segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O GUARDA DO TEMPLO

Humberto Ilha

O bom coração das pessoas parece ter limites para agir. É um embuste dos grandes, alguém decidir ser bom de um dia para outro. Mas ninguém se torna bom se não começar a imitar os guias da compaixão. Um dia o bom coração rebenta sem que o talo se dê conta. Mas até isso acontecer muita cena de remorso há de rolar. O aprendizado começa em casa, depois é a escola, a igreja e o trabalho, para se consolidar nos cafundós do mundo, que é onde as coisas acontecem.

Pois um templo é sempre local de refrigério para a alma. Local onde as pessoas procuram para aliviar a pesada carga da ossada. Conheci um na parte continental da cidade; na rua que dá para o mar. Desde criança tive conhecimento que ali era local de oração e caridade. Mas era também local de peregrinação de vivos e mortos. Diziam que desencarnados eram atendidos ali sem que lhes pedissem carteira de identidade. Para receber atendimento o visitante do além não precisava estar cadastrado; todos tinham assegurado o acolhimento independente do quilate devocional. Mas eu somente via a peregrinação dos vivos que para lá se dirigiam em busca de remédio, comida e dinheiro. Vizinhos eram constantemente incomodados pelos que pediam. Um deles havia colocado um aviso: “Aqui não é o Centro Estrela Guia”. Quem preparasse a mão para bater naquela porta dava de cara com esse aviso. Vi alguns recolherem a mão à meia viagem. Ficava engraçado quando vinham em dois conversando e se preparavam para golpear a porta daquela casa. Depois de ler o aviso faziam que nem avião quando recolhe o trem de pouso. Onde então o templo? Bem ao lado, e com um enorme letreiro indicando os dias e horários das sessões. Então como não ver? Exu, o orixá guardião dos templos e encruzilhadas certamente saberia dizer. Por certo, tinha-se que aquele era um local conhecido pela bondade dos seus membros, que diziam ser a fome física algo concreto para o mortal.

Naquela noite o grupo estava reunido para tratar de assunto da economia da casa; o tempo previsto era de hora e meia. A reunião estava começando quando bateram de um jeito profano. Obreiro dedicado como sentinela, Neném Bordoada levantou-se para ver quem assim batia. Deu de cara com um freguês de cesta básica. Do alto de seus quase dois metros de altura ruminou má vontade: “Que diabo, esse cara está sempre aqui pedindo”. Entretanto, fez-se afável, recurvou a espinha, desculpou-se e pediu que o coitado viesse no dia próprio, isto é, dali a uma semana. "Boa-noite; boa-noite", fechou a porta e acomodou-se com aquele seu ar de mando para continuar a sessão. Sujeito lúcido, há muito passado dos branqueados oitenta, além de comandar sabia se desenhar como um gato que se põe alerta. Não conseguiu reprimir um recorrente pensamento doutrinal que lhe aflorou à mente: "A dor desse infeliz não lhe poderia ser útil para depurar-lhe o espírito?"

Dali a cinco minutos o mendigo voltou a chamar os de dentro. Neném Bordoada controlou-se para atender o pedinte, que novamente pedia o rancho; a mesma desculpa, mas antes de despedir o homem, pediu-lhe que fosse para casa dormir e então viesse no dia seguinte para ver o que poderia fazer. Ambos tinham biografias curtidas, um pela cachaça e outro pela água salgada da vida, sabiam que a necessidade exige ação. Assim mesmo o guardião fechou a porta e sentou-se mais uma vez para dar seqüência à reunião, que não queria andar. Um exu não dorme, pensava, sequer relaxa; quando muito apenas descansa. Mesma coisa acontecia com o seu Neném; não estava ali para descansar. Quase imediatamente, o inimigo voltou a bater. Sim, porque somente um inimigo arrumaria uma provocação daquelas. O sangue subiu e deu uma raiva tal em Neném Bordoada que esmurrou a mesa para encarar o homem. Nem deixou o diabo abrir o bico para repetir a ladainha. Desferiu-lhe um direto no queixo para pô-lo nocaute. Assustado, não esperava que a bomba saísse com tamanha potência. Todos se levantaram para atender o mendigo, menos seu Neném, que chorava de remorso. Reconhecia faltar muito para ser bom. "Que raiva, — ganiu — dá vontade de desistir de tudo".

Um comentário:

Ana Bernasconi disse...

Ser bom é trabalho árduo e de enorme demanda de tempo, eu diria...de vidas...
às vezes quando já pensamos ser bons, ou até quase santos, nos deparamos, nas entrelinhas, com um sórdido pensamento...e dá até vergonha de nós mesmos... não é assim mesmo?
como diz uma amiga minha...é prá isso que estamos aqui...
Belíssimo texto! vou viciar no teu blog...rs...Parabéns!