segunda-feira, 13 de outubro de 2008

BONDADE AQUI? NÃO VAI CABER

Humberto Ilha

Nem sempre se ganha, mas às vezes é melhor perder que empatar. Adão Xadeco, motorista de coletivo, desfrutava o primeiro dia de férias. Não conseguia ficar em casa; parecia ter de sobra era vocação para a rua. Não dava à Conilda a mínima chance de ser o que queria ser: esposa. Era uma empregada que ele usava para todo ano tirar umas crias. Onze filhos encordoados, "todos perfeitinhos, graças a deus; mas dão muito trabalho à mãe". Além disso, ele tinha amante também no plural, mas isso quem dizia era ela com a voz dolorosa. Tirada do jugo do pai aos dezesseis, com trinta e seis Conilda estava sob o jugo do mandão. Ele até dente de ouro tinha, ela, coitada, perdera todos em favor da ninhada. Os dois filhos mais velhos já trabalhavam fora. A mocinha era faxineira do hospital, o rapaz vivia de engraxar sapatos, mas achava que vender esteiras de palha dava mais. Outros dois meninos anotavam jogo do bicho. O de doze vendia banana recheada, mas era roubado e apanhava freqüentemente dos marmanjos. Assim mesmo, todo o dinheirinho na mão da mãe, que lavava roupa para oito famílias. Só não passava porque Adão caprichosamente não deixava.

Viajando de passageiro queria estar perto do colega para ir conversando. Fácil de fazer amizade, vivia impecável e perfumado, como filho de barbeiro (velha alegoria que ele detestava). Tinha fama de conquistador fatal. De repente viu que uma mulher sentara-se ao seu lado e se encostara um pouco nas pernas dele. Bonita, deixava aparecer um pouco de si pela fenda da saia. Estudou-a de cima a baixo e olhou para o motorista que lhe deu uma piscadela pelo espelho. Queria saber onde a moça ia desembarcar; pois desceu defronte ao portão principal do cemitério municipal. Não parou, sequer hesitou; foi entrando e andando pelo meio dos jazigos. Adão ia desembarcar, mas o colega fez-lhe sinal para que não. Disse-lhe conhecer a moça e que era costume dela visitar aquele cemitério toda quarta feira às nove da noite; vinha rezar. Xadeco consultou o relógio e percebeu que era hoje.
— Será que vem?
— Com certeza.
— E como faço para ganhá-la?
Então o outro ensinou como fazer para o garanhão se dar bem.

Pelas nove horas estava lá esperando para ver se ela aparecia mesmo. Duvidou, mas ela veio. Desceu do ônibus e foi se esgueirando pelo meio das sepulturas com desembaraço. Xadeco deixou ela se acomodar e aproximou-se para encontrá-la ajoelhada diante de um túmulo na parte mais escura do cemitério. A misteriosa dama trajava longa capa negra com um capuz sobre a cabeça. Lembrando os conselhos do colega, o motorista se aproximou por trás e disse-lhe ser um peregrino que andava no mundo procurando o genuíno amor. A moça assentiu com a cabeça, pôs-se de pé e abriu a capa. Xadeco estremeceu, mas em seguida experimentou uma sensação de paz que o comoveu. Então, num travão de arrependimento, falou que não era um peregrino; que havia ficado louco por ela quando a conheceu no ônibus. A moça escutou-o atentamente e falou que também gostara muito dele, um homem alinhado e sedutor. Mas que ela não era aquela de quem ele falava. O motorista quis adivinhar quem ela era, mas não teve tempo. Sacando uma pistola a mulher obrigou-o a deitar-se no chão com as mãos para trás. Apareceu o colega do ônibus que lhe amarrou os pulsos com uma língua-de-sogra. "Um seqüestro" — pensou, e dormiu nas profundas do abismo para acordar sem os rins.

A esposa soube dos detalhes pela exposição da crônica policial e largou tudo para cuidar das sessões de hemodiálise do infiel. Adão Xadeco aguardava sem esperança um doador compatível quando os médicos descobriram nela a salvação dele. Conilda deixou que brotasse a rosa na vala podre. Deu-lhe um rim, negou-lhe o perdão suplicado e mandou-se.

3 comentários:

SEPOL disse...

foi sem rim, mas foi....
hehehehhhe

Anônimo disse...

Caro Humberto Ilha, é muito gratificante ter escritores como vc,seus contos são como alimento para nossa cultura, cada palavra escrita, é alma pura, sensibilidade e emoção.

Barbara Velasco disse...

Simplesmente maravilhoso, escritores espetaculares como você Humberto ilha, deve estar sempre a disposição da curiosidade e da fome de boa leitura...