segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O GUARDA DO TEMPLO

Humberto Ilha

O bom coração das pessoas parece ter limites para agir. É um embuste dos grandes, alguém decidir ser bom de um dia para outro. Mas ninguém se torna bom se não começar a imitar os guias da compaixão. Um dia o bom coração rebenta sem que o talo se dê conta. Mas até isso acontecer muita cena de remorso há de rolar. O aprendizado começa em casa, depois é a escola, a igreja e o trabalho, para se consolidar nos cafundós do mundo, que é onde as coisas acontecem.

Pois um templo é sempre local de refrigério para a alma. Local onde as pessoas procuram para aliviar a pesada carga da ossada. Conheci um na parte continental da cidade; na rua que dá para o mar. Desde criança tive conhecimento que ali era local de oração e caridade. Mas era também local de peregrinação de vivos e mortos. Diziam que desencarnados eram atendidos ali sem que lhes pedissem carteira de identidade. Para receber atendimento o visitante do além não precisava estar cadastrado; todos tinham assegurado o acolhimento independente do quilate devocional. Mas eu somente via a peregrinação dos vivos que para lá se dirigiam em busca de remédio, comida e dinheiro. Vizinhos eram constantemente incomodados pelos que pediam. Um deles havia colocado um aviso: “Aqui não é o Centro Estrela Guia”. Quem preparasse a mão para bater naquela porta dava de cara com esse aviso. Vi alguns recolherem a mão à meia viagem. Ficava engraçado quando vinham em dois conversando e se preparavam para golpear a porta daquela casa. Depois de ler o aviso faziam que nem avião quando recolhe o trem de pouso. Onde então o templo? Bem ao lado, e com um enorme letreiro indicando os dias e horários das sessões. Então como não ver? Exu, o orixá guardião dos templos e encruzilhadas certamente saberia dizer. Por certo, tinha-se que aquele era um local conhecido pela bondade dos seus membros, que diziam ser a fome física algo concreto para o mortal.

Naquela noite o grupo estava reunido para tratar de assunto da economia da casa; o tempo previsto era de hora e meia. A reunião estava começando quando bateram de um jeito profano. Obreiro dedicado como sentinela, Neném Bordoada levantou-se para ver quem assim batia. Deu de cara com um freguês de cesta básica. Do alto de seus quase dois metros de altura ruminou má vontade: “Que diabo, esse cara está sempre aqui pedindo”. Entretanto, fez-se afável, recurvou a espinha, desculpou-se e pediu que o coitado viesse no dia próprio, isto é, dali a uma semana. "Boa-noite; boa-noite", fechou a porta e acomodou-se com aquele seu ar de mando para continuar a sessão. Sujeito lúcido, há muito passado dos branqueados oitenta, além de comandar sabia se desenhar como um gato que se põe alerta. Não conseguiu reprimir um recorrente pensamento doutrinal que lhe aflorou à mente: "A dor desse infeliz não lhe poderia ser útil para depurar-lhe o espírito?"

Dali a cinco minutos o mendigo voltou a chamar os de dentro. Neném Bordoada controlou-se para atender o pedinte, que novamente pedia o rancho; a mesma desculpa, mas antes de despedir o homem, pediu-lhe que fosse para casa dormir e então viesse no dia seguinte para ver o que poderia fazer. Ambos tinham biografias curtidas, um pela cachaça e outro pela água salgada da vida, sabiam que a necessidade exige ação. Assim mesmo o guardião fechou a porta e sentou-se mais uma vez para dar seqüência à reunião, que não queria andar. Um exu não dorme, pensava, sequer relaxa; quando muito apenas descansa. Mesma coisa acontecia com o seu Neném; não estava ali para descansar. Quase imediatamente, o inimigo voltou a bater. Sim, porque somente um inimigo arrumaria uma provocação daquelas. O sangue subiu e deu uma raiva tal em Neném Bordoada que esmurrou a mesa para encarar o homem. Nem deixou o diabo abrir o bico para repetir a ladainha. Desferiu-lhe um direto no queixo para pô-lo nocaute. Assustado, não esperava que a bomba saísse com tamanha potência. Todos se levantaram para atender o mendigo, menos seu Neném, que chorava de remorso. Reconhecia faltar muito para ser bom. "Que raiva, — ganiu — dá vontade de desistir de tudo".

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ALCIDES

Humberto Ilha
Um à-toa que nem o Alcides não se encontra por aí assim. Não que fosse mau, não era. Mas que era um safado aprontador, isso ele era. Durão, feito carapaça, mas tímido e introvertido que nem um tatu, quase sempre aproveitava as ocasiões para caprichar um desempenho fraudulento; mesmo que em cima do pai. O prazer de rir dos outros não lhe sobrepunha limites. Dizia que o mais difícil era fazer-se de insuspeito para ninguém dele desconfiar. Esse era o seu talento: manter-se oculto diante de todos; não se deixar revelar o próprio miolo.

Nos dias de hoje pode-se dizer que a caçada ao tatu seja algo abominável, pois já tipificado como crime inafiançável. Mas nem sempre foi assim. Alcides foi convidado para uma caçada no sítio do próprio pai, lá para os lados da Vargem do Bom Jesus. Homem da roça, seu Manoel Liporda sustentava o dito repetitivo de que nunca o veriam com os dois pés no chão, de tanto que trabalhava. Uma vez no ano ele reunia os amigos em noite de lua cheia para caçar o tatu. Parecia ter intimidade com o cascudo; que o criara no fundo do quintal até que o bicho topasse com a derradeira hora se ver caçado. Dava a impressão que fazia um bem danado ao bicho, que só comia insetos de tão inofensivo que era. Como os poderosos, xingava o tatu de ingrato quando o pobre esperneava para se safar do facão.

Alcides iria participar daquilo que valia como um rito de passagem para a condição de quase adulto; um moço. Mas o jovem fora criado na cidade, cheia que era de escaninhos zombeteiros. Era muito à-toa, o rapaz. Definitivamente não era ainda um homem, mas o pai apostava nele; perdia sempre, mas arriscava. "Por enquanto esse à-toa não vale um ovo, por Deus do céu. Não presta para serviço nenhum. Mas um dia ele endireita".

Chegou ao sítio uma semana antes da lua cheia marcada para o inocente folguedo. Os petrechos o velho já havia preparado: lanterna de querosene, bocó, vergas de bambu, cortadeiras, facão, cavadeiras, jabuticaba curtida e o cachorro Sabido. Chegada a noite, havia muita animação e uma tensão ancestral diante do ato de caçar. Tocaram mato adentro; Alcides na rabeira cantando Portãozinho e Porteirinha: "O tatu é bicho manso e nunca mordeu a ninguém. Só deu uma dentadinha na perninha do meu bem. Anda a roda tatu é teu; voltinha no meio tatu é meu." O pai do rapaz queria mais silêncio na veação.
— Isca, Sabido! Vai procurar, vai!
O bicho se mandou pela encosta de vegetação emaranhada. Morro acima e todos em silêncio a espera do cão, que não vinha; que nem latia. De repente o ganido conhecido do animal rasgou o silêncio e a correria na direção dos latidos através da capoeira grossa. Difícil, porque no escuro não se viam as pedras, os paus, os galhos, a lama e os formigueiros. "Perdeu-se o bicho" decretou o chefe da caçada. De repente Sabido saiu acoando seguido como a dizer: "ali está, por aqui, gente". Não fosse tão escuro, era de se dizer que o cachorro apontava a toca com a patinha abanando o rabo feliz.

Enquanto isso Alcides fuçava sozinho para outros lados. Foi aí que encheu o peito e gritou bem alto: "Peguei um". E baixinho com orgulho: "O pessoal não vai acreditar que achei um baita logo na primeira vez". Não era fácil conseguir um; quantas vezes o grupo voltava sem nada? E olha que era gente de sorte. A diminuir o desencanto, naquelas vezes em que nada trazia, Liporda desdenhava o insucesso dizendo que fora caçar só por farra. Mas Alcides bem sabia que o velho ficava desconsolado. Isso ele via quando lá um belo dia o grupo trazia um bicho. Então o velho fazia uma festa daquelas. Diante do buraco, Alcides preparou a verga de bambu para cutucar a toca; devia esperar o pai, mas não quis dividir a glória. O vasilha não conhecia nada de mato; fora criado na cidade, lugar onde só se via tatu nos livros. Cutucão daqui, cutucão dali, o bicho fugiu. Nisso ele viu a turma chegando para ajudar a desentocar o desdentado. Alcides agarrou uma cabeça de pedra e fez que rolasse morro abaixo fazendo grande estrondo. "Fugiu, fugiu", gritava fingindo desencanto. O pessoal saiu correndo atrás do barulho medonho; inclusive o cão, que se meteu na frente da pedra para barrar-lhe a fuga e dela tomou um solavanco resultando um vergão no lombo. O velho achou que o bicho fazia estrago demais na coivara; devia ser mais que um porco-do-mato ou mesmo um terneiro assustado. Vieram descendo na pilha do barulho, mas já viam também o rastro deixado para trás na roça de cana. "É coisa grande, minha gente", alertava Liporda já temeroso: "Deus que me perdoe, mas parece um boi-tatá". Quanto mais descia a pedra ganhava mais velocidade. Estavam chegando de volta à casa de morada quando se ouviu um estrondo medonho na parede de estuque da cozinha. O velho dono do sítio arfava de cansaço quando lhe abriram um claro para que visse o tamanho do estrago que fizera aquela pedra: abriu um buraco na parede entrando cozinha adentro indo parar no meio dos destroços do fogão. Desanimado, seu Manoel pegou uma pomboca de querosene, olhou bem para a obra do filho e gritou: "Alcides, seu urubu, o que mais eu não sei de ti?"

E mais dele nada sabia. Sequer lhe suspeitava a vocação despertada durante aquela caçada. O rapaz foi para a Austrália, fundou a Alcides Excavation & Demolitions, ficou rico e de lá não sai tão cedo.

domingo, 21 de setembro de 2008

O SARGENTO DESMAIOU

Humberto Ilha

A carteira do Banco de Sangue conferia-lhe a condição de doador universal. Não ia deixar de atender ao pedido do comandante: levar cinco com sangue "O positivo" ao Hospital para socorrer um baleado grave. "Deixa comigo que dou um jeito, major". A fala do sargento soou convincente e responsável num quase brado militar. E dali foi atrás de mais quatro porque ele já era um.
Diante de tão inoportuna missão ocorreu-lhe procurar entre os domesticados da cozinha. Estava com sorte, arrumou quatro e se foram num velho jipe de puxar esterco. No trajeto percebeu que nenhum deles havia doado sangue. Então o homem disse que na Capital isso era corriqueiro mostrando-lhes orgulhoso a carteira de doador; que era procedimento indolor para homens de fibra; explicou-lhes o valor da solidariedade humana sem esquecer que depois de tudo vinha um lanche reforçado para cada um. Pareceu-lhe que a gororoba fora o melhor argumento até ali, porque eles riram um pouco.

