda. Mas ninguém parecia lhe dispensar benevolência. Sequer chegavam perto dele. Decidiu então encarar sozinho o caso, como sempre fizera na vida.
Um megafone saiu por trás de uma viatura camuflada, e dele vinha a ordem para que todos se atirassem ao chão. Foi pra já! Todos se deitaram, inclusive Claudionor, que se deitou ao lado do segurança que dormia de ladinho. Os policiais entraram e não encontraram a oposição que esperavam. Sequer sabiam a quem prender. Mas um comandante de polícia tem lá suas manhas. Com pausada voz de comando determinou que somente os funcionários do banco se levantassem. Ainda assim, verificou que havia muita gente pelo chão. A seguir autorizou que o segurança também se erguesse. No chão, só os clientes. E entre eles, por certo, os autores de toda aquela encrenca. Separando o joio do trigo ficaria mais fácil prender os bandidos.

Mas, e Claudionor? Fez-se oculto ali mesmo. A polícia não sabia onde ele estava, muito embora parecesse que havia sido indultado pelos que tinham visto o seu desempenho em defesa da honra ultrajada; atuação que todos viram mas não entenderam, tamanha a rapidez e precisão de movimentos daquele herói solitário. Nosso Senhor depois de ressuscitar no terceiro dia foi mais demorado para se esconder nas nuvens, de acordo com o que nos contaram na catequese. Com tudo que O qualificava demorou muito mais tempo que o bugre para fazer-se oculto. E agora nem bem deitou ao lado do guardinha esse velhaco desaparece diante dos olhos de todo mundo para ressurgir fardado ninguém sabe como. Sobrou à polícia apenas prender o casal de lambanceiros. Queria o depoimento deles para o competente inquérito. Por muito pouco não levou uma vaia.
Enquanto tudo isso se passava, o segurança falava ao rádio em voz alta com alguém a respeito da briga que havia presenciado no interior da agência bancária. Ao tempo em que parecia relatar tudo com detalhes ganhava a rua movimentada. E assim caminhou até o ponto de ônibus para sumir da vista da polícia. Entrando em casa, de uniforme, a mulher estranhou e perguntou se ele havia arranjado emprego de guarda. Fez que não com a cabeça.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O INEVITÁVEL DANIEL BARBADA

Humberto Ilha

— Pode haver coisa mais absurda? Estudante civilizado não há de trapacear nas provas. Só se for por cima do meu cadáver.
Era um vexame. Um rapaz tão galante levar tão grave sermão de mulher tão cheia de letras quanto bonita. Mas também era quase uma imprudência falar de maneira tão áspera a alguém tão engenhoso, porque ele era bem capaz de passar por cima dela para colar só por deboche.
Ninguém pode afirmar que "desta água não beberei". Sempre existe o imponderável argumento da outra parte. Seja em palavras, gestos ou intenções. O rapaz demonstrava saber dar a volta por cima das situações já perdidas. Sabia curvar a espinha diante de ventos fortes, mas não deixava de aplicar um pouco de fortidão na pegada com as mulheres. Era disso que elas gostavam nele; aquela irresistível pegada.

Nesses tempos em que se convive com escolas invadidas por vândalos, professores agredidos por delinqüentes armados, tiroteios, tráfico de drogas no portão dos colégios e gravidez precoce tolerada nos pátios, colar devia parecer um delito menor. Mas não, agredir, tirotear, fumar e cafungar são crimes que não mais surpreendem a polícia. Quando nem a escola, que é o recurso de edificação da sociedade, é digna de respeito, o alarme dispara causando susto em todos. Delito não menos pior, copiar clandestinamente num exame escrito é algo que ensangüenta a honra, liquida a carreira do estudante e deixa o professor vacilante. Felipe Gonzáles garantia que o estudante que manchasse o currículo com um episódio de cola jamais seria político na Espanha. Um delito tão pequeno, praticado por pequenos, mas que vira um dragão para o resto da vida. A cola é irreparável e não merece perdão pelo intrínseco da sua gravidade. Conheci alguns dos bons nessa arte. A eles jamais me entreguei para deles extrair sequer notícias de futebol. Quando passam parece que ainda ostentam a tatuagem da vergonha na testa. Não foram e não serão confiáveis porque a prática da cola é sorrateira, planejada e mentirosa. Tanto que sobressalta os educadores e os que zelam pela formação ética da juventude. Muito pior se o delinqüente for universitário. A aflição do professor que pilha alguém com a boca na botija semelha-se ao luto pelo próprio filho. Ficará ruminando muitos dias: “Onde foi que eu errei? Veja o suíno que irá me substituir” Se o transgressor for mulher, dessas que escondem a tramóia nas coxas, pode contar: é daquelas tendentes às negociações suspeitas. Emparelhar com elas num casamento é chifre certo.

