quinta-feira, 8 de outubro de 2009

FIDELIDADE CONJUGAL

Zé Negueta costumava chegar em casa embriagado toda santa noite. Não era de dar trabalho à esposa. Mas lá um dia estalava na cabeça que devia se negar a tomar banho, trocar de roupa, jantar e escovar os dentes. Queria somente se jogar na cama e dormir. Quando muito a mulher conseguia trocar-lhe a roupa, mas também nem xixi fazia. “Diacho, eu toda perfumada e ele fedendo dessa maneira”. Às vezes rolava um bate-boca e ela dizia estar no limite. A única coisa que mantinha o casamento era a fidelidade dele. Sim, porque não havia a mínima suspeita de infidelidade. Ah, isso Negueta jurava de mãos postas que nunca acontecera; a traição. Mais a mais, essa havia sido a única exigência que ela lhe fizera: quando fora de casa só podia abrir a bragueta para o xixi nosso de cada dia. Coisa difícil de cumprir, mas não para ele. Também nunca levantou a mão para agredir a companheira. Podia estar torrado, mas não se via nele a fraca intenção de ferir os ditames da lei Maria da Penha.

De tanto beber, o médico dizia que o cérebro dele estava diminuindo tirando-lhe a capacidade de raciocinar com clareza. Daí que alguns mais engraçados diziam que permanecia no casamento porque ele não pensava mais direito. Mas Negueta dizia que amava a esposa de verdade. Dúvidas quanto a esse amor bandido revoluteavam na cabeça dela. Pelo sim e pelo não, ia agüentando a união. “Quando está são ele é um homem bom”. Mas também não se lembrava direito a última vez que o vira lúcido. Se quisesse ela saía do casamento ou dava-lhe uma camaçada de pau, porque grande e mais forte que ele ela era. Os filhos viviam monitorando o pai para não verem o casamento dos dois ruir.

Uma noite Negueta voltou do futebol totalmente gambá e, como sempre fazia, ela cuidou dele pondo-o na cama. Mas naquela noite não conseguiu sequer lavar-lhe os pés e trocar-lhe a roupa por um pijama. Negueta ficou contrariado como gato no cabresto e resmungou muito. Ela então o deixou dormindo sozinho todo enrolado nas cobertas como um pacote de despacho.

No dia seguinte saiu cedo para trabalhar, não sem antes deixar-lhe um bilhete romântico: que o amava, que ele era definitivamente o homem da vida dela. Zé Negueta quis saber dos filhos o porquê daquilo. Soube que a mulher estava trocando-lhe a roupa quando ele começou a falar com voz contrariada:
— Não faça isso moça, eu sou casado e amo minha esposa. Não vou deixar que tire minha roupa; nunca fiz isso e não vou fazer agora. Não vou trair minha esposa. Sai fora, por favor.

Negueta ficou bonito na foto e salvou o casamento.

Um comentário:

Sapinha Ilhoa disse...

Gostei do Negueta, e deixo um abraço!
Regina