Ao desembarcar da viatura percebeu que os quatro estavam com as mangas já arregaçadas e com uma das mãos sobre o local do braço onde iam receber a agulhada. "Estão encagaçados; acho que vou ter trabalho com os cozinheiros. Parecem tão fortes e tão cheios de maricagem". O médico do Esquadrão já os esperava; o baleado queria morrer, parece. Levou todos para uma sala de procedimentos e perguntou quem era o primeiro. Os quatro olharam para o sargento, que designou um já branqueando diante da incerteza daquela sala cheirando a éter. O jovem sentou confortável numa espreguiçadeira e a freira nem deixou que sentisse dor alguma. Quando o rapaz se deu conta já estava se esvaindo para dentro de uma bolsa estéril; meio litro. Veio o segundo com mais arrojo, mas sério e branco como um defunto. Deu meio litro do precioso e ganhou o sorriso de aprovação do sargento. Com o terceiro foi mais fácil a adesão, mas a agulhada fechou a cara do mísero numa careta ostensória. A enfermeira acabou perdendo a veia do rapaz para dar mais uma espetada. Outro meio litro já levado lá para dentro, mas o doador ficou meio desencantado num canto da sala segurando o algodão no braço. O quarto voluntário foi o cabo cozinheiro, um avô que acreditava em papai-noel. Antes de oferecer seu inestimável braço olhou para o chefe como a perguntar: "posso me entregar"? Um gesto do sargento deixou-o suave e à mercê da freira que só queria saber de furar. O homem levantou-se e decretou: "Agora é a vez de o sargento dar". Arisco na ironia o militar corrigiu: "Não vou dar coisa nenhuma; vou doar". Era a vez do líder que já se arregaçava todo para deixar que lhe espetassem o braço quantas vezes fossem necessárias para o efetivo desempenho da missão que lhe fora confiada (clichê albergado ainda na Escola Militar). Quase buzinou nos ouvidos dos cozinheiros o patrono Marquês do Herval: “É fácil a missão de comandar homens livres: basta mostrar-lhes o caminho do dever”. Mas achou melhor fechar a matraca e ensinar:
— Não disse a vocês que era tudo muito simples?
Dizia isso com aquela voz de mandar nos outros, daquela que vinha sempre de cima. Enquanto doutrinava, abria e fechava a mão sem que ninguém pedisse. Como se fosse ele quem tivesse inventado a doação de sangue; melhor, como se tivesse inventado o sangue (quem se lembrar de Machado de Assis aqui, não pense tratar-se de mera coincidência). Os quatro soldados, testemunhando tamanha segurança advinda daquele jovem líder já estavam de olhos meio arregalados. Nunca se viu alguém tão cheio de bossa como aquele.

A coleta no sargento havia terminado e já se preparavam todos para abocanhar a prometida merenda, quando o maioral perdeu a audição. Depois perdeu a visão e o equilíbrio para se agarrar no que estivesse por perto. Atracou-se com a freira alarmada: "Alguém segura este homem que sozinha não consigo". Foram os dois para o chão. "Desmaiou... Ventila, ventila... Abaixa a cabeça dele... Água, água..." Até que melhorou. Foi uma vergonheira, credo.

Quando o jipinho do esterco chegou ao quartel parecia que todos esperavam um funeral. Queriam saber do sargento. Sentado no primeiro banco, verde, cabeça pendendo para o lado de fora, lábios descorados, olhos fechados, seguia vagarosamente como se fora Charlton Heston em El Cid Campeador, morto sobre o cavalo a desfilar diante da tropa contristada. Mas só por agora, porque depois o calvário do doador universal ia começar. Então o major perguntou o que houvera. O velho cabo assumiu o comando dos quatro e respondeu sufocando o deboche:
— Homem de Deus, o sargento desmaiou.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

ESTAVA INDO TÃO BEM...

Humberto Ilha

Engana-se quem pensa que o céu é perto. José Galo era um Contador capaz e exercia o ofício de Auditor do Estado. Num domingo à noite, voltando ao interior, trajava blusa de lã muito fina e inadequada para o clima da serra. Acomodou-se em duas poltronas do Reunidas Noturno. Necessário descansar para encarar o dia penoso na manhã seguinte. Acostumado a dormir no primeiro balanço, o veículo nem andou dez minutos e Zé Galo já era. Só acordou três horas depois tiritando de frio, com o ônibus parado fazendo escala no pé da serra. Três graus de temperatura dentro do veículo; lá fora, horrível. Entraram quatro moças e um rapaz. Uma foi na direção dele sorrindo e caminhando vagarosamente procurando o lugar que lhe cabia. A cada busca do número ela olhava e esboçava-lhe sorriso iluminado. O Auditor arriscou pensar que ela ansiava sentar-se ao lado dele. "Está no papo", pensou. José Galo se considerava um assaltante, em matéria de conquistar mulheres; tinha faro de predador e escassa compaixão pela presa. A moça colocou a bolsa de mão no bagagito e se preparava para sentar ao seu lado, quando alguém reivindicou a poltrona. Conferiram os bilhetes e ela foi sentar-se num banco imediatamente à frente. Quando Zé Galo olhou de cima a baixo o vizinho quase não acreditou. Era um rapaz de tez acobreada, puxando a bugre. Trajava uma camisa fina de manga curta, calça jeans e tênis todo detonado. Era um ferrado, um caboclo. Trescalou, no sentar, cheiro de álcool e morrinha de quem não se lava. O fedor vinha também dos poros do homem. O chulé que subia do porão das calças espalhou-se no salão de passageiros. O ônibus não tinha calefação para dar conforto aos usuários, mas catinga quente ele tinha. José Galo, que ia ficar tão bem albergado ao lado da moça bonita, de repente se viu obrigado a viajar mais seis horas ao lado daquele caminhão do lixo: "deus-que-me-perdoe". A moça olhou para trás, sorriu e fez com os ombros que sentia muito. Os passageiros começaram a pedir que o motorista fechasse a porta e tocasse o ônibus. O frio parecia entrar pelo corredor como lança de gelo para lacerar em dor o peito de Zé Galo.

Em menos de dez minutos aquela fossa errante já havia adormecido com direito a ronco. E o pior: dormiu encostado no ombro de José Galo, que o empurrou delicadamente de volta ao seu lugar. Novamente o imundo foi repousar no ombro do já irritado Auditor. Contudo, além da cabeça, o homem encostou-lhe os braços e as pernas. Antes de obrigá-lo a se arranjar em seu lugar, José Galo, que estava gelado, experimentou o calor do corpo daquele homem ao seu lado. Resolveu deixar que ficasse ali, quentinho e quieto. Sentia tanto frio que não fez caso da repulsa de estar quase abraçado ao ensebado. Dizia sempre que detestava macho; que, mesmo perfumado, homem tinha catinga. Mas aquela era uma circunstância que o desobrigava da regra. O frio era desumano para se ater às comichões machistas. Queria mais era se esquentar, nem que para isso tivesse que pagar mico. As luzes estavam apagadas, todos dormindo; por que não? Aconchegou-se, ele também, ao corpo daquele que há pouco desprezara. Tão quentinho estava que dormiu direto. Só se apercebeu do final da viagem porque sentiu falta do balanço do ônibus. Olhou em volta e não viu os passageiros. Levantou-se sobressaltado e foi resgatar a bagagem de mão. Não encontrou nada. Pensou no diabo que estivera ao seu lado. Foi no bagageiro recuperar a mala grande, nada. "Foi ele", pensou. Já estava se dirigindo para reclamar no guichê da empresa quando avistou o bugre patife. Agarrou-o pelo colarinho e derrubou-o no chão aplicando-lhe poderosa chave de braço ao som dos palavrões mais absurdos para àquela hora da manhã.
— Onde está minha bagagem?
Sem poder emitir som, o rude apontou para os sanitários da rodoviária. Descorado de tanta cólera e desejo de vingança Zé Galo foi entrando porta adentro sem nada encontrar. Olhando na direção do bugre, como a indagar num amplo gesto com os braços, perguntou pela bagagem. Novamente o índio apontou para os sanitários, mas desta vez para o feminino. Entrou lá e encontrou seus pertences com a piranha da poltrona da frente.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O PALHAÇO QUE ENXERGAVA NO ESCURO

“Os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão” (Choro Bandido, de Chico Buarque e Edu Lobo).

Humberto Ilha

No dia seguinte ele já estava trabalhando no Parque de Diversões. É que um dia antes fez algo por baixo dos panos. Dormiu pouco, mesmo assim não se via sinal de trinca na estrutura da fachada do homem. Antes de tudo escutou aquela história dramática que ia ribombar em sua cabeça até que conseguisse aquietar o deus da morte, de quem era vizinho.

Soube que um homem adotara um menino criando-o junto com a própria filha. Ao tornar-se um rapaz, tornou-se também um mandrião que não queria saber de trabalho. Isso dava imenso desgosto ao pai, que trabalhava duro na roça de cana junto com a menina. O vadio já havia se metido em várias encrencas e ganhara um golpe de facão em cima do olho esquerdo que lhe deixou cicatriz e o olho cego. Então ficou sendo conhecido como Caolho.

A adolescente queixou-se ao pai de que o irmão estava se aproveitando da bondade dele. Um dia, em conversa com o marmanjo, o velho chamou-o à atenção sobre o que a filha havia dito. O rapaz prometeu arrumar emprego. Mas, ardiloso, ele concebeu uma vingança: matou a irmã dentro de uma patente no fundo do quintal e fugiu do lugar. O caso ganhou contornos pesarosos e se espalhou na região. Por se tratar de crime violento, gerou revolta nas pessoas germinando ali um perigoso clamor de vingança. Mas o assassino já estava longe; veio morar no Sul.

Passados dois anos um viajante, que se declarava revoltado com a falta de justiça, comentou o caso com um dos atores do elenco do filme "O Preço da Ilusão" (argumentado por Eglê Malheiros e Salim Miguel) que estava sendo rodado na cidade aonde Caolho viera se esconder. Outro não era senão o palhaço Coruja, que decretou:

— Conheço o assassino e sei onde ele está. Diga ao pai da menina para descansar que o malvado já era.

Naquela noite, como nas outras, ostentava aquela gravata horizontal: poá com as abas grandes. As largas riscas brancas do traje impecável deixavam-no mais longilíneo. Mulato de olhos azuis, alto quase arcado, gostava de sapatos pretos de tacões sempre novos para garantir o andar aprumado e leve. "Um artista, dizia, nunca terá dignidade com os saltos dos sapatos desgastados". Camisas sempre brancas — tinha umas quinze para trocar três por noite — levemente borrifadas pelo fuxiquento Lancaster. Unhas grandes nas mãos suaves confrontavam a rude torquês de arrancar as setas disparadas nos alvos pelas espingardas de pressão. Dentão de ouro maciço, visível até quando pensava. Vasta cabeleira crespa já prateando, Coruja dava ares de ser alguém especial e que já se despedia de fazer coisas arriscadas pela vida. A voz toda de César Ladeira ele a gastava anunciando os pontos enquanto manipulava com rara habilidade o alicate para extrair as setinhas de plumas coloridas.