Barbada, o que estava levando aquele sermão escandaloso, era desses com as pernas demasiado cabeludas para enternecer alguém. Portanto, tinha que arrumar um jeito de esconder o cambalacho noutro lugar. Fotógrafo competente, Daniel passava boa parte do escasso tempo livre a reproduzir e reduzir textos escolares. Transformava tudo em instantâneos de trapaça para se dar bem nas provas. Na hora oportuna fazia sumir todo o petrecho nas furnas da própria roupa. Era comum vê-lo com maços de cigarros, cada um encobrindo um estelionato. Mesmo em dias de calor trajava famigerado fardão de lã cheio de bolsos. Aparecia no abafo todo encilhado de malfeitor. Bruxo requintado, jamais fora pego em flagrante. Professores faziam de tudo para ele não colar; pois colava. Uns diziam que eles sabiam e condenavam-no a morder o próprio rabo como no mito da serpente cósmica. Deixavam-no proscrito na circularidade da própria falência. Outros não compreendiam como o rapaz se valia desse meio suspeitoso se possuía brilhante inteligência. Outros ainda lembravam o lendário gol de mão de Diego Maradona: "indigno, mas fantástico". Aliás, é de se perguntar se os que baixam o pau no argentino teriam a grandeza de, no lugar dele, pedirem ao árbitro que invalidasse o gol em nome do fair play, mesmo que disso resultasse a derrota da própria equipe. Duvi-de-ó-dó.

A seu favor Daniel confessava-se inseguro para fazer provas escolares. Contudo, em seu benefício havia o carisma de ser um profissional requisitado pelas principais agências publicitárias do país. Conhecia o mundo, tornando-se um humanitário diante do que captou e transformou em instantâneos. Suas fotos eram veementes nas exposições e publicações que organizava. Suas lentes focavam as pessoas na guerra, no trabalho, na alegria, no esporte, na escravidão, na orfandade, na dor, na morte, na ternura, no abuso, na solidariedade, na prepotência, no desamparo, no amor. Sua câmara foi intensa e denunciadora de barbáries contra as gentes do Timor Leste. No Zaire dos diamantes foi levado pelas mãos de crianças aos locais de ternura embrulhados pela dor de uma guerra até hoje não prescrita. Trabalhando tão apaixonadamente, aprendia que a Geografia era o espaço onde as pessoas viviam. E esse era o motivo pelo qual estava ali. Queria ser um fotógrafo-geógrafo; pois que o deixassem sê-lo, por certo para o bem. Contudo, em dias de exames virava uma pilha de nervos e tudo ficava embaralhado em sua cabeça. Pressionado errava até tabuada de seis. Para os que duvidavam mostrava a caixa de calmantes que tomava à noite. Conseguir notas boas era uma barbada quando o professor era descuidado, gabava-se. Para a maioria das pessoas ele era um safado. Rodava pelos corredores que um professor chegou a pegá-lo com o caderno aberto no chão e o baita só se dando ao trabalho de copiar, virando as páginas com a absurda destreza dos dedos dos pés. Diziam que o professor, diante de tamanha cara-de-pau, não tivera coragem de dar-lhe zero. Pelo jeito Daniel Barbada também conhecia o íntimo das pessoas ao apostar na falta de ação do mestre, porquanto um delito desses, praticado com o sol a pino, era coisa de merecer redondo zero. Mas, dizem, o catedrático tremelicou de tanta vergonha que sentiu pelo velhaco. A partir desse episódio a fama do fraudador e sua inditosa arte só fez crescer. Quando o Diretor tomou conhecimento do fato, chamou a professora que havia jurado barrar-lhe a farsa. Aquela braba do esculacho e do corpo torneado descrita no início. Barbada estava no meio de um rolo enorme, contudo alegava jamais haver usado os petrechos malditos para fazer as provas. Admitia preparar, mas não chegava a usá-los. Dócil, chamava “aquela fratura exposta” de lembrete ou material de apoio. Ninguém lhe negava a fama construída na falcatrua, mas também o reconheciam como um sedutor convincente.

