segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Deu na rádio.


SÓ O QUE FALTAVA

Humberto Ilha
Não era mulher de esfregar os cotovelos no parapeito da janela da frente para botar fé no que se passava na rua. Mas os palavrões dos dois homens já estavam passando da conta para que não lhe chamasse a atenção. No início não entendeu porque tanta irritação dos dois diante de uma velha Kombi enguiçada. Foi entender quando os dois abandonaram o veículo e se foram de ônibus para a Capital, distante uns dez quilômetros. Única testemunha do veículo abandonado, a mulher ficou debruçada na janela assuntando tudo o que dizia respeito àquela cena tão incomum, talvez para se revestir de primeira testemunha de um feito que sentia não ia acabar bem. O pobre carro era velho além da conta; fora deixado com as portas abertas; pertencia ao asilo e era usado para o transporte de algo que não era do bem. Teve ímpeto de ir lá ver de perto o insólito espólio da rua, mas achou melhor observar no que ia dar a curiosidade das crianças que estavam saindo da escola. Um por um chegando e xeretando o interior da Kombi. Era olhar e sair em corrida desembestada. Uns deixavam o cartapácio no chão; outros saiam gritando de toda goela em direção de casa; outros mais branqueavam e saiam de olhos arregalados; houve um menino que desenhou o sinal da cruz no peitinho e começou a vomitar. O que é; o que não é? Com certeza era a carga da Kombi. A mulher abandonou a janela e foi conferir a causa de tanto pavor. Não era para menos; as crianças jamais esqueceriam o cenário macabro de cinco cadáveres empilhados no chão do veículo abandonado. Nem as crianças e nem ela própria. Foi direto avisar o seu Argeu vereador que era perto dali; pois nem ele tão lanhado da vida encarou aquilo sem se assombrar. Fechou a cara e mandou um empregado chamar o cabo Pedroso. Mas quem apareceu do nada foi o Manolo da Rádio. Examinou a cena e decidiu faturar a notícia que lhe caíra no colo de graça; retirou do porta-malas da Mercury os fones de ouvido, a fonte portátil e o microfone com antena para dar o furo sem demora. A mulher da janela custou a crer que Manolo, que era amante da amante do Balduino Codorna, ia botar o acontecido no ar. Sintonizou o rádio e começou a escutar a voz do repórter dando a notícia do abandono não de uma Kombi velha enguiçada no lugar chamado Santa Filomena, mas de cinco corpos vindos do asilo; uma falta de respeito. Dizia que era "um absurdo aqueles cadáveres abandonados; não era para ter ali um espetáculo tão insólito... E tinha".
A mulher na janela sacou que Manolo estava se divertindo com aquilo tudo, pois no que transmitia a notícia já declinava o nome da amante na camuflagem de um palavreado poético. Porque poeta ele era, isso todo mundo reconhecia. Nascido no sul com passagem pela antiga capital federal, nos anos dourados ele emprestou sua voz de locutor para declamar versos de poetas consagrados. Muitas vezes dava um jeito de encaixar uns versos de sua lavra. Mas isso era só quando era muito solicitado, pois não tinha muita fé no próprio taco. E recriminava a irresponsabilidade do asilo; que "aquilo era uma vergonha"; que "ia entrar com um pedido de destituição do governador", de quem era adversário político. Falava isso tudo com um sorriso nos lábios, mas sua voz na rádio não o demonstrava; a mulher tinha disso certeza porque ao mesmo tempo em que o via diante de sua janela o escutava no rádio da sala. Percebendo-lhe a intenção zombeteira, a mulher da janela procurou entre as pessoas que se acotovelavam ao redor da Kombi ninguém menos que a amada do radialista e o amante da amada; seu Balduino Codorna. Os três quase se trombavam naquela muvuca, mas faziam que não se conheciam. Como eram descarados; o que não faziam por amor...