No ir e vir até o balcão divertia-se fazendo malabarismos perigosos com aquele alicate nas mãos quase enfeitiçadas. Possuía duas tenazes daquelas, mas da maior era melhor ficar longe. Aquela torquês parecia ter parte com o diabo. Para arrancar aquelas tachinhas da madeira não precisava tanto. Mesmo assim nunca despertou sentimento de medo em quem lhe prestasse atenção. Pelo contrário, não fosse tão conhecido bem poderia ser confundido com um cervo de linhas efeminadas. E olha que ontem nem parecia ser quem era, pois trajava roupa furtiva; um preto sobre preto. Quase invisível a olho nu, aplicava-se ainda venda preta no olho direito; e isso lhe era bem visível. Aquele tampão apagava as suspeitas sobre seus rastros, se por ventura alguém os descobrisse. Imóvel dentro da sombra do "Margarete" somente respirava; quer dizer, respirava e pensava. Estava prestes a dar conta de um carreto prometido.

O lenço preto na cabeça escondia o pixaim prateado. Às vezes escapava-lhe uma tosse abafada, para dentro; quase um rosnar de bicho. Naquele instante Coruja era um bicho. Esperava alguém que viria do "Bar Glória". Sem perceber, o tal veio se abrigar da garoa ao lado do próprio carrasco. Primeiro recebeu uma fita plástica na boca e depois duas algemas nas mãos para trás. Com o único olho arregalado, protestava maneando a cabeça fazendo que não. Estava imobilizado e diante de um algoz conhecido de outras bandas. Coruja sorriu um sorriso perverso dando-se a conhecer por aquela ameaçadora presa de ouro na boca. Então Caolho ficou aterrorizado dando ares de tudo entender, enquanto era dissecado pelo olhar gelado de atravessar tudo do carrasco; enquanto ouvia a voz do predador.

— Um dia te deixei viver para veres o mundo com o olho direito; para compreenderes o que é positivo na vida: a felicidade, o amor e a compaixão. Agora me enxergas com esse tampão no olho. É que desejei te enxergar com o meu olho esquerdo, que é por onde enxergo a podridão.

Em seguida Coruja sufocou o sobrinho pinçando-lhe as narinas com aquela torquês do inferno, já escondida por dentro.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

CHUVA REVELA OURO SOB A CARCAÇA

Humberto Ilha

Muitas vezes quem bebeu todas quer mesmo é ficar encostado à cangalha da bebedeira, no velho exercício da autocomiseração. Quem chega de fora, mesmo na primeira fila, pouco vê o que possa existir lá dentro daquela carcaça.

O infortúnio jamais encontrou abrigo tão adequado como na pessoa de Aristides, que logo cedo começava com uma dose a comemoração pelo fato de haver parado de beber na noite anterior. Estalava a língua quando mandava dois marteletes de cachaça para dentro. Mas não agüentava a inocente mistura de vinho, conhaque e aniseta. Era de revirar-lhe o bucho e o dia estava perdido. De estatura baixa, magro, quase um índio, mas com a alma azul, que desafiava a justiça divina quando comparada com as coisas da terra. Não havia criatura de melhor coração e de pior sorte. Padecia de beleza, mas trazia escondido dentro de si as melhores digitais da moralidade. Estivador, amava jogar no bicho. Tinha estilo e coerência para fazer a fezinha. Perseguidor incansável da centena 188, jamais soubera pronunciar direito o nome do felino correspondente. Não é que entendesse alguma coisa de numerologia. É que confiava na sabedoria do acaso. Havia juntado do chão uma placa esmaltada com o tal número estampado. Uma dessas que se coloca nas casas para os carteiros encontrarem o endereço das pessoas. Teve a idéia de pregá-la na fachada da privada, no fundo do quintal, como se fora um troféu. Lá uma vez perdida ganhava uma bolada. O bicheiro era homem honesto. Ironia à parte, era honesto dentro do ilícito. Em acordo com a lei da rua. Enquanto isso ia ficando riquinho com a contravenção tolerada.

Quase analfabeto Aristides só lia papel de letras grandes. A exceção que fazia era para as letrinhas no caderno da venda. Depois das seis da tarde entrava lá e começava a implicar com o proprietário. “O café está caro; sei onde tem mais barato”. Ao Nestor cabia-lhe apenas represar a irritação. Aristides divertia-se à larga. Mas também a encrenca dos dois não passava disso. Dizem que Aristides bebia por desgosto. A mulher se consumia em tuberculose; coitada, internada no Nereu Ramos o tempo todo. Tratado como um sem vontade para largar o vício, merecia o respeito dos que o conheciam e ao seu drama. De qualquer jeito parecia desumano tratá-lo dessa forma. A vizinhança lhe conferia apoio, menos Duarte, um marujo que dava duro para viver. De justiça diga-se que muito fez para ampará-lo quando enchia a cara.

O estivador chegava em casa e começava a jogar porta a fora a louça, as panelas e os talheres. Em seguida pegava os dois potes cheios de água e os estourava na rua com grande alarde e aos gritos de “O negócio é o seguinte... seguinte... seguinte”. Não dizia nada com nada. As duas crianças corriam para a casa dos vizinhos. A mulher de Duarte pedia e o marido ia lá, dava um banho nele, colocava-o na cama e punha-o para dormir; fizera-o muitas vezes, mas agora não estava mais disposto a ajudá-lo. Então passou a não mais atender aos pedidos de socorro que a própria esposa lhe fazia. Começou a endurecer no tratamento com o vizinho, que tinha parentes bem nascidos. Entretanto, somente o primo Osni Motter, o feio, o recebia na Assembléia Legislativa para atender-lhe as necessidades.

Duarte sofria de hipertensão severa, segundo o médico do Instituto. Além do mais era epilético e fazia tratamento com um barbitúrico: Gardenal. Muitas vezes ficava descompensado e não havia quem conseguisse o remédio na cidade. A não ser o Aristides. Quando sabia que o vizinho estava assim ele ia à casa do primo e conseguia o medicamento. Mas agora o irritado marinheiro havia proibido a esposa de pedi-lo para trazer o remédio. Não queria mais favor dele. Mas também não o ajudaria mais quando chegasse chumbado em casa.

Naquela noite chovia de fazer barulho, Aristides chegou encharcado em casa. Por dentro e por fora. Começou a quebrar as coisas e as crianças fugiram. Depois foi para a rua e começou a desafiar: “Seu Lucas, está com medo ou está com nojo?”. Duarte estava de cama, com a pressão altíssima e sem medicação; quase tendo um derrame. A provocação durou um tempo até que o embarcadiço cedeu aos pedidos da esposa para ir lá e colocar o homem a dormir. Resmungou que tinha era vontade de dar-lhe uma surra.
— Melhor é compreendê-lo; — disse ela — creditar-lhe virtudes que você não tem.
— O Aristides é um indigente de caráter.
— Nem tanto. Você tem pressa de envelhecer quando não consegue disfarçar sua voracidade pelas notícias do vermelho Novos Rumos; ele nem sabe ler. Você ama polemizar usando argumentos bem nutridos, fluentes, diretos, contundentes e realistas. Ele é um homem bom, romântico como os bêbados, que vão para lá e depois para cá; que param, andam, resmungam, ameaçam os fantasmas que só eles vêem, ironizam, falam sozinhos, pois se bastam a si; que choram, escorregam e caem para se levantar e seguir na vida. Ele vai viver mais que você. Quando ela começava assim, Duarte tinha que sair de fininho para não escutar o que ela consignava nas notas de rodapé. Foi lá e encontrou o outro estirado no chão com a chuva do telhado caindo-lhe sobre o rosto vincado pela dor na alma, pelo trabalho duro da estiva, pela solidão sem luz, pela falta de futuro. “O corno está morto e não sabe” — sorriu, —“a carcaça já larga catinga...” Discutiram um pouco e Duarte levou-o para dentro, tirou-lhe a roupa, deu-lhe um banho, pô-lo para dormir e ia iniciar uma prece quando Aristides sentou na cama, coçou a cabeleira preta e zombou:
— Está com medo ou está com nojo?
Duarte virou-lhe as costas e o outro caiu já roncando.

Ao passar pela cozinha Duarte deparou-se com três caixas de Gardenal.

domingo, 7 de setembro de 2008

O INESQUECÍVEL ANTÔNIO PÉ DE PATO

Humberto Ilha

Alberto Capa Preta veio contar que Antônio Pé de Pato estava trabalhando de operário na ponte batendo ferrugem. Mesmo que a gente dissesse que era um bom trabalho, ele não gostava porque lhe soava que o estivéssemos mandando ir trabalhar. "Fico desempregado, mas não vou me pendurar lá como um macaco amarrado pela cintura no sol e na chuva". Achava isso desonroso. Pelo menos Antoninho estava defendendo o jabá de cada dia porque a vida era pedreira. Mas Betinho era metido a ser especial só porque tinha cara de roqueiro; só porque andava para cima e para baixo com o Roberto Carneiro cantando o repertório do Elvis; ficava imitando o astro como se acometido de epilepsia. Na época ninguém sabia, mas aquela panca de artista só fazia sucesso na zona, onde era conhecido como Capa Preta. Amargou esse apelido o resto da vida junto com as doenças que pegou por lá. Teve juízo, porque jamais casou para evitar o alastramento da praga encalacrada na carcaça. Cancro Duro, Crista de Galo, Esquentamento, Hepatite B e Chato, só para não deixar grande a lista de moléstias que arranjou com aquela veneta de virar roqueiro num lugar pequeno. Quando ele apontava longe as mulheres já o bradavam por causa daquela capa de lã até as orelhas. Entrava e já ia desabotoando tudo para parecer melhor de se ver. Para deixar evaporar o Topaze legítimo que conseguia com os muchachos argentinos nos trapiches da Rua 14 de Julho.

Dia seguinte o vadio levantava somente quando Pé de Pato chegava para almoçar, pois a casa era ao lado.
— Vai lá rapaz; a vaga ainda é sua.
— O salário é mesmo aquele?
— Vai lá; vai lá.

Foi mesmo, mas queria primeiro ver Antônio trabalhando; conferir se ele próprio agüentava o tranco. "Que seja, mas não gosto de trabalhar amarrado como um mico". O outro veio e explicou as graves responsabilidades de segurança no serviço. Alberto resolveu encarar. Para debochar do canteiro de obras perguntou:
— Posso urinar lá para baixo?
— Só não molha as ferramentas.
Era tanta urina acumulada que iniciou fazendo um arco, depois umas rodilhas e o resto foi em cima de uns cabos de alta tensão. Nem se lembra disso, mas foi jogado no mar desacordado lá de cima. Do guascaço que recebeu somente lhe ficou na cabeça a sensação de que estava encolhendo até ficar do tamanho de um palito de fósforo junto com a visão nítida de um caixão de defunto de guarnições roxas. Pelo que se soube depois, fora eletrocutado por uma corrente elétrica de quase mil volts que se conectou na urina.