A última prova do curso seria realizada sob a supervisão daquela fera tão amarga quanto linda. Se Barbada lograsse êxito sem colar na prova, sua mala cheia de culpa ficaria esquecida para sempre. Tinha que aceitar o desafio, mas estava acovardado: “Sou bruxo, mas nem tanto. Esse sargentão fareja tudo e vai me espicaçar”. Pensou em fazer um acordo com o Diretor, mas não lhe ocorria nada lícito que viesse em seu amparo. Sem saída, concordou com os termos da proposta. Faria a prova final sozinho e sob a supervisão da tal que lhe jurara nocaute. Havia feito duas provas com notas baixíssimas, precisava sair-se bem na última. Foi no banheiro e voltou trajado como um feiticeiro para o desonroso truque de tirar água de pedra. No entanto, ao botar os olhos na professora ficou paralisado. Como era linda aquela mulher. Agora é que se dava conta vendo-a num minivestido de seda preta que lhe desvelava as formas perfeitas. Como um radar, Daniel percebeu a existência de uma tatuagem indefinida no tornozelo da moça. Isso dava a ela um ar de independência e charme. O desenho, quase impreciso sem seus óculos de grau, parecia querer proclamar a própria presença naquela parte quase oculta do corpo da deusa. Lembrava algo já visto, contudo não conseguia decifrar aquela figura. Foi aí que sentiu estrondear-se por inteiro experimentando o angustiante ímpeto de gritar que havia achado a mulher da sua vida. Mas Daniel Barbada sufocou o sentimento para não piorar ainda mais a situação em que estava metido. Recompôs-se nos alicerces, mas parece que ela percebeu-lhe os estragos.

Mandado começar a prova, tudo tentou que sabia na arte da diabrura da cola. Inventou mil truques e nada dava certo. Estava cada vez mais tenso. Meia hora de prova e não respondera nada. Então começou a rezar e imaginar o conteúdo das perguntas. Oxossi, o que mandava na mata, haveria de lembrar-se dele mais uma vez. Entregou a alma e matutou: "O que o destino me mandar, eu encaixo". De repente pareceu que lera em algum lugar a resposta de uma das questões, escrita com inconfundível caligrafia feminina. Esboçou ar de riso e cravou a alternativa correta. Voltou o pensamento para o santinho caçador de dragões. Assumiu o trejeito de quem estava raciocinando e veio-lhe a segunda resposta. Antes de responder olhou a professora, que demonstrava estar virando uma tocha ardente diante dele. As respostas vinham em borbotões, como uma torneira que não consegue estancar a água. Barbada respondia as perguntas com rapidez uma atrás da outra. Quando respondeu a derradeira, a mulher parecia estar cheia de luz. Instalou-se dentro dela um desabalar nevoento de fantasias. Havia passado por um jovializante processo e agora estava arpoada. Estava deixando o mesmo que uma porta aberta para o ladrão. Daniel combinou consigo mesmo: "Ela voltou dos infernos". Olhou aquele fermento indomável com um travo de paixão. Quis entregar a prova e sair dali, mas, como que por magia, ficou preso à presença dela. Estava também arpoado. O coração queria saltar-lhe pelo umbigo de tanto querer, mas seus olhos não se despregavam da cola caprichosamente escrita naquele tornozelo de fada.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

