terça-feira, 21 de outubro de 2008

VIVI PACHECO, O SEDUTOR

Humberto Ilha

Quando questionado pelos colegas qual tipo de trabalho fazia na repartição, o bacharel Vivi Pacheco dizia que era um político e não estava obrigado a cumprir expediente. Que jogava no meio-de-campo, que era um articulador, um estrategista de estado e que não tinha satisfação para dar a ninguém. Mas era apenas um descansado que o amigo colunista chamava de boa praça e detetive da cidade. Posto ali em gratidão ao pai, que fora atleta, o homem só tinha cabeça para as mulheres. Sempre vestindo roupas diferenciadas e das melhores lojas, vivia mais empinado do que cavalo de circo, forcejando no contrapasso da cara muito mal-parecida. Contudo, não tinha culpa disso; coitado, era feio como um talho na bunda. Feio e vazio; mais que pastel de boteco. Só que era charmoso, bom e não conhecia a timidez. Se tivesse que falar com o governador mesmo sem agendar, ele dava um jeito e aparecia na frente do homem como quem sai do nada. Quantas vezes abriu as portas do palácio para aqueles que lhe tiravam sarro? Não sabia guardar rancor, dizia que era burrice. Para abordar uma garota na rua, caprichava no olhar dentro dos olhos dela e já mostrava logo o seu interesse. Quando ela se dava conta estava sorrindo para ele e falando em coisas tão diferentes de sedução que não percebia que aquela era a maneira dele seduzir. Primeiro ele cevava, cevava para depois fluir naturalmente para os lençóis de uma suíte de motel. Era-lhe proeminente um nariz que não sabia conviver com os óculos que possuía; por mais que tentasse, não havia Ray Ban que lhe caísse bem. Baixote e magrinho, o homem lembrava um beija-flor-da-mata: ave pequenina e de frágil aspecto que de repente aparece esvoaçante, melhorando o dia das pessoas. Quem observasse essa criaturinha, por certo conceberia o encanto residente em Vivi Pacheco, que também vivia de bater as invisíveis asinhas no ar para das pessoas extrair o doce. Ninguém se iluda ao buscar-lhe a perfeição que jamais possuiu. Como nas vezes em que, para impressionar, dava-se uma entonação arrogante na voz, como se fora carioca. Aí ficava horrível tê-lo por perto, porque fanhoso e falso como uísque paraguaio. Era um ilhéu da Crispim Mira e não conseguia representar nada melhor que isso. Educado e gentil, conhecia a dimensão do estrago que fazia nelas quando dizia sua melhor frase: “quero fazer você feliz”.

Escutar a respeito de suas conquistas era divertido porque também não escondia quando dava com os burros n'água. Como na vez em que abordou no corredor do Conselho Estadual uma deusa de enormes atributos.

— Procura alguém?
— O Andrade, meu ex-marido.
— Ainda não chegou... Aceita um cafezinho?
— Sim, obrigado.
No ir e vir com os dois copinhos de plástico queimando-lhe os dedos, um manual de artimanhas passava-lhe pela cabeça: "ex-esposa é legal; deve estar carente, a gostosa; que sorte a minha; easy, easy...”.
— Seu rosto não me é estranho, sabia?
— Mesmo? Olha só...
— Por acaso você é advogada?
— Sim.
"Você é um iluminado, cara" — quase falou alto.
— Será que conheço você da Ordem...?
— Quase nunca vou lá.
— Já sei, então conheço você do fórum — arriscou na certeza; qual o advogado vai negar nunca ter ido lá?
— Pode ser.
"Você é o cara" — exibiu-se para si mesmo.
— Em qual vara você atua?
— Fazenda Pública.
— Logo vi, sou Procurador da Fazenda.
— Trabalho lá e nunca vi o senhor.
"Senhor já é deboche", — pensou perdendo a potência, mas ainda vivo no jogo.
— Qual o seu cargo lá?
— Juíza de Direito.
— Humilhou... Quer dizer... Vou chamar o Andrade... Passar bem...

Sabia rir de si mesmo e isso já era virtude que se acha em poucos. Confessava não saber resistir aos encantos de mulher sensual; dessas que jogam charme, mas negam. Como a Glória da Assembléia, que era uma cobiça vinda das profundas do inferno. Era uma garota cara, mais que argentina nova na zona. Diferente das outras, não demorava mais que cinco segundos para se deter num homem e dele extrair os detalhes como altura, cor dos olhos, dentes, cabelos, roupas, sapatos, aliança no dedo, relógio barato, braços, peitoral, carteira, tatuagem e cor das meias; cinco segundos que as outras demoravam vinte. Um homem para assimilar isso tudo, levava quase dois minutos. Mas aí já era tarde, porque ela já largara na frente e não deixava o infeliz respirar direito.

Naquela tarde já havia notado que Vivi Pacheco a observava do outro lado da rua. Então ela se demorou observando com interesse vistosa blusa que estava em destaque na vitrine de luxo. Entrou e pediu para ver até deixar que o procurador percebesse-lhe o interesse na suéter encantada. Experimentou, serviu e mandou que o vendedor guardasse depois que ele disse o preço. Em seguida saiu e foi para dar conta do expediente fantasma. Vivi abordou o vendedor e perguntou o preço da blusa. A pancada foi tal que chegou a fechar os olhos.

— Tudo bem... Pode fazer em doze vezes no cartão? Se pode enleia para presente e manda agora na Assembléia com a mensagem que vou escrever.

Glória sorriu quando abriu a caixa e leu o que estava escrito.

— Que meigo, o cuitelinho.

O romance durou três meses e quase desmancha o casamento com a Zefa, que era como ele se referia à esposa que o amava.

2 comentários:

Arnaldo Mota disse...

Parabens, gostaria de ter palavras de um escritor para poder fazer o elogio que lhe cabe.

Anônimo disse...

Tudo bem!!!! realmente é um ótimo conto, mas "feio como um talho de bunda" essa eu nunca havia lido!!!!!uhauhauahuahauh
Abração