Trinta metros de queda livre os dois; sim, porque Antônio desafivelou rapidamente o cinto de segurança e se jogou logo atrás no vazio para socorrer o vizinho preguiçoso, mas não o avistou na superfície; o jeito foi mergulhar. Não era à toa que tinha o apelido de Pé de Pato. Com aqueles pés defeituosos que ganhara não se sabe de quem, seu nadar era ligeiro. E foi ligeiro que encontrou o amigo cada vez mais afundando inconsciente. O engenheiro que lhe exigia o cinto amarrado na cintura era o mesmo que lhe ensinara os primeiros socorros. Foi o que salvou o moço bonito da zona nos primeiros minutos após o acidente. Ambos foram direto para o Hospital Senhor dos Passos. Não era seu gosto, mas Antônio até falou nas rádios da cidade. Diminuindo o feito acabou famoso pela coragem e pela bondade.

De prêmio, o Distrito Naval convidou o herói para fazer cobiçado curso de prático na Baía da Babitonga, garantindo-lhe a velhice. Foi promovido comandante por merecimento. Capa Preta preferiu garantir a velhice das bruacas e foi promovido a coronel.

Pelo que se sabe, até hoje ocupa o posto.
Foto: Ponte Hercílio Luz, acervo do Intituto Carl Hoepcke.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

A SUSPEITA

Humberto Ilha

A foto mostrava a alegria do rapaz com o produto do roubo. Só que o delegado queria enjaular mais um.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA



Humberto Ilha

Quando ele voltou a si, repetia: "Chega, desliga tudo".

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

GUARDA-BANDEIRA

Humberto Ilha

Menos de vinte e quatro horas depois o tenente já estava ansioso para compor a guarda-bandeira. Queria degustar aquela honra. Glória somente menor que "morrer num campo de batalha todo roto por balas" (era-lhe ainda recorrente o casto verso da canção da arma). O comando da guarda era dado ao mais novo oficial. Não era questão de merecimento, mas de tradição. Quando se tratava de um novato com formação na Academia Militar o protocolo se revestia de graça e beleza. Aí residia o encanto, pois não é sempre que se vê um jovem galante envergando garboso uniforme no desempenho de algo tão digno. Tradição determinada pelos comandantes de cabelos já esbranquiçados, o rito ajudava-lhes a entender a própria alma batida pelos ventos da dura vida nas guaritas. Olhando a juventude no desempenho de tão elevada missão, esses veteranos se viam nela. Melhor, passavam a residir nela.

Experimentei o regozijo de fazer parte disso durante algum tempo. O porta-bandeira era um oficial recém-formado. O que ele tinha de capricho no cerimonial, tinha o equivalente a dívidas nos carnês. Um dia antes tinha tomado uns solavancos do velho coronel por causa de um telefonema recebido do banco. Não fosse esse podre era um deus para nós. Nas vésperas dos desfiles o caudilhinho nos treinava exaustivamente até que todos os movimentos saíssem perfeitos. Éramos dois cabos e três soldados. Todos da mesma altura para harmonizar a formação. Ele, armado de pistola e espada, conduzia o pavilhão nacional; cada um de nós, um fuzil com baioneta armada. Como aquilo pesava; nossa! Nos ensaios deixava-nos amargar durante muito tempo em ombro-arma, que era "a posição primordial de uma guarda-bandeira que se preze". As praças de uma guarda de honra jamais faziam o movimento de apresentar-arma. Era a tropa quem o fazia em homenagem ao intocado pavilhão nacional. O homem também não aceitava que fizéssemos qualquer outro movimento para aliviarmos a postura incômoda do ombro-arma. Ficávamos ali, debaixo de sol ou chuva durante o tempo que ele decretasse. Muitas vezes nossos braços adormeciam enrijecidos. Ainda assim, estar sob as ordens de um militar de carreira era adequado porque ele sabia o que estava fazendo. Éramos voluntários, pois se assim não fosse ele não nos queria ali. Para ele iam os elogios, para nós o breve privar do seu convívio pessoal; pois que no recreio ele se tornava nosso companheiro de cigarro. Chegou a nos contar sobre aquela chacoalhada do dia anterior.

Havíamos entrado num concurso para a escolha da melhor guarda-bandeira da Quinta Região. Vencemos, mas naquele dia aconteceu uma que jamais esquecerei. As guardas tinham que desfilar diante da tropa perfilada, executar alguns comandos marciais de marchas e contramarchas e se postar diante do palanque onde estavam os comandantes e a comissão julgadora. Essa parte da cerimônia era chamada de "introdução da bandeira". Nossa guarda foi chamada, fizemos uma apresentação impecável e nos colocamos diante do palanque em posição de ombro-arma durante quase uma hora; tudo de acordo com o nosso treinamento. As outras guardas desfilavam e após ficavam em posição de sentido, com os fuzis e a bandeira nacional em posição de descanso. Desnecessário dizer que nossa posição inflexível agradou e fomos escolhidos a guarda-bandeira da Região Militar.

Então veio desfilando a guarda-bandeira do Centro de Preparação de Oficias da Reserva comandada por um tenente novinho, quase ainda um civil. Vinha progredindo sem muito brilho diante do palanque quando um repentino vento de rebordo fez que a bandeira nacional arrancasse o capacete da cabeça do oficial. Primeiro o vento caprichoso drapejou o pátrio pendão ao som de um dobrado comovente. O tenente arrepiou-se do pé à ponta igual a um tamanduá-bandeira ouriçado: "agora eu ganho a disputa". Depois, talvez com raiva dos que tão mal o tutelavam, ele próprio, o símbolo augusto da paz, arrebatou a cobertura mal assentada na cabeça do jovem para atirá-la no chão feito uma pipoca descontrolada: ploc-ploc-ploc pelo meio da espaçosa Brigadeiro Franco. Que saia justa! Deixasse o diabo do capacete no chão e seguisse em frente. Mas não; ficou tentando resgatar o equipamento com a haste da bandeira feito lança, já arrastando suas respeitáveis pontas pelo chão. Cada tentativa malograda produzia faíscas na pedra do pavimento. Quando deu por si o tenente estava longe, já dobrando a esquina da Praça Osvaldo Cruz. E dali se escafedeu. Uma cena dessas nem era para ser engraçada; mas foi.
Foto: FC Aldo do Comando Militar do Nordeste, onde é comandante o Gen. Ex. Jarbas Bueno da Costa; meu amigo na juventude.

sábado, 30 de agosto de 2008

DOIS VELEIROS



Humberto Ilha

Após vender seu antigo veleiro a um amigo, Oilte Nunes adquiriu outro novinho. Bom velejador, o homem tinha fama de não perder regatas sem luta. Não raro gabava-se de ter esse "defeito" em seu currículo médico. Mais ainda, dizia-se uma Ferrari andando por estradas cheias de buracos. Metáfora óbvia para proclamar que os hospitais da cidade não estavam à altura do seu "bisturi de ouro". Se descuidassem ele se proclamava deus. Enfermeiros e Auxiliares não gostavam de trabalhar com ele, de tão arbitrário que era. Dia desses, era madrugada, resolveu passar no hospital para atender um paciente. O segurança barrou-lhe a entrada.
— Vou verificar quem é o senhor.
Enquanto o outro se comunicava com alguém lá dentro, Oilte enfiou o pé na porta de vidro e entrou levando tudo por diante.
— Não posso aceitar que o hospital onde trabalho não me conheça.
Os diretores da casa o perdoaram, pois ele de fato era credor de respeito profissional. Mas os funcionários passaram a tratá-lo de cavalo. Cá para nós, era desejável que nessa profissão ele fosse alguém que não aceitasse levar trambolhões na vida. Em competições esportivas isso era algo detestável porque ele não reconhecia a prevalência dos adversários. Inocentes regatas eram ocasiões de encrencar com os amigos. O homem virava um pau de bater em maluco. Transformava-se num tirano mal educado tamanho o baixo vocabulário que usava para se fazer entender. Mas havia que ter mais cuidado no exercício de profissão tão humana.

Depois de entregar a embarcação desafiou o novo proprietário para uma regatinha ao redor da Ilha dos Ratones. Era um percurso de uma hora. Meio sem jeito o outro aceitou, sabendo que iria perder. Além de novo o veleiro de Oilte era veloz. Com aquele ventinho nordeste era uma vantagem e tanto.

Dada a largada o médico pulou na frente. Quase se via o sorriso sarcástico de Oilte Nunes liderando a prova. Queria, precisava ganhar nem que fosse à base de ciganice. Mas o outro o conhecia bem e preparou-lhe coisa de caso pensado: ao ver-se distante ligou o motor na lenta e navegou de bordo contrário. Quando fez o contorno da ilha, o médico estava muito atrás. O amigo venceu a regata e esperou a chegada do azedo, que resolveu abandonar a prova e atracar o barco. Não entendeu como aquilo pudesse ter acontecido. Prometeu colocar anúncio no jornal para vender o veleiro. Alegando que a embarcação era hostil e que não obedecia com rapidez seus comandos de leme e escota da vela mestra, Oilte não a queria mais. Queria um veleiro arisco e não um cocho de lavar roupas. Diante dos amigos ficou com tanta vergonha que ofereceu o veleiro para quem quisesse comprá-lo por um preço de ocasião. Então o amigo que o havia vencido naquela regata de brincadeira aproximou-se.
— Por que você coloca a culpa no barco?
— Não admito perder para você nem de brincadeira.
— Não percebeu que não venci você?
—...???
— Você perdeu para você mesmo. Quer vender o seu veleiro? Pois não deixo
.

Foto: Veleiro "Guga Buy", gentileza de José Zanella.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

ADEMAR? PRESENTE!


Humberto Ilha

Vejo perambular por aí sujeira e esgoto quando penso no menino Ademar, que um dia me apresentou aos livros. Inteligência notável e memória privilegiada, o menino lia tudo que lhe caísse às mãos; melhor, devorava. Intuitivamente percebia que, lendo muito, ele era mais original; muito embora seus conhecimentos fossem baseados no que diziam os outros. E, lendo muito, sabia escrever. E, escrevendo, aprendia mais e melhor. Abelhudo, quase nada lhe escapava ao agudo interesse pela leitura. Nem os pedacinhos de jornal higiênico da privada no fundo do quintal. Por vezes relia mais do que lia, quando topava algo interessante. Percebia que reler era melhor que ler. Desconfiava que fossem de suas releituras que nasciam suas reflexões criadoras.