LADEIRA ABAIXO

Humberto Ilha

A semana no pé daquela serra majestosa iniciava com rebuliço; pelo menos no povoado. Nada assombroso se o começo da lida não fosse às quatro da manhã. Em meia hora o ônibus sairá para engatar com o horário do trem das seis para Tubarão. "Levanta o patrão porque hoje o motorista não veio". Quando isso acontecia sobrava sururu para todo mundo. O próprio dono ia fazer a linha dirigindo o veículo; a mulher já na cozinha para o café; o filho fazendo o embarque. Sempre rigorosamente calmo, justo e honesto nos negócios, manso e cordial, Riccoldo Mansi planejara não precisar mais trabalhar duro após os quarenta. Era bom no que fuçar a vida, mas era péssimo no como fazê-lo. Para tanto botava os filhos e empregados. Jamais negou uma vaguinha para um parente, mas costumava pagar quase nada de salário. Econômico, não abria a mão nem para espantar moscas. Adorava comer ensopado de pato, mas quando havia carne de gado gostava de patinho para comer assado com recheio de toicinho e pimentão. Sedutor no silêncio, bonitão, olhos azuis expressivos, não sabia dizer não às mulheres que nele se encostavam como abelhas no mel. Vinha daí a infelicidade da esposa que o amava e unida cavucava com ele no esfocinhar a vida.

Quando o empresário chegou à garagem, o cobrador já havia aprontado o veículo para a viagem. Sentou-se ao volante, conferiu tudo e partiram devagar. A vizinhança já acordada com a maldição diária do barulho de esquentar o motor. Quem tinha juízo não chiava; o homem era também dono do armazém, da sapataria e da mina; um patrão meio blindado aos desaforos de empregados e parentes.

Na última poltrona, todo escanchado, viajava um compadre que era mais chato que chinelo de gordo. O velho, miudinho, não economizava deboche quando Mansi era o motorista; proclamava que o amigo guiava mal. "Hoje ninguém chega lá; cuidado aí, chofer". Fazia mais escândalo do que relincho de burro garanhão. O gringo era homem de pouco riso, mas também sabia encaixar com humor os gracejos do outro. Então o veículo começou a fazer uma descida grave. O cobrador começou subir a escada externa para cobrar os passageiros que se amontoavam na capota. Quando sentiu a velocidade aumentando além do costume, achou melhor se atracar com a escada; pressentiu que aquela descida ia ser diferente. Rabeou os olhos para os passageiros lá de cima e riu para dentro, porque eles já estavam apavorados com as mãos garreadas nas grades. Acostumado a passar por ali todos os dias, o menino percebeu que o empresário perdera o controle do veículo. Com algum esforço o veículo conseguiu fazer a primeira curva, mas daí deparou-se com uma tora de bracatinga atravessada. Não havia o que mais fazer: o homem firmou-se no volante, calçou os pés, virou o rosto contraído e encarou o tronco. O choque foi medonho; mais feio que indigestão de torresmo. Os cinco que estavam na capota voaram para se estatelar no chão, mas um foi parar na frente daquele dragão desgovernado. Ficou no chão quieto, parecia desacordado. Nesse meio tempo o veículo subiu um pequeno barranco parecendo querer parar. Mas não, voltou para o meio da estrada reiniciando o ziguezaguear do inferno na direção daquele que estava estirado. Mas também, foi só dar uns buzinaços que ele rolou para a beira da estrada, feito James Bond diante da morte. Safou-se, mas ficou com o cotovelo virado de ré para o resto da vida. Mas aquela era um época em que pouco se via alguém cavando falta para levar vantagem. De modos que nunca vindicou uma merecida indenização.
Com a parada repentina o zombeteiro que viajava na cozinha veio escorregando pelo corredor encharcado de óleo empacando esbeiçado em cima do painel de instrumentos. Não perdeu a pose: "Compadre Riccoldo Mansi, você tem aí uma carta de motorista ou um Almanaque da Lua"?
Depois desse episódio os fregueses fizeram um abaixo-assinado para impedir o proprietário de dirigir o próprio ônibus, mas ele ignorou o petitório. Então formalizaram queixa na delegacia de polícia. Com isso começaram a aparecer outras reclamações. Um queixou-se que ele havia atropelado por querer quatro galinhas. Outro dava conta que em dias de chuva ele fazia questão de passar por dentro das poças encharcando todo mundo. Outro reclamava da falta de horários. Outros ainda acusavam atrasos quando o motorista era o dono. E teve até passageiro reclamando que ele deixava embarcar animais como cabritos, bezerros e marrecos infernizando a vida de todos dentro do ônibus. Diziam que uma novilha enjoou e deixou uma fedentina insuportável. Daí não teve jeito, o delegado pediu que o homem não dirigisse mais o veículo. Mas ele se dizia injustiçado por se considerar um bom motorista; mas não era não.

sábado, 25 de outubro de 2008

UM CANDIDATO DE RESPEITO

Humberto Ilha

Aquele idoso havia sido o melhor prefeito da cidade. Como fizeram em eleições passadas, os notáveis da cidade se reuniram e decidiram apoiar-lhe a candidatura. Mas ele não queria ser reeleito.

