quarta-feira, 23 de julho de 2008

Batman - The Dark Knight


Assisti Batman, O Cavaleiro "Trevoso" - dublado - na sala 2 do Shopping Itaguaçu e fiquei frustrado, embora a dublagem não estivesse ruim. Christian Bale, quando recebe o "caboclo morcego" muda de voz. Não se sabe quem o dubla naquela voz de lata. Ficou meio inverossímil, mas não sei se foi esse o propósito no idioma original. Que desempenho do Coringa Heath Ledger, hein? Roubou a cena, mas não ficou entre nós para conferir que era mais do bem que o zangado herói, eis que, noticiam, baixou o porrete na mãe (61) e na irmã no dia da estréia em Londres (21/07). Uuuuhh, danado!
Há um tempo até precisava assistir filmes dublados; hoje não. Lembro do Salvito, de quem sinto saudades, que um dia tentou me ajudar. Mas foi pior, porque chorei de tanto rir. Vai, Salvito, de onde quer que você esteja Irmão.

SALVITO
Humberto Ilha
O cartaz do cine Glória dizia alguma coisa interessante pelas fotografias do anúncio. Não entendia nada do que estava ali escrito. Ainda não sabia juntar as letras para formar palavras. Nem em português e muito menos em inglês. Mas Salvito já sabia ler um pouquinho e silabou: "a-pon-te-que-vai". Que era filme de guerra ambos sabíamos, mas quem guerreava?
Muito depois soube tratar-se de "The Bridge on the River Kwai", com Alec Guinness e William Holden. Uma produção anglo-americana ganhadora de sete Oscars. O cenário era a Segunda Guerra Mundial onde um militar inglês e sua tropa fora aprisionada pelo inimigo. Forçados a construir uma ponte sobre o rio, o líder decide fazê-la bem feita, a fim de humilhar os japoneses e deixar clara a superioridade britânica. Uma batalha psicológica onde não se batiam japoneses e ingleses, mas os indivíduos. Um filme de guerra, mas que dela não fazia propaganda. Pelo contrário, quase pregava a paz.
Pedi em casa para assistir o filme na sessão das cinco, minha mamãe disse que não era sessão livre. Portanto eu não podia entrar desacompanhado de um responsável. Salvito foi sozinho, o peste. Não sei de que maneira sempre conseguia entrar nos filmes impróprios para dez anos. Acho que era por causa do olhar quase frio de tanta tristeza que deixava transparecer mais idade. Ou talvez fosse porque já era bem crescido para a idade tão pouca. Como barrar a entrada de um menino que tinha um cacoete de gente grande? A cada minuto fazia um movimento com o nariz. Eu desejava ter um vício igual para ganhar mais aparência de adulto. Só não queria o apelido que o pai lhe dera: "relampo", que era como via a careta do filho; rápida como um relâmpago. Dia seguinte eu quis saber do filme. Disse-me que entendera o filme mais ou menos, mas que iria me contar só as partes principais.
— Tiroteio e romance eu não vi. Se houve eu estava cochilando porque o filme era muito chato. Havia gritos e muitas ordens para os soldados brancos. Os japoneses tinham armas, os outros não. Uma guerrinha bem desigual. Numa hora o chefe dos brancos falou alguma coisa para o chefe dos japoneses: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Prá quê? Recebeu uma bofetada que lhe virou o pescoço para o lado sul. O brancão ainda replicou: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Outra bofetada e o pescoço virado para o norte. Então o japonês o olhou bem de pertinho e disse: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". O de bigodinho nada respondeu e chamou todos para dormir. Decerto ficou com receio de perder o pescoço. Ele e os companheiros eram muito relaxados. Andavam com as roupas sujas e até rasgadas. Eu gostava quando a tropa rasgada assobiava uma canção parecida com a do sargento Parmasso da clarineta. O certo é que passaram o filme todo construindo uma ponte de madeira debaixo de muito sacrifício. E sabe o que fizeram com ela? Destruíram ela inteirinha. No final, o galã que dinamitou tudo acabou morrendo. Antes de morrer ainda disse para o chefe dos brancos: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Decerto estava pedindo desculpa pela bobagem que fez. E o chefe dos brancos respondeu com lágrima nos olhos: "não-sei-que-lá, não-sei-que-lá, não-sei-que-lá". Aí foi triste, credo.

Um comentário:

Lauro Duarte de Souza disse...

Esta estoria eu vivi.
Gostei, para os que não sabem eu tb tive meus cinco seis anos, e dependia de outros para lerem; coisa que eu não sabia.