Perto de onde morava havia um buraco enorme que ficava cheio de água na época das chuvas; lá por setembro. O garoto encantava-se admirando a água daquela cacimba. Levantava cedinho e corria para a beira da lagoinha sonhando com veleiros navegando, canoas de pescadores, tainhotas pulando, revoada de garças, lontras pardas e crianças nadando. Muitas vezes corria para lá e via o reflexo do sol nascente na água parada. O céu, translúcido e sem um fiapo de nuvem, rebrilhava como pano de fundo. Depois, Cuíca, como também era conhecido, ficava lançando pedrinhas em vôos rasantes para fazê-las resvalarem no espelho da água mansa.

Um dia construiu rudimentar canoa de madeira com a ajuda de Fornalha, seu eterno assistente para os projetos de engenharia juvenil. Remar naquele mundo fascinante da lagoa da cava era um sonho perseguido com interesse e paixão. Mas vogar num bote infiel, de tão malfeito, exigia-lhe mais destreza do que possuía. Era péssimo em trabalhos desse tipo. Não herdara o refino manual do pai. Focado no sonho de navegar como o velho, para ele aquela bateira transformou-se numa armadilha. Negava-lhe explícita obediência. Parecia que fora feita para emborcar. Exigia do remador senso de equilíbrio para ali se manter. E esse dom Ademar não possuía. Nisso ele era sutil como uma bigorna. Mas nadava bem e era persistente feito um cão. Isso de emborcar a canoa, se molhar, voltar a remar, emborcar e remar de novo era nada, em comparação à vista que ele extraía quando ficava no meio do lago. Era o céu descortinado diante daqueles ávidos olhos azuis. Era um mundo dentro do mundo. Mais, um universo mágico e inexprimível.

À medida que a água da cava ia baixando, coroas de terra iam aparecendo. Então, olhando de dentro para as beiradas do lago, o menino identificava os recantos intocados. Uma nesga de terra beijando a água já se transformava num lugar de sonhar, num lugar de busca e cômodo para o seu talentoso espírito. Vislumbrava e nomeava as praias: Saquinho, Caranhas, das Almas, Rendeiras, da Costa, do Canto e do Porto. Algumas ele somente acessava de barco. Mais ao longe jurava enxergar um frondoso ipê amarelo no lugar de um pé de inhame, que ninguém sabia como havia se criado ali. No entorno da lagoa artificial ainda visualizava as praias de mar grosso: Mole, Rio Vermelho, Moçambique, Galheta, Santinho, da Barra, Joaquina e Campeche. O laguinho era ponto de encontro consigo mesmo. Tinha até um centrinho com a cara urbana. Ali os moradores se encontravam. Gambás e vespas, por certo, mas eram encontros naturais e importantes para a vida da comunidade. Gambás não pescavam, nem vespas eram malabaristas dos bilros nas almofadas de rendas. Mas, às vezes, ele apostava que via isso. De certo via mesmo, mas através dos olhos de sua inocente alma juvenil.

De repente percebeu que o sol impiedoso secava o lago. As praias foram se transformando em lama, revelando a imundície que insistia em aparecer. Eram garrafas e sacos plásticos, animais mortos, pneus velhos, tranqueira de galhos de árvores, poltronas e móveis inservíveis, lixo e mais lixo. Até os restos da carcaça de um fusca apareceu no baixar da água. A cada novo dia ficava mais difícil navegar. Até que o inferno mostrou-se por inteiro. Um postal que só albergava fedorenta revoada de urubus cobiçando as carniças que iam aparecendo. O mesmo sol que produzia o encanto do amanhecer apagou o futuro do lago de inspiração poética. Não que o sol fosse o responsável pela degradação ambiental da lagoa; não. Ele apenas cumpria o seu papel de permanecer sol. Quanto mais brilhava, mais fazia sumir a água do lago. Cuíca quase entrou em desespero diante da angústia de nada poder fazer para salvar a lagoa que se transformava num charco podre. Também: pilhou vizinhos depositando ali os entulhos que produziam nas próprias casas. Deixa; talvez na época das chuvas o lago fosse renascer. Isto se o Chida, o proprietário, não tampasse o buraco.

Novel ginasiano, hoje doutor, tinha como professora de português a dedicada Leonor de Barros. Irmã da não menos ilustre Antonieta, primeira catarinense a ter assento na Assembléia Legislativa do Estado e conhecida literariamente como Maria da Ilha. Ao final de uma de suas aulas, a mestra estabeleceu como tarefa de casa uma redação com o tema “O Amanhecer na Lagoa da Conceição”. O menino produziu um texto tão fiel que lhe renderia homenagens da veneranda senhora pelo resto do ano. Convertendo a cacimba em linguagem literária, transferiu tudo para o oco do coração daquela mulher. Iniciou oferecendo uma visão apaixonada do paraíso e concluiu chorando-lhe a morte, num breve e irremediável destino, se algo não fosse feito. Perguntado se conhecia o local, respondeu que jamais estivera lá. Indagado, ainda, como soubera tão fielmente descrevê-lo, explicou, com o desembaraço e o verdor de inteligência que lhe definia a personalidade: “relendo o jornal que embrulhava o peixe”.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

ADIANTA SE ESCONDER?

Humberto Ilha

Quem há de saber rezar para evitar a morte; para se proteger? A palavra morte causa espanto nas pessoas. Ao se pronunciar a dita cuja já se escuta: ”cruz credo!” ou “deus me livre!”. Para descarrego do medo, nada como desafiar a safada; falar da atrevida sem temor. Era assim, o Juci. Um mulato cheio de catequese que pouco acreditava nas velas que fazia arder enquanto rezava jaculatórias decoradas. Acendia o lumaréu por ordinária tradição. Dizia não temer a morte, mas de ninguém escondia sentir enorme tristeza quando nela pensava.
— A saudade, ensinava, mora na morte. Morrer é nada, em relação a viver, que é tão bom.
Era bíblico, para ele, haver tempo de viver e de morrer. Vida e morte eram companheiras na jornada de cada pessoa. Mas também, melhor morrer a viver cheio de tubos, cadeiras especiais, cama alta para facilitar o acesso, dores, ziguezague nos vídeos dos aparelhos, mangueiras, agulhadas, cânulas, escalpes, lancetas, lâminas, cubas, remédios, sedação e outros recursos para prolongar o que devia se acabar com dignidade.


Bom marido, dedicado pai e fiel tesoureiro do apostolado, sabia do risco a que estava sujeito ao empreender a temível travessia por essa vida diante das forças do bem e do mal. Fazia parte de um grupo que estava amargando mês insólito, dois membros já haviam esticado o pernil. A média era de um por ano. Juci estava triste ao mesmo tempo em que ironizava a perda dos colegas. Recomendava requinte nas orações, estava morrendo gente demais. Usava o termo morrer, tão sinistro, mas reprimia a vontade de fazer gracejo. Se fosse de sua escolha usaria termos como “deletar”, “queimar a bateria” ou “sentar no colo do capeta”. Não era chegado em desenhar a morte como horror natural na vida de cada um. Mas também não usava remedinhos para adocicar as desesperanças alheias. De verdade, Juci temia morrer. Sabia que, mais dia menos dia, isso iria acontecer. Mas ansiava bater a caçoleta sorrindo, rodeado de prantos sinceros dos que, por derradeiro, lhe fechassem a tampa da caixa.


Definitivamente havia algo de mau agouro no ar. A irmandade havia comprado duas coroas fúnebres que fez a conta bancária ficar no vermelho. Mesmo assim, todos se divertiam diante do melancólico atrevimento contido nas palavras daquele mulato de boca grande e olhos revirados enquanto falava. Ou melhor, interpretava. Cada opinião, conceito ou juízo que se metesse a fazer diante dos amigos era uma encenação teatral irretocável. Em casa era diferente. A esposa não gostava nada e os filhos odiavam a aptidão natural do pai. Ivonete, amiga e presidenta da congregação, não deixava escapulir oportunidade de espetá-lo:
— Juci, cuida de ficar vivo. O próximo a bater a alcatra não vai ganhar coroa. Não há mais gaita.
Gargalhada geral. Quem há de apostar numa intuição sutil como a de Ivonete? Quem há de suspeitar que a própria mortalha já esteja pronta? Quem há de rogar com proveito para evitar morrer? Ivonete dizia que suas orações eram infalíveis. Mas confessava não saber rezar para si própria.


Naquele domingo o grupo participava de retiro espiritual. O momento era de oração e preceito religioso, mas Juci não agüentava a vontade, quase fisiológica, de fazer gracejo. Ao final da palestra do Padre Aloísio, Juci estava no meio de um grupo conversando quando Ivonete apareceu no corredor tocando uma sineta, anunciando que era hora de oração. Ele reagiu:
— Pessoal, da próxima vez não mais convidamos essa mulher. Vive badalando aquela sineta da reza o tempo todo. Que que há? Ninguém merece... Ela só quer rezar... Rezar... Não pensa em se divertir... Nunca anuncia o recreio... Deus não quer isso para nós... Ivonete não vem mais conosco, gente...
A mulher entrou na caçoada e prometeu rezar por Juci. Aí ele se superou na troça. Ajoelhou-se em súplica pedindo que não o fizesse, pois mais iria atrapalhá-lo que socorrê-lo. Ela ainda resmungou:
— Cretino de uma figa, vou nomear você ministro do mau agouro na diocese.
O grupo todo começava a rir quando ela passava com o sininho na mão como se fora um inspetor de alunos. Ainda fazia uns contrapassos solenes para depois se perder nos corredores do convento rebolando as avantajadas cadeiras.


Acabado o retiro, Juci foi para casa do irmão. Ia levá-lo ao aeroporto. Mas sentiu-se mal e foi levado às pressas ao pronto-socorro. No trajeto, olhos arregalados de surpresa, Juci parecia ver o rosto pesaroso de Ivonete, empenhada numa sincera oração para o amigo não arribar em definitivo desta vida. Mas não era a amiga não. Era o médico lutando para se agarrar no fiapo de vida restante do homem que não queria morrer. Não naquele momento. Nunca houvera passado por uma situação de quase morte. Sentiu o perigo e desejou que aquela circunstância fosse-lhe a penúltima. Mas percebeu que estava indo embora. Veio-lhe a reminiscência da imagem da Virgem de Michelangelo, com Jesus morto em seus braços. No aconchego daquela mãe, morrer era nada. Então, sentindo estranho conforto, decidiu entregar os pontos. Chegou morto no hospital, sem tempo para as despedidas protocolares.