O desejo de ser prefeito nascera-lhe de uma indignação, quando ainda jovem. Consta que tomou conhecimento do que vinha sendo feito com o dinheiro público. “É uma ladroeira que ninguém dá jeito”, dizia corajoso. Tanto que seu discurso base era não roubar para poder administrar. Agora velho, mas ainda topetudo, vivia dizendo que se merecesse a aprovação popular iria pavimentar cinco quilômetros de atoleiro, que alguns chamavam de estrada, somente com o dinheiro economizado do roubo. A estrada era um anseio comunitário prometido e nunca cumprido. Era uma obra necessária para escoar oitenta por cento da produção de cebola do município. Ninguém o levava a sério, mas ele insistia no plano.

De tanto perseverar acabou sendo procurado pelo grupo de pessoas nascidas ali, mas que morava em outras cidades. Era esse o tal grupo de notáveis que, diziam, decidia o rumo das eleições. Nos quadros figuravam médicos, magistrados, um ex-governador, professores universitários, um líder comunitário de avançada idade, dois generais da reserva e uma senadora da república. Eram pessoas de bem e por isso mereciam credibilidade da cidade. Em anos anteriores o grupo havia escolhido um critério de preferência: a capacidade intelectual. Pessoas estudadas eram mais aderentes a um plano de ética pública. Mas não adiantava; parece que, quanto mais inteligente, mais o ladrão sabia roubar.

Chamaram o velho para uma reunião e deram-lhe a chance de expor o plano que propalava nas ruas. Não era ele um homem que reunisse as melhores qualidades que o grupo buscava. Com palavras simples e às vezes mal pronunciadas, ele falou somente do plano geral que tinha em mente.
— Eu só prometo não deixar o dinheiro sumir. Com a economia vou levar a rodovia até as tifas das lavouras de cebola. Um dia depois de assumir o engenheiro começa a trabalhar na obra.
O grupo pediu que ele mencionasse a origem dos recursos; se pensava em aumentar os impostos. Mais uma vez ele foi claro.
— Vou acabar com o esquema de propina. Trabalhando com honestidade nas concorrências públicas vou baixar os custos dos bens e serviços que a prefeitura contrata. Não vou aceitar e não deixarei que peguem propinas durante a minha gestão. O controle do dinheiro passará por mim pessoalmente. Vou ficar com a chave do cofre em respeito ao povo.
O grupo suspendeu a reunião por meia hora e voltou com a decisão.
— Vamos dar ao senhor a oportunidade que tanto pede e vamos elege-lo — disse-lhe a senadora falando em nome do grupo.

A partir daquele dia o homem começou a se trajar totalmente de branco. E vestiu-se desse jeito até o dia da posse. Não gastou sequer um centavo com a própria campanha. O trabalho do grupo foi eficiente porque se multiplicou pelos seguidores e parentes, mas a mensagem de que o candidato estava de mãos limpas para servir foi definitiva para o resultado estrondoso das urnas. Fora uma mensagem como nunca ninguém viu. Só se falava no homem de branco.

No dia seguinte à posse, sua neta foi vista demarcando a área para a construção da rodovia prometida. Fixou o prazo de cem semanas para entregar a obra. Na inauguração, nada de foguetório. Entregou a estrada sem alardear e continuou trabalhando serenamente até a hora que o mesmo grupo veio pedir para reelegê-lo. Não quis mais o cargo; já havia feito o que lhe competia. Aconselhou que escolhessem outra pessoa que aceitasse trajar roupas brancas durante o mandato. Então o grupo solicitou que ele indicasse alguém. Relutou por causa do nepotismo, mas no fim foi convencido e indicou uma pessoa jovem e com pouca visibilidade na cidade: a engenheira da rodovia, sua neta.

No dia da posse da moça, ambos trajavam roupas brancas. Como se fosse um branco pontifício, comprometido com a honra e a ética que o cargo exigia.

DEU A CAÇAPA CANTADA NA BARRA

Humberto Ilha

Naquela noite houvera um bafafá medonho com um paulista, só porque usava vistoso chapéu branco de rodeio com as abas enroladas feito Rocky Lane. Rapazes da barra costumam provocar forasteiros atraídos pela beleza e paz da cidade. É nada disso, a violência campeia impune nas ruas. Nem se sabe mais se é caso de punição, pois o que se está reconhecendo é que os índices de criminalidade aumentam com a ampliação da injustiça social. O direito de ir-e-vir das pessoas estava sendo ignorado pelos moços da barra. É inegável a implicância de algumas pessoas com relação aos visitantes. A barra é comunidade fechada que se nega a entregar a virgindade por razões que nem sempre se entende. Abrir-se para o novo pode provocar insegurança e medo. E o medo faz coisas. Se não fosse a lojista reacionária, o turista seria muito machucado. A mulher, uma gaúcha, meteu-se no meio da briga e prometeu chamar a polícia a bem de pararem com aquela agressão. Mas o automóvel importado dele ficou bastante danificado de tanto coco que recebeu. Era apenas um psiquiatra que estava em férias contra um grupo local que passava dos limites. Melhor, era um bando de hienas sorridentes com as presas afiadas querendo guardar a praia e o verão que julgavam ser deles.

Os rapazes ainda estavam saboreando a vitória covarde, quando a atenção das pessoas ficou voltada para nova demonstração de intolerância. Dois gaúchos trajando bombachas e alpargatas mal iniciaram a matear fora da camionete estacionada de frente para a maresia, quando começaram a ser insultados. Os dois não deram importância para as chacotas até que escutaram o bufo do habitual coco se esborrachando na porta do carro. Foram conferir o estrago e pediram para que parassem. Um dos gaúchos, um cinqüentão chamado Gotardo, que se soube também tocava acordeona, quis falar mais alguma coisa, mas foi atingido por uma latinha cheia de cerveja que lhe abriu uma fossa enorme na cabeça. Em seguida, foi jogado no chão e agredido a pontapés até ficar em coma. O outro, um homem de Sarandi, conseguiu afastar os agressores e colocar meio jogado o amigo na caçamba da perua. Tinha pressa de seguir para a emergência do Hospital Universitário. Nem esboçou reação de bate-boca, pois só queria socorrer o ferido que sangrava muito. Furtivamente encarou cada um dos oito covardes. Sem movimentos bruscos embarcou no veículo avaliando o quanto aqueles rapazes eram malvados. Foram mais pontapés, palavrões e cocos, armas eficientes saídas da secura do verão. O forasteiro foi embora enquanto o bando proclamava vitória. Mas era só o começo do rebuliço, pois quase imediatamente ele voltou. Deixara o companheiro encaminhado para um cirurgião remover-lhe um coágulo no cérebro. Só que agora trouxe um reforço também bombachudo, o dono do carro e irmão da vítima. Os malfeitores de finais de semana passaram a hostilizá-los com mais veemência. Não o fariam se suspeitassem que o homem era um delegado de polícia acostumado a lidar com salteadores e assassinos. Os dois turistas desceram do carro amassado e o proprietário perguntou quem se responsabilizaria pelo estrago. Um dos valentes respondeu que não tinham visto nada e recomendou que eles fossem embora dali. Mas os dois vieram com um plano e imobilizaram o valentão que falara. Como num passe de mágica o delegado armou-se de uma pistola e colocou-a entre as pernas do rapaz. À vista daquela arma ameaçadora os demais fugiram como fogem os covardes. Então o policial disse que eles estavam se metendo com quem não conheciam. Que um gaúcho não admitia insultos; e que ele não gostava de cocos — matava a sede com chimarrão amargoso na losna — e que o chiru refém ia saber o que era ser perverso. Disse mais: que era obrigado a ensiná-lo da pior maneira, pois a lei da rua o obrigava assim proceder quando não sentisse necessidade de tirar a vida de um bicho sem mais préstimo. Dizia isso aos demais com a arma sempre encostada no corpudo, que chorava arrependimento inútil.

De repente um estampido forte, uma cápsula zunindo e o rapaz se contorcendo em desespero no chão; o tiro mutilou o futuro do que ainda era casto no moço topetudo da barra.