Tristeza geral no velório. A irmandade compareceu para sepultar o fiel tesoureiro. De repente chegou um carro preto com vistosa coroa de flores. Por certo a mais cara que havia na loja. Espetado num cavalete envernizado, o adorno fúnebre estava repleto de brilhos e fitas de plástico com mensagens de condolências. Quem trazia a homenagem póstuma era Ivonete, de luto fechado e soluçando de remorso. Inconformada, deixava à mostra o profundo pesar de não haver caprichado o suficiente nas orações em favor de Juci. Olhando para o corpo do amigo esticado no caixão compreendeu que em vida ele esperou a sorrateira de pé e não de joelhos não. Tão ousado fora que Ivonete esboçou um sorriso. Juci, sem sinal de pânico e quase sorrindo, fez que a própria morte se pusesse de luto.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

CADILHÁQUI

Humberto Ilha

Dos mecânicos do Bairro de Fátima era ele, de longe, o melhor; o Paulo Pavão. Mas parece que só tinha alegria quando fechava a oficina e se lavava com gasolina. "Fica-te aí que amanhã tem mais", dizia para a bancada de trabalho. Bebericava aguardente com coca-cola o dia todo. Depois, já bebote, montava Cadilháqui e ia acabar a noite na Vila Palmira. Mas ia com o Nilo para não se render sozinho ao engano das perdidas. Anos a fio nesse delito com a leniência da esposa: "ruim com ele pior sem ele". Ainda posava de respeitoso como se a companheira de nada suspeitasse: "ai de mim se ela desconfia". Bem que merecia um trato de pau para aprender o dom do respeito pelas pessoas de bem. Parecia dar valor somente à carne comprada. Chegava ao bordel com a roupa do serviço porque sabia haver sempre ali uma que perdia o tino diante da inhaca feiticeira da gasolina.

Cadilháqui dava ares de gostar da transgressão do senhorio porque, quando queria, agarrava o caminho da zona sem que alguém lhe ensinasse o norte. A mulherada o conhecia de longe; "passa a corda no pescoço do bicho que é do Pavão". Não que lhe dispensassem alguma consideração; não. É que o cavalo gostava de uma algazarra quando fuçava no lixo. Quando o dono dava pela falta do animal chamava o Paulo Poliça, um cabo reformado, que ia buscar o desertor pelo preço de uma cerveja. O proprietário do Bar Coringa, que era defronte à oficina, dava graças a deus quando o mecânico se perdia por lá. Gostava dele, mas não o suportava embriagado. Entrava no estabelecimento como uma torre cavaleira e se postava no meio das mesas de sinuca para pedir um trago. Dando de mão nas rédeas o cavalo se ouriçava todo e sapateava no chão do boteco. Ensaiava empinar ali dentro, só que trazia no lombo um cavaleiro que mantinha o controle da situação. E no equilíbrio com pouco espaço, o animal escorregava as patas traseiras bem ferradas para depois se recompor. Ainda que, a custo, restabelecida a integridade do conjunto, Cadilháqui permanecia arisco a julgar pelo movimento dos olhos arregalados e das cabeçadas no ar revelando a ânsia de sair para rua. O mecânico não precisava fazer isso. Altamiro botava as mãos na cabeça desesperado pela iminência do animal largar imundice pelo chão da bodega. "Pavão, leva esse cavalo, amigo; vai correr com a freguesia e sujar tudo aqui". Que se saiba nunca o bicho fez-lhe essa desfeita. Mas só pelo susto o fim de semana não prestava mais para Altamiro. Pavão curtia o desespero do proprietário porque tinha lá seus segredos, oras. Antes de cavalgar dava um chá de folha de goiaba ao animal e negava-lhe a ração para que não saísse pelas ruas emporcalhando tudo. Mas isso ele não contava ao apavorado vizinho.

Daí eu soube que, pelo início da madrugada, lá da gandaia vinham mais dois encorujados numa Lambreta. O açougueiro e o corneteiro do Batalhão, freqüentadores recidivos do fervilhante meretrício. Já havia uns dias que o cabo do acelerador do frágil veículo se partira. Combinaram que o da garupa controlaria a aceleração quando o outro solicitasse: "puxa o cabo; alivia". Para dar ordens desse tipo o militar ficava à vontade porque era reiúno velho de quartel e dono da motoneta. Não sabiam eles que Cadilháqui mais uma vez estava visitando o lixo da Churrascaria Globo em busca de verdejo. Naquela noite o proprietário do estabelecimento iria dar uma lição no animal. Não fosse o estrago nas latas de lixo e a sujeira espalhada pelo pátio até toleraria o bruto, que era manso. Mas já se lhe esgotara a paciência todas as manhãs ter de arrumar o estrago que o animal fazia. Então preparou uma boa. Aproximou-se amistosamente de Cadilháqui e amarrou-lhe, bem amarrado, uma fieira de latas nas pernas. Estalou uma chicotada nas ancas do alazão, que disparou rua abaixo a toda. Quanto mais corria, mais se assustava e mais queria correr. As luzes das casas foram se acendendo à medida que o cavalo ia passando com estardalhaço.

Enquanto isso os dois da Lambreta vinham se equilibrando precariamente. Como viajava na garupa e com menor compromisso, o açougueiro estava quase dormindo. Mesmo assim vinha obedecendo direitinho aos comandos do amigo. Isso até à hora que surgiu aquela espécie de mula sem cabeça, ensandecida pelo escarcéu que as latas faziam. O corneteiro gritou: “Alivia o cabo, Raulino!”; o outro fez o inverso; esgarçou tudo até o último. A Lambreta acelerou enlouquecida numa roda e foi se estatelar nos pneus de um caminhão estacionado ao lado do edifício dos Correios.

Percebendo a miséria que havia provocado, o dono da churrascaria meteu-se dentro de casa, apagou todas as luzes e ficou escutando o medonho rebuliço. Do cavalo escutava ainda os relinchos desesperados e o tropel das latas enquanto passava pela frente da Escola de Marinha em direção à Vila Palmira. Dos dois boêmios sequer um gemido. Mas depois, fazendo que chegara agora, ajudou a colocá-los na ambulância. Ficou o dito pelo não dito e ninguém soube quem fora o causador daquele tumulto que quase levou três para o buraco.

Duas semanas depois o militar e o açougueiro estavam engessados dos pés até a cabeça. Pareciam duas múmias vivas. Cadilháqui entrou em depressão e só encontrava consolo quando vinha sujar o pátio e remexer o lixo da churrascaria, pois ninguém conseguia nele colocar um inocente cabresto.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Vela Olímpica - Classe Laser

Jogos Olímpicos – um sonho em duas partes

O sonho completo não acabou. Só foi adiado por quatro anos.
por Bruno Fontes.

Desde que comecei na vela, sempre tive dois sonhos. O primeiro era participar de uma Olimpíada, representando o Brasil. O outro ainda é subir ao pódio e receber uma medalha. Vinte e um anos se passaram, desde então, contado com o apoio incondicional de família, patrocinadores e amigos. Período de muitas vitórias e de derrotas contra grandes adversários, alguns deles também amigos, que me fizeram evoluir tanto como velejador, como pessoa. A trajetória até a conquista da vaga na classe Laser em Beijing 2008 foi de muito trabalho e abdicações. Um ciclo de quatro anos, desde a derrota para Robert Scheidt, na seletiva para Atenas. Com um dos sonhos garantidos, a meta para a China era a conquista de uma medalha olímpica. Algo que parecia viável, por toda a preparação, pelos meus resultados nas competições e, inclusive, pelo treinamento na semana anterior ao início das classificatórias, já em raias chinesas. Porém, na hora, nada deu certo, e tudo que parecia conspirar ao meu favor durante os treinos, não se repetiu nas regatas. O misto de sentimentos, ao mesmo tempo, de dever cumprido e de frustração foi minha companhia nestes últimos dias. Sei que tentei o meu melhor, mas o 27º lugar desta competição ficou muito aquém do meu objetivo principal, do meu sonho. As condições imprevisíveis foram as mesmas para todos os atletas, mas não foram favoráveis a mim. Por outro lado, sei que, como velejador, não devo nada, em termos de qualidade, a quaisquer de meus adversários. Como todo brasileiro, que não desiste nunca, tento não me abater. Pois em 2012 temos os Jogos Olímpicos de Londres e tenho esta pendência da medalha para ser resolvida comigo mesmo e com o meu País, e, deste modo, completar a segunda parte do meu sonho. Fica como inspiração e incentivo o desempenho das meninas da classe 470 – Fernanda Oliveira e Isabel Swan – que em sua terceira participação individual em Olimpíadas e a primeira como dupla, conquistaram a tão sonhada medalha. O momento agora é de autocrítica, de aferir meus erros e avaliar o que posso melhorar e aplicar isso nos treinos, pois tenho muita água e ventos pela frente. O sonho não acabou. Só foi adiado por quatro anos.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Não sei perder

ZELITA
(Humberto Ilha)
Mais uma luz se apaga.
Minha amiga "Zélis" morreu; por aqui está mais escuro.
Nada me faz crer que ela viva em algum lugar, mesmo que tenha sido tão bondosa.
Nada me remete a outro endereço senão o do "Jardim da Paz".
Melhor crer nisso do que me entupir de remédio com prazo vencido.
Minha angústia básica diante da morte merece respeito.
Nada de abraçar a ilusão para continuar vivendo.
Muitas vezes ela me disse:
"Segue em frente, recolhe o caquedo e enfrenta o escuro".
Nada tão verdadeiro.
Credo, como a vida é esquiva, arisca, desconfiada e desertora da gente.
Busco a conformação num enorme silêncio que nada responde.
Clamo pelo deus dos homens, mas ele teima em se esconder.
Então vejo que estou sozinho nesse confronto desigual que é a vida.
Quer dizer: sozinho não! Tenho você, que ainda vive; desaforo!

sábado, 16 de agosto de 2008

Um conto do Mar


ADEUS, LUCIMAR
Humberto Ilha
Houve uma briga na cozinha do Annita enquanto navegava nos limites da costa catarinense. A embarcação fora um navio de guerra americano. Agora, adaptado, era um misto de carga e passageiros da Empresa Nacional de Navegação Hoepcke. Haviam se atracado em luta corporal um dos copeiros e o primeiro motorista de bordo. É que o veterano auxiliar de cozinha cumpria com zelo o regulamento para as rotinas dos serviços de bordo. Já o das máquinas, além de novo na empresa, era negado a obedecer ordens. Tinha o costume de trabalhar para o chefe e não para a empresa. Fizera carreira em pequenos cargueiros e em barcos de pesca.

Uma hora antes de aportarem Duarte já estava demitido. Consta que fora até a cozinha tomar café e fizera uso de um copo ao invés de uma xícara. Mais ainda, mexeu o açúcar com o cabo de um garfo quando deveria usar uma colherzinha. Fora admoestado pelo taifeiro diante de colegas e não gostara. O comportamento impróprio do copeiro deixou-o furioso, mas conseguiu conter-se. Entretanto, dissera ao outro que na próxima ocasião ele o faria engolir os insultos. Duarte bem sabia que acabara de proferir uma ofensa maior do que as que havia escutado. O taifeiro mordeu a isca e partiu para cima dele esbravejando:
— Olha aqui, Linguado, vais ter que me encarar é agora.
O maquinista conteve-se mais um pouco. Era necessário provocar mais raiva no outro até que chegasse ao ponto ideal de atacá-lo; até que ficasse totalmente sem controle emocional. Antegozando um ódio desmedido e represado cutucou quase sorrindo:
— Não brigo com mulheres. Muito menos com as que cozinham para mim. Tenho medo de ser envenenado.
Foi a gota d’água; um talonaço de faca parou na curva do braço de Duarte que rapidamente liberou toda a sua ira. Foram dois socos potentes direto no rosto do colega, que girou por cima de um corrimão para despencar de dois metros. Amontoou-se como um saco de areia no piso de ferro fraturando as duas pernas. Colegas passaram trabalho para deixá-lo imobilizado, pois daquele jeito ainda queria agredir o motorista. Era bom de briga, mas não o bastante para aquele homem de punhos de aço.

Dia seguinte Linguado apareceu a bordo trazendo pela mão um menino de cinco anos com os olhos muito azuis. Foi ao camarote que ocupara até o dia anterior e esvaziou o armário onde guardava as coisas. Ao passar pela escada de onde arremessara o copeiro proseou-se para o filho: “Foi daqui que joguei o canalha”.
Despedindo-se do Comandante perguntou pelo homem que surrara. Soube que estaria no gesso durante um mês e que seria remanejado para trabalhar no estaleiro da Empresa, pois aquela não era a primeira briga que arrumara. O Capitão lamentou a breve estada do maquinista sob seu comando e os dois se despediram. Do trapiche lançou um olhar de tristeza para a melhor embarcação que jamais trabalhara.

Linguado era um apelido que Duarte odiava porque tinha origem num detalhe físico. Quando ainda com dezessete anos envolvera-se num quebra-pau para defender o irmão contra onze e dali saiu com um aprofundamento de crânio na região frontal esquerda. Isso fez que o olho ficasse saltado da órbita. Não tratava ninguém por apelidos porque já ele sofria com isso. Era um homem reservado e metido com seu trabalho solitário nos porões. Era bem casado com uma mulher vinte anos mais jovem, o que também ensejava alguns gracejos dos desavisados. Além disso, era pai, razão pela qual enfrentava o mar pavoroso ainda que não soubesse nadar. Aspirava levar uma vida mais folgada em terra. Contudo, vivia embarcado, pois era onde ganhava mais. Ansiava novamente constituir família, já que era viúvo. Olhava para os dois filhos e lembrava-se dos outros dois da anterior união que haviam falecido com menos de cinco anos. Perdera uma família e queria valorizar a que possuía. Para tanto lutava com garra e não rejeitava empreitada por mais risco que houvesse de correr.

Desempregado, ficou aborrecido por uns dias. Em contrário, estava mais perto da família que tanto amava. Tinha confiança de que nem precisaria sair de casa a pedir emprego. Logo viriam convidá-lo para se integrar a alguma equipagem. Foi o que aconteceu. Em cinco dias tinha duas propostas; ou um barco de pesca, ou um cargueiro com estrutura de madeira de nome Lucimar, cujo armador era sediado em Santos. Conversando com a esposa decidiu-se pelo cargueiro. Viajou naquela mesma noite a bem de providenciar o embarque. O navio estava em reparos de estaleiro, mas isso não o impediu de começar a trabalhar. Havia muito a fazer nos dois motores e nos geradores de energia. Assim, manteve-se ocupado o tempo todo. Era dessa forma alienante que procurava sufocar uma raiva interna que não compreendia por que estava nele. Sua auto-estima era baixa demais para se relacionar sem brigar com as pessoas. Amava o conflito, o choque, a colisão, a desavença, as ameaças e não afiançava a paz, que acreditava ser a súplica de fracos, velhos e mulheres. Era um brigão nascido e incorrigível. Quanto mais tensão no ambiente, melhor. Não sabia viver no sossego. Desconfiava da paz, da harmonia entre as pessoas, da ausência de conflitos. Não acreditava que um ambiente tranqüilo ensejasse o respeito entre as pessoas. Para ele, paz era a existência de respeito e não a ausência de guerra. Postulava que o respeito era via de mão única, porquanto inútil esperá-lo espontaneamente de alguém. Ninguém respeitaria nada se não fosse compelido a fazê-lo ao talante da lei ou do trabuco. Essa quimera não existia nem nos mosteiros. Bradava que a natureza do ser humano era perversa e tinha de ser contida na marra. Ficava desconfiado quando estava tudo em paz, pois alguém estaria se aproveitando da situação. E com ironia lembrava que criança quieta ou está fazendo arte ou cocô. E lá ficava ele, perdido em pensamentos em cima dos motores.

Em oito dias estava navegando para o sul em pequena cabotagem, mas nunca o Lucimar chegaria lá. A barlavento de Florianópolis o navio enfrentou mau tempo e uma onda gigante o afundou com todos a bordo e mais uma carga de cento e vinte e duas toneladas de tubos de ferro fundido para rede de água. A notícia da tragédia noturna chegou aos ouvidos da esposa pela tarde. Dirigindo-se ao Cabo Submarino pediu confirmação do ocorrido. O radiotelegrafista confirmou o naufrágio no começo da madrugada. Então ela perguntou se havia uma lista de desaparecidos. O homem informou que todos a bordo haviam morrido. Ela negava-se a receber pêsames de parentes e amigos. De tanto ela insistir, o radiotelegrafista solicitou a última relação dos tripulantes do barco quando deixaram o porto de Itajaí. Nela não constava o nome do marido. Ali fora desembarcado e já estava navegando no Olímpico com destino ao porto de Santos, levando uma carga de tubos de ferro fundido para rede de água. Comentando com o Chefe de Máquinas, Duarte revelou não entender porque a mesma carga andava de um lado para outro. Só isso já era motivo de descontentamento interior.

Fora desembarcado do Lucimar para continuar vivo no Olímpico. Tudo porque se atracara em luta corporal com o taifeiro do Lucimar após ser admoestado na frente dos colegas. Com as mãos sujas de graxa se atrevera a tomar café numa branquíssima xícara de porcelana destinada aos oficiais e visitantes ao invés de fazê-lo num copo de vidro tosco, como era o costume a bordo do Lucimar. Continuava sem entender os regulamentos.
Foto: Acervo do Intituto Carl Hoepcke.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Conto


POR FAVOR, NÃO DESLIGUEM AS LUZES DO NATAL
Humberto Ilha
A julgar pelos enfeites dava mesmo para sentir a presença do espírito do natal todas as vezes que — de manhã — o homem passava defronte àquela casa. Imaginou que, se toda iluminada à noite, seria uma exposição de encantamento. Sentia uma trepidação ancestral na época que antecedia o natal. Talvez em razão de alguma lembrança do tempo em que ainda morava com a família. Talvez de uma reminiscência dos irmãos, quando se deliciava com a alegria da espera do natal. O dia do natal passava muito rápido e cheio de compromissos, de horários. O bom era esperar o dia de natal. Sonhar com o que ia acontecer. A chegada de um parente que estava longe. O cartão de boas festas do outro que não queria ser chamado de esquecido. De voltar a encontrar alguns que moravam fora e estavam pela cidade. De receber o décimo terceiro para desafogar um pouco a forca do banco. Das vitrines das lojas com motivos mais que próprios para mais vender. Do interior dos shoppings com aquela decoração profissional, muito embora vinda do frio metido ali de xereta.

Os anos vão passando e as pessoas vão querendo enfeitar suas casas com esses motivos natalinos. Mangueiras iluminadas desenhando pinheiros estranhos na frente dos condomínios. Árvores enrodilhadas pelas luzinhas tão simpáticas. Acende-apaga-acende-apaga, minha mãe adorava isso. Puxa o fio para cá, estica para lá a fieira iluminada, isola o desencapado para não dar choque. Os shoppings tão mais encantados por dentro. As casas tão mais bonitas por fora. O natal no sul vem meio de esguelha no simbolismo dos enfeites. Mas não há como negar-lhe a alegria proporcionada, as lembranças do que já passou e a esperança do que vem por aí. Quem decide enfeitar sua moradia com motivos festivos do natal do verão já vive o clima dentro do peito alegre.

O homem insistia em passar defronte àquela casa para nela ver alguma mensagem ainda não decifrada. Deixou de passar um dia e sentiu um aperto no coração quando já estava deitado. Desde então dava sempre um jeitinho de passar lá bem devagarzinho. Mesmo durante o dia, com as luzes apagadas, a decoração lhe completava algo que residia inacabado no peito. Se por fora era tão reluzente, por dentro aquela morada devia ser um brinco cintilante. Na pilha de Mario Quintana até diria: "Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das luzes natalinas"
[1]. De mais a mais, por uma intuição secreta, afirmava que a escuridão era o sol dos mortos. "As ditaduras e as assombrações agem no breu da noite", recitava com os dedos já cruzados como querendo afastar tudo que viesse das sombras.

"Hoje passo lá e peço para entrar, para ficar ali um pouco com a família. Afinal, o espírito do natal é isso. A fraternidade entre as pessoas mesmo que não se conheçam". Foi lá e viu muita gente diante da casa. Deviam ser parentes se reencontrando, amigos se dando abraços e mãos. Viu até lágrimas sinceras. Desceu do carro e entrou como se fosse esperado. Antes lançou um olhar para a decoração externa e o jardim todo iluminado com as crianças correndo suas brincadeiras. Quando entrou percebeu o interior da casa também todo iluminado, mas não havia as risadas dos que estavam fora. "Estão celebrando novena", pensou. E parecia mesmo, porque estavam todos de mãos postas e ajoelhados no meio da sala. Quatro tochas ardendo grave e um capelão puxador de reza em latim (essa é boa, em latim); se bem memorizado, tanto mais fajuto. Então viu quem reinava ali dentro: um silêncio fúnebre que acolhia respostas jaculatórias de encomendação da alma de alguém cujo corpo jazia no meio de luzes de natal.

[1] “Que triste os caminhos se não fora a mágica presença das estrelas”. (Mário Quintana)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Crônica da noite





SOU, QUEM NÃO É?
Humberto Ilha
Paulo Ovídio tinha visível talento com as mulheres, que não o deixavam em paz. Abandonava os cursos que iniciava por falta de freqüência às aulas. Inteligente e galanteador, isso o tornava querido de todos. Andava na moda, em se tratando de roupas e carros. Lembro das respeitáveis cuecas Ban-tan; duráveis, sempre brancas e confortáveis, mas chamadas de samba-canção pelo contraposto às do estilo Zorba, o Grego. Foi só Anthony Quinn aparecer no filme em traje sumário para que o brasileiro descobrisse que usava um forro medieval a cobrir-lhe as partes. PO, ao que eu saiba, foi o primeiro da minha geração a se deixar ver usando aquela minúscula calcinha, como chamávamos a moderna peça. De primeiro fizemos um estardalhaço com ele. Depois todos aderimos ao novo tipo de roupa de baixo. E também não era mais aquela calcinha vitoriana. Era esquisita, confortável e as mulheres aprovavam, mormente se nelas houvesse alguma mensagem ou estampa homenageando o amor.

Meu amigo era um romântico cheio de dúvidas existenciais. Sonhava com um lugar de fantasia onde: "Lá sou amigo do rei... Lá tenho a mulher que eu quero... Na cama que escolherei".
[1] Quantas vezes agüentei o mau humor dele com ele mesmo? Dizia-se um homem de cabeça aberta, mas um dia, chorando lágrimas sinceras, confessou-me um segredo que não conseguia guardar. Estava tendo um caso com a esposa de um colega de serviço. A sentença era dele mesmo: “sou um patife”. Não adiantava civilizar o delito; sempre tinha uma pergunta para sublinhar sua canalhice: “aonde é que vamos parar? O mundo está perdido pela devassidão e pela busca do prazer individual”. Dizia mais: “eu sabia que fazer uma coisa dessa era errado, mas como fui fazê-lo? Sou mesmo um canalha”. E eu, aderindo, para aliviar-lhe a culpa: “Quem não é?”

Depois, fui saber, a safada abandonou o marido tão correto e manso; caiu na vida. Passou a freqüentar a boate Chatanooga, garantindo clientes nunca vistos por ali. Depois foi para o nordeste, vindo a morrer nas mãos de um cafetão. Paulo nunca aceitou isso sem sofrimento. Visitava toda sexta-feira o inferninho onde ela havia brilhado na esperança de mitigar-lhe a ausência. Porque tinha propensão para o bem, dei um jeito de encaminhá-lo ao capelão do Hospital Militar que amenizou um pouco a dor dos pregos que se permitia cravar na carne.

Era um homem difícil de perdoar-se. Quando aparecia na boate para ter uma noite de alegria o que menos conseguia era ficar alegre. Sentia dó das vendidas e lá vinha a depressão. Então mandava forrar a mesa com cerveja para se refazer do ódio que sentia de si próprio. Depois, ficar embriagado e virar romântico. Na seqüência, virar macho. Queria a melhor menina do salão e encarava quem se atravessasse no caminho.

Naquela sexta, após assistir a uma apresentação de sapateado de um corpo de baile espanhol no Teatro Guaíra, resolvi passar na boate, reduto certo do Paulo àquelas horas. Entrei e senti o ambiente pesado. Procurei PO e o encontrei embriagado no meio das garrafas. Ele estava com o rosto machucado. A camisa aberta no peito deixava à mostra o abdome malhado cingido por moderna cuequinha. Quando me viu, abriu os braços e começou a chorar. Abracei-o e chorei junto, pois era uma lástima vê-lo daquele jeito. De fato ele era um amigo bom. Mas é nas ruas que a verdade mora. E a verdade é feia. E com ela moram os ruins e os bons. Convidei-o para terminar a noitada por ali mesmo, mas não:
— Se eu levantar desta cadeira vou apanhar muito mais.
— De quem?
— Do bigode atrás de mim. Disse isso apontando com o dedo mínimo o espelho a sua frente. Disfarcei e virei o acento da banqueta para ver melhor. Era um homem forte, um Golias medonho, e não vi bebida sobre a mesa. Falei que precisava ir ao banheiro e procurei o segurança da casa, que me alertou:
— O Paulo provocou esse gaúcho e já apanhou três vezes. Quando tudo parece que vai se acalmar ele fica na frente desse armário e mostra o que está escrito naquela cueca infame piscando-se todo e mandando-lhe beijinhos com o biquinho dos lábios. O homem está armado e todos aqui estamos com medo. Mas o gigante não está nem aí para nós. Quer bater mais. Agora que você chegou, vou lhe dar uma sugestão: cai fora. Deixa esse debochado aí que ele sabe se virar.
— Quero um jeito de tirá-lo daqui em paz.
— O Paulo não quer paz; quer briga e vai te envolver nisso. Portanto, cai fora já.

O funcionário tinha razão. Meu amigo era um galinho de briga sarcástico. Mesmo ensangüentado, miudinho, queria ir para cima do rival e zombar da cara dele. Mas era só um galinho, coitado. Como eu o abandonaria naquela situação? Nisso escutamos estardalhaços de quebra-pau. Corremos para o salão e vimos Paulo Ovídio no meio de uma luta injusta. Pensei em pedir trégua em nome da inferioridade física. Mas não deu tempo. PO foi esmurrado tão forte no rosto que rodopiou para se aninhar com grande estrondo por entre os pés das cadeiras vazias no canto do salão. E por lá ficou não se levantando mais. Então o homem chegou perto e viu que ele estava nocauteado. Pagou a conta e saiu. Para poder chegar até onde ele estava tive de arredar as cadeiras; vi que estava de fato estroçado. Chamei por ele diversas vezes e não respondeu. De repente abriu os olhos bem pouquinho com um sorriso sacana na cara inchada. Viu que estávamos somente nós dois e me disse:
— Fica quieto e faz de conta que eu estou desmaiado.
— Levanta que o muro foi embora.
— E a conta?
— Você paga, claro.
— Então me deixa ficar dormindo aqui.
— Paulo Ovídio, você é um cachorro sem vergonha.
— Sou, quem não é? Ih, Ih, Ih...

Disse isso já mostrando o recado na cuequinha: "Amo você".


[1] Trecho de "Vou-me Embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Deu na rádio.


SÓ O QUE FALTAVA

Humberto Ilha
Não era mulher de esfregar os cotovelos no parapeito da janela da frente para botar fé no que se passava na rua. Mas os palavrões dos dois homens já estavam passando da conta para que não lhe chamasse a atenção. No início não entendeu porque tanta irritação dos dois diante de uma velha Kombi enguiçada. Foi entender quando os dois abandonaram o veículo e se foram de ônibus para a Capital, distante uns dez quilômetros. Única testemunha do veículo abandonado, a mulher ficou debruçada na janela assuntando tudo o que dizia respeito àquela cena tão incomum, talvez para se revestir de primeira testemunha de um feito que sentia não ia acabar bem. O pobre carro era velho além da conta; fora deixado com as portas abertas; pertencia ao asilo e era usado para o transporte de algo que não era do bem. Teve ímpeto de ir lá ver de perto o insólito espólio da rua, mas achou melhor observar no que ia dar a curiosidade das crianças que estavam saindo da escola. Um por um chegando e xeretando o interior da Kombi. Era olhar e sair em corrida desembestada. Uns deixavam o cartapácio no chão; outros saiam gritando de toda goela em direção de casa; outros mais branqueavam e saiam de olhos arregalados; houve um menino que desenhou o sinal da cruz no peitinho e começou a vomitar. O que é; o que não é? Com certeza era a carga da Kombi. A mulher abandonou a janela e foi conferir a causa de tanto pavor. Não era para menos; as crianças jamais esqueceriam o cenário macabro de cinco cadáveres empilhados no chão do veículo abandonado. Nem as crianças e nem ela própria. Foi direto avisar o seu Argeu vereador que era perto dali; pois nem ele tão lanhado da vida encarou aquilo sem se assombrar. Fechou a cara e mandou um empregado chamar o cabo Pedroso. Mas quem apareceu do nada foi o Manolo da Rádio. Examinou a cena e decidiu faturar a notícia que lhe caíra no colo de graça; retirou do porta-malas da Mercury os fones de ouvido, a fonte portátil e o microfone com antena para dar o furo sem demora. A mulher da janela custou a crer que Manolo, que era amante da amante do Balduino Codorna, ia botar o acontecido no ar. Sintonizou o rádio e começou a escutar a voz do repórter dando a notícia do abandono não de uma Kombi velha enguiçada no lugar chamado Santa Filomena, mas de cinco corpos vindos do asilo; uma falta de respeito. Dizia que era "um absurdo aqueles cadáveres abandonados; não era para ter ali um espetáculo tão insólito... E tinha".
A mulher na janela sacou que Manolo estava se divertindo com aquilo tudo, pois no que transmitia a notícia já declinava o nome da amante na camuflagem de um palavreado poético. Porque poeta ele era, isso todo mundo reconhecia. Nascido no sul com passagem pela antiga capital federal, nos anos dourados ele emprestou sua voz de locutor para declamar versos de poetas consagrados. Muitas vezes dava um jeito de encaixar uns versos de sua lavra. Mas isso era só quando era muito solicitado, pois não tinha muita fé no próprio taco. E recriminava a irresponsabilidade do asilo; que "aquilo era uma vergonha"; que "ia entrar com um pedido de destituição do governador", de quem era adversário político. Falava isso tudo com um sorriso nos lábios, mas sua voz na rádio não o demonstrava; a mulher tinha disso certeza porque ao mesmo tempo em que o via diante de sua janela o escutava no rádio da sala. Percebendo-lhe a intenção zombeteira, a mulher da janela procurou entre as pessoas que se acotovelavam ao redor da Kombi ninguém menos que a amada do radialista e o amante da amada; seu Balduino Codorna. Os três quase se trombavam naquela muvuca, mas faziam que não se conheciam. Como eram descarados; o que não faziam por amor...

domingo, 3 de agosto de 2008

Crônica da Rodovia da Morte




PRECISO FALAR ALGO FORTE
Humberto Ilha
A campanha pela duplicação da BR-101 em Santa Catarina é louvável em todos os aspectos, menos no foco. A bandeira mais desfraldada pelos populares é "a morte na rodovia”. Todo santo dia morre alguém que ousa encarar a megera indomada. E é aqui que peço licença para falar algo mais forte. Esse argumento jamais vai tirar o sono dos burocratas.
Conheço um padre que, ao encomendar um defunto, começa dizendo: “Irmãos, este corpo que aqui está, nós temos que sepultá-lo imediatamente”. Nada mais certo. Primeiro porque isso tira o foco do corpo físico do morto para valorizar-lhe a alma indestrutível (de acordo com a fé geral). E segundo, porque de verdade, não resta nada mais a fazer. Para as autoridades, quem morre precisa é de um bom enterro. Ao invés de mostrarmos as cruzes dos nossos sepultados, devemos enchê-los de fotos e filmes dos que sobreviveram aos acidentes. E essas pessoas são mais de noventa por cento. Uns estão até hoje em hospitais. Outros estão mutilados. Outros viraram alcoólatras, depressivos e desesperados. E quanto está custando isso tudo?
Perceberam agora quão forte estou falando? É de assustar. Se para nós uma vida não tem preço, para os burocratas o que tem preço é o acidentado que teima em viver. Esse incomoda e se transforma num centro de custos que sangra o Tesouro. E se incomoda, vamos mudar o foco da nossa campanha já. E o morto? Só nos resta sepultá-lo no silêncio da nossa dor, para que não acorde quem descansa no